Torpedos na terra dos três anões

Foi a primeira coisa que pensei quando, descendo do táxi, vi os pombinhos de rosto colado. Ele usava blazer branco. Ela, um tailleur cor-de-rosa. Dançavam como se estivessem num baile de formatura. Mas estavam em plena rua, e a voz aguda de Céline Dion os conduzia. Puro “Ginger & Fred”.

Incrédulo, notei que a música brotava de um Gol. Na porta do carro, uma inscrição: “Loucuras de amor. Emocione quem você ama. Telemensagens para todas as ocasiões”. Tico e Teco me socorreram: romantismo delivery, mané! O tigrão de branco, imagino, requisitou os serviços do cupido motorizado na esperança de impressionar a pantera cor-de-rosa.

Impressionou -tanto a pantera quanto euzinho. Uma comoção dos diabos (Céline Dion me mata…). O idílio desenrolava-se diante da Papagaio Vintém, a cervejaria em que me mandaram passar a madrugada. Enxugando as lágrimas (ô, Céline, não me maltrate desse jeito…), enveredei pela casa.

Deu meia hora, um anão com roupa de carteiro me cutucou. Não havia mais dúvidas. Protagonizávamos, sim, um filme do Fellini. O que desejas, Dunga? Risonho, o pequenino me estendeu um bilhete.

A Papagaio Vintém é célebre por promover, nos finais de semana, um frenético correio elegante. Pode-se afirmar que o estabelecimento oficializou o torpedo. A troca de xavecos manuscritos -que, em outros bares, acontece quase na clandestinidade- conta, ali, com o incentivo da gerência. Três anões, contratados pela cervejaria, fazem as vezes de mensageiros.

Devo avisar que detesto correio elegante. Trauma de infância. Atravessávamos o remoto ano de 1978. Na festa junina do colégio, cismei de me declarar à loirinha que cobiçava desde o pré. Bebi um quentão, lambuzei-me com a coragem dos ébrios e redigi umas mal-traçadas: “Sou o teu Tony Manero”. Ele mesmo, o “latin lover” que John Travolta interpretava em “Os Embalos de Sábado à Noite”, estrondoso sucesso da época. Assinei o papel, reli e, sem alterar uma vírgula, pedi que o entregassem.

Hoje admito que errei em mencionar Tony Manero, sobretudo porque, naquela tarde, a minha infante pessoa vestia traje completo de caipira. Camisa xadrez, chapéu de palha, bigode de carvão. Enfim: um Tony Manero com a cara do Chico Bento. Sacou o tamanho do deslize? A menina, infelizmente, sacou. Prefiro não repetir o que escutei de boquinha tão perfumosa.

Repito, em contrapartida, a genial lição do dr. Freud: aquilo que tu reprimes, malandro, um dia ressuscitará. Depois do infortúnio escolar, apaguei os correios elegantes de minha existência. Julguei-os mortos e enterrados. Eis, no entanto, que… Abri o bilhete oferecido pelo anão. “Desculpe o lugar-comum: você vem sempre aqui?”, indagava a missivista anônima. Como sabia que se tratava de mulher? Não sabia, só tinha indícios. A letra me pareceu feminina e nenhum dos marmanjos presentes dava pinta de que apreciava Village People.

Decidi enfrentar o velho fantasma. “Venho sempre que você está.” O anãozinho pegou a resposta e saiu em disparada. Impossível segui-lo com os olhos. A casa, enorme, abrigava uma multidão.

“Engraçado. Frequento a Papagaio há séculos e nunca te encontrei. Não minta: você é novato aqui.”

“Ok. Novato e mentiroso. Cadê você?”

“Mistééério! Gosto de te espiar sem que você me veja. Timidez (risos).”

Espertinha… O Wando que me habita sentiu-se ainda mais desafiado: “Indique, ao menos, o menor caminho para alcançar teu coração”. Cogitei fechar a frase com um “boneca” -“teu coração, boneca”. Desisti.

“Meu coração mora longe.”

“No problem. Tô a cavalo.” Yes! Mandei bem à beça (desta vez, por inspiração do Beto Carrero que me habita).

“Oba! Adoro montar. Não necessariamente em cavalos…”

O quêêêê?!? De início, a rapariga se definia como acanhada. Agora, me assalta com um papo de hipismo sem cavalo? Ciclotímica! E se fosse uma Glenn Close, maluquérrima, pronta para me infernizar? Pior -e se fosse um amigo, me trapaceando? Pressionei o anão: quem, afinal, enviava os bilhetes? Não delatou, o sacana. Apenas confirmou que partiam de uma mulher.

Voltei à carga. “Cavalguemos, então, por toda a noite…” Repare que tomei de empréstimo uns versos clássicos do Roberto Carlos: “Vou cavalgar por toda noite/ Por uma estrada colorida…” Estrategicamente, substituí o Wando pelo Rei que me habita.

Despachei a proposta e aguardei o retorno. Passaram-se dez minutos. Quinze, vinte, e nada. De repente, o papelucho: “Você já comeu batata frita com queijo ralado?”.

“I beg your pardon”! Do que a doida falava? No meu dicionário erótico, não consta batata frita com queijo ralado. Mel, champanhe, morangos, beleza. Mas Elma Chips?!? Rebati em tom telegráfico: “Explique-se melhor”. Não se explicou. A tresloucada simplesmente parou de escrever. E o anão permaneceu mudo, sem desvendar a identidade da vamp. Ameacei torturá-lo. Ocorre que, se o fizesse, estaríamos num filme do David Lynch, não do Fellini. Resignado, catei o boné e piquei a mula -digo, o cavalo.

O repórter Armando Antenore, 37, magoou.

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