O velório em vida do Bom Sujeito
O advogado Tiago Martins Pitthan adora jogos eletrônicos. Quando menino, passava horas absorvido pelo Pitfall!. O protagonista do game lançado na década de 1980 é um aventureiro à procura de 32 tesouros. Ele dispõe de 20 minutos para vasculhar uma floresta labiríntica e encontrar as relíquias. Enquanto cumpre a missão, se defronta com escorpiões, crocodilos, morcegos e cascavéis. Hoje, Pitthan prefere os “jogos de mundo aberto”, em que pode explorar livremente um cenário, sem a necessidade de seguir roteiros fixos.
Inspirado pelos entretenimentos digitais, o advogado tatuou quatro pequenos corações no punho direito, há um mês e meio. Os desenhos, alinhados, se assemelham àqueles que indicam quantas vidas os heróis e os coadjuvantes de certos videogames possuem. No começo das partidas, os coraçõezinhos estão vermelhos. Toda vez que alguém morre, um dos ícones perde a cor e mantém apenas o contorno.
A tatuagem de Pitthan exibe três corações vazados. No quarto, o vermelho preenche somente uma das metades. “É o pouco que ainda me resta de vida”, afirma o advogado, com serenidade. Ele completou 47 anos em outubro e luta contra um câncer incurável. “O game over se aproxima. Por isso, resolvi caprichar nas minhas últimas jogadas.”
Muito antes de receber o diagnóstico, Pitthan já ostentava uma tatuagem alusiva à morte. “Conhece La Catrina? Fiz uma grandona no braço esquerdo.” Popular entre os mexicanos, La Catrina é um esqueleto feminino que se veste como uma senhora da alta sociedade, com traje de gala, chapelão e adereços florais. Várias mulheres costumam se fantasiar da personagem e desfilar pelas ruas do México durante o Dia dos Mortos. Elas nos lembram de que todos – pobres ou ricos – somos iguais diante da Indesejada.
Depois de identificar o câncer, o advogado providenciou mais uma tatuagem. Escreveu o lema “Gentileza gera gentileza” no mesmo braço em que registrou os quatro corações. “Não posso reclamar de nada, sabe? Apesar dos pesares, tenho uma vida feliz. O universo quase sempre me tratou com gentileza. Agora é o momento de retribuir.”
Para se despedir de quem ama e comemorar o que a existência lhe ofereceu de bom, Pitthan decidiu fugir dos scripts rígidos e organizar um insólito velório. “Suponho que meus amigos e familiares pretendam se reunir quando chegar a minha hora. Então por que não juntar a turma inteira enquanto ainda estou na área? Quero celebrar meu percurso com risadas, cantoria e recordações.” O velório festivo vai acontecer no dia 30 de maio, em Campo Grande (MS), a capital onde o advogado mora desde criança. “De gelado ali, espero que só haja o chope.”
Foi no fim de 2023 que Tiago Pitthan – fluminense de São Gonçalo – manifestou a doença. Ele e um grupo de amigos alugaram uma casa em Bonito, cidade sul-mato-grossense repleta de rios cristalinos. Tudo corria às mil maravilhas até que, na ceia de Réveillon, o advogado se sentiu mal. “Um dos nossos amigos preparou uma pizza de fermentação longa, daquelas bem leves e crocantes. Eu contava os minutos para devorá-la, mas não consegui saborear nem o primeiro pedaço. Assim que o engoli, fiquei empapuçado, como se estivesse digerindo um boi. Tentei a segunda garfada e vomitei. Estranhamente, não cabia mais nada em meu estômago. Pensei: ‘Saí da linha. Comi e bebi muito nos últimos dias. Vou fechar a boca.’”
Na manhã seguinte, a indisposição permaneceu. O advogado se arrastou pelo resto do feriado quase em jejum. Quando regressou para Campo Grande, não percebeu nenhuma melhora significativa. Havia ocasiões em que se alimentava normalmente. Outras vezes, bastava comer um pouquinho e a sensação de estômago cheio voltava. Se Pitthan forçasse a barra, ocorria o mesmo que no Réveillon. “Eu vomitava, acredita?”
O advogado consultou diversos médicos, que ora levantavam a hipótese de inflamação ou infecção digestiva, ora a de intolerância à lactose. Os sintomas, no entanto, não sumiam. Em março de 2024, o pai de Pitthan – um clínico geral aposentado – perguntou: “Você já fez uma endoscopia?” O filho respondeu que não. “Ninguém me pediu.”
Ele buscou, então, um novo especialista e realizou o exame, seguido de biópsia. Resultado: adenocarcinoma gástrico. “É o tipo mais comum de tumor maligno estomacal, presente em cerca de 90% dos casos”, explica Henrique Guesser Ascenço, oncologista que atende o advogado. Para combater o câncer agressivo, o paciente teria de suportar doze sessões quimioterápicas e uma gastrectomia total, intervenção que extrairia todo o órgão afetado. Com o tempo, o intestino delgado assumiria as principais funções do estômago ausente.
Pitthan cumpriu o protocolo à risca. Encarou as oito quimioterapias iniciais e entrou na sala cirúrgica. As quatro últimas sessões quimioterápicas aconteceriam depois da operação. Entretanto, logo que o procedimento começou, a equipe médica constatou o pior. O câncer se espalhara e atingira o peritônio, membrana fina que reveste a parede do abdômen e vários órgãos da barriga. Não valia a pena retirar o estômago. A doença se tornara irreversível. Só restava apelar para os cuidados paliativos, que incluiriam sessões quinzenais de quimioterapia por um período indeterminado. “O oncologista não ousou dizer qual a minha sobrevida a partir do diagnóstico. Mais dois anos? Três? Não sei…”, conta o advogado.
O câncer tão feroz o intrigou. “Sempre tive boa saúde. Não costumava pegar nem resfriado e atravessei ileso a pandemia. Curto frutas, legumes e verduras, não fumo, raramente exagero no álcool e nunca consumi outras drogas.” Ele também se exercitava com bastante regularidade. “Eu praticava esportes na natureza. Fazia rapel em cachoeira, mergulhava, andava de caiaque e voava de parapente.” Flamenguista, Pitthan ainda jogava futebol de campo toda semana e frequentava uma academia. “Mas não tomava bomba, não. No máximo, usava Whey Protein e creatina.”
O advogado relata que, depois das primeiras oito quimioterapias, a doença se comportou como “um inimigo abstrato”. Os incômodos gástricos arrefeceram e o apetite voltou. “Minha rotina se alterou pouco. Quem me visse jamais suspeitaria que tenho câncer.” Em novembro de 2025, porém, o tumor alcançou os pulmões. “De repente, meu fôlego minguou e o cansaço aumentou horrores. Subir um lance de escada virou uma odisseia. Os problemas para comer retornaram, e perdi 23 quilos em alguns meses.” Duas cirurgias pulmonares lhe permitiram recuperar parcialmente a capacidade respiratória. “Estou menos debilitado agora. Mesmo assim, não me iludo. O câncer se tornou um adversário bem palpável e apressado.”
O escritor Ariano Suassuna gostava de sentenciar: “Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas, amargos. Melhor ser um realista esperançoso.” Tiago Pitthan aplaude o chiste, que julga genial e verdadeiro, mas admite: “Cultivo o otimismo desde a infância. Nunca consegui abrir mão dele. Falta de sorte minha, né? Os otimistas se frustram com facilidade. Acreditam que tudo vai dar certo e quebram a cara.”
Não à toa, o advogado achou que derrotaria o câncer quando soube do primeiro diagnóstico. “Em nenhum instante, me desesperei. Pelo contrário: acalmei os parentes e amigos que se abalaram com a notícia. Eu ponderava: ‘Menos, pessoal! É apenas uma gripe forte. Bora curar!’”
As oito quimioterapias iniciais se revelaram terríveis. “As sessões causavam enjoos e vômitos. Para complicar, fizeram cair todos os pelos do meu corpo e me transformaram num fantasma.” De ascendência luso-germânica, Pitthan tem olhos azuis e pele alva. “Ficar sem cabelo, barba, cílios e sobrancelhas me deixou ainda mais pálido. Quase desapareci.”
Ele se considera “um homem vaidoso”. Antes de descobrir o tumor, pesava 89 kg, distribuídos por 1,86 metro de altura. Os músculos bem delineados lhe davam ares de atleta. “Fisicamente, eu estava no auge. Sentia orgulho do meu visual. Nem por isso desmoronei com as mudanças acarretadas pela químio. ‘Logo as sessões terminam e os pelos renascem’, pensava.”
Constatar a disseminação irreversível da doença provocou “um baque” no advogado. “Lógico que balancei. Quem não acusaria tamanho golpe?” Depois de muita reflexão, contudo, Pitthan resolveu que só morrerá uma vez. “Não vou me antecipar à morte, entende? Seria tolice gastar energia lamentando ou amaldiçoando o meu destino. Preciso aceitar as circunstâncias e abraçar o novo Tiago. Enquanto permanecer aqui, desejo viver e não apenas sobreviver.”
Hoje o advogado se descreve como “um velhinho magrelo e manco”. Está com 66 kg e sem tônus muscular. Em razão do atual tratamento quimioterápico, desenvolveu uma síndrome neurológica que o impossibilita de mover o pé direito adequadamente. “Definhei, irmão. Aparento bem mais do que 47 anos. Virei um velhinho, mas estiloso.” Há meses, Pitthan adota uma barba farta, já que a quimioterapia parou de afetar os pelos. Ele mantém a cabeça raspada (“me rendi à magia dos carecas”) e pôs brincos nas duas orelhas. Também arranjou boinas e suspensórios divertidos. Na bengala retrátil em que se escora quando percorre longos trajetos, colou adesivos com reproduções de pinturas célebres ou fotos de Ozzy Osbourne, Cazuza, Ney Matogrosso e Zeca Pagodinho.
Fã de rock, samba e MPB, o advogado se matriculou recentemente numa escola de música. “Estou aprendendo guitarra, um sonho antigo. Me falta groove? Sim. Ouvido? Idem. Atrevimento? Não.” Para incentivá-lo, um amigo o presenteou com uma Tagima azul. “Comprei, ainda, uma Harley Benton lindíssima. Em breve, chegará da Europa”, diz Pitthan. O câncer, por ora, não o impede de ir a megashows. “Em abril, o Guns N’Roses tocou no autódromo de Campo Grande. Fui, claro! Levei uma cadeira dobrável para descansar e me esbaldei.”
Se já não aguenta praticar esportes que exigem força e resistência, o advogado decidiu trocá-los pelo bilhar. “Modéstia à parte, mando bem na sinuca.” Se a cerveja agora traz desconfortos abdominais, a caipirinha de limão a substitui com honras. “O dr. Henrique me permitiu beber uns goles de álcool.” Se o trabalho demandava bastante, por que não diminuir o ritmo? “Decretei que meu final de semana começa na sexta à tarde.”
Mais fiel à ironia que à resignação, Pitthan avisa: “Não espero que ninguém respeite a minha doença. Podem zoá-la sem dó. Eu mesmo a desrespeito sempre que pinta uma brecha.” Quando entrou na sala cirúrgica imaginando que enfrentaria uma gastrectomia total, alfinetou os enfermeiros: “Aproveitem enquanto ainda tenho estômago para aturar vocês.” Em rodas de conhecidos, não desperdiça a chance de pedir que lhe peguem um copo d’água ou um petisco. Caso alguém reclame da folga, o advogado rebate: “Vai me negar? Estou morrendo, pô!”
“Ele demonstra, sim, uma resiliência acima da média”, avalia a psicóloga Raíssa Youssef, que acompanha Pitthan no Núcleo Integrado de Oncologia (NIO), clínica particular de Campo Grande onde o paciente se trata. “Lidar com a própria finitude de maneira tão leve, porém, não significa ausência de tristeza. Às vezes, o Tiago vivencia momentos difíceis, de aflição e desamparo, em que necessita de muito apoio.”
O advogado herdou a resiliência e a leveza principalmente do pai. Em 1999, Alan da Rosa Pitthan – que o filho chama de Degas – sofreu um infarto e, logo depois, um acidente vascular cerebral (AVC). Driblou a morte, mas perdeu a mobilidade do lado esquerdo e amputou uma perna. Os médicos previram que o sul-mato-grossense de raízes gaúchas não duraria meia década. Ele desafiou os prognósticos e viveu mais um quarto de século (morreu com 76 anos). “Em vez de se entregar, o Degas preferiu investir na alegria. Era brincalhão e não posava de mártir. Como se aposentou cedo por invalidez, passava os dias lendo, escutando música, torcendo pelo Botafogo e discutindo política.” Ex-membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Alan se converteu num fervoroso militante do PT.
A mãe do advogado – a fluminense Mabel de Schueler Martins Pitthan, uma laboratorista que se engajava em movimentos sindicais – também brigou contra o câncer. A doença, já superada, lhe roubou o seio direito e parte do outro. “Mamãe cuida de mim com dedicação idêntica à que reservou para o meu pai. É a nossa rocha”, elogia o filho. Primogênito de quatro irmãos, ele mora sozinho num loft que ocupa o mesmo terreno florido e arborizado da residência materna. O cachorro Zico e a gata Mia perambulam entre os dois imóveis.
Há 45 anos, Mabel – que beira os 80 – lancha mensalmente com amigos. Tempos atrás, os encontros vespertinos reuniam 54 participantes. Agora reúnem cerca de trinta. “Na nossa família, valorizamos demais as amizades”, ressalta Mabel. O advogado confirma. “Não fiquei rico nem me tornei um profissional de renome. Em compensação, tenho muitos amigos.”
Os camaradas o apelidaram de Bom Sujeito. “Sabe aquela canção do Dorival Caymmi: Quem não gosta de samba/Bom sujeito não é…? Eu gosto à beça de samba, o que acaba me diferenciando num estado onde o sertanejo impera. O apelido surgiu daí.” A alcunha também reflete o seu jeitão afetuoso. “Quero tatuar nas mãos duas palavrinhas de origem africana que considero essenciais – dengo e xodó.”
Em 2025, a Cervejaria Canalhas, de Campo Grande, lançou uma cerveja artesanal para homenagear o advogado e a batizou justamente de Bom Sujeito. “Ficamos amigos na época em que trabalhávamos com produção cultural. Faz uns dezenove anos. O Tiago ainda não cursava direito”, lembra Renato Heimbach, sócio da Canalhas. “Sempre impetuoso, o cara adorava meter a galera em furadas deliciosas. No meio da noite, cismava de viajar para Bonito, a 300 km de distância, e nos telefonava: ‘Ânimo, gente! Vamos pegar a estrada.’”
O advogado é ateu e não pensa que exista algo depois da morte, nem mesmo reencarnação. “Meu corpo desligará a chave geral e… fim.” Por não ter filhos ou uma companheira, Tiago Pitthan deixará o carro – um Corolla 2016 – para o sobrinho Yan, que ajudou a criar. O resto dos pertences (“umas bobagens”) distribuirá entre os amigos. “Minha família decidirá se vai me cremar ou enterrar. Já falei: ‘Escolham aquilo que tranquilizar vocês.’”
O velório de Alan, o pai do advogado, ocorreu em agosto de 2024. Foi uma celebração agradável, orquestrada por sucessos de Caetano Veloso, Seu Jorge e outros cantores nacionais. O morto trajava um agasalho do Botafogo e trazia a placa de estimação que guardava em casa: “Aqui mora um botafoguense feliz.” Ele próprio pediu uma cerimônia animada, com mais risos do que lágrimas. Durante o ritual lotado, Pitthan se emocionou inúmeras vezes: “Quantas provas de carinho! Pena que o Degas não pôde vê-las… Comigo vai ser diferente.”
A despedida do advogado cairá num sábado. Começará às 16 horas e se alongará pelo menos até meia-noite. A antiga sede da Cervejaria Canalhas, que comporta trezentas pessoas, abrigará a festa. Dois grupos de samba, um duo de chorinho e três bandas de rock irão se apresentar. O DJ André Samambaia comandará a pista, e food trucks se encarregarão dos quitutes.
Pitthan está preparando um rápido discurso para a ocasião. Ele pretende agradecer “a ternura incondicional” que recebe de Mabel e outras mulheres, como a amiga Roberta Reginaldo. Também ensaia “uma dancinha surpresa” e, embora aprendiz, planeja atacar de guitarrista. Quer arriscar Sossego, hit de Tim Maia, ou uma versão roqueira de Fuscão preto. “É bem esquisito um velório em vida, mas como o Tiago insiste na ideia… Longe de mim contrariar o meu filho. Peço apenas que Deus me dê forças para comparecer”, diz a evangélica Mabel, adepta da Igreja Batista.
A irmã mais próxima do advogado, Carolina Pitthan, não se opõe à festa. “A iniciativa combina muito com a personalidade do Tiago. Só que, no princípio, me pareceu estranho chamar o evento de velório. Afinal, não iremos velar ninguém ali.” Ela manifestou o incômodo para o irmão, que bateu o pé e argumentou: “Confie! Satirizar a morte e as convenções fúnebres vai deixar a situação menos penosa.”
De acordo com o advogado, a celebração acontecerá mesmo “se minha partida rolar antes”. Caso a Indesejada faça a gentileza de demorar, o Bom Sujeito não aquietará o facho: “Vou organizar um velório por semestre.”
(revista piauí)