Patuscada na Pauliceia

“Estávamos sentados na mesa do bar com Mário de Andrade, Francisco Mignone e uma senhora gorda cujo nome, no momento, não me ocorre. Estou vendo diante de mim a carona alegre e simpática de Mimi Sustenido, apelido dado por Otto Lara Rezende ao inesquecível musicólogo e beletrista precocemente desaparecido. O papo girava em torno de músicas, ou gêneros musicais, com nomes terrivelmente assustadores para um menino de minha tenra idade e apurada sensibilidade: tamba-tajá, maguary, escubidu, gury-mirim, japyassu, almeida, prado. (…) Foi quando Mimi Sustenido (esse Otto tinha e tem cada uma!) me perguntou naquele seu inimitável linguajar _ que ouvido tinha! _ popular:
– E tu, garboso infante, que almejas ser quando atingires a maturidade física e cronológica. Escritor, como o pai?
Num gesto muito brasileiro, cocei o saco do garçom que passava e respondi com minha poderosa voz de baixo profundo:
– Escrever todo mundo escreve. Difícil é tomar notas. Pra isso tem que ter talento. Eu vou tomar notas.
Como se ilustrando meu sonho e vocação, tomei da rodela de chope e garatujei algumas palavras só a mim compreensíveis, instamaticando a ocasião.
Um manto de silêncio cobriu a mesa. Dava para se ouvir um Matarazzo peidando na avenida Paulista.”

Trecho de A Difícil Arte de Não Escrever, crônica de Ivan Lessa, filho do romancista Orígenes Lessa

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