Selton Mello: "Cuidei melhor dos personagens que de mim"

Protagonista de três filmes lançados recentemente, Selton Mello se consolida como “o cara” do cinema brasileiro e admite que, nos últimos anos, deu mais atenção ao trabalho que à saúde

Quando menino, Selton Mello não perdia os programas de auditório que abriam espaço para calouros mirins. Morria de inveja das crianças que se exibiam na televisão. Uma tarde, pediu à mãe: “Quero aparecer ali”. Logo a reivindicação se concretizou. Com 8 anos, de terninho bege e gravata, o garoto surgiu diante das câmeras entoando Lady Laura, de Roberto e Erasmo Carlos. Atravessou o resto da infância nos estúdios de TV. Antes dos 10, já fazia novelas. Nos bastidores das emissoras, conheceu figuras mitológicas do imaginário popular: o palhaço Bozo (que o cumprimentou tagarelando algo como “teretetéu!”), o apresentador Bolinha e a cantora Perla.

Atualmente, Selton não deseja mais “aparecer ali”. Ou, pelo menos, não deseja aparecer tanto. Há uma década, o ator de 36 anos participa apenas de projetos esporádicos na televisão. Afastou-se das novelas e dos contratos fixos. Transformou-se num homem de cinema. Entre curtas e longas-metragens, atuou em 26 filmes. Estreou ainda adolescente, como o Renan de Uma Escola Atrapalhada, infantil de 1990 que reunia Supla, Angélica, Gugu Liberato e Os Trapalhões. Foi a partir de 2000, porém, que mergulhou de cabeça nos sets. Integrou o elenco de 20 produções, uma média respeitável. Dos personagens que encarnou, dois se tornaram célebres: o Chicó, de O Auto da Compadecida, e o João Estrella, de Meu Nome Não É Johnny. Em 2008, com Feliz Natal, o ator se aventurou na direção e como roteirista.

Três longas protagonizados por ele, que chegaram recentemente às salas de projeção, demonstram o ecletismo do intérprete. A Mulher Invisível, comédia rasgada de Claudio Torres, traz Luana Piovani no principal papel feminino e, até o fim de junho, atraiu mais de 1 milhão de espectadores. Jean Charles, drama de Henrique Goldman, reconstitui a trajetória do imigrante brasileiro que, confundido com um terrorista, acabou assassinado pela polícia britânica em 2005. A Erva do Rato, assinado por Julio Bressane, enquadra-se na categoria dos filmes herméticos, que fisgam exclusivamente a elite intelectual.

Mineiro de Passos, filho de um bancário e uma dona de casa, Selton é irmão do também ator Danton Mello. Ambos cresceram nos bairros paulistanos da Aclimação e do Brás. Depois, se mudaram para o Rio de Janeiro. Lá, num casarão do Alto da Gávea, Selton mora sozinho. Solteiro, diz que “há séculos” só cultiva “rolos, namoricos, casos, romances quase possíveis”. De passagem pela cidade de São Paulo, conversou com BRAVO!.

BRAVO!: Por que você resolveu priorizar a carreira cinematográfica?
Selton Mello: Por uma série de razões. Primeiro, andava insatisfeito com meu desempenho na TV. Temia virar um burocrata, aquele camarada que bate o cartão, executa o mínimo, pega o salário e pronto – atitude que enxergo em alguns colegas. Na televisão frequentemente é assim: você vai tocando sem muito preparo, sem maiores cuidados. Fica no piloto automático. Voo de cruzeiro, entende? Talvez, no passado, as coisas funcionassem de modo um pouco diferente. Talvez houvesse um produto mais autoral. Olhe as novelas. Apenas um cara as escrevia. Hoje são sete. Apenas um cara as dirigia. Hoje são seis. O negócio se diluiu barbaramente. Uma hora notei que não me sentia bem em trabalhar desse jeito. E refleti, preocupado: “Se não me sinto bem, o público acabará percebendo”. Pintou, então, a oportunidade de participar do Lavoura Arcaica, o filme do Luiz Fernando Carvalho [lançado em 2001]. Foi uma experiência incrível, que me encheu de coragem. Por cinco meses, o elenco se enfurnou numa fazenda de Minas Gerais. A gente viveu em função do longa. Esculpimos cada detalhe dos personagens, nos aprofundamos na história. Vislumbrei ali outros caminhos para a minha profissão. Saquei que o cinema poderia me desafiar, me colocar numa lógica menos industrial. Respirei fundo e decidi arriscar. “Vamos ver se aguento”, pensei – porque não é nada mal ter o salário caindo na conta mensalmente. Com o tempo, e para a minha absoluta surpresa, a publicidade prestou atenção em mim. O pessoal das agências se ligou que “o Selton só faz projetos de qualidade”. E comecei a protagonizar uma porção de comerciais. Descobri a pólvora! Não procurava a pólvora e, de repente, a descobri. Claro que existe o risco de o cenário mudar completamente. Moramos no Brasil, afinal. Também posso me cansar dos sets, concluir que o cinema não me mobiliza mais e pedir para retornar às novelas. Não desconsidero nenhuma hipótese.

Os ganhos com publicidade se aproximam do que você faturaria na televisão?
Creio que sim. Não arrumo comercial todo mês. Ninguém arruma. Mas, quando arranjo um, embolso o suficiente para me sustentar por um bom período e para, inclusive, rodar uns filmes quase de graça. Recebi cachês simbólicos em Árido Movie, Garotas do ABC, O Cheiro do Ralo… Na verdade, nunca imaginei que o ofício de ator me tornaria milionário. Mantenho o foco. Não entro numas de querer casa de campo, carrão, cobertura em Nova York.

Só com o cinema, sem a publicidade, você conseguiria sobreviver?
Dificilmente. Teria de recorrer mais à televisão, encarar umas peças de teatro. Necessitaria cavar outras fontes de renda.

Por que você faz pouco teatro?
Vou responder de maneira bem rasa: por preguiça! Fiz apenas oito ou nove peças. É realmente pouco. Teatro exige uma dedicação absurda! Ensaio, ensaio, ensaio. Curto preparar um personagem com calma, mas nem tanto. Ensaiar muito me desanima. Melhor o jogo que o treino. Lógico que admiro quem sua a camisa no palco. Respeito demais os atores que contam a mesma história de quinta a domingo. Um ótimo exemplo é o Wagner Moura. Ele está incorporando agora um Hamlet maravilhoso. Vi o homem em cena e pirei. Quando o encontrei, tirei o chapéu. O cara segura o tranco de um Lavoura Arcaica por noite!

Não há nada que o desanime nas filmagens de um longa?
Há, sim. Odeio as sessões intermináveis na sala dos maquiadores. Em O Coronel e o Lobisomem, precisava usar bigode, costeleta, barba. Um horror! Gastava horas na maquiagem. O Diogo Vilela também. Um dia, o coitado virou para mim e anunciou, meio na piada, meio seriamente: “Terminou! Minha carreira terminou aqui! Não aguento mais. Foi um prazer dividir com você meus últimos instantes como ator”. (risos)

A bagunça no set não o incomoda?
Prefiro um set silencioso, com uma equipe concentrada, um set que não pareça uma churrascaria. Mas, se tiver de trabalhar na churrascaria, ok, sem crises. A gente se desdobra e manda bala. O que me incomoda realmente no cinema é o alcance. Os filmes brasileiros atingem sobretudo os grandes centros, os festivais, e mal passam na televisão. Não chegam às massas, não invadem os grotões. Novelas, minisséries ou seriados cruzam o país. Um caboclo lá no mato assiste àquilo e sonha por um momento. Queria que o cinema pudesse seduzi-lo igualmente, que emocionasse um número maior de pessoas.

Você começou garoto na TV. Depois, durante a adolescência, perdeu espaço – as emissoras deixaram de chamá-lo. Foi um trauma imenso na época, não?
Imenso, imenso. Apareci na televisão entre os 8 e os 13 anos. Cantava em programas de auditório, participava de novelas e fazia comerciais. De repente, o poço secou. Por uns quatro anos, ninguém da Globo ou de outro canal se lembrou de mim. Eles gostavam do menino, da criança. N
ão gostavam do adolescente.

Sua guinada para o cinema tem relação com aquele trauma? Seria uma tentativa de você se proteger, de não depender tanto do veículo que o descartou uma vez?
É possível… Nunca refleti sobre o assunto com profundidade. O Paulo Betti já me disse que entrei nessa roda viva de atuar, escrever roteiros e dirigir porque receio o desemprego: “Você vai ocupando todas as brechas. Joga nas 11 posições. Se fecharem uma porta ali, você abriu outras acolá”. Ele pode estar certo, né? Vários aspectos de minha trajetória devem dialogar com o moleque rejeitado de antigamente.

E o fato de você não exibir o perfil típico do galã, influenciou na opção pelo cinema?
Foi uma ideia que passou por minha cabeça, sim. Se você não possui os atributos clássicos do galã, avança menos na televisão. Orbita em torno de um universo mais restrito. Onde um sujeito com inquietude criativa e sem uma beleza padrão consegue transitar melhor? Onde descola papeis interessantes? No cinema.

Seu irmão caçula, Danton Mello, trilha um caminho bem distinto do que você seguiu. Ele continua nas novelas…
Pois é. Sabe quando você descobre que envelheceu? Quando seu irmão caçula se torna o astro de uma novela em que você trabalhou na infância. Há 23 anos, fiz Sinhá Moça. Era o menino da trama original. Em 2006, a Globo regravou a história. Quem interpretou o principal personagem masculino? O Danton!

Ele, aliás, ascendeu justamente no período do seu ostracismo. Enquanto o primogênito voltava para casa, o caçula despontava em programas da Globo. Existe competição entre vocês?
Não, sinceramente não. Torço pelo Danton, e o Danton torce por mim. Convivemos bastante, trocamos impressões sobre as coisas, falamos de tudo. Só que agimos de modo oposto. Tempos atrás, me recordei de um episódio engraçado. Ainda moleque, costumava almoçar e jantar num daqueles pratos coloridos de criança. Eu tinha um e o Danton, outro. No fundo do meu, havia uma história em quadrinhos. Era a fábula da cigarra e da formiga. Minha mãe abarrotava o prato de feijão com arroz e, à medida que eu o raspava, a história aparecia. A cigarra se divertindo, e a formiga ralando. O gozo e a obrigação. Eu sou a formiga. O Danton, a cigarra.

Mas quando perguntei sobre teatro, você se classificou de preguiçoso…
Velho, caí em contradição! Pretendo me contradizer mais umas 15 vezes ao longo da entrevista. Na realidade, meu sonho é conversar com você novamente daqui a cinco anos e desdizer cada frase que disse até agora. (risos)

Retomemos a fábula.
Então: sou mesmo a formiga. Trabalho como um doido, me angustio… Devia me chamar Selton Angústia Mello. Já o Danton aproveita a vida. É livre. Não aposta 100% das fichas na profissão. Ele tem mulher e duas filhas, gosta de comer bem, adora viajar. Morou na França e nos Estados Unidos. Estudou inglês. Eu, em compensação, só carreguei pedra. Aquela responsa, aquele ímpeto de engolir o mundo. Um exagero… Agora sinto necessidade de tirar um sabático e abraçar os clichês: pedalar pelo Rio de Janeiro, beber chope com os amigos, apanhar sol – prazeres de que desfrutei muito pouco.

Em 2008, na estreia de Meu Nome Não É Johnny, entrevistei você e ouvi algo semelhante: “Vou descansar”. Parece que você ainda não descansou…
Estou desacelerando. Devagarinho a gente chega lá. (risos) Pelo menos, já faço análise. Iniciei há seis meses. Uma ou duas sessões por semana.

Você não consegue parar de trabalhar? É compulsivo?
O que acha? Fumo demais, por exemplo. (Observa o cinzeiro sujo, em que depositou quatro bitucas de cigarro nos últimos 50 minutos). Às vezes, penso que encontrei um método infalível contra o tabagismo. Basta exigir que os fumantes comam a inhaca do cinzeiro – a imundície que eles próprios deixaram ali, as guimbas, as cinzas. Neguinho certamente abandonaria o vício.

Você é compulsivo com comida?
Sou, por causa da angústia. Devoro um monte de porcaria: junkie food, pizza, hambúrguer. E doce! Chocolate… Formiga, velho! Maldito pratinho colorido da infância! (risos) Mas vou virar a chave. Vou mudar.

Quanto você pesa?
Tenho 1m81 de altura. Meu peso ideal é 80 quilos. Hoje estou com 90. Em 2008, quando filmei Jean Charles, beirava os 110. Engordei bastante na época porque interrompi os remédios que consumia para emagrecer. Funcionava assim: se ia rodar um longa em março, passava os três meses anteriores tomando os comprimidos. Perdia peso e, tão logo terminava o filme, largava os remédios. Em consequência, engordava de novo. Fiquei nessa gangorra por dez anos. Certo dia, me toquei de que precisava parar – as drogas cobram um preço abusivo, modificam o humor, o metabolismo. Com esforço, parei. Veio, então, a rebordosa. Uma depressão terrível, uma insegurança, uma paranoia. Fiz o Jean Charles me julgando péssimo, deslocado, cheio de travas físicas e psíquicas. Questionei tudo durante as filmagens, inclusive meu talento. “Sou uma farsa! Desaprendi o ofício!” Nem sei de que maneira suportei a barra… Filmamos em Londres. Eu, no entanto, não me enxergava lá. Sentia-me em outro lugar, náufrago, confuso. A inconsciência assumiu as rédeas. Participei do filme como um zumbi. O louco é que resultou num negócio bonito, delicado. O sofrimento do Selton escorreu para o Jean.

Você continua questionando seu talento?
Não, não. Sou de fato um ator. Melhor: sou um autor. Gosto de criar – não importa se à frente ou por trás das câmeras. Acontece que a tempestade emocional de 2008 realmente me assustou. Nunca vou esquecê-la. Percebi, em Londres, um troço fundamental: nos últimos anos, cuidei mais dos meus personagens que de mim. Pretendo agora inverter a equação. Se cuidar mais de mim, aposto que meus personagens também sairão ganhando.

Como você os constroi?
Não desenvolvi um jeito específico. Em alguns casos, pesquiso muito. Em outros, me guio apenas pelo feeling. Depende do enredo, do diretor, do meu pique. Para viver o Leléu em Lisbela e o Prisioneiro, uma comédia de feições nordestinas, visitei os subúrbios do Recife e as feiras populares, escutei músicas bregas e bati um papo com o Lirinha, vocalista do grupo Cordel do Fogo Encantado. Queria apreender o sotaque pernambucano dele. Em contrapartida, quando protagonizei Meu Nome Não É Jonhny, confiei principalmente na intuição. Existe uma linha tênue entre o preparo adequado e o preparo excessivo. Um ator não deve se preparar demais para um papel. Convém que esteja levemente despreparado. Se o cara entra todo engessadinho no set, acaba não permitindo que a surpresa o contamine. A cena se converte em um monólogo. Abdica-se do diálogo com as circunstâncias.

Parte dos críticos afirma que você tem tiques de interpretação. Concorda?
Evidente que tenho. É complicado você se multiplicar – inventar máscaras diferentes para cada situação. É quase impossível. Não conseguiria lhe apontar um cacoete neste momento. Mas, revendo meus trabalhos, frequentemente me irrito: “Caramba! De novo aquele gesto, de novo aquela entonação!”.

Que atores você admira?
O maior ator do cinema brasileiro se chama José Dumont. Um monstro! Polivalente à beça. Na pele do sujeito, qualquer personagem cresce. O Wagner Moura é o melhor de minha geração.

Melhor que você?
Sim, claro. Outro veterano que admiro é o Paulo José. Uma vez ele me explicou de que modo resolveu uma cena dificílima. Seu personagem recebia uma caixa e, ao abri-la, deparava com a mão do próp
rio filho, decepada por um sequestrador. Como se comportar diante de tamanha atrocidade? Eu, se encarnasse o personagem, abriria a caixa e me descabelaria, gritaria, sofreria um colapso. O Paulo José, malandro, abriu a caixa sem esboçar grandes reações. Simplesmente a olhou e deixou o público imaginar o que um pai sentiria em meio àquele pesadelo. Gênio!

Entre os atores de fora, quais você destaca?
O Benício del Toro e o Sean Penn. Nos meus tempos de dublador, dos 12 aos 20 anos, observei muito os estrangeiros. Foi uma tremenda escola vê-los atuar. Pequenas sacadas que pesquei nos filmes da época me influenciam ainda hoje. Em Picardias Estudantis, por exemplo, o Sean Penn interpreta um surfista lesadão. Sempre que o maluco desejava comprar algo, arrancava do bolso uma maçaroca de dinheiro, notinha fiscal, documento, tudo amassado. Em Meu Nome Não É Jonhny, roubei aquilo.

Roubou?
Na cara de pau! Para indicar o quanto o protagonista do longa estava atrapalhado, não hesitei: fazia-o puxar do bolso uma maçaroca como a de Picardias Estudantis. Ladrão! No fundo, não passo de um ladrão! (risos)

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