Desobediência

“‘O céu reage ao ruído como se fosse uma ofensa pessoal’ (Lévi-Strauss, O Cru e o Cozido), quer o ruído todo para si. A língua disfarça seu barulho; a voz inibe as piores modalidades da garganta; o canto pacifica tudo (mas para o céu até os pássaros fazem ruído). Falamos baixo por temor ao céu; compomos por temor ao céu. Que música, que voz sairia de nossas entranhas enfrentando a proibição? Qual ruído? – não seria alto, mas constante. Um zumbido saindo de todos os homens, um canto coral incrustado – Aqui!, aqui! –, um ninho de macacos apontando o próprio peito e gritando em uníssono: nós! E o céu se irritaria, mandando chuva, depois secaria o solo, mas o zumbido seria o alimento predileto dessa gente – Nós! –, continuando por gerações. E ofendendo o céu, cuspiriam para cima todas as manhãs, portadores de uma voz sem medo – de uma voz sem música.”

Nós!, narrativa do livro O Mau Vidraceiro, de Nuno Ramos
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