terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Faro afiado

Um rato africano contra as minas terrestres

Ele não dava nenhuma bandeira de que defendia os fracos e oprimidos. Pelo contrário: quem o avistasse numa savana ou floresta logo se assustaria e sairia correndo. Dificilmente alguém imaginaria que aquela criaturinha dentuça salvara inúmeras almas por causa de um insólito superpoder, o olfato afiadíssimo. O herói sem capa nem escudo chamava-se Magawa e nasceu na Tanzânia, país da África Oriental, mas virou lenda graças às façanhas que protagonizou em outra região: o Sudeste Asiático. Era, por incrível que pareça, um rato.
Com pelagem castanha, inevitáveis orelhas de abano, cauda maior que o resto do corpo e bigodes tão longos que matariam Salvador Dalí de inveja, pesava 1,2 kg e media 70 cm de comprimento. Não tinha, está claro, o porte de um rinoceronte ou hipopótamo. Mesmo assim, os zoólogos o classificavam como um rato-gigante-do-sul. A espécie atende pelo nome científico de Cricetomys ansorgei e é bem mais parruda que os hamsters, camundongos e outros bigodudos.

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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

"Nunca deixe de se divertir, cara!"

Uma carta para o nadador Gabriel Araújo, que ganhou três medalhas em sua primeira paralimpíada, a de Tóquio

DANIEL DIAS, em depoimento a Armando Antenore

Gabrielzinho,
Como vai? Embora não sejamos muito próximos, me sinto à vontade para chamá-lo assim, pelo diminutivo carinhoso que o acompanha desde criança. Espero que você não se importe. Logo que nos conhecemos, há dois anos, em Lima, durante os Jogos Parapan-Americanos, notei certa semelhança entre nós. Não me refiro apenas às nossas deficiências motoras. Você sofre de focomelia, doença congênita que impede o desenvolvimento normal dos membros superiores e inferiores. Eu tenho má-formação nos braços, na perna direita e no pé esquerdo. Também não estou falando propriamente de nosso apego à natação, o esporte que já nos deu tantas alegrias e nos possibilita rodar o mundo. Penso, acima de tudo, nas características menos notórias que nos unem. Por exemplo: você reparou que nossos pais nos batizaram com nomes de anjo e de profeta? Gabriel e Daniel, uma rima celestial que serviria perfeitamente para qualquer dupla sertaneja! Você é mineiro até a medula – nasceu em Santa Luzia, cresceu em Corinto e se radicou em Juiz de Fora. Eu sou paulista de Campinas, mas me criei numa cidadezinha de Minas, Camanducaia. Por isso, me considero um pouco mineiro também. Você parece tocar a vida com leveza. Esbanja carisma e dança de um jeito engraçado quando vence provas importantes. Eu me julgo igualmente extrovertido e procuro manter o alto-astral mesmo diante dos piores desafios.

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domingo, 1 de agosto de 2021

"Acaba, pelo amor de Deus! Acaba!"

Um grupo de PMs no WhatsApp e a matança do Jacarezinho

Com deboche, espírito corporativo, fake news, ataques contra a TV Globo, demonização da esquerda e panfletos em favor do presidente Jair Bolsonaro. Foi assim que um grupo de PMs reagiu à mais agressiva e letal de todas as incursões já realizadas por forças de segurança pública na cidade do Rio de Janeiro. A operação do último dia 6 de maio começou logo cedo, invadiu a tarde e terminou com 28 mortos, incluindo um policial. A favela do Jacarezinho, uma das 1 018 que se espalham pela capital fluminense, serviu de palco para a matança. Naquela quinta-feira, 250 agentes da Polícia Civil ocuparam a localidade sob a justificativa de capturar 21 denunciados por associação ao tráfico e suspeitos de pertencer à facção Comando Vermelho (CV). Helicópteros blindados – os “caveirões voadores”, como ironizam os cariocas – apoiaram a investida terrestre.

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domingo, 1 de agosto de 2021

Viva Nossa Senhora do Café!

Entrevista imaginária com a criadora do projeto Entreviste um Negro

Helaine com H? Sim, Helaine Braga Martins Pereira, um nome de responsa, quase tão extenso quanto os da nobreza. Mas, na prática, é menorzinho: Helaine Martins e ponto final. Bem mais adequado à plebeia aqui, né? Decidi encurtá-lo quando me tornei jornalista. Nomes grandes não funcionam na hora de assinar uma reportagem. Herdei o H dos parentes maternos. Vovó se chamava Helena. Mamãe se chama Heloísa. Meus tios, Hélio e Helenice. Só o Alan escapou da sina. Privilégio de caçula… Ele é meu único irmão. Apelido? Carrego uma infinidade. Lane, Nani, Lany, He… Deixo a escolha por conta do freguês.

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sábado, 19 de junho de 2021

Nome aos números

No dia em que o Brasil ultrapassa a marca de 500 mil mortos pela Covid, um pouco da história de 137 deles

Celia Kamiya Abdala, de 75 anos, adorava roupas com mangas compridas e largas, que lembravam as asas de um morcego. Não por acaso, ganhou o apelido de Dona Batman. Acácio Cardoso Duarte, 68, cochilava à mesa durante os almoços de família. Humberto Vitach Gambaro, 86, fazia palavras cruzadas diariamente. Heládio Ferreira de Sousa, 91, nunca dormia sem rezar. Gessner Augusto Daré Júnior, 55, imitava o Incrível Hulk. Fernanda Caiuby Novaes Salata, 64, retratou em aquarelas os amigos imaginários dos filhos. Antonio Carlos Durans Diniz, 36, se levantava de madrugada para conversar com as plantas.
Getúlio Omito, 83, chamava a neta de “meu ouro”. Elcio Candido Moreira, 61, se orgulhava de operar empilhadeiras. Madalena Gomes Barbosa, 77, tinha fascinação por papagaios. Jacyr Simão, 80, cuidava de bonsais. Eric Barros Martins, 42, tomava cafezinho com os pães que ele próprio assava. Quando considerava algo espetacular, Ilza Garcia, 98, exclamava: “É federal!” Nerice Laura Eduardo de Mendonça, 56, não gostava do presidente Jair Bolsonaro. Gustavo Barreto Alcântara, 11, curtia viajar para a Disney. Ana Carolina Guimarães dos Santos, 38, detestava suco de goiaba. Robert da Luz Barradas, 62, comia somente a borda das pizzas. Gonçala Nicolau Fernandes, 86, assobiava cânticos religiosos enquanto cozinhava. Peladeiro, Élio Guedes Dias, 53, se vangloriava de jogar melhor que o Zico.
João Ferreira Lima, 79, fumava cigarro de palha. Adair Benedita da Silva, 61, presenteava as visitas com flores e mudas que cultivava em casa. Firmina Marques de Sousa, 97, reservou um par de sapatos para calçar assim que entrasse no Céu. Brazil Montalvao Marques, 64, trabalhava como guia turístico, mas não tirava foto de lugar nenhum. Hisazy Shikasho, 75, andava de bicicleta pelas manhãs. Fã de Taylor Swift, Glauco Moreira Beraldo, 26, não teve tempo de escutar o álbum mais recente da cantora. Jonas Félix de Oliveira, 83, falava esperanto. Edgard Viana de Sant’Ana, 95, leu toda a saga de Harry Potter só para discuti-la com os netos. Hildebrando Brito da Silva, 56, apreciava trocadilhos baratos. Quando lhe perguntavam como se chamava, respondia: “Ih, deu branco…” Nicette Bruno, 87, acreditava em reencarnação. Jonathan Neves, 31, fazia cover de Tim Maia na Avenida Paulista. Elza Maria Alves Gomes, 66, previa o futuro com a ajuda de um pêndulo. A refugiada síria Khadouj Makhzoum, 55, sempre repetia um ditado árabe: “O Paraíso sem as pessoas não é o Paraíso.” José Naves, 93, aprendeu inglês com John Wayne nos faroestes que os cinemas de Uberaba (MG) costumavam exibir. Gleycyely Costa Barros, 28, herdou da mãe, Rosiany, o apreço pelo y e o transmitiu para o filho, Byel.
Quitéria Cordeiro dos Santos, 85, sonhava em aparecer na tevê. Não conseguiu. Zenilde Alves da Silva, 58, alfabetizou os irmãos. Alayde Antônia Rossignolli Abate, 73, não desgrudava do cachorro Paçoca. Juntos, ouviam canções de Roberto Carlos. “Seu pretinho chegou!”, anunciava Eduardo Marques de Lima, 41, quando o ônibus urbano que dirigia parava em algum ponto. Angelo Campanerut, 64, devorava livros de ficção científica. Guiomar Guerreiro Alvares Spedo, 86, praticava hidroginástica com o marido três vezes por semana, havia quase trinta anos, na mesma academia. Marden Washington Pires Cavalcante, 65, inventou a palavra “caximbrema”, mas ninguém sabia direito o que significava. “Quer dizer problema”, arriscavam uns. “Não! Quer dizer saudades”, rebatiam outros.
Vanessa Pereira, 27, tingia os cabelos com cores marcantes: lilás, azul ou rosa-choque. Jaime Antunes, 92, beijava o retrato da mãe logo depois de acordar. Ildiko Êmese Holfinger Farias, 40, prometia à comadre: “Vamos envelhecer juntas e comer acarajé na beira do mar.” Donizete Luiz Frederico, 65, se gabava de ter bebido cerveja com Alceu Valença. José Pinto Neto, 74, viajou pela primeira vez de avião em 2019. Foi para Fortaleza. Abdon Albuquerque Cavalcante, 82, guardava palitos de dente em caixas de sapato. Jorléia da Silva Santos, 51, não recusava uma Coca-Cola. Patydan Castro, 34, estava grávida de seis meses. O bebê também morreu. Helena Hissacko Iwauchi, 79, confeccionava as próprias roupas. Iloivaldo Araújo Rodrigues Júnior, 44, se parecia com Fabio Assunção. Por ser muito culto, Danilo Guimarães Fenelon, 62, ostentava o título de “Google da família”. Geraldo Camilo Gomes, 85, acreditava que a pandemia acabaria no quadragésimo dia da quarentena.
O vaqueiro Ananias Manoel dos Santos, 74, nunca deixou de encontrar boi fujão. Celso Schreiber, 66, se sentia velho demais quando os netos o tratavam por vovô. “Me chamem de parente”, sugeria. Embora fosse brasileiro, Oswaldo Sanchez, 88, não abdicava de falar português com o sotaque espanhol dos pais. Ana Beatriz Cordeiro, 53, gostava de caminhar na mata. O taxista Benedito de Paula Silva, 75, rezava durante vinte minutos para Nossa Senhora Aparecida antes de trabalhar. Cecília Guimarães Mendes, 93, se esbaldava de rir com o seriado do Chaves. Alessandro Ricardo Corrêa, 44, perdia as estribeiras caso alguém o definisse como motoqueiro. “Sou motociclista!” Jorge Pereira de Oliveira, 65, se fantasiou de faraó para comemorar o último aniversário. Louca por novelas, Abigail Pinto Magalhães, 88, interagia com as tramas: “Xiii, sei bem onde isso vai dar…” Alcirene Aires Moura, 59, conheceu o marido num baile de servidores públicos. Ele a tirou para dançar Say You, Say Me, de Lionel Ritchie.
Era sagrado: toda noite, às nove e meia, Cirene Guilhermina Pires, 67, papeava com a filha pelo telefone. Ednilson dos Santos Escobar, 59, sempre lembrava que a sobrinha nasceu “no dia em que o Corinthians ganhou o Mundial”. Às vezes, Ely Marcelo Costa da Silva, 38, fazia voz de bebê. Helena Conti Guimarães, 79, ainda pirava com o Iron Maiden. Haroldo Barbosa Moraes, 66, amava mergulhar. Adélio Electo, 84, embaralhava a ordem das palavras sem perceber. Dizia “no escurema do cininho”, para a delícia de quem o escutava. Pouco antes de sucumbir à Covid-19, Agatha Lima, 25, viu um cavalo branco sair de uma parede. Deduziu que a miragem significava partida.
Jair Táparo, 61, permitia que a única neta o maquiasse. Paulo Azeredo Brito manteve o hábito de xeretar programas eróticos na televisão até os 90 anos. Morreu com 98. Elizabeth Barbosa, 56, só tomava cerveja sem álcool. Marly Gomes da Silva, 49, passou fome na infância. Certa ocasião, Willian Santiago, 30, cismou de ajardinar o próprio rosto. Cobriu um dos olhos com uma margarida e tirou uma selfie. Giovani de Jesus Pesuscki, 52, se vestia de Papai Noel na ceia de Natal. Luiz Fernando Cardoso, 40, mandava cartões postais para os amigos quando viajava. Bruno Cunha Soares, 31, se proclamava são-paulino roxo, mas às vezes torcia pelo Bragantino. José Duque Sobrinho, 75, evitava palavrões. Preferia substituí-los por neologismos, como “potranco” e “mucureba”.
Paulo Gustavo, 42, imitava a mãe perfeitamente. Gracinda dos Santos, 109, lotava os bolsos com balas em forma de coração, que distribuía para todo mundo. Larissa Blanco, 23, colhia frutas no pé. Helio Sebastião Pires, 78, dormia de touca. João Batista Alves dos Reis, 60, animava bailes como percussionista do Conjunto Extremunsom. “Desconheço carro melhor”, replicava Brasílio Gonçalves, 74, sempre que lhe indagavam por que ainda guiava um Passat 1982. Rafael Ramos, 33, visitou uma exposição sobre Game of Thrones com a irmã. Carivaldina Oliveira Costa, 79, caçava caramujo para fazer uma sopa típica dos negros que moram no Quilombo da Rasa, em Búzios (RJ).
Gutemberg da Silva Barbosa, 48, trajava calças jeans tão apertadas quanto as dos sertanejos Bruno & Marrone. O beatlemaníaco Cesar Augusto Martins Medeiros, 59, planejava tirar férias em Liverpool. José Adamastor Morgado Britto, 73, jamais revelou o segredo da batatinha com calabresa que servia à família. Kamilly Ribeiro, 17, se preparava para o vestibular de medicina. Paulo Sérgio Fabiano Bechelli, 53, considerava Sean Connery o melhor James Bond de todos os tempos.
Letícia Neworal Fava, 28, gostava de admirar o pôr do sol. José Lopes da Silva, 80, jurava que se comunicava com ETs. Aldevan Baniwa, 46, arrasava no nheengatu, língua do tronco tupi-guarani. Carlos Alberto Brasil, 75, deu um fogão para cada filho que saiu de casa. Edite do Nascimento Pereira, 83, nunca usava chinelos na rua. Ignez Branco Baptista acreditava que iria viver cem anos. Faltaram nove. Gastão Dias Júnior, 51, colecionava tartarugas decorativas. Braulino de Souza Valadão, 73, arrumava os cabelos com afinco e ficava irritadíssimo se um único fio abandonasse a posição que o pente lhe destinara. Marcelo Morellato, 62, não suportava comida fria. Erich Grossert, 78, xingava o juiz enquanto via jogos do Palmeiras pela tevê. Wellerson Calixto, 23, trabalhava como jovem aprendiz. Leitora compulsiva de biografias, Esther Godoy Penna, 97, concluiu que, no fim das contas, somos todos iguais: “As mesmas dores, as mesmas alegrias.”
Jairo Dornelles da Silva Sales, 34, recomendava à irmã e à mulher que guardassem momentos, não dinheiro. Genival Lacerda, 89, sempre esteve de olho na butique de Severina Xique Xique. Dagmar Thomé Gonçalves, 93, tecia sapatinhos de lã para os parentes. Givanildo Viana de Meneses, 46, estudava hipnotismo. Edgard Farah, 81, buscava os netos na escola com um Fusca bege. Alice Kikue Ishimine, 72, dominava os sete rituais do luto japonês. Madjer Okde, 30, ensinava jiu-jítsu para crianças pobres. Fernando Morais de Melo, 64, queria voar de balão pela Capadócia, na Turquia. Voou, mas em Boituva, no interior de São Paulo. Dalva Maria Portilho da Mata, 59, pedia bênção à mãe todos os dias. Quando atingiu a terceira idade, Joana Silveira, 61, constatou: “Não sou velha. Velho é o mundo!”
Adeilson Marinho da Silva, 39, gastava pelo menos uma hora no banho. O flamenguista José Mauro Brochado, 70, cumprimentava os outros com um bordão improvável: “Fala, vascaíno!” Agostinho Rodrigues Samias, 84, contava que já havia lutado contra um jacaré de cinco metros. João Gadelha da Costa Neto, 49, teimava em comprar brinquedos para si mesmo. Só assim conseguia afugentar as lembranças da infância pobre. Edigar Alves dos Santos, 61, limpava o carro com panos de prato que roubava da mulher. Na cidadezinha onde passou a juventude, Zilma Berriel de Toledo Piza, 82, aprontou tanto que até namorou o padre. Abel Augusto Teixeira, 65, sempre dizia que estava tudo bem, mesmo se não estivesse.
Iracema Amorim, 76, sabia entoar os cantos tradicionais dos guajajaras, povo indígena do Maranhão. João Batista da Silva, 68, pagava as contas antes do vencimento. Cairo José Ferreira Gama, 41, adorava perambular de chapéu pelas ruas de Manaus. Botafoguense fanático, Agnaldo Timóteo, 84, doou uma geladeira para o time carioca. Maria Angélica Rangel, 52, pretendia abrir uma loja de artesanato. Izaac de Souza Tavares, 67, se deleitava em “dar alicate” nos netos, aquele beliscãozinho com os dedos dos pés. Eloi de Lima Alves, 81, demorou muito para assumir os cabelos brancos.
Aldir Blanc, 73, imaginava que a lua, tal qual a dona de um bordel, pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel. Carmo Camilo da Silva, 42, se encarregava de lavar a louça por uma semana quando a mulher e a filha decidiam fazer as unhas. Giduvaldo de Souto Lima, 85, tinha o costume de beber cerveja enquanto acompanhava os telejornais. Mal abria uma latinha, perguntava para quem estivesse perto: “Vai uma água mineral com gás?” Renato Aurélio da Rocha, 77, se negava a apagar velinhas de aniversário. Benedita Aparecida Guicioli, 65, odiava o nome Benedita, mas não o trocou em respeito à mãe, que o escolhera. Depois do almoço, Francis Nunes, 84, saboreava religiosamente uma paçoca diet. Idalice Cordeiro dos Santos, 93, deu o primeiro banho em cada um dos dezesseis netos. Piadista, Filipe Roberto Conde, 40, garantiu para os sobrinhos que descobriria a cura da Covid-19.

* As informações deste texto foram extraídas do portal Inumeráveis e de obituários publicados na Folha de S.Paulo.
(site da revista piauí)

sábado, 1 de maio de 2021

Um pé na cozinha e outro na pós

A elite branca está preparada para ter uma empregada negra que faz mestrado?
GIZELE MACHADO TORRES, em depoimento a Armando Antenore
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segunda-feira, 1 de março de 2021

"Que presepada, minha irmã…"

Como Daiana Ferreira levou o balé clássico para um conglomerado de favelas cariocas

“Sabe como a gente reagiria se encontrasse a Daiana de novo?” Sentadas à beira de uma mesa simples, comprida e absolutamente vazia, as duas jovens sorriem quando percebem que fizeram a pergunta quase no mesmo instante. Uma tempestade de verão banha o Rio de Janeiro e ameniza o calor da sala muito espaçosa, onde não há ventilador nem ar-condicionado. “A gente apertaria bastante o pescoço dela!”, respondem as próprias moças, em uníssono. Depois, caem na gargalhada, mas a súbita explosão de alegria mal consegue esconder a tristeza que ainda as atormenta. “Pô, Daiana, desta vez tu exagerou…”, resmungam baixinho, assim que o ataque de riso vai embora. Não é incomum que soltem frases idênticas e simultâneas durante um bate-papo ou que uma complete o pensamento da outra. A dupla convive desde a infância. Formada em gestão de recursos humanos, Edna Idarrah dos Santos Corrêa agora está com 33 anos, e Carine Lopes, estudante de direito, com 31. Elas têm gestos, tons de voz e tipos físicos semelhantes. No entanto, Corrêa é negra retinta e Lopes, branca de olhos verdes.
“A Daiana sempre meteu a gente em situações complicadas. Ô menina para gostar de aprontar!”, relembram. “Nos tempos de colégio, questionava todo mundo e acabava arranjando briga. Imagine alguém espevitado. Era a Daiana! Acontece que a criatura não aguentava o tranco sozinha. Media o quê? Um metro e 60 ou menos. Depois de arrumar as tretas, precisava de ajuda. Adivinhe quem saía correndo para defender a tampinha. Nós, né?”
Há três meses, Daiana Ferreira dos Santos de Oliveira festejou 32 anos. “Minha irmã do meio… Eu nasci em 3 de dezembro de 1987. Ela, em 1º de dezembro de 1988. Ficávamos dois dias com a mesma idade. Por isso, vivíamos zombando: ‘Somos gêmulas! Praticamente gêmeas.’ A caçula da família, Ana Beatriz, só chegou em 1995”, diz Corrêa. As “gêmulas” e Lopes se conheceram antes da alfabetização, quando já moravam no Complexo de Manguinhos, um agrupamento de favelas cariocas. Desde então, nunca mais se largaram. Estudaram juntas, inventaram mil brincadeiras, compartilharam segredos amorosos, discutiram por bobagens e fizeram as pazes. Certa ocasião, uma delas cismou de batizar o trio. “Viramos ‘as monetes’”, prossegue Corrêa. A palavra denomina um tipo de penteado feminino que se parece com o coque. As garotas, porém, ignoravam a definição e julgavam ter criado o vocábulo.
Em 2012, Daiana tomou coragem e abriu uma escola de dança no complexo, a única da comunidade que oferece aulas de balé clássico. Ao longo dos primeiros anos, a iniciativa arregimentou centenas de alunos, despertou a atenção de patrocinadores e ganhou a anuência de Claudia Mota, principal bailarina do Theatro Municipal do Rio. Gratificada, mas surpresa com o avanço, a fundadora e presidente do projeto temeu não poder levá-lo adiante por conta própria e pediu socorro às demais “monetes”. “Foi, disparado, a melhor confusão em que a Daiana nos colocou”, avalia Lopes, que assumiu a vice-presidência da escola. Já Corrêa se tornou analista de planejamento institucional. Quando aceitaram as funções em 2019, as duas amigas nem sequer cogitavam que um novo – e intrincadíssimo – desafio se avizinhava. “Fala sério, Daiana! Custava aliviar um pouco a barra?”, reclamam outra vez, cientes de que a interlocutora jamais  responderá.

Mãe das “gêmulas”, a carioca Rosali Ferreira dos Santos só terminou o ensino fundamental. Mesmo assim, adora ler. Na juventude, devorava “romances de banca”, como Júlia e Sabrina. Os livros propagavam aventuras amorosas que transbordavam erotismo e se desenrolavam em lugares exóticos. “Meu segundo nome é Idarrah por causa de uma daquelas histórias”, explica Corrêa. Um índio e uma antropóloga se apaixonam nos confins da selva. Sob o luar, concebem um bebê muito gracioso, que resolvem chamar de Idarrah. “Significa ‘o nascer do sol’”, afirma a primogênita de Rosali dos Santos, sem estar totalmente certa da informação nem do enredo que acabou de narrar.
O nome de Daiana também dialoga com os contos de fada modernos. Ela o herdou de Lady Di, a princesa de Gales. “Foi nossa prima Agda, que tinha 6 anos, quem o sugeriu”, rememora Corrêa. À época, boa parte do mundo ainda desconhecia que as bodas reais de Diana Frances Spencer haviam se convertido num pesadelo.
A mãe das “gêmulas” e de Ana Beatriz manteve uma relação errática com o pai delas, um comerciante mineiro. O casal nunca morou junto. Tampouco dividia as responsabilidades e os gastos familiares. “Até porque meu pai gerou mais nove filhos, com outras três mulheres”, ressalta Corrêa. Para sustentar as meninas, Rosali dos Santos trabalhava como empregada doméstica e, esporadicamente, acompanhava os patrões em teatros ou galerias de arte. O apreço pela leitura se uniu, assim, à admiração por quadros, concertos, peças e óperas.
“Sempre que possível, minha mãe buscava nos ‘transmitir cultura’, como gostava de dizer. Ela levava a gente à biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, onde passávamos o dia inteiro. Também economizava para nos comprar livros em sebos.” Com o incentivo da mãe, as crianças leram O Caso da Borboleta AtíriaO Menino do Dedo Verde e outros clássicos da literatura infantojuvenil que não integravam o currículo escolar. Uma vez, a mãe e as filhas visitaram o suntuoso edifício de 1909 que abriga o Municipal do Rio. Lá puderam ver, maravilhadas, O Lago dos Cisnes, balé dramático do compositor russo Piotr Tchaikovski. Daiana travou, então, o primeiro contato com a dança erudita.
Bem antes do passeio, a garota já demonstrava interesse por coreografias. Em casa, diante da tevê, imitava os remelexos frenéticos do grupo É o Tchan! e a sensualidade da adolescente Britney Spears. Não à toa, odiava a movimentação insossa do coral que se exibia na igreja batista frequentada pela família. “Meus antepassados curtiam os terreiros de umbanda ou de candomblé, não sei direito. Mas, quando uma de nossas tias migrou para o cristianismo, tratou de converter todos os parentes”, recorda Corrêa.
Apesar de ser profundamente religiosa, Daiana se permitia questionar alguns dogmas. “Por que os homens, e não as mulheres, escreveram a Bíblia?”, indagava para as irmãs logo após os cultos dominicais. “Porque queriam eternizar o poder masculino, claro!”, emendava, sem aguardar a opinião de ninguém.
Frustrada com o desempenho do coral, procurou o pastor. Tinha 13 anos, se tanto:
– Precisamos mudar aquilo!
– Aquilo o quê? – retrucou o pastor.
– O jeito como os participantes do coral se mexem. Cadê a atitude? A criatividade? Eles movem apenas os braços. Parecem uns robozinhos. E o resto do corpo?
– Você nem canta no coral! Para que se meter?
– Não canto, mas vejo as apresentações. Péssimas! Dançar é importante, pastor. Está no Velho Testamento. Lembra-se da Miriã?
A mocinha se referia à profetisa que, no livro do Êxodo, comemorou o momento em que os judeus atravessaram o Mar Vermelho, sob a liderança de Moisés. “Então Miriã […] pegou um tamborim, e todas as mulheres a seguiram, […] dançando”, relata o trecho bíblico. A travessia inaugurou uma nova fase para o povo hebreu, que enfim se livrou dos perseguidores egípcios. Soterrado pela insistência da jovem, o pastor cedeu e autorizou a intervenção no coral. “Só não abuse da minha confiança, hein? Faça alterações suaves”, advertiu.

À 
medida que se incumbia da tarefa, Daiana percebeu o óbvio: faltavam-lhe conhecimentos mais sólidos para aprimorar o gestual dos cantores. “Tenho que aprender balé”, concluiu. Mas onde? Escolas particulares custariam os olhos da cara. Depois de uma rápida pesquisa, a menina descobriu um projeto social que dava aulas gratuitas e o abraçou sem hesitar. Permaneceu lá por três anos. “Eu também me inscrevi”, diz Corrêa. “Nós duas saíamos do colégio e andávamos até o projeto, que ficava longe de nossa casa. O percurso de ida e volta somava uns 4 km, pelo menos.”
Praticar balé clássico não apenas possibilitou que Daiana repaginasse o coral da igreja como lhe forneceu a base para se aventurar em outras danças, das populares (especialmente, o jongo e o samba) à contemporânea. “Ela nunca deixou de se aperfeiçoar”, enfatiza Lopes. “Fez uma porção de workshops e batia ponto nos espetáculos das grandes companhias brasileiras. Amava a da Deborah Colker, por exemplo.”
Com 16 anos, Daiana arrumou o primeiro emprego. Tornou-se monitora do Museu da Vida, que pertence à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Mais tarde, assim que finalizou o ensino médio, conseguiu uma bolsa do governo federal para estudar educação física no Centro Universitário Celso Lisboa. Enquanto cursava a faculdade, não parou de trabalhar. Foi atendente de telemarketing e recreadora de festas.
Em 2010, um colégio municipal a contratou como professora de jongo. Dois anos depois, a moça resolveu empreender. “Vou criar uma escola infantil de balé em Manguinhos”, anunciou para os familiares. O plano soava absurdo. Quem teria condições de bancar as aulas numa comunidade tão pobre? “Não se preocupem. Vou cobrar barato”, argumentou Daiana. Espalhado pela Zona Norte do Rio, o Complexo de Manguinhos reúne sete favelas, de acordo com a prefeitura, mas os moradores afirmam que são catorze. Cerca de 42 mil pessoas habitam o conglomerado, ainda segundo a população local, que está sob o controle da facção criminosa Comando Vermelho.
A escola recém-aberta funcionava numa sala alugada e logo atraiu oitenta crianças. Ocorre que, de fato, a inadimplência dos alunos se mostrou um problema, e o empreendimento naufragou em menos de seis meses. Como não dependia economicamente do negócio por continuar lecionando no colégio municipal, Daiana decidiu que ensinaria balé de graça. Perto da casa dela, existia uma igreja evangélica. A professora se muniu da ousadia costumeira e bateu à porta do templo. “Pastor, quero usar a igreja para minhas doideiras. O senhor empresta?” O religioso concordou de imediato, e a escola renasceu ali.
“A Daiana tinha um lema: ‘O não já é certo. Vou em busca do sim.’ Por um lado, tamanha persistência a favorecia. Por outro, a transformava numa figura muito centralizadora, que não media esforços para atingir os objetivos”, analisa Corrêa. “Era uma mulher teimosa! Cabeça-dura mesmo! Se encasquetava com uma ideia… Sai debaixo!”, resume Lopes.
Em 2013, o ponta-direita Jairzinho, craque da Copa de 70, soube da escola. Ele ministrava aulas de futebol para a garotada de Manguinhos e dos arredores. A Petrobras financiava a ação. “O cara se impressionou tanto com as maluquices da Daiana que propôs ajudá-la. Separou uma parcela do dinheiro que ganhava da Petrobras e pagou um salário para a minha irmã.” O auxílio garantiu que a professora deixasse o colégio municipal e se dedicasse somente à escola de dança.
Quando o jogador interrompeu o aporte por falta de recursos, Daiana ficou um período sem patrocínio até conquistar o apoio da Asfoc-SN, o sindicato dos trabalhadores da Fiocruz. A essa altura, a iniciativa já contava com outros professores e não ocupava mais a igreja. Mudara-se para a Biblioteca Parque de Manguinhos, espaço mantido pelo governo fluminense. Entusiastas do projeto, as atrizes Priscila Fantin e Samara Felippo o divulgavam na mídia enquanto Claudia Mota – a bailarina do Municipal – virava madrinha da escola. Para tourear os novos obstáculos que a improvável jornada lhe trazia, Daiana frequentava cursos de produção cultural e empreendedorismo social.

No finzinho de 2016, a Secretaria de Estado de Cultura fechou a Biblioteca Parque para conter despesas. “Como assim?”, indignou-se Daiana. “Onde vou botar minhas crianças?” Ela tentou negociar com as autoridades, mas não teve sucesso. Optou, então, pela alternativa mais radical: juntou as mães de alguns alunos e invadiu o espaço na marra em janeiro de 2017. Durante um ano e cinco meses, o grupo se encarregou de gerir a área para que as aulas de balé prosseguissem. A estratégia funcionou. O governo reabriu a biblioteca e lhe deu o nome de Marielle Franco, a vereadora negra do Psol assassinada havia pouco tempo.
A batalha de Daiana mereceu uma reportagem no New York Times em julho de 2018. O artigo do jornalista Ernesto Londoño acabou chegando à fundação norte-americana The Secular Society. Localizada na Virgínia, a TSS investe em ações educacionais, artísticas, esportivas ou ambientais de diversos países: Argentina, Itália, Nepal, Quênia, Iraque, Madagascar e Paquistão.
Embora não falasse inglês, Daiana compreendeu perfeitamente quando a organização manifestou o propósito de patrocinar a escola. A oferta parecia um sonho. Entre novembro de 2018 e agosto de 2021, a TSS substituiria a Asfoc-SN e arcaria não só com a verba necessária para sustentar o projeto, mas também para ampliá-lo e lhe comprar uma sede definitiva. A injeção monetária, no entanto, não seria renovável.
Hoje, o Ballet Manguinhos – como a escola se chama desde 2014 – possui onze funcionários remunerados e 250 alunos com idades entre 6 e 29 anos. Escolhidos por sorteio, os estudantes podem fazer tanto aulas de dança quanto de circo. A maioria deles é do sexo feminino e se declara branca. Quinhentos jovens e crianças estão na fila à espera de uma vaga.
Mensalmente, a TSS destina uma média de 35 mil reais para o projeto. Em dezembro de 2020, a escola adquiriu o prédio de quatro andares e 600 m2 que lhe serve de base. O imóvel, situado na entrada de Manguinhos, custou 800 mil reais.

“Era magérrima, acredita? Um varapau, mas sempre teve seios imensos.” Corrêa descreve assim a irmã, toda vez que se lembra da adolescência de ambas. “A Daiana só ganhou peso depois do estupro.” O ataque se deu numa rua escura e deserta. A garota de 19 anos saía do trabalho quando um desconhecido a agarrou. “Ela não escondia de ninguém o que rolou”, conta Lopes. “A questão é que, no fundo, jamais superou o trauma e se refugiou na comida, entende? Comer a reconfortava.”
Por uma década, Daiana nutriu o desejo de emagrecer e reduzir as mamas, que lhe sobrecarregavam a coluna e dificultavam sua respiração. A moça, porém, nunca encontrava uma brecha para se submeter à cirurgia plástica. Com o advento da pandemia, o ritmo da escola diminuiu bastante, e a professora finalmente marcou a operação.
O procedimento ocorreu em setembro de 2020. Enquanto se recuperava, Daiana desenvolveu uma enfermidade raríssima, o pioderma gangrenoso. Trata-se de uma inflamação que provoca feridas recorrentes e bem dolorosas pelo corpo. Uma resposta imune exagerada pode desencadear o quadro. “Tudo indica que o organismo da Daiana encarou a cirurgia como uma agressão excessiva e reagiu de maneira anormal”, lamenta Corrêa.
No último dia 7 de janeiro, a professora sentiu os primeiros sintomas da Covid-19. Ela ainda exibia várias lesões cutâneas, principalmente na parte superior do tronco. O coronavírus se revelou impiedoso. Aproveitou a fragilidade da paciente e a levou para o CTI. No dia 18 de janeiro, às 10h30, a presidente do Ballet Manguinhos morreu. Deixou um filho de 3 anos.
“E agora? Como vamos continuar sem a líder das ‘monetes’?”, pergunta Lopes na sala abafada da escola. “Pois é… Que presepada, minha irmã…”, suspira Corrêa.
(revista piauí)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

E.T. de Ipanema

A história de um falso acaso

J
á virou hábito. Todos os dias, quando acordo, olho para a esquerda e verifico se a fotografia continua lá, presa à parede branca, entre molduras de metal e sob um vidro levemente fosco. Na verdade, não verifico coisa nenhuma. Sei que o quadro estará sempre ali, intacto e junto da ampla janela que ilumina o pequeno dormitório. Mesmo assim, repito com perseverança o ato de observá-lo pela manhã, como um vigia inútil ou um pastor que teima em zelar por ovelhas incapazes de fugir. Não se trata de mania nem superstição. É realmente um hábito, que adquiri quase sem notar.
Salvo engano, mandei emoldurar a imagem no começo de 2019, pouco depois de me mudar para o quarto e sala onde ainda moro sozinho. A foto certamente não se destaca pelo tamanho. Tem apenas 20 cm de comprimento por 13 cm de largura. Muitos dos que já me visitaram nem sequer a perceberam. Não se aproximaram dela para apreciar a cena idêntica à que ilustra esta reportagem ou perguntar quem, afinal, é aquela mulher de capacete espelhado. Caso me perguntassem, confesso que não conseguiria responder. Tampouco saberia informar em que praia a misteriosa personagem se deixara retratar. Tudo o que dissesse seria pura suposição e revelaria mais sobre mim do que sobre a foto.
A praia, por exemplo. Mal vi a imagem pela primeira vez, cismei que a mulher se encontrava em Ipanema. Falta de imaginação, sem dúvida, e talvez o sintoma de uma alma irremediavelmente provinciana. A mulher poderia estar na Indonésia, no Havaí ou na Sicília, mas escolhi situá-la justo no Rio de Janeiro, a alguns quarteirões de minha casa. A criatividade exígua acabou por me inspirar uma piadinha tola e ligeiramente machista. “Tom e Vinicius tinham a Garota de Ipanema. Eu tenho a E.T. de Ipanema”, gracejei certas manhãs, enquanto admirava a fotografia.
Sim, uma E.T. Logo de cara, a mulher enigmática me pareceu vir de outro mundo. Era divertido considerá-la de Marte, Júpiter ou Saturno. Uma alienígena morta de cansaço, que resolveu tirar férias em Ipanema. O faz de conta, porém, se mostrou bem menos prazeroso quando admiti o óbvio: a criatura em questão dispunha de um corpo demasiadamente humano, que me impedia de aderir por completo à divagação. Como acreditar numa extraterrestre com feições tão terrenas?
Quanto mais examinava o quadro, mais paradoxos me esforçava em lhe atribuir. Garimpar incoerências na imagem se tornou um entretenimento irresistível, sobretudo depois que a Covid-19 nos impeliu à clausura doméstica. Volta e meia, a figura feminina me evocava um orixá futurista – o que, em si, já é uma contradição. Orixás provêm de um passado remotíssimo, que se localiza quase fora do tempo. Pertencem à solidez da ancestralidade, não às incertezas do futuro. Em determinados instantes, a protagonista da cena também me lembrava as passistas do Sambódromo. Uma mulher branca, portanto, sintetizava duas marcas inequívocas da negritude no Brasil: as religiões de matriz africana e o Carnaval. Mais um contrassenso da foto.
O quadro me remetia, ainda, à situação exasperante em que a pandemia nos meteu. Por um lado, o capacete da personagem dialogava com as incômodas máscaras que todos precisamos usar desde março do ano passado. Por outro, refletia em sua superfície um grupo de banhistas à moda antiga: aglomerados e sem nenhuma proteção facial. A nova e a velha normalidades compunham um retrato que, agora, me soava profético. Quando emoldurei a imagem, não havia nem sinal do Sars-CoV-2, mas os dilemas e limites que o vírus iria nos impor já se apresentavam na cena. Aliás, em que circunstâncias a mulher sem rosto teria sido fotografada? Durante a realização de um clipe, um filme, um comercial? Ou justamente na concentração de um bloco carnavalesco?
Quatro meses e meio atrás, enquanto me distraía com tantas especulações, recebi uma notificação incomum pelo celular. Uma desconhecida solicitava autorização para me seguir no Instagram. Hoje em dia, já não sou frequentador das redes sociais. Se dependesse de minha influência digital, estaria na rua da amargura. Por isso, me surpreendi quando a mensagem chegou. Eu tinha, à época, somente 257 seguidores e conhecia todos – uns de perto, outros só pela internet. Até aquele 17 de setembro de 2020, ninguém que não fizesse parte, direta ou indiretamente, do meu círculo íntimo manifestara o desejo de acompanhar minhas escassas publicações. Cismado com a estranha, tratei de xeretar o perfil dela. Das 1 735 pessoas ou instituições que a seguiam, nenhuma também me seguia.
Um vídeo de 86 segundos figurava entre os posts mais recentes da desconhecida. Tão logo o abri, levei um susto. Era a E.T. de Ipanema! A protagonista enigmática da foto agora surgia de corpo inteiro, diante de um ponto turístico muito disputado no Rio, o Museu do Amanhã. Trajava o mesmo figurino exótico do retrato e posava para as câmeras dos curiosos que a rodeavam. De vez em quando, dava alguns passos. A trilha sonora do vídeo, instrumental, se assemelhava à das ficções científicas hollywoodianas.
Explorando um pouco mais o perfil, descobri outras paisagens que a alienígena desbravara. Ora pude avistá-la na capital da Islândia, ora num deserto dos Estados Unidos ou numa ilha da Bahia. Não demorei para concluir que a extraterrestre de capacete espelhado e a dona do perfil, uma mulher sorridente, de cabelos bem longos, eram a mesma pessoa. Por incrível que pareça, a criatura sem identidade que zelava o meu sono e amenizava a minha quarentena de repente ganhou nome, sobrenome e uma face. Mera casualidade ou artimanhas de um destino em que nem ao menos me permito crer?

“Vou participar da Tijuana no sábado e no domingo. Quer ir?” A Tijuana é uma feira descolada onde artistas expõem e comercializam toda sorte de impressos: gravuras, pôsteres, cartões-postais, quadrinhos, livros e adesivos. Idealizado pela Galeria Vermelho, de São Paulo, o evento nasceu há doze anos. De início, se restringia à capital paulista, mas depois avançou para o Rio, Buenos Aires e Lima. O Parque Lage, na Zona Sul carioca, abrigou a 19ª edição da mostra em agosto de 2018. Foi quando uma amiga, Maíra Marques, me fez o convite: “Passa lá. Vou tentar vender alguns dos meus livrinhos artesanais.” Ela trabalha com publicidade e se diz comunicóloga. No entanto, prefiro defini-la como uma “artista tímida”. Minha amiga pensa o tempo todo em arte, adora conversar sobre o tema, nunca deixa de estudá-lo, frequenta exposições e usa as horas vagas para desenvolver projetos artísticos. Cria desde intervenções urbanas e performances até cartazes, vídeos e obras sonoras. Só que, apesar das evidências, raramente se proclama artista. “Nem sempre consigo… Em que momento alguém vira artista? Em que momento pode assumir socialmente a condição de artista? Ainda não sei a resposta.”
Entre os livros artesanais que Marques levou para a Tijuana, um me interessou de imediato: Psilocibina. Tinha oito ou dez páginas, já não lembro direito, e reunia somente fotografias. O título da publicação coincidia com o nome da substância alucinógena que está presente em vários tipos de cogumelos e que minha amiga provara recentemente. “Tomei uma microdose, um tiquinho de nada, mas o bastante para sentir vontade de abordar a experiência num livro”, contou. Psilocibina juntava, assim, uma série de imagens que aludiam às visões trazidas pela droga, incluindo o retrato da E.T.
– Quem é? – perguntei, enquanto folheava o livro.
– A mulher de capacete? Não faço a mínima ideia – retrucou Marques. – Eu a vi na praia e fotografei.
Não me ocorreu questionar em que praia exatamente a cena se desenrolara.
– Gostei! Topa vender?
– Só a foto?
– Sim.
– E o resto do livro?
– Pois é… Pensei em comprar apenas a imagem original, sem as modificações. Muita folga?
No livro de 150 reais, o retrato da alienígena exibia duas interferências. O céu originalmente azulado se tornara cor-de-rosa. “Arranjei uma canetinha com tinta cintilante e o pintei”, esclareceu minha amiga. Ela também escreveu uma frase um tanto hermética embaixo da foto: “Capacete invisível para pensamentos perigosos é mais importante do que colágeno.”
Com 37 anos recém-festejados, Marques andava refletindo sobre o envelhecimento. “Claro que ainda sou jovem. Mesmo assim, noto que minha pele já mudou. A maciez, o viço e a firmeza de antes se perderam. É por causa do colágeno, né? Está diminuindo… Ninguém curte lidar com o declínio do próprio corpo, mas existe coisa pior do que a decadência física. São as ideias tortas, retrógradas, pessimistas, que nos envenenam e fazem a gente murchar rapidinho. Imagine se houvesse um capacete invisível que bloqueasse os pensamentos nocivos, que os impedisse de circular dentro e fora de nós. A gente envelheceria sem envelhecer.”
Naquele domingo, minha amiga não me vendeu a foto. Recusou gentilmente a oferta, mas não cerrou todas as portas: “Vou avaliar…” Mal saí da feira, me penitenciei pela proposta deselegante. Onde estava com a cabeça? O que um escritor me responderia se lhe dissesse: “Cara, adorei o teu romance! Só que vou comprar apenas o capítulo 12, o.k.?”
Passaram-se uns meses e, para minha surpresa, Marques aceitou fechar o negócio. Ela cobrou pela imagem da extraterrestre o preço do livro: 150 reais.

“Você se repete? Você se arrepende? Procuro pessoas que, mesmo depois de arrependidas, continuam repetindo seus atos.” Eu acabara de deixar a estação Carioca do metrô, no Centro do Rio, quando deparei com o cartaz que estampava o curioso apelo. Não me recordo de onde se encontrava. Num poste? Ou na fachada imunda de algum boteco? A convocação trazia um endereço digital: arrepetimento@gmail.com. O neologismo me despertou ainda mais atenção do que o apelo. Arrepetimento! Que palavra engenhosa! Resolvi entrar na brincadeira (seria uma brincadeira?) e escrevi para o endereço. Foi assim que, em setembro de 2017, conheci Maíra Marques.
Ela colara três daqueles cartazes pela cidade sem um propósito muito definido. “Já reparou que todos nós repetimos certos comportamentos ruins? Às vezes, sabemos por experiência própria que vamos nos ferrar se agirmos novamente de determinada maneira. Mas não adianta: a gente insiste no erro. Por quê? Na esperança de compreender minimamente a questão, decidi estudá-la”, relatou a artista em resposta à minha mensagem. Estudá-la significava ler um pouco sobre carma, reencarnação, compulsões e a milenar teoria do eterno retorno, que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche reinterpretou no século XIX. Também significava debater o assunto com quaisquer estranhos que se mostrassem interessados. Daí os cartazes espalhados pelo Rio. “Para mim, a pesquisa que estou fazendo já é o trabalho artístico”, explicou. “Se vai resultar em algo mais palpável, não arrisco dizer.”
No decorrer de dez meses, acompanhei o processo de longe, com muito entusiasmo, ainda que sem participar do experimento. Periodicamente, Marques me enviava sinais de fumaça por e-mail. “Recebi arrepetimentos de todos os cantos”, escreveu numa ocasião. “Gente que se arrepende de beber, de roubar, de mentir ou de não se esforçar o suficiente em termos profissionais. Mas a maioria dos que me procuram se arrepende mesmo é de comportamentos equivocados no terreno afetivo, amoroso, sexual.”
Em julho de 2018, nós finalmente marcamos o primeiro bate-papo offline. Num café de Ipanema, minha nova amiga anunciou, empolgada, que terminara a investigação. Cerca de trinta pessoas haviam aderido à iniciativa, que teve, sim, desdobramentos mais concretos. A artista não só realizou um ensaio fotográfico com alguns dos participantes como produziu uma espécie de colagem sonora.
“Imprimi todos os testemunhos que me mandaram por e-mail e grifei as palavras-chaves de cada um deles”, contou. Depois, elaborou uma lista em que tais vocábulos apareciam tantas vezes quantas surgiram nos depoimentos, formando sequências do tipo: “vazio vazio vazios encontro encontros Tinder Tinder Tinder transo transamos transar transava transaríamos tesão sauna sauna sauna.” A lista totalizava 190 palavras, repetidas ou não. “Assim que finalizei o inventário, pedi para os participantes gravarem áudios no WhatsApp em que liam a relação inteira.” Marques, então, misturou as gravações e teceu a instigante colagem sonora de 3 minutos e 44 segundos.
Foi só quando a extraterrestre praiana baixou no meu Instagram que descobri onde minha amiga a retratara. “Ipanema? Errado, mano!”, me corrigiu a artista em setembro de 2020, tão logo lhe falei da inusitada aparição. “Eu passava férias na Ilha de Boipeba. Sul da Bahia, conhece? Ali tem um lugarejo paradisíaco, Moreré, que abriga uma vila de pescadores e um monte de piscinas naturais. No primeiro dia de 2017, enquanto pegava sol por aquelas bandas, avistei a tal figura. Era de manhã. A praia estava calma, quase vazia. A mulher se movimentava devagarzinho e calada. Parecia dançar, com uns gestos bem fluidos, bem suaves. Fiquei deslumbrada, mas tive receio de fazer perguntas, mesmo porque não sabia se o capacete a deixava ouvir direito. Apenas cheguei perto e tirei a foto (costumo levar minha câmera para todo lado). Em seguida, saí fora com a sensação de ter presenciado um instante mágico. Tão mágico quanto o fato de a mulher pintar agora no teu Instagram. Que maluquice…”
“Nem de Moreré, nem de Ipanema. A E.T. é da minha terra, Minas Gerais!”, me garantiu outra amiga, Georgia Barcellos, sem atinar para o absurdo que dizia: como uma extraterrestre poderia ser da terra de um terráqueo? A criatura espacial havia publicado no Instagram um comentário sobre si própria e a quarentena que acabou se tornando revelador: “Saudade de fazer teatro, né, minha filha? Nó…” Mal tomou conhecimento da aparição que me inquietava, Barcellos correu para vasculhar a rede social da E.T. e logo pescou o termo “nó”. “Mineira, com certeza!”, exultou, julgando-se uma Sherlock Holmes do Cerrado (“Xerloquirromis”).
Em mineirês castiço, “nó” é uma interjeição de pena ou espanto, talvez derivada de “Nossa Senhora!”. Importante não a confundir com “nu!”, que expressa os mesmos sentimentos, mas num grau bem mais elevado. “Rapaz! Desconfio que você encontrou a E.T. de Varginha…”, concluiu a detetive brejeira.

Como a Xerloquirromis deduzira, Andressa Furletti – eis o nome da esfinge – nasceu realmente em Minas. Filha de uma comerciante e um administrador de empresas, tem origem italiana, portuguesa, negra e indígena. “Uma mistureba das mais brasileiras”, resumiu por telefone, em nossa primeira conversa. A ascendência multirracial lhe confere traços francamente híbridos, de tal modo que a pele muito alva contrasta com os olhos bem pretos. Já os cabelos castanhos, que beiram a cintura, hesitam entre o liso e o cacheado. Magra, “mas não magricela”, a belo-horizontina de 42 anos gosta de ressaltar que mede 1,58 metro “e meio”. “Ai de você se me tirar o meio centímetro!”, zombou. Em 2002, trocou BH pelo Rio, onde morou até 2007. Logo depois, se mudou para Nova York e vive lá ainda hoje. Compartilha um apartamento no distrito do Brooklyn com o marido, biólogo especializado em imunologia, e a cadela Shanti Lee, uma border collie simpaticíssima.
Quando a alienígena invadiu meu Instagram, pedindo para me seguir, não aceitei de cara a solicitação. Antes, relatei o “causo” às minhas duas amigas, e ambas sugeriram o mesmo: “Entre em contato com a E.T. a-go-ra!” Foi o que fiz. Às 12h19 do dia 18 de setembro de 2020, lhe enviei uma breve mensagem, em que narrava o acontecido. Às 17h52, Furletti me retornou: “Gente! Que história! Fico feliz que minha imagem esteja te acompanhando!” Sem rodeios, perguntei: “Como você me descobriu? E por que pediu para me seguir?” A resposta: “Juro que não sei! Provavelmente, você publicou alguma coisa que apareceu no meu feed e me agradou. O quê? Não vou lembrar de jeito nenhum! Vejo zilhões de postagens nas redes…”
Desde então, tivemos duas longas conversas telefônicas e várias interações pelo WhatsApp. Em todas as circunstâncias, minha interlocutora passou a impressão de ser um tanto reservada e tímida. Ela escapulia de questões que considerava invasivas e, às vezes, se tornava monossilábica, como uma criança vacilante, de quem o gato comeu a língua. Em compensação, também se revelava muito pragmática e obstinada. “Sou taurina: se não materializo os meus planos, me irrito profundamente. Uns chamam isso de persistência. Outros, de teimosia…”

Na infância, Andressa Furletti adorava reunir as amigas para encenar séries fictícias de tevê em que cavalinhos de plástico representavam os personagens. “Há garotas que brincam com a Barbie. Eu brincava com cavalinhos.” A diversão recorrente evidenciava duas particularidades que acabaram por nortear o futuro da menina: a predileção pelos bichos e pela arte.
Gostar de animais contribuiu para que Furletti praticasse equitação durante a adolescência e estudasse biologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde se formou em 2001. “Enquanto me graduava, trabalhei num laboratório de ornitologia. Depois, me dediquei à genética do câncer e, um pouco mais tarde, aos transgênicos.”
Já o apreço por toda espécie de manifestação artística fez com que Furletti adquirisse noções de balé e flauta, além de empurrá-la progressivamente para o ofício de atriz. Em Belo Horizonte e no Rio, ela frequentou inúmeros cursos de atuação, que lhe possibilitaram arriscar os primeiros passos teatrais.
“Tentei me equilibrar entre a biologia e as artes cênicas”, relembrou. “Mas, com o tempo, percebi que não conseguiria e abandonei a carreira científica.” No afã de se estabelecer como atriz, encarou de tudo: longas e curtas-metragens, comerciais, peças, esquetes e figurações em programas de humor. À medida que se aventurava diante dos holofotes, tratou de concluir outra faculdade, a de cinema, e virou também editora de imagens.
Deixou o país quando o marido recebeu uma proposta para cursar o pós-doutorado em Manhattan. “Pretendíamos ficar apenas um ano e já estamos há treze…” Assim que chegou a Nova York, a atriz ingressou no Stella Adler Studio of Acting, escola de interpretação que surgiu em 1949 e teve alunos tão talentosos quanto Marlon Brando, Robert de Niro, Warren Beatty e Candice Bergen.
O prestigioso conservatório abriu algumas portas para Furletti na cidade, o que lhe permitiu construir um reduzido, mas sólido, círculo profissional. Desde 2011, a mineira dirige a Group .BR, companhia que fundou com o carioca Thiago Felix e a curitibana Debora Balardini. A trupe se encarrega de disseminar a cultura brasileira por meio de espetáculos que misturam não somente o português e o inglês como também as artes visuais, o teatro de vanguarda, a música e a dança. Entre as montagens do grupo, destacam-se A Serpente, de Nelson Rodrigues, Infinite While It Lasts, sobre Vinicius de Moraes, e Inside the Wild Heart, baseada na trajetória de Clarice Lispector.

Em junho de 2014, um colega da atriz a convidou para participar do Northside Festival. O evento costuma ocorrer durante o verão no Brooklyn. Com o intuito de celebrar “a inovação e a arte”, agrega músicos, DJs, performers, jornalistas, designers, publicitários e donos de startups, que protagonizam shows, intervenções, palestras ou workshops. “Você não tem nenhum projeto dando sopa, Andressa?”, interpelou o colega, que planejava recitar uma série de poemas na mostra. Um deles sempre chamou a atenção de Furletti e dizia algo como “quando te olho, me vejo”. “Tenho, sim”, respondeu a artista, lembrando-se de uma ideia que acalentava havia tempos e que, de certa maneira, dialogava com aquele verso. Era a performance #TakeASelfieOnMe (Faça uma selfie em mim).
“Desde que os celulares adquiriram câmeras de fácil manuseio, todo mundo se rendeu à mania do autorretrato. Fulano visita o Louvre, por exemplo, e só dispõe de quinze segundos para observar a Mona Lisa. Em vez de admirar o quadro, o sujeito gasta os quinze segundos tirando uma foto diante da pintura. Não é esquisito? Como a febre das selfies me intriga demais, cogitei desenvolver um trabalho que abordasse o fenômeno de um jeito bem lúdico”, me explicou a atriz por telefone. Ela já havia esboçado parte do projeto, mas nunca arranjava uma brecha para concretizá-lo. A proposta do colega lhe deu o empurrão que faltava.
Na performance, Furletti usaria um traje exuberante que, quando fotografado, refletiria quem o estivesse fotografando. O fotógrafo experimentaria, assim, o prazer simultâneo de retratar o outro e se retratar, como se o egocentrismo da selfie pudesse redundar em altruísmo.
A própria artista desenhou e produziu cada peça da roupa. Uma saia de paetê, tão longa que quase varre o chão. Um par de luvas muito compridas, que se avizinham dos ombros. Um bustiê confeccionado com três semiesferas de plástico, ocas e rígidas – as maiores cobrem os seios enquanto a terceira, menor, repousa sobre o abdome. Um capacete também constituído de duas semiesferas plásticas, que se unem por parafusos. O figurino inteiro alterna diversos tons de prateado. As luvas e as cinco semiesferas  têm as superfícies espelhadas.
“Não pensei em orixás, extraterrestres ou passistas quando criei o traje”, prosseguiu a atriz. “Eu desejava apenas me transformar num espelho itinerante e pouco óbvio.” Furletti comprou toda a matéria-prima da roupa em lojas baratas de Nova York. “No total, gastei uns 100 dólares, ou até menos.”
A performance dura, em média, duas horas. “Procuro me movimentar lentamente e de modo improvisado. Mantenho os braços sempre abertos, o que é um tanto doloroso, e nunca paro de me mexer.” Às vezes, caminha. Outras vezes, deixa de andar, mas oscila o pescoço, as mãos ou o tronco. Jamais emite sons e conserva o silêncio mesmo se alguém puxa conversa. Sob o capacete, ouve tudo perfeitamente, ainda que só enxergue vultos.
Depois da estreia no Brooklyn, a artista já se apresentou em mais dez lugares: Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Ouro Preto, Moreré, Paris, Berlim, Reykjavík, Miami e o deserto de Black Rock, no estado norte-americano de Nevada, onde acontece o Burning Man, uma badalada celebração contracultural. “O figurino é bem fácil de transportar. Por isso, gosto de levá-lo em minhas viagens de trabalho e lazer. Não preciso de festivais ou algo do gênero para realizar a performance. Se me dá vontade, saio na rua e faço.” #TakeASelfieOnMe, aliás, não tem nenhuma relação com a trupe de Furletti.
Em geral, o público corresponde às expectativas da atriz e a fotografa avidamente. “É a mulher do futuro!”, presumem alguns. “Outros me comparam com uma E.T., lógico, ou com Iemanjá, principalmente se estou perto do mar.” Certa vez, nos Estados Unidos, um homem se aproximou da performer e indagou: “Lady Gaga, é você?! Não acredito! Que máximo!”

Embora não professe nenhuma religião, a artista diz ter “fé no mistério”. “Longe de mim bancar a cética absoluta! Creio no ‘pode ser’. Deus existe? Pode ser. Os mortos reencarnam? Pode ser.” Ela não ousa explicar de maneira assertiva por que a gente se cruzou – e justo num momento em que a quarentena nos impunha tantos desencontros. “Destino? Pura coincidência? Vai saber… Minha predisposição é atribuir nosso encontro às escolhas. Eu escolhi criar a performance e mostrá-la em Moreré. Sua amiga escolheu viajar para lá e me fotografar. Você escolheu ir à feira Tijuana e comprar a foto. Nós dois escolhemos baixar o Instagram etc. etc. etc. Rolou uma convergência de escolhas, percebe? No fundo, tudo aconteceu por causa das opções que fizemos ao longo do tempo. Agora, será que tomamos aquelas decisões livremente? Ou será que nossas escolhas já estavam predestinadas?”
Em vez de buscar respostas com os astros, decidi consultar Virgílio Augusto Fernandes Almeida, professor emérito do Departamento de Ciência da Computação na UFMG. Contei-lhe a história detalhadamente e questionei:
– Por que o Instagram indicou o meu perfil para a performer se nenhuma das 257 pessoas que me seguiam a acompanhava e se nenhum dos 1 735 seguidores dela me acompanhava?
– Boa pergunta… Vou estudar o caso – respondeu.
Semanas depois, o professor me telefonou. Ele analisara o episódio com a ajuda de um aluno, o doutorando Gabriel Magno. “É complicado desvendar exatamente o que se passou.”, admitiu. “A gente não conhece todos os códigos que regem o funcionamento do Instagram, né? Mesmo assim, dá para levantar umas hipóteses.”
A mais provável: “Você e Andressa não possuíam seguidores em comum, mas seguiam 46 contas idênticas. A do petista Fernando Haddad, por exemplo. Ou a do projeto Quebrando o Tabu. Suponha que, um dia, você tenha aprovado com o ícone do coraçãozinho alguma postagem do Haddad, e a Andressa também. Suponha ainda que, noutra ocasião, você e a Andressa aplaudiram virtualmente uma publicação específica do Quebrando o Tabu. Pronto, o aplicativo já ficou de orelha em pé: ‘Opa! Eles são parecidos! Interagem com os mesmos posts! Vale a pena sugerir o perfil do cara para a Andressa.’”
Trocando em miúdos: o Instagram, ardiloso, tramou toda a “coincidência”. “Pode-se dizer que sim”, concordou o professor. “Não há acaso nem destino quando as redes sociais entram na jogada.”
(revista piauí)

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Na pele do lobo

Um trumpista resiste a se despedir de Trump
Em setembro de 2018, pouco antes das eleições presidenciais no Brasil, Donald Trump ligou de Washington para Jair Bolsonaro. O então candidato do PSL convalescia de uma operação intestinal depois de levar a facada que quase o matou. “Olá, Trump! Que grande satisfação! I speak English porra nenhuma, but I will try my best aqui, tá o.k.?”, explicou o capitão reformado assim que atendeu o celular. Com um impecável terno azul-escuro, gravata vermelha e uma bandeirinha dos Estados Unidos cravada na lapela, o norte-americano logo cumprimentou o interlocutor pela pronta recuperação da cirurgia. “Você é um tough cookie”, elogiou, pretendendo dizer algo como “um osso duro de roer”. Embora falassem em línguas diferentes e sem tradutores, os dois se entendiam à perfeição. De cara, o político nova-iorquino sugeriu tratar o colega por um apelido “curto e doce”: JB. Esclareceu que aquelas iniciais combinavam bem com as dele próprio. “DT and JB”, enunciou, como se lançasse uma grife – “di ti” e “djei bi”. “Vamos ser parceiros na missão de fazer as Américas great again”, acrescentou.
O mandatário mais poderoso do mundo contou que destacara um agente da CIA para monitorar a situação em Outside Judge, ou Juiz de Fora, a cidade mineira onde Bolsonaro sofrera o atentado. Trump salientou, ainda, que confiava na vitória eleitoral de JB, apesar dos golpes baixos que o Datafolha, o Ibope, a “Globo Fake News” e até a Madonna desferiam contra o presidenciável. “Aproveite muito a posse em Buenos Aires”, recomendou, quando se despediu. Depois de agradecê-lo, o candidato de extrema direita arriscou um pedido: “Libera meu visto aí, porque marcar entrevista hoje em dia no consulado americano está mais difícil do que limpar a bunda com papel picado.”
O telefonema, of course, nunca aconteceu. Ou melhor: aconteceu, sim, mas no YouTube. O vídeo de onze minutos que exibe a tresloucada conversa já beira 1 milhão de visualizações. O carioca André Marinho, de 26 anos, o protagoniza. Ele não apenas criou o diálogo como se encarregou de interpretar DT e JB. Interpretar é pouco. O jovem praticamente se transformou na dupla. Não bastasse incorporar Bolsonaro com humor e precisão, mostrou-se ainda mais talentoso sob a pele de Trump. Conseguiu satirizar o fanfarrão republicano sem colocar peruca loira nem pintar o rosto de laranja e só se expressando no idioma do personagem.
Quando o vídeo chegou à internet, em outubro de 2018, o país já contava com bons imitadores do ex-capitão. No entanto, raríssimos humoristas brasileiros, ou talvez nenhum, arriscavam emular o big boss dos Estados Unidos. Até então desconhecido no universo da comédia, Marinho decidiu segurar a batata quente e logo se destacou. A façanha, primeiro, turbinou as redes sociais do novato, que atualmente totalizam 460 mil seguidores. Depois, lhe rendeu convites para dar entrevistas tanto online quanto no rádio e na televisão. Em todas, o rapaz esbanjou versatilidade. Revelou-se capaz de imitar desde figurões da política nacional – Ciro Gomes, João Doria, Henrique Meirelles, Sergio Moro, Marcelo Crivella – até o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, e atores gringos, como Leonardo DiCaprio. Há um ano e quatro meses, acabou se tornando integrante do Pânico, o longevo e escrachado programa da Jovem Pan FM. Em razão do emprego, abandonou a incipiente carreira de executivo e trocou o Rio de Janeiro por São Paulo, onde vive com uma irmã, a cantora Giulia Be.
Agora, às vésperas de o democrata Joe Biden assumir a Casa Branca, o artista volta e meia ouve perguntas do gênero: “Você estava torcendo para o Trump ganhar, certo? Não queria perder a imitação…” Errado. Marinho, de fato, torcia para Trump, só que por motivos puramente ideológicos. “Brinco que já nasci de terno. Sou um liberal conservador.”

De origem abastada, o moço não tem nenhum parentesco com os proprietários da Globo. Mesmo assim, costuma zombar que pertence à “parte mais rica da família deles”. É filho de Paulo Marinho, empresário que dirige o PSDB fluminense desde 2019 e que articulou a campanha de Bolsonaro à Presidência (depois das eleições, os dois romperam). Do pai, o rapaz diz que herdou o traquejo social. Da mãe, uma designer de interiores, pegou o gosto pelo inglês. Aprendeu o idioma com ela, ainda menino, e o aprimorou em colégios bilíngues. Entre 2014 e 2015, estudou ciências políticas na Universidade de Nova York. Hoje cursa o último semestre de direito, mas não planeja exercer a profissão. “Encaro o diploma como uma apólice de seguro. Vai que minha trajetória de comunicador não resulte tão exitosa quanto imagino…” Ele rejeita com veemência o mero rótulo de imitador ou humorista. “Me chame de comunicador, por gentileza. As imitações e o humor são apenas algumas das ferramentas que utilizo para me comunicar em larga escala.”
Apesar da pouca idade, fala de um jeito bem emplumado, que lembra o do senador Fernando Collor. Não à toa, vai registrando no iPhone palavras e expressões inusuais que garimpa em inglês ou português e que, um dia, cogita empregar. O glossário já soma 2 920 vocábulos. Para domar os fartos cabelos negros, usa gel “à maneira de Mitt Romney”, o republicano que Barack Obama derrotou na corrida presidencial de 2012. Quando se veste, segue “a galhardia” de Frank Sinatra, Paul Newman, Dean Martin e “todos aqueles machos alfa do passado”, o que lhe confere um visual indubitavelmente coxinha.
Por ironia, a primeira personalidade que Marinho imitou nunca rezou na cartilha dos liberais conservadores. Foi Luiz Inácio Lula da Silva. “Eu tinha somente 8 anos e vi um discurso dele na tevê.” Desde então, não deixou mais de se metamorfosear, a ponto de hoje dominar um repertório com quase cem imitações. Em paralelo, se converteu num aficionado pela retórica dos políticos, sobretudo a de Ronald Reagan, “um grande ídolo, referência máxima”. “Há pessoas que recorrem à internet para buscar videoclipes, trechos de filmes ou cenas de surf. Eu procuro comícios.” Ele jura que escutou (e analisou) 90% dos pronunciamentos de Trump enquanto tentava macaqueá-lo. Durante o processo de aprendizado, também assistiu às caricaturas geniais que os atores Darrell Hammond e John Di Domenico fazem do presidente. “Não creio que nenhum de nós vá parar de imitá-lo, não. Mesmo com a derrocada nas urnas, o Trump continuará relevante. O cara é um tipo inescapável. Gerou animosidades, mas governou como um republicano de fibra. Cortou impostos, desregulamentou a economia, criou empregos e defendeu valores patrióticos. Muita gente jamais se esquecerá disso.”
(revista piauí)

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Joia rara

Otto Lara Resende agora brilha como cantor

A dengue hemorrágica chegou sorrateiramente e, em poucos dias, levou o garoto de olhos amendoados à uti. Ele mal completara 5 anos quando a doença o castigou com diarreias incessantes, vômitos caudalosos e um febrão obstinado. Duas transfusões de sangue não bastaram para reanimá-lo. À beira da cama em que o filho agonizava, o dramaturgo Bruno Lara Resende lhe acariciou as mãos e se desmanchou numa declaração de amor. A criança o escutou por uns segundos, mas logo se aborreceu. “Mahler, papai, Mahler!”, suplicou baixinho. O pai entendeu de imediato o pedido. O menino desejava ouvir a Sinfonia Nº 1, de Gustav Mahler. “Era como se me dissesse: ‘Deixe de choramingo, cara! Eu quero energia!” Sem hesitar, o pai entoou um trecho da composição enquanto imitava os gestos exaltados de um maestro.
O moribundo felizmente sobreviveu e hoje não só continua fissurado por peças eruditas como se delicia com um vasto repertório popular. Neto mais jovem do escritor mineiro Otto Lara Resende, de quem herdou nome e sobrenome, o garoto festejou 13 anos em maio e, há seis meses, vem colecionando admiradores no Instagram justamente por causa do apreço pela música. Toda semana, a rede social abriga um novo vídeo do rapazinho. São produções caseiras, sem cortes ou efeitos especiais, em que o pré-adolescente canta sambas, baiões, serestas, choros e sucessos da mpb, sempre a cappella.
Ele costuma gravar as cenas no jardim do sobrado onde mora com os pais e dois gatos vira-latas. Trajando roupas informais, se acomoda sobre um banco de madeira e, diante de uma câmera que nunca se move, solta a voz. Quase não gesticula durante as apresentações. Às vezes, batuca nas pernas para marcar o ritmo ou espicha os braços para enfatizar um verso. Enuncia as letras das canções com extrema clareza e frequentemente alonga os erres das palavras: rrresta, brilharrr, melhorrr, forrrnalha. Quando termina o solo, assume um tom professoral e dá algumas explicações: “A música que acabei de cantarrr, Juízo Final, é de Nelson Cavaquinho. Eu amo a interrrpretação da guerrrreira Clara Nunes. Salve, Nelson Cavaquinho! Salve, Clara Nunes! E viva o samba brasileiro!” Carioca, torcedor do Botafogo e portelense, o cantor tem síndrome de Down.

Otto Iantas de Lara Resende demorou muito para caminhar e falar. Em compensação, antes dos 2 anos, já se revelava capaz de identificar composições eruditas. “Ele adorava uns dvds infantis com músicas clássicas que ganhou logo depois de nascer. Assistia à coleção sem parar, absolutamente hipnotizado. Um dia, ouviu Für Elise, do Beethoven, num aplicativo do iPad. Para minha surpresa, largou o tablet, engatinhou até a pilha de dvds e examinou um por um. De repente, sem nenhuma ajuda, localizou o que trazia Für Elise e o separou”, recorda a atriz Raquel Iantas, mãe do menino.
Um pouco mais tarde, o garoto descobriu os regentes. Gostava de vídeos em que Leonard Bernstein, Herbert von Karajan, Claudio Abbado ou Gustavo Dudamel comandavam as principais orquestras do mundo. A criança observava os maestros com tanta atenção que aprendeu a distinguir um do outro. “Suponha que a gente botasse para tocar a Nona Sinfonia de Beethoven, sob a regência do Bernstein”, prossegue a atriz. “Otto arranjava um jeito de nos avisar que preferia ouvir a mesma sinfonia conduzida pelo Karajan.”
Quando se alfabetizou, com 7 anos, o menino compreendeu a engrenagem das canções populares. Perceber que a música poderia se associar às letras para criar um universo tão reluzente quanto o erudito lhe soou como uma iluminação. De início, se encantou por Adriana Partimpim e pelo grupo Palavra Cantada. Em seguida, vieram os Beatles, Frank Sinatra, Elvis Presley, Noel Rosa, Cartola, Paulinho da Viola, Luiz Gonzaga, Tom Jobim, Chico Buarque… Ora os pais mostravam os artistas, ora o próprio garoto os caçava na internet. O pesquisador mirim desenvolveu, então, a habilidade de memorizar não apenas as canções como os nomes de seus intérpretes, autores e instrumentistas.
Em 2015, ele andava enfeitiçado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. Na ocasião, os baianos comemoravam cinco décadas de carreira com uma turnê que passaria pelo Rio de Janeiro, onde o menino vive. A família resolveu levá-lo, mas só atentou que a casa de espetáculos vetava a entrada de crianças depois de comprar os ingressos.
Às vésperas do show, Bruno Lara Resende – que já exerceu a advocacia – redigiu uma carta questionando a proibição. Argumentou não existir nada na lei brasileira que justificasse impedir qualquer menor de ver uma exibição como aquela em companhia dos pais. O assunto chegou à imprensa, e um juiz autorizou o comparecimento do menino. Foi assim que o pequeno fã acabou visitando os camarins dos ídolos. Desde então, Caetano o convida para os concertos que faz na cidade.

No finzinho de março, o garoto se sentia desanimado, uma vez que a pandemia do novo coronavírus o privava de frequentar a escola, as aulas particulares de canto e percussão, as rodas de samba ou chorinho e a temporada carioca de shows. Para estimular o filho, Raquel Iantas lhe sugeriu cantarolar algo. Com um boné de adulto e sem camisa, o pré-adolescente – que só tem uma irmã, bem mais velha – atacou de Carinhoso enquanto tomava sol.
A atriz registrou a brincadeira doméstica, publicou a cena no Instagram dela mesma e recebeu 411 comentários elogiosos. Uma semana depois, o garoto protagonizou outro vídeo, agora interpretando Desde que o Samba É Samba, de Caetano. O compositor se emocionou com a homenagem e a compartilhou. A partir daí, as gravações do menino pelo celular da mãe se tornaram rotineiras e a fama dele cresceu. Hoje, o perfil da atriz ultrapassa os 7,9 mil seguidores. Em março, somava 2,8 mil.
Odara, claro!”, respondeu o rapazinho quando lhe perguntei qual a canção de que mais gosta. Não precisei indagar o motivo. Assim que o jovem cantor deu uma palinha da música, concluí que a própria letra de Caetano se encarregava de esclarecer: Deixa eu cantar/Que é pro mundo ficar odara/Pra ficar tudo joia rara/ Qualquer coisa que se sonhara/Canto e danço que dará.
(revista piauí)

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