segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

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Um sem-teto à espera da tevê digital
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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Meu guri

A mãe, a avó e a mulher de um dos 250 mil brasileiros presos antes do julgamento*

Quando o celular tocou, Conceição sentiu uma fisgada no estômago. “Coisa boa não deve ser”, intuiu enquanto caçava o telefone. Não espiou o relógio, mas sabia que passava um pouco das cinco horas. Só notícia ruim chegaria tão cedo. Como de hábito, a empregada doméstica já estava de pé. No banheiro da casa inacabada, aprontava-se para o demorado trajeto até o apartamento dos patrões, em Copacabana. “Um ônibus, dois metrôs e uma sandália de primeira”, gracejava sempre que lhe perguntavam quantas conduções tinha de enfrentar logo pela manhã. Moradora da Baixada Fluminense, dificilmente desembarcava no mais célebre dos bairros cariocas em menos de noventa minutos. “Ceição, prenderam o Jeremias”, disparou uma amiga mal a doméstica pegou o aparelho. “O meu filho? Não é possível! Tu se enganou.” A amiga confirmou: “O Jeremias, sim. Mas não me contaram o motivo.” Entre a vertigem e o desespero, Conceição acordou o marido: “Amor, tu não vai acreditar…”
Na véspera, dia 2 de outubro de 2016, um domingo de eleições, a doméstica deixou o sobradinho em São João de Meriti e seguiu para Belford Roxo, outro município da Baixada, onde se criou. Iria votar. Num boteco de Belford, avistou o filho de 20 anos, que jogava conversa fora com um grupo de conhecidos. Não precisou se aproximar demais para perceber que o moço bebera além da conta. “Que horror, Jeremias! Encher a cara desse jeito… Vamos embora!”, pediu inúmeras vezes, sem conseguir dobrá-lo. Não por acaso, quando digeriu minimamente a notícia da detenção, imaginou que o rapaz se metera numa briga. “Trocou socos de madrugada e acabou preso”, comentou com o marido depois de avisar à patroa que iria faltar.
O casal de negros sobressai pela discrepância física. Conceição, à época com 38 anos, é relativamente baixa e pesa 141 quilos. Já o marido, uma década mais novo, mede 2 metros de altura e se conserva magro. Segurança de um mercado, se casou com a doméstica em março de 2015. Apesar de não ser o pai do jovem aprisionado, fez questão de acompanhar a mulher à 64ª Delegacia de Polícia Civil, no Centro de Meriti.
“Cadê meu filho? Quero ver o menino agora”, suplicou Conceição assim que a atenderam. “Não pode”, retrucaram os policiais. “Onde botaram o documento dele? Quem me garante que vocês não prenderam outro Jeremias?”, prosseguiu a mãe. Os policiais explicaram que se tratava mesmo do rapaz, mas não mostraram a carteira de identidade. “Ele cometeu que tipo de crime?”, indagou a doméstica. “Um cinco sete”, informaram. “É briga?”, assuntou. “Não, senhora. Artigo 157 do Código Penal. Roubo.” Roubo? “Deus do céu! Eu falhei…”, murmurou Conceição segundos antes de desmaiar.

Emoji
Como um autêntico representante da geração que cresceu sob a égide da internet, Jeremias gosta das redes sociais. No Facebook, reúne um número considerável de amigos (4 251) e publica diversos posts de caráter pessoal, ainda que telegráficos. Ora relata o próprio cotidiano, ora escreve sobre seus relacionamentos amorosos. No sábado, 1º de outubro de 2016, abriu a rotina digital com um anúncio: “Festinha da Árvore. Hoje, às 21 horas, mulherada que quiser brotar é só chamar no chat que a tropa busca em casa.” Gíria comum entre jovens fluminenses, “brotar” significa “aparecer”. E a expressão “festinha da árvore” provavelmente deriva de um funk: “Hoje é Festa da Árvore, tá?/Só vai quem trepa.” Mais tarde, Jeremias registrou: “Comecei, hein?” Associou à frase um emoji inequívoco: duas canecas de chope fazendo um brinde. No dia seguinte, se gabou: “Onze da manhã. Estamos aqui no pique, sem dormir.” Àquela altura, o primeiro turno das eleições municipais já se desenrolava em todo o país. Vários estados impunham a Lei Seca e proibiam tanto a venda quanto o consumo público de álcool durante as votações. O Rio de Janeiro, porém, não adota a restrição desde 1996.
À noite, quando as urnas se fecharam, o peemedebista Waguinho soube que se tornara prefeito de Belford Roxo (uma semana depois, um recurso judicial da oposição levaria a disputa para o segundo turno, vencido igualmente pelo candidato do PMDB). O ótimo desempenho eleitoral empolgou os correligionários do vitorioso, que distribuíram cerveja em alguns pontos da cidade. Jeremias aproveitou a boca-livre e, aceso havia mais de 24 horas, continuou se embriagando.
O negro esguio, de cabelo bem curto, bigodinho, cavanhaque ralo e brinco, passava uma temporada em Belford, na casa de Madalena, a avó materna, que ajudou a educá-lo. Estava separado da mulher, Isabel, com quem estabeleceu uma relação bastante instável e gerou um menino, que acabara de festejar 3 anos. A moça e o garoto moravam na Zona Norte carioca, em companhia da família dela. Grávida de dois meses, Isabel esperava o segundo filho, uma menina, também de Jeremias.
Ele, que não concluiu o ensino fundamental e trabalhava desde a adolescência, arranjara emprego numa transportadora como ajudante de caminhão. Faturava 980 reais por mês, sem carteira assinada. Ainda criança, já se proclamava flamenguista doente e expert em futebol. Tentou, inclusive, virar jogador. Chegou a treinar em clubes modestos – Nova Iguaçu, Duque de Caxias –, mas não vingou. Fã do argentino Lionel Messi, cogitou batizar o filho com o nome de outro ídolo, Felipe Anderson, meia da Lazio que abocanhou uma medalha de ouro pela Seleção Brasileira nas Olimpíadas de 2016. Isabel o dissuadiu da ideia.
madrugada do dia 3 encontrou Jeremias e seus amigos em plena farra. Às tantas, um jovem de 17 anos se aproximou do bar onde o grupo se divertia. Saltou da moto que pilotava – uma Honda 125 cilindradas, sem placa – e entrou. Era um “bucha”, garoto que presta serviços miúdos para narcotraficantes, embora não pertença às facções criminosas. Os baladeiros o conheciam. Na turma, havia um sujeito que carregava uma pistola falsa. Conversa vai, conversa vem, o motoqueiro sugeriu: “Topa um rolê, Jeremias? Podíamos ir para os lados de Meriti.” Muito bêbado, o ajudante de caminhão aceitou o convite.
Antes de deixar o boteco, o “bucha” pegou emprestada a arma de mentira e a guardou na cintura. Cerca de 8 quilômetros separam Belford de Meriti. Às 2h55, já no município vizinho, o piloto da moto viu uma morena caminhando por um lugar escuro. “Vamos catar o telefone dela. Depois a gente vende e divide a grana”, propôs enquanto transferia a pistola para Jeremias – que, num arroubo, pulou da garupa e intimidou a vítima. A mulher, sem esboçar reação, entregou o celular e o carregador. O aparelho Samsung custara aproximadamente 150 reais. No bolso, Jeremias trazia um modelo bem mais caro, de 800 reais, que ele próprio havia comprado.
Tão logo os assaltantes fugiram, dois PMs que vigiavam as redondezas os abordaram. No mesmo instante, a vítima correu até a patrulha. “Esses moleques me atacaram”, gritou. Capturada, a dupla seguiu para a 64ª DP. Ali, Jeremias – que não tinha antecedentes criminais – contatou a família de Isabel: “Me ferrei.” Ela, estranhamente calma, tentou acionar os parentes do rapaz. Como não conseguiu, procurou a amiga de Conceição. Só mais tarde, lembrando o calvário que um primo enfrentara no xadrez, se alarmou e desandou a chorar.
Às 5h45, um investigador registrou a ocorrência. Iniciou-se, então, o inquérito policial – que se encerrou às 6h31. O delegado adjunto Fabrício Costa determinou a apreensão da moto e da pistola falsa, encaminhou o motoqueiro para a Vara da Infância e Juventude, devolveu o celular à mulher e prendeu Jeremias em flagrante. Indiciou-o não apenas por cometer um roubo “sob grave ameaça” (artigo 157 do Código Penal), mas também por outro crime: realizar o assalto com um menor de 18 anos, o que fere o Estatuto da Criança e do Adolescente. De quebra, aconselhou à Justiça que transformasse “a prisão flagrancial em preventiva”. Ou melhor: que impedisse Jeremias de responder o processo fora do cárcere. Para justificar a recomendação, o delegado invocou a premência de garantir “a ordem pública”, uma vez que delitos como o praticado pelo ajudante de caminhão provocam “intranquilidade no seio social, pânico e sensação de insegurança”.
Poucas horas depois, Yedda Christina Filizzola Assunção, juíza da 1ª Vara Criminal de Meriti, acatou a recomendação e determinou a prisão preventiva de Jeremias. Ratificou a necessidade de assegurar “a ordem pública” e acrescentou a de permitir “o bom andamento” do processo: a vítima, que ainda testemunharia no tribunal, poderia se sentir ameaçada caso o indiciado estivesse solto. Com o intuito de demonstrar o quanto a cidade – notoriamente violenta – precisava de paz, a meritíssima mencionou um decreto do então prefeito Sandro Matos, que em junho de 2016 declarou a segurança de Meriti sob estado de emergência por 180 dias. O político demandava, assim, que o batalhão local da PM ganhasse um reforço de pelo menos 200 policiais e que a Força Nacional passasse a atuar no município. Nem o governo estadual, nem o federal atenderam às reivindicações.
A decisão da magistrada converteu Jeremias numa espécie de preso bastante comum. Em 2015, o Ministério da Justiça divulgou uma alentada radiografia do sistema penitenciário brasileiro. Trata-se do levantamento mais extensivo e atual sobre o tema (uma nova versão deve sair brevemente). Segundo a pesquisa, no dia 31 de dezembro de 2014, 40% da população carcerária do país se encontrava em situação idêntica à de Jeremias: atrás das grades, sem ter ainda nenhuma condenação. Eram quase 250 mil detentos, num universo de 622 mil. A França, em contrapartida, ostenta uma taxa de 27%. Os Estados Unidos, de 20,5%. E a Alemanha, de 20%. Mesmo na América Latina, o Brasil não se sai muito bem. Perde para a Colômbia (36%) e o Chile (30%). Mas supera a Bolívia (86%) e o Paraguai (75%).
O quadro revelava-se tão mais dramático quanto menor o foco do estudo. Entre os 26 estados do país, dezessete exibiam índices maiores que a média de 40%, incluindo o Rio, berço de Jeremias (42%). Tocantins liderava o grupo com uma cifra igual à paraguaia. Já na seara dos estados em que a proporção não ultrapassava os 30%, figuravam apenas Mato Grosso do Sul (30%), São Paulo (29%), Acre (27%) e Santa Catarina (26%).
Outra análise, agora do Conselho Nacional de Justiça, mostra que hoje os sem-julgamento permanecem no cárcere de 172 a 974 dias até a promulgação de uma sentença. O período oscila conforme a região. No Rio, a média é de 375 dias.

Agiota
“C
eição! Ceição!” Os gritos assustados e os tapinhas hesitantes que o marido lhe desferia no rosto finalmente reanimaram a doméstica. “Eu falhei. Eu falhei. Eu falhei.” O pensamento que antecedera o desmaio ainda teimava em assombrá-la. Conceição se sentia responsável pelo infortúnio de Jeremias, embora não compreendesse exatamente por quê. Faltou mais carinho, mais disponibilidade? Até aquele momento, acreditava que fizera o máximo para criar os três filhos, todos frutos da união com um funcionário da prefeitura carioca, que durou onze anos.
“Jeremias não ficará em Meriti. Vai para Bangu daqui a pouco.” Os policiais da 64ª DP deram a informação sem nenhum rodeio, quase com displicência, mas a doméstica a recebeu como um tiro: “Bangu?! A prisão onde enfiam os tubarões?!” De fato, o Complexo Penitenciário de Gericinó – antigo Complexo Penitenciário de Bangu, denominação que ainda prevalece informalmente – abriga milicianos, narcotraficantes e corruptos de peso. O ex-governador Sérgio Cabral e outros criminosos da Lava Jato estiveram ali. Construído na Zona Oeste do Rio, é o maior do estado, com 26 presídios. Por isso, também aloja os bagrinhos.
Enquanto aguardava a transferência de Jeremias, Conceição assumiu a penosa tarefa de comunicar o ocorrido para os familiares. O pai do rapaz, que nunca se afastara das crias, reagiu com indignação. Disse que o filho não merecia mais o apoio dele. Já a avó, Madalena, perdeu o chão. Pastora de uma pequena igreja evangélica, não parava de berrar à medida que a doméstica lhe detalhava o episódio por telefone. “Socorro! Socorro!”, pedia, talvez para Deus, talvez para a vizinhança. Berrou tanto que a acudiram. Quando sossegou, tratou de ir à delegacia. Assim que chegou, pousou as mãos sobre as paredes da DP e rezou demoradamente, de olhos fechados. Entre uma oração e outra, perguntava-se por que o neto fizera tamanha asneira. Ela e Conceição nutriam a esperança de vê-lo no instante em que saísse para Bangu. Não conseguiram.
Rapidamente, a notícia da prisão se alastrou e choveram mensagens solidárias no Facebook de Jeremias: “Logo tu?”; “Que aconteceu, menor? É verdade?”; “Estou cheio de ódio no bagulho!”; “Vontade de te bater, cara! Tem merda na cabeça? Eu te amo, meu amorzinho!”; “E agora, quem vai ficar me perturbando no Zap?”; “#SoltaMeuManoSeuJuiz”; “Moleque puro, sangue bom. Não dá pra acreditar.” Em vários posts, uma frase se repetia: “A cadeia é longa, mas não é perpétua.”
Na ocasião do assalto, Conceição e o marido ganhavam juntos 4 800 reais por mês. Se não passavam necessidade, tampouco dispunham de uma poupança significativa. Haviam economizado apenas 650 reais para emergências. Não à toa, mal descobriu que Jeremias precisaria de um advogado, a doméstica acionou a Defensoria Pública no fórum de Meriti. Lá soube que o defensor gratuito só poderia assumir o caso dentro de duas semanas. Era tempo demais para a agonia de uma mãe. Restava-lhe correr atrás de um advogado particular e barato.
Decidiu, então, bater à porta dos profissionais que se espalham pelo Centro do município. Na companhia de uma amiga, visitou inúmeros escritórios, mas sempre se deparava com preços salgados. Já cogitava desistir quando encontrou Maria Nalva Bezerra. “Fecho por 6 mil reais”, propôs a criminalista. Ela cobraria 2 mil de entrada e oito parcelas mensais de 500 reais, sem juros. O valor estava abaixo do preconizado pela Ordem dos Advogados do Brasil. Conforme a tabela de honorários que a seção fluminense da OAB divulgou em outubro de 2016, processos do gênero deveriam custar, no mínimo, 9 072 reais.
Mesmo sem fazer ideia de como arrumaria o dinheiro da entrada, Conceição aceitou a proposta. Pediu empréstimos para conhecidos e não arranjou nem um centavo. Ninguém tinha nada sobrando. “Fale com seus patrões”, sugeriram. Ela se negou: “Vou morrer de vergonha. E ainda corro o risco de me humilharem.” Sem alternativas, procurou um agiota e solicitou 2 mil redondos (pretendia guardar a poupança de 650 para gastos adicionais). “Por que tu quer tanta grana?”, inquiriu o sujeito. “Porque não consigo mais dormir. Ou tiro meu filho da cadeia, ou enlouqueço.” O agiota concordou. Iria lhe entregar a quantia, mas sob uma condição: a doméstica teria de devolver 4 800, em prestações de 600 reais.

Airsoft
C
earense de Ipueiras, às margens do sertão, Maria Nalva Bezerra já perdeu completamente o sotaque nordestino. A advogada deixou a cidadezinha na infância e logo se estabeleceu em São João de Meriti. “Sou do interior do interior do interior”, costuma dizer, com um híbrido de orgulho e zombaria. Desde que chegou à Baixada, mora na mesma rua, perto de uma favela. O pai ganhava a vida como servente de pedreiro e, depois, vigia. A mãe, dona de casa, se encarregava de educar os três filhos.
Quando ingressou na PUC do Rio para cursar direito, a primogênita se tornou referência entre os Bezerra. Uma doutora com nosso sangue? Louvado seja o Padim Ciço! Jamais um antepassado progredira tanto. Usufruindo de uma bolsa integral oferecida pela própria universidade, a jovem se formou em 2002. Antes, estagiou no corpo jurídico da Fundação Getulio Vargas. Tinha currículo para pleitear uma vaga em grandes escritórios cariocas, mas resolveu abrir o dela. “Queria me dedicar à população simples de Meriti. É uma gente que conheço bem.” Hoje, beirando os 40 anos, cuida de 300 ações. Prioriza a defesa do consumidor, os processos trabalhistas, os divórcios e os conflitos que envolvem pensões alimentícias. Na área criminal, evita casos de estupro, pedofilia ou homicídio. “Não sinto empatia nem por estupradores, nem por pedófilos, nem por assassinos. Seria embaraçoso defendê-los.” Esquiva-se igualmente do “narcotráfico pesado”. “Temo virar refém, entende? Se você trabalha para as facções, acaba escutando muita coisa, muito segredo, e não se livra mais dos caras. Prefiro as causas menores: porte ilegal de armas, roubos pequenos, comércio miúdo de drogas.”
Seu escritório ocupa dois pavimentos de 20 metros quadrados numa galeria comercial bastante franciscana. A advogada divide o espaço com um colega, um assistente e um estagiário. Na sala de espera, uma pintura chama a atenção. Traz a imagem de um Cristo quase fantasmagórico, que emite feixes de luz. Pouco adiante, afixada à parede, uma folha de sulfite exibe um texto atribuído ao papa Francisco. Título: Família, Lugar de Perdão. “Não me considero religiosa, mas vários dos meus clientes se consideram. Por isso, recorri à figura de Jesus. Ele é unanimidade, né? Quem não gosta de Cristo? Evangélicos, católicos, espíritas, o pessoal da macumba… Todo mundo gosta.”
Na manhã de 6 de outubro, depois que Conceição a contratou, a advogada baixinha e elétrica rumou para Bangu. Em torno do complexo penitenciário, comprou um short azul-marinho, uma camiseta branca, Havaianas da mesma cor, duas cuecas, uma escova, uma pasta de dentes, um sabonete, um aparelho de barbear, um desodorante e um pacote de biscoito doce. Quando entram na prisão, os detentos precisam tirar as próprias roupas e ganham somente uma t-shirt, uma bermuda, um par de chinelos, um kit básico de higiene e um cobertor. Se desejarem algo mais, devem contar com a benevolência de quem os visita.
Dentro do complexo, a criminalista recebeu a informação de que Jeremias se encontrava num presídio reservado à facção Amigos dos Amigos. O grupo – popularizado pela sigla ADA – domina uma parcela das comunidades pobres fluminenses onde existe tráfico de drogas. Seus rivais são o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro. “Meu cliente não faz parte de nenhuma organização. Por que o puseram lá?”, protestou a advogada. Porque a favela onde vivia com a avó está sob o controle da ADA, esclareceram. “Deu ruim. Melhor botarem o rapaz numa cela mais neutra, em que não haja integrantes perigosos da facção. É possível?” Responderam que sim.
Ainda no dia 6, a criminalista conseguiu ver Jeremias. O jovem lhe pareceu arrasado. “Chorava sem parar e se declarava arrependido. Contou da bebedeira, perguntou da mãe e descreveu o que lembrava do assalto.” Também frisou que sabia ter usado uma pistola falsa.
De acordo com a lei federal 10826, de 2003, não se permitem no Brasil a fabricação, a venda ou a importação de objetos que se assemelhem às armas de fogo verdadeiras. O veto abrange até os brinquedos. Apenas colecionadores, esportistas ou instrutores podem requisitar do Exército a autorização para adquirir as réplicas. Mesmo assim, no país inteiro, praticam-se crimes com armamentos fictícios. Em 2016, o estado do Rio apreendeu 1 508 deles – contra 9 014 armas reais. Os números são do Instituto de Segurança Pública. Entre os arremedos, havia especialmente pistolas (1 158), além de revólveres, garruchas, carabinas, espingardas, fuzis, metralhadoras, submetralhadoras e artefatos empregados em dois jogos: o paintball e o airsoft.
A assessoria de comunicação da Polícia Civil não forneceu mais detalhes sobre o assunto. Por e-mail e telefone, indaguei de onde vêm os simulacros, quanto custam e como aportam no Rio. Prometeram apurar os dados, mas nunca retornaram.

Medidas cautelares
Depois de analisar o caso, Maria Nalva Bezerra decidiu pedir à Justiça que revogasse a prisão preventiva de Jeremias e o deixasse aguardar o julgamento em liberdade. Ela mandou a reivindicação para a 1ª Vara Criminal de Meriti no dia 27 de novembro. Ponderou que seu cliente tinha residência fixa, emprego e ficha limpa à época do assalto. Alegou também que o rapaz não integrava qualquer facção criminosa. Uma vez solto, não ameaçaria ninguém nem atrapalharia o andamento da ação penal. A criminalista afirmou, ainda, que o ajudante de caminhão precisava seguir trabalhando para sustentar a mulher grávida e o filho. “Nossa sociedade não necessita de mais jovens revoltados com o sistema por não merecerem uma segunda chance”, concluiu. Àquela altura, o Ministério Público já denunciara Jeremias, que se converteu em réu.
Os argumentos da advogada não comoveram o juiz em exercício, Antonio da Fonsêca Lucchese. No dia 2 de dezembro, o magistrado reiterou a prisão preventiva. Sob a ótica de Lucchese, as “eventuais condições subjetivas em favor do acusado, como residência e emprego fixos”, não se revelavam suficientes para tirá-lo do cárcere.
O artigo 5º da Constituição brasileira apregoa que nenhum cidadão pode ser responsabilizado por um crime antes do julgamento. Prendê-lo em regime fechado sem uma sentença condenatória se justifica apenas sob circunstâncias especiais, previstas no artigo 312 do Código de Processo Penal: quando existe o risco de o acusado destruir provas, coagir testemunhas ou tomar outras atitudes que prejudiquem o desenrolar do processo; quando há a possibilidade de o acusado fugir; quando existem indícios de que o acusado vai cometer novos delitos e, assim, abalar a ordem pública; quando há a chance de o acusado subverter a normalidade econômica.
Prisões em flagrante, claro, não exigem um julgamento prévio. Se a autoridade policial surpreender alguém praticando determinadas contravenções, cabe-lhe encarcerar o infrator. Um juiz, no entanto, precisa converter tal detenção em temporária ou preventiva o mais rápido possível. Do contrário, o aprisionado deve sair da cadeia. A prisão temporária ocorre em prol do inquérito – quando a Justiça avalia que o encarceramento do acusado contribuirá para a elucidação do crime. Chama-se temporária pelo fato de não poder ultrapassar certo período: em geral, cinco dias renováveis por mais cinco. Já a preventiva tem duração indefinida.
Caso o magistrado resolva soltar o preso antes do julgamento, o artigo 319 do Código de Processo Penal admite que se adote uma série de precauções – ou medidas cautelares – para propiciar o curso satisfatório da ação. Por exemplo: requerer que o acusado use tornozeleira eletrônica, prendê-lo em casa, impedi-lo de frequentar alguns lugares e proibi-lo de se encontrar com determinadas pessoas ou se ausentar da cidade.
A legislação autoriza, portanto, as prisões preventivas, mas as enxerga como remédios excepcionais. A regra deveria ser a manutenção da liberdade até o advento de uma sentença. Daí as medidas cautelares, que nasceram justamente com o intuito de oferecer alternativas às detenções provisórias.
Acontece que a exceção virou norma. Em 2002, 33% dos presos brasileiros aguardavam julgamento. Em 2014, como já se mostrou, a proporção saltou para 40%. Eis um dos motivos de o país reunir a quarta maior população carcerária do mundo. Ficamos atrás somente dos Estados Unidos, da China e da Rússia. Os 622 mil detentos do Brasil configuram uma taxa de aproximadamente 300 encarcerados para cada 100 mil habitantes. A média internacional é de 144 por 100 mil. Outros índices – compilados pelo Instituto de Defesa do Direito de Defesa, o IDDD, uma entidade privada sem fins lucrativos – desnudam ainda mais a gravidade da situação:
• Entre 2004 e 2014, a população brasileira aumentou 11%. A prisional, em contrapartida, registrou um salto de 85%.
• Se considerarmos o intervalo de 2000 a 2014, o número de prisioneiros cresceu inacreditáveis 167%.
• Em 2014, as cadeias do país somavam 372 mil vagas. Como abrigavam 622 mil detentos, estavam muitíssimo lotadas. Para neutralizar o déficit, necessitariam de 250 mil vagas extras – o que equivaleria praticamente à quantidade de presos sem julgamento.
• A superlotação dos cárceres, aliada às péssimas condições de vários deles, potencializa o risco de motins. Apenas na primeira quinzena de 2017, rebeliões em onze presídios totalizaram 133 mortos.
“A prisão preventiva se transformou num analgésico que diversos juízes receitam para compensar falhas da Justiça criminal, como a morosidade”, diz o advogado Fabio Tofic Simantob, presidente do IDDD. “Já que a sentença costuma tardar, pune-se antes e julga-se depois.” Em paralelo, ainda impera no Brasil a cultura de que o encarceramento é um antídoto eficaz contra a proliferação da criminalidade. “Trata-se de um senso comum que acaba contaminando o Judiciário”, afirma Simantob. A realidade, porém, não endossa a crença. A violência e a sensação de perigo nas ruas continuam altíssimas apesar de haver tanta gente presa. De acordo com as secretarias estaduais de Segurança Pública, o país contabilizou 28 200 assassinatos durante o primeiro semestre deste ano, cifra 6,8% superior à do mesmo período de 2016.
Quando se analisam as particularidades dos 622 mil detentos brasileiros, constata-se que a maioria é do sexo masculino (94%), tem entre 18 e 29 anos (55%), se declara negra ou parda (62%), traficou drogas ou roubou (53%) e não cursou ou não completou o ensino fundamental (60%). Em outras palavras: exibe características iguais às de Jeremias.

Menstruada
F
oi só um mês e meio após a prisão do filho que Conceição pôde vê-lo. Antes, precisou se cadastrar no Complexo Penitenciário de Gericinó e tirar uma carteirinha de visitante. O primeiro encontro lhe dilacerou o coração. Para chegar à quadra esportiva em que os presos recepcionam os parentes, atravessou uma galeria, de onde avistou parte das celas. Baratas e ratos se espalhavam por todo canto. Um cheiro forte de podridão empesteava o ar. Quando finalmente abraçou Jeremias, a doméstica caiu no choro. O filho também desabou. De tão emocionados, nenhum dos dois conseguiu falar muito. Ele se desculpava incessantemente e perguntava de Madalena. “Peça perdão à vó por mim”, repetia.
O complexo dispõe de 15 500 vagas, mas aloja 27 788 detentos. O excesso de prisioneiros assombrou Conceição. “Olha aquele ali”, apontou o rapaz. “Ninguém visita. Têm vários assim por aqui.” Desde então, a doméstica procura ir semanalmente para Bangu, em geral às quartas-feiras ou aos sábados. É a única da família que comparece. O neto prefere que a avó não vá.
Entre São João de Meriti e o presídio, Conceição gasta mais de duas horas. Sai de casa às 4h40, pega três ônibus e desembarca no complexo por volta das 7 horas. Dirige-se para uma fila com uns 300 visitantes que aguardam o momento de entrar. Somente às 10 horas cruza o portão principal. Um ônibus interno a leva até a cadeia em que está Jeremias. Lá a doméstica encara outras quatro filas – para entregar a carteirinha, para adquirir uma senha, para mostrar seus pacotes e para ser revistada.
Normalmente, as revistas não a constrangem. Ela cumprimenta os seguranças, passa por um scanner e pronto. Houve um dia, porém, em que o procedimento mudou e Conceição se sentiu extremamente humilhada. “Certeza que tu não escondeu nada dentro dos bolsos? Passe de novo pelo scanner”, ordenaram. A doméstica passou. “Agora espere naquela salinha.” Uma moça surgiu à porta e, sem fechá-la, mandou:
“Abaixe a bermuda.”
“Por quê?”
“Não interessa. Abaixe.”
Conceição obedeceu.
“Abaixe a calcinha.”
“Eu estou menstruada.”
“Abaixe mesmo assim. E tire o absorvente.”
A doméstica, já bem nervosa, acatou.
“Vire de costas, abra a bunda e agache três vezes.”
A moça sacou uma pequena lanterna e examinou o ânus de Conceição. Depois, permitiu que a visitante se recompusesse. “Tudo em ordem. Liberada.”
Mulheres não podem adentrar a penitenciária de short ou minissaia. Também não devem usar sapatos fechados nem blusas verdes, brancas, pretas ou azul-escuras – cores restritas à indumentária de servidores e detentos. Interdições semelhantes recaem sobre os trajes dos homens.
O governo diz gastar 1 545 reais por mês com cada preso de Bangu, que recebe água potável, quatro refeições diárias e nada mais. Jeremias, como os parceiros de cela, reclama bastante da comida. “É azeda, mãe! Difícil engolir aquilo.” Por isso, a doméstica lhe traz salada, macarrão, farofa, arroz, carne assada, estrogonofe, hambúrguer, linguiça, frango desossado… Sempre cozinha porções extras e as oferece para alguns dos presidiários que ninguém visita. “Tenho pena dos garotos, filho.”
Conceição ainda abastece Jeremias de biscoitos (os recheados são proibidos), leite e chocolate em pó, açúcar, manteiga, repelente, produtos de limpeza, creme dental, sabonete de glicerina, desodorante, papel higiênico, remédios, toalhas de banho, lençóis, roupas e calçados. No fim das contas, despende cerca de 200 reais por semana, incluindo o custo do transporte. Quando possível, dá outros 20 ou 30 reais para o jovem desembolsar numa cantina que fica dentro do presídio. O pai dele se nega a visitá-lo, mas contribui com 300 reais por mês.
Às quatro da tarde, a doméstica deixa o complexo e inicia o extenso trajeto de volta.

Turma do Esculacho
Dos cinco ramais ferroviários que a concessionária SuperVia administra no Grande Rio, o que mais sofre com a guerra do tráfico e o vandalismo é o de Belford Roxo. A estrada de ferro que liga o município onde Jeremias cresceu à capital fluminense possui 31 quilômetros e atende diariamente uma média de 20 mil passageiros. A viagem da primeira até a última estação (Central do Brasil-Belford) costuma levar uma hora. O percurso abarca mais dezessete paradas, não raro em localidades pobres. Entre janeiro e agosto deste ano, houve dezenove interrupções na circulação de trens por causa de tiroteios. Boa parte dos confrontos aconteceu perto do Jacarezinho, uma das maiores favelas cariocas. Não bastasse, em 2016, registraram-se 45 ocorrências de objetos atirados contra os para-brisas das composições. Nesse ínterim, 156 veículos tiveram janelas arrancadas.
A concessionária já detectou 180 passagens clandestinas ao longo da ferrovia. As brechas possibilitam que se furtem cabos de sinalização e que se negociem drogas nos arredores das linhas férreas. A falta de muros em diversos trechos também estimula a construção de moradias à beira dos trilhos, o que afeta o desempenho do sistema. Quando cruzam tais ocupações, os trens – que poderiam atingir a velocidade de 80 quilômetros por hora – precisam reduzi-la para 30.
Com 494 mil habitantes, Belford Roxo padece de mazelas graves. Apenas 40% da cidade dispõe de saneamento básico e 37,5% das escolas públicas localizam-se em zonas de risco, que amargam frequentes conflitos armados. Problemas similares afligem os 461 mil habitantes de São João de Meriti, onde Jeremias cometeu o assalto, e os outros municípios da Baixada: Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Queimados, Nilópolis, Mesquita, Guapimirim, Magé, Paracambi, Japeri, Itaguaí e Seropédica. Espremida entre o litoral e a Serra do Mar, a região de baixas altitudes e superfícies planas concentra quase um quarto da população estadual e serve de dormitório para trabalhadores que ganham o sustento no Rio.
Em 5 de julho de 1962, um episódio sangrento marcou profundamente a Baixada. Na manhã daquela quinta-feira, uma greve geral convulsionava o país. O então primeiro-ministro Tancredo Neves renunciara havia pouco tempo e os grevistas pressionavam o Congresso para formar um gabinete “nacionalista e democrático”. No Centro de Caxias, milhares de passageiros se aglomeravam em torno da linha ferroviária, que se encontrava paralisada. Por volta das cinco da manhã, desencadearam um quebra-quebra e saquearam lojas das redondezas, sobretudo armazéns. À época, os alimentos estavam tabelados, mas inúmeros comerciantes praticavam preços acima dos oficiais ou guardavam os produtos na esperança de que os ventos econômicos mudassem. Daí a fúria do povão. O motim se alastrou pela Baixada e resultou em, no mínimo, quarenta mortes. Testemunhas relataram que os revoltosos capturaram o dono de uma padaria e o assaram no forno do próprio estabelecimento. Sem conseguir sufocar o levante, a polícia local teve de acionar o Exército. A sublevação só refluiu por completo após uma semana. Para proteger o comércio, jovens de classe média se uniram e formaram uma brigada transitória, a Turma do Esculacho.
Em 1963, ainda traumatizados, lojistas de Caxias decidiram arregimentar seguranças particulares e instituir na cidade um corpo de milicianos. O governo do Rio aprovou a ideia. A iniciativa acabou inspirando o nascimento dos grupos de extermínio que predominaram na Baixada entre os anos 70 e o começo do século XXI. Formados especialmente por policiais civis e militares, os esquadrões agiam de maneira clandestina, com o aval financeiro de empresários. Executavam ladrões, estupradores e homicidas – ou qualquer um que lhes parecesse criminoso. Alguns justiceiros alcançaram tamanha influência que se elegeram vereadores, deputados e até mesmo prefeitos.
Segundo o sociólogo José Cláudio Souza Alves, uma chacina impulsionou o ostracismo dos grupos de extermínio. Nova Iguaçu e Queimados presenciaram a matança que se deu em 2005. Na noite de 31 de março, PMs à paisana se deslocaram de carro por ruas dos dois municípios e alvejaram pessoas que esperavam o ônibus, caminhavam, batiam papo ou andavam de bicicleta. Assassinaram 29 delas, indiscriminadamente. Os homicidas reagiam à mão forte de um comandante que prendera policiais por má conduta. Dos onze denunciados pela carnificina, somente quatro foram condenados. Como o massacre repercutiu nacional e internacionalmente, todos os olhos se voltaram para os esquadrões da morte, que julgaram mais prudente sair de cena.
“Tempos depois, ressurgiram com uma nova configuração, a das atuais milícias”, explica Souza Alves, que estuda a Baixada desde 1993 e leciona na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. “Se os grupos de extermínio vendiam segurança, os neomilicianos expandiram os negócios. Ainda cobram taxas das comunidades para livrá-las dos bandidos, mas também exploram o transporte ilegal, a distribuição de água e gás, o comércio de terrenos e a instalação irregular de tevê paga.”
Hoje, além de policiais civis e militares, outros servidores públicos compõem as milícias. É o caso de agentes penitenciários e bombeiros. Os “anjos da guarda” recorrem à atividade paralela com o intuito de engordar os parcos salários e invocam como prova de autoridade o fato de trabalharem para o Estado. Quem ousa recusar a proteção sofre represálias severas. Habitualmente, nos lugares em que reinam, impõem o toque de recolher noturno. À semelhança dos antigos matadores, diversos milicianos enveredaram pela política e ocupam cargos tanto no Legislativo quanto no Executivo.
Em geral, as milícias combatem o narcotráfico. Ocorrem, no entanto, colaborações esporádicas entre as partes. Escutas telefônicas já flagraram os adversários negociando armas, por exemplo.
Durante anos, a comercialização de drogas na Baixada não envolvia as três principais facções do Rio – Comando Vermelho, ADA e Terceiro Comando Puro. Traficantes autônomos controlavam as bocas de fumo sem o emprego de munição pesada. Com frequência, perdoavam ou rolavam as dívidas de clientes em vez de penalizá-los brutalmente. A partir de dezembro de 2008, o panorama se alterou. As UPPs, Unidades de Polícia Pacificadora, chegaram às favelas cariocas e empurraram as facções para a Baixada. O tráfico da região ganhou, assim, contornos mais organizados e cruéis. As quadrilhas rivais não apenas patrocinam chacinas e disputam espaço como se digladiam com as milícias e a PM.
Tradicionalmente, a Baixada apresenta taxas de homicídios maiores que as da cidade do Rio. A diferença aumentou depois das UPPs. É o que indica um levantamento do Instituto de Segurança Pública. Entre 2000 e 2008, a capital registrou uma taxa anual média de 41,2 assassinatos por 100 mil habitantes e a Baixada, de 54,3. Entre 2009 e 2016, a taxa carioca ficou em 22,5 e a da Baixada em 44,1.
A região também abriga contraventores que exploram o jogo do bicho e as máquinas caça-níqueis. Duas poderosas famílias se destacam no ramo: os Abraão David em Nilópolis e os Oliveira em Caxias. Ambas exercem influência sobre ricas escolas de samba: a Beija-Flor e a Grande Rio, respectivamente.
“A criminalidade na Baixada está sob o controle de cachorrões – buldogues ferozes que operam uma engrenagem cheia de tentáculos”, resume Souza Alves. “Nesse contexto, um assaltante como Jeremias é o quê? Uma pulga? Um ácaro? Talvez nem sequer um ácaro o Jeremias seja…”

Em coma
A
s dores apareceram em março de 2017, logo após o chá de bebê. Isabel beirava o oitavo mês de gestação e já escolhera o nome da criança, Ana Clara. “Eu sentia umas pontadas esquisitas. Um troço na barriga que se prolongava pelas costas e me impedia de comer, respirar, viver. Era insuportável. Se eu me deitasse, não conseguia me levantar sozinha. Se me levantavam, não conseguia andar”, recorda a mulher de Jeremias, uma negra de 22 anos, alta, magra e bem eloquente. Ela continuava morando com o filho no apartamento da mãe e do padrasto quando as fisgadas começaram. O imóvel se equilibra em cima de um bar e margeia uma favela do Engenho Novo, bairro da Zona Norte carioca. O Comando Vermelho domina as bocas de fumo que se distribuem pelas imediações. Vira e mexe, troca tiros com a polícia, de tal modo que o quarto de Isabel tem a janela trincada. Obra de uma bala que passou perto demais.
Por causa das dores, num intervalo de quatro dias, a jovem baixou seis vezes em hospitais públicos. “Os médicos faziam exame de toque, falavam que meu corpo estava se preparando para o parto, que o colo do útero ia dilatar e blá-blá-blá. ‘Não é dor’, teimavam. ‘É contração.’ Receitavam umas gotas de dipirona e me mandavam embora, sem ultrassom, sem nada.” Na sexta vez, a mãe de Isabel explodiu. “Jurou que não sairíamos dali enquanto não me tratassem direito. Ela trabalha na área de saúde. É técnica em enfermagem, sabia que podiam investigar melhor a situação.”
Testes de sangue e de urina mostraram que, de fato, havia algo errado. “Resolveram me internar e garantiram que iriam monitorar o quadro. Fiquei a madrugada no hospital. De manhã, me transferiram para uma maternidade porque a dor só piorava. Lá pelo meio-dia, finalmente pediram o ultrassom. A nenê ainda se mexia, lembro direitinho. As horas voaram, a tarde caiu, e nem sinal do ultrassom. Quando o exame rolou, já era noite. Pela expressão do pessoal, compreendi o que estava acontecendo. ‘Dê a notícia para a menina’, ouvi o médico dizer à enfermeira. Não precisavam me dar notícia nenhuma. Eu tinha certeza do que escutaria. Tanto que as lágrimas correram antes mesmo de a enfermeira abrir a boca: ‘A bebê… ela morreu.’ Claro! Por deslize da maternidade, que não providenciou logo o ultrassom. ‘A culpa é de vocês!’, gritei. Depois, tudo apagou porque entrei em coma.”
Àquele dia, 22 de março, o ajudante de caminhão ainda permanecia na cadeia. Sua advogada fizera nova tentativa de libertá-lo em janeiro. Lançou mão das argumentações anteriores e requisitou um habeas corpus no Tribunal de Justiça do Rio. Não funcionou. Após um mês, voltou à 1ª Vara de Meriti e insistiu na liberdade provisória do acusado. O juiz em exercício, Guilherme Rodrigues de Andrade, indeferiu a solicitação e marcou para 16 de maio a audiência que juntaria a defesa, a promotoria, os PMs responsáveis pela prisão, a vítima do roubo e o próprio Jeremias.
O rapaz conheceu Isabel na ilha de Paquetá, um tranquilo bairro carioca, onde a moça nasceu. Os então adolescentes participavam de uma festa. Dançaram, conversaram, deram uns beijos e tchau. Não se encontraram pelos próximos quatro meses. Para compensar a distância, papeavam via internet. “Ele me propôs namoro. Eu aceitei sem piscar, e a gente anunciou que estava num relacionamento sério. Éramos um par de imaturos… Nunca nos trombávamos pessoalmente. Tudo acontecia só no Facebook. Eu, boba, exibia a foto dele para as amigas: ‘Ó, meu namorado!’ Uma tarde, Conceição levou Jeremias até minha casa. As famílias se apresentaram e aí, sim, iniciamos um namoro de verdade.”
Quando o casal transou pela primeira vez, Isabel engravidou. Tinha 17 anos e perdeu a virgindade com Jeremias. “Por que não nos protegemos? Existe tanta alternativa nas farmácias, né? Camisinha, pílula… A gente vacilou. Simples assim. Difícil explicar o motivo. Provavelmente não imaginávamos que transaríamos tão cedo.”
Diante da gestação precoce, Isabel experimentou sensações conflituosas. “Por um lado, pulava de alegria. Ia ganhar um filho do garoto que eu amava. Mas, por outro, temia a reação da minha mãe. Com o meu pai, não me preocupava. Nunca vi o cara. Sei o nome completo dele e só.”
A técnica em enfermagem acabou aceitando a gravidez e Jeremias trocou a Baixada pelo apartamento do Engenho Novo. Isabel largou a escola – cursava o ensino médio –, mas preservou o emprego de atendente no McDonald’s. Repartia as despesas domésticas com o companheiro, que trabalhava para uma firma de interfones.
Logo a jovem se afeiçoou à avó de Jeremias. “Sempre me julguei católica, embora frequente cada vez mais a igreja da pastora. Ela tem o dom da premonição. Numa quarta-feira, avistou um carro lotado de bandidos. Deus lhe ordenou que parasse o automóvel e avisasse o motorista: ‘Se não louvar o Senhor agora, você descerá à sepultura.’ Acontece que a pastora ficou com medo de encarar a bandidagem. Preferiu mandar o recado por uns conhecidos do motorista, que não louvou o Senhor coisa nenhuma. No sábado, assassinaram o sujeito.”
Isabel deixou o emprego depois de parir. Enquanto ela cuidava do filho, Jeremias pulava a cerca. “Me traía à beça. Era tão cara de pau que perdi a confiança nele. Eu morria de ciúme, desconfiava da minha própria sombra. Se pudesse escolher, jamais iria gostar de um moleque como o Jeremias. Mas gosto…” Não à toa, o casal protagonizou incontáveis idas e vindas. Numa das reconciliações, a moça engravidou outra vez – e novamente por descuido. “Pensei em abortar, não vou mentir.” Bebeu chá de canela, que pode provocar contrações uterinas. “Uma amiga me indicou. ‘Põe bastante canela e toma bem quente.’ Por sorte, não deu certo. Eu me arrependeria.”
O coma de Isabel durou seis dias. Mal recobrou a lucidez, a jovem descobriu que sofrera uma apendicite. As pontadas se originavam disso, não da gravidez avançada. Como as providências corretas tardaram, o apêndice inflamado se rompeu e expeliu pus no abdômen da gestante, contaminando o bebê. O enterro de Ana Clara não contou com a presença da mãe, que se mantinha inconsciente. “Tiraram uma foto dela no caixãozinho. É a única imagem que restou da minha filha.”
Isabel ficou três meses internada e peregrinou por sete hospitais – apenas dois particulares. Hoje se sente melhor. “Mas meus cabelos caem muito, não aguento carregar peso e arranjei uma cicatriz imensa, que começa embaixo do umbigo e vai até o peito.” Por ainda crer no futuro, decidiu retomar os estudos em vez de trabalhar. Sobreviverá temporariamente à custa dos familiares. Não raro, acessa o Guerreiras de Bangu e outros grupos que, nas redes sociais, agregam mulheres ou namoradas de presos. À revelia dos parentes, cogita visitar Jeremias. “Talvez valha a pena a gente se dar uma nova oportunidade.”
Recentemente, escreveu sobre Ana Clara no Facebook: “A dor da morte de um filho nunca passa.” Quando o primogênito quer saber do pai, Isabel mente. “O menino adora o Homem-Aranha. Então, invento que Jeremias arrumou emprego longe daqui e vai faturar um dinheirão. ‘Quanta grana, mamãe?’ O suficiente para comprar uma bicicleta do Homem-Aranha, meu bem.”

Prática delitiva
ajudante de caminhão saiu de Bangu em 16 de maio e se apresentou no fórum de Meriti para a audiência. Entretanto, a vítima do assalto e os policiais que o detiveram não compareceram. A juíza Mariana Tavares Shu lhes aplicou multa de um salário mínimo e determinou nova audiência para o dia 20 de junho.
Também em 16 de maio, Maria Nalva Bezerra reivindicou mais uma vez a soltura do preso à 1ª Vara Criminal. Relatou que Isabel se encontrava hospitalizada, que Ana Clara morrera e que o filho de Jeremias necessitava dos cuidados paternos. A promotoria, como nas outras ocasiões, se manifestou contrariamente à advogada. Defendeu a manutenção da preventiva porque, entre outras razões, “as circunstâncias pessoais favoráveis ao acusado – primariedade, ausência de maus antecedentes e existência de ocupação lícita e de residência fixa – […] não impediram a prática delitiva”. Tampouco o fato de “possuir filho menor e mulher gestante” fez Jeremias desistir de roubar. A juíza Tavares Shu assentiu e não o libertou.

Princesa
mensagem aterrissou em meu WhatsApp numa quinta-feira à noite. Era de Conceição: “Finalmente tomei coragem pra falar com você. Rsrs. Tô procurando emprego, mas tá difícil. Tô saindo direto pra procurar e nada. Aí queria te pedir, se você souber de algum trabalho e puder me indicar, vou ser grata. Sou arrumadeira, cozinho bem, passo roupa, tenho curso de cuidadora de idosos na carteira, tenho experiência como operadora de caixa. Sou honesta, não mexo nas coisas de ninguém. Se precisar de carta de referência, pego nos meus empregos anteriores. Se você souber de algum serviço, você me fale. Pode deixar que, se você me indicar, jamais vou fazer nada que te decepcione ou te envergonhe. Preciso muito de ajuda. As contas chegam no final do mês. Fico doida…”
Eu havia travado o primeiro contato com a doméstica em dezembro de 2016. Andava estudando o sistema penitenciário brasileiro e desejava contar a trajetória de algum preso. Quando Conceição resumiu o caso de Jeremias por telefone, resolvi acompanhá-lo. Encontrei-a uma única e rápida vez antes de receber a mensagem pelo WhatsApp. Assim que li o texto, em junho de 2017, escrevi que queria visitá-la. Ela concordou. Até então, parecia um tanto reticente às minhas tentativas de vê-la.
Quase três semanas depois, me aguardava na porta de um sobrado, em São João de Meriti. Foi calorosa quando me cumprimentou. “Tu ainda não conhece a minha casinha, né? Entre, por favor. Eu gosto demais do meu canto. Agora vivo como princesa. Enfrentei tanto aperto na infância… Pensava que Leite Moça custava uma fortuna. ‘A comida mais cara que existe é Leite Moça’, dizia. Imagine… Leite condensado!”
Conceição tem um jeito manso de se expressar. A voz suave às vezes denota tranquilidade. Outras vezes, melancolia. “Fica sossegado porque aqui não rola tráfico. Falam que rola milícia, mas ninguém nunca me cobrou taxa de nada.” Ela e o marido habitam o andar inferior do sobrado, que demanda acabamento. O teto não dispõe de forro e as paredes carecem de pintura. Naquela tarde, os cômodos, espaçosos, se destacavam pela limpeza e organização. O único dormitório exibia um pôster com o desenho de quatro coraçõezinhos e duas alianças, seis fotos do casal e uma data: 21 de março de 2015, o sábado em que Conceição e o parceiro se uniram. Na sala, retratos de família enfeitavam um aparador. Perto do banheiro, um quadro pequenino mostrava Tigrão se apoiando sobre a cabeça do Ursinho Pooh. Sorridentes, os personagens infantis proclamavam: “Nossa amizade é simplesmente um espetáculo.” Embora humilde, a casa ostentava bons eletrodomésticos – geladeira com freezer, micro-ondas, fogão de quatro bocas, liquidificador e um par de televisões.
“Fali”, suspirou a doméstica. A crise econômica a atropelou sem dó. “Os patrões de Copacabana me dispensaram em fevereiro. De lá para cá, não achei emprego fixo, apenas uns bicos. E olha que faço entrevista de montão, em supermercado, em farmácia, em lanchonete. Seria perfeito se me contratassem como caixa. Volto das entrevistas e colo no telefone. Fico esperando me chamarem. ‘Toca, toca, toca’ – é só o que peço. E o danado não toca. Quando pinta alguma grana, descolo umas bijuterias e lingeries em Caxias e tento revender. Ofereço para minhas amigas de Meriti e Belford.”
O marido de Conceição também estava sem trabalho. “Ele perdeu dois empregos, acredita? Agora tu avalia: a gente na pindaíba e com despesa extra por causa do Jeremias. Precisei renegociar as prestações da advogada. Pagava 500 reais todo mês. Desde abril, pago 250. Atrasei o dinheiro do agiota, e o cara quer me esfolar viva. O nosso carrinho – não me pergunte a marca, não entendo de carro – evaporou, coitado. A gente vendeu e já gastou tudo que entrou. Sabe quanto restou na minha conta? Anteontem, passei o cartão e tomei um susto. ‘Caraca! 2,49 reais!’ É o que me sobra. Se a máquina deixasse, sacava os 2,49 e comprava um ovo, um chuchu. Mas a máquina só deixa retirar múltiplos de 20. Ontem mesmo, caiu a ficha: como visitarei Jeremias? Meu marido saiu de manhã apenas com o Bilhete Único no bolso. Eu, nem Bilhete Único tenho. Mas Deus nos proverá. Roubar é que não vou. Odiaria ficar na situação do outro. Mofar em Bangu… Ninguém merece. O correto é trabalhar.”
A família de Conceição reúne muitas domésticas. “Minha mãe, antes de virar pastora, limpava residências no Rio. Minha avó também. Era uma guerreira. Com sacrifício, adquiriu o terreno de Belford Roxo em que minha mãe ainda vive. Ela, a vó, costumava me levar para o serviço. Eu não podia andar pela casa da patroa. A mulher não gostava. Então, a vó me arranjava uma boneca e me punha no quarto de empregada. Eu permanecia o dia inteiro ali, sem televisão nem outros brinquedos. De vez em quando, a vó aparecia com um biscoito, uma fruta, um mingauzinho de farinha láctea. Eu amava farinha láctea. Por isso, não ligava de ficar no quarto. ‘Daqui a pouco, vovó vai trazer farinha láctea.’ Eu, no quarto, só queria saber de farinha láctea. E de biscoito, fruta, iogurte. Imaginava as delícias que faltavam na minha casa e torcia para a vó me arrumar uma porção delas. Será que engordei tanto porque, na infância, passei necessidade? Tipo oito ou oitenta? Antes, comia quase nada. Agora, para compensar, como em excesso. Será?”
Ela preferia não trabalhar mais de doméstica. “Sinto prazer em cuidar das coisas. O problema é a humilhação. Veja o seu Oswaldo, o patrão lá de Copacabana. A mulher dele, um doce. Já o homem… O seu Oswaldo sentava para almoçar na cozinha, a televisão transmitindo negócio de assalto, e o seu Oswaldo: ‘Ah, por que não viro presidente do Brasil? Se fosse presidente, não deixava nenhum pobre pisar em Copacabana. Essas porras estão destruindo tudo aqui na Zona Sul.’ Eu lavava os pratos e matutava: ‘Cara, o seu Oswaldo não enxerga o meu sofrimento com a história do Jeremias? Ele pode até pensar besteira, mas precisa falar na minha frente?’ Só que o homem não aliviava. ‘Roubou? Enfia em Bangu, joga álcool e põe fogo nos vagabundos!’ Eu ouvi aquilo e não me segurei: ‘Poxa, seu Oswaldo, o senhor é um idoso, já devia saber certas verdades. Tem muita gente que não presta em Bangu. Mas ali tem muita gente boa também. Gente de cabeça fraca, que meteu os pés pelas mãos e, depois, se arrependeu.”
Em maio passado, Jeremias aniversariou. A doméstica aproveitou a ocasião e postou uma mensagem no Facebook dele: “Orgulho de você, meu filho. Me perdoe se não sou a mãe com que você sonhou. Tô fazendo o possível pra ser.” Ela tinha 18 anos no dia em que o menino nasceu. E 13 quando engravidou do mais velho. Já o caçula, gerou com 19. “Espio aquelas mulheres na fila de Bangu. Um monte de mulheres aguardando para visitar os familiares. Elas, sim, me parecem fortes. Eu, não. Sou banana. Uma tragédia dessas acaba comigo. Pensar que o Jeremias – tão fechado, tão tímido – ameaçou uma pessoa… ‘Me dá o celular senão te mato!’ Alguém pobre como nós, que provavelmente comprou o telefone com dificuldade…”
Conceição nutre a crença de que o filho nunca mais repetirá tamanho disparate. “Ele agora lê a Palavra. Analisa a Bíblia e aconselha os companheiros de cela: ‘Ninguém aqui pode se revoltar, culpar os outros pelo que nos aconteceu. A gente veio para Bangu com nossas próprias pernas. Se me livrar desse inferno, só vou tratar de curtir minha família. Natal, Réveillon, Páscoa, e a gente apodrecendo na cadeia… Quantas vezes minha mãe chegava do serviço, cansada, e me pedia que preparasse um arroz. Eu reclamava. Hoje, não vejo a hora de estar em casa para botar um arrozinho na mão da minha mãe.’”

Teatro
T
erça-feira, 20 de junho de 2017. Jeremias deixou o Complexo Penitenciário de Gericinó para comparecer novamente à audiência. No fórum de Meriti, Conceição e a pastora pretendiam acompanhar tudo da plateia. Outras dez pessoas engrossavam a comitiva que encorajaria o rapaz a distância: tios, amigos e uma “prima de coração”.
“Vem cá”, chamou a doméstica. “Vou te apresentar minha mãe.” Negra e gorda como a filha, Madalena aparenta 50 e tantos anos. Fala pausadamente, usa óculos grandes e esbanja magnetismo. “Você mora onde?”, me perguntou. No Rio. Zona Sul. “Sei… Conheço bem a Zona Sul… Quando moça, fiz teatro em Copacabana. Trabalhava de empregada para pagar o curso.” Conceição se recorda de assistir à mãe numa peça. Era criança, e os atores jogaram uma bola multicolorida para o público. A menina a agarrou e não queria largá-la de jeito nenhum.
“Também morei em Copacabana. Um velho me sustentava”, continuou a pastora. “Eu, com 17 anos, junto de um sessentão. Praticamente uma prostituta, né? Tempos depois, por sorte, Jesus me escolheu.” Ele a escolheu, não o contrário? “Exato, ninguém escolhe Jesus. Ele é quem nos escolhe. Eu me dizia católica. Macumbeira, não. Nunca gostei de macumba. Só que professava aquele catolicismo de fachada. Um dia, Jesus me levou à Universal e me converti. Agora, lidero uma igreja em Belford. É pentecostal, mas não tem relação com a do Edir Macedo.”
Quando soube do assalto, Madalena se exasperou. “Por que me armaste uma cilada dessas, Senhor? Sou tua serva, e o Senhor me recompensa assim?” Na manhã seguinte, se deparou com uma fiel que lamentava a morte de um filho: “Melhor preso do que morto, pastora.” Madalena caiu em si e se arrependeu da indignação. “Tudo que Deus faz é bom, mesmo que doa”, concluiu.
Indaguei se me concederia uma entrevista mais demorada. Ela topou. Depois, voltou atrás. “Receio prejudicar meu neto. Não insista.”
Marcada para as três da tarde, a audiência começou às seis e dez. A vítima do delito não apareceu de novo, mas os dois PMs que flagraram Jeremias, sim. A juíza Mariana Tavares Shu, a advogada Maria Nalva Bezerra e a promotora os questionaram rapidamente sobre o episódio. Em seguida, o acusado adentrou a sala – de cabeça baixa, camiseta, bermuda, chinelo e algemas. Constrangido, não olhou para os amigos e parentes que o observavam da plateia. Admitiu e descreveu o crime sem evasivas. Enquanto o ouvia, Conceição chorava.
A sentença saiu em 5 de julho. Condenado por roubo e corrupção de menor, Jeremias pegou seis anos, dois meses e vinte dias de prisão. Pela lei, penas de reclusão superiores a quatro anos e inferiores a oito devem ser cumpridas, desde o início, em regime semiaberto. Nesse caso, os condenados vão à cadeia só para dormir. O ajudante de caminhão, portanto, amargou o regime fechado desnecessariamente.
Pouco depois da sentença, Conceição – que segue desempregada – teve um sonho. “Jeremias batia na porta da minha cozinha. Eu abria e não encontrava ninguém. ‘É tu, Jeremias?’ Ele, escondido, se mantinha em silêncio. ‘Não é ninguém, não? Então vou trancar já essa porta.’ Aí o menino se desescondia, me dava um abraço e prometia: ‘Mãe, não se preocupe mais. Agora vou zelar por você.’”
Até 27 de agosto, quando terminei esta reportagem, o rapaz permanecia em Bangu, aguardando os trâmites burocráticos que o libertariam.
* Para preservar a segurança e a privacidade do presidiário e de seus familiares, piauí optou por identificá-los com nomes fictícios.
(revista piauí)

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O humor é meu pastor

Nasce uma igreja no Baixo Augusta

Será uma pegadinha? Impertinente, a pergunta teimava em me assombrar à medida que o roteirista e cineasta Newton Cannito discorria sobre religião. Estávamos em Ipanema, na Zona Sul carioca, e conversávamos havia quase trinta minutos. “Deus não perdoa ninguém”, apregoava o loiro grandalhão, de 43 anos e raízes sicilianas. “Sabe por quê? Porque Ele jamais se enfurece. Quem fica sempre de boa não necessita perdoar porra nenhuma.” Entre uma argumentação e outra, Cannito aspirava um pozinho marrom que esparramava na palma da mão. “Tsunu”, informou, separando bem as sílabas: ti-su-nu. “É um tipo de rapé. Conhece? Um híbrido de tabaco com as cinzas de uma árvore, o pau-pereira.” Para inalar a substância, se valia de um kuripe, pequeno apetrecho em forma de V, que funciona como um canudo. Arranjou-o no Acre, junto à tribo Kuntanawa. “Os índios disseram que o confeccionaram com ossos de onça. Não duvido.” Toda vez que o rapé lhe atravessava a narina, o roteirista fechava os olhos e dava um tranco para trás. “Arde à beça, cara! Parece que jogaram um Halls dentro do meu cérebro.”
Naquela tarde de julho, Cannito me contava que acabara de lançar uma igreja em São Paulo, onde mora. “Faz uns quatro meses”, calculou, enquanto manuseava o kuripe. Com absoluta naturalidade, declarou-se líder e apóstolo da tal congregação, ainda que rejeitasse o título de mestre ou guru. “Bregas demais… Terei de arranjar outra designação.” A notícia me soou inverossímil – e não apenas pelo nome esdrúxulo da igreja, Deus É Humor, que subverte o da evangélica Deus É Amor, concebida por David Miranda em 1962.
Criador de séries televisivas premiadas, como Unidade Básica, coautor da novela Joia Rara, na Globo, e diretor do filme Magal e os Formigas, Cannito vive principalmente de ficção. Às vezes, conduz os devaneios para fora dos sets e, em reuniões com amigos, assume a persona de um palhaço obsessivo, o Doutor Caneta, que toma notas de tudo. Um sujeito assim poderia – por que não? – fundar uma igreja de mentirinha e alardeá-la sarcasticamente pelos quatro cantos. Seria uma espécie de performance, que divertiria os cínicos e ludibriaria os incautos, caso existam tolos o suficiente para fisgar a isca. Embora mil pulgas já se refestelassem atrás de minha orelha, preferi não dizer nada, receoso de azedar a conversa.
“Nasci em São Bernardo do Campo, no AB paulista, e passei a infância com pavor do Lula”, prosseguiu o roteirista. “Ele despontava como líder sindical e me assustava muito, talvez por causa da barba negra e dos berros sobre os palanques. Naquela época, aliás, uma porção de coisas me amedrontava.” Não à toa, virou “fanático religioso”, um menino que precisava se cercar de rituais protetores. “Eu nunca perdia a missa e rezava o terço diversas vezes antes de dormir. Minha mãe, apesar de católica, não se mostrava tão fervorosa. E meu pai, um projetista de elevadores, transitava pelo extremo oposto. Era ateu convicto.”
Na adolescência, o futuro cineasta descobriu o niilismo do filósofo Friedrich Nietzsche e se afastou das trilhas espirituais. Só as retomou em 2004, quando se tornou usuário da ayahuasca. O chá amazônico, empregado durante cerimônias xamânicas, provoca alucinações ou, segundo os adeptos, “mirações” – vislumbres místicos que favorecem o autoconhecimento. “Graças à bebida, que tomo semanalmente, fiquei menos depressivo, arrogante e rancoroso”, avaliou Cannito. “Sem nenhum exagero: a ayahuasca me salvou.” Também o reconciliou com “o lado mais fofo do catolicismo”. “Hoje sou devoto de santo Antônio e admirador de são Francisco.”
Em 2016, num papo debochado entre colegas, o roteirista plantou a ideia de uma nova igreja. “Já sei até como chamá-la – Deus É Humor, a Seita que Dói Menos.” Todo mundo se esbaldou de rir. A receptividade assanhou o autor da troça. “Você vai achar bizarro”, me falou em Ipanema, “mas tenho um lema: se uma piada funciona, convém levá-la a sério.” Meses depois de fazer o gracejo, Cannito se reuniu com vinte conhecidos “para amadurecer a brincadeira”.

Mel e uva
encontro ocorreu em março de 2017, num apartamento do Baixo Augusta, zona boêmia de São Paulo. E ali se repete desde então, uma vez por semana. À turma inicial, uniram-se outros interessados – atores, clowns, músicos, youtubers, escritores, jornalistas. O grupo costuma não somente analisar textos espirituosos de Woody Allen, Millôr Fernandes e G. K. Chesterton como discutir as bases teológicas da nova denominação.
A igreja acredita num Deus misericordioso, que não exige nada dos fiéis: nem adoração, nem obediência. Ele permite, inclusive, que o ridicularizem e coloquem à prova. “Zombar e duvidar de nossas crenças é o melhor jeito de reforçá-las. Precisamos botar a fé em xeque o tempo inteiro. Só assim descobriremos o quanto conseguirá resistir”, pontificou Cannito. Questionar a credulidade e, em seguida, questionar o questionamento. Eis a linha mestra da Deus É Humor.
A liturgia da igreja ora remete à missa católica, ora lembra a mise en scène dos neopentecostais. Nos cultos, que acontecem mensalmente, há confissões públicas de baixarias, a consagração do mel e da uva (em vez do pão e do vinho), a releitura de orações cristãs (“Pai nosso, que estais nos céus/Santificado seja o vosso riso”) e a exaltação do nonsense. Rola, ainda, muita cantoria. O repertório abarca sucessos de Geraldo Azevedo (Sabor Colorido) e Ivan Lins (Bandeira do Divino), além de parodiar Sidney Magal (Tenho) e Alvarenga e Ranchinho (Valsa das Palmas).
Por enquanto, a Deus É Humor canonizou apenas duas personalidades: a comediante Dercy Gonçalves e o modernista Oswald de Andrade, que escreveu inúmeros poemas-piada e já dispõe de uma prece. “Vós, que viestes à Terra para alegrar nossas almas, renovai nossas utopias”, clama um trecho da reza. Brevemente, Chacrinha também ganhará o status de santo.

Dancinhas
A
 conversa em Ipanema terminava quando Cannito revelou que, aos sábados, entre 3 de junho e 8 de julho, a igreja realizou cultos-espetáculos num pequeno teatro paulistano, o Commune. “Promovemos um misto de cabaré, sarau e celebração mística, com esquetes cômicos, banda e dancinhas.” Mal escutei aquilo, decidi libertar todas as pulgas de minha orelha: “Você está me zoando? A Deus É Humor de fato existe ou não passa de um projeto artístico?” O roteirista pareceu surpreso: “Existe, claro! Tanto que registrei o nome como marca religiosa. Somos uma igreja que virou trupe. Ou uma trupe que virou igreja. Dá na mesma.” Confundir para explicar, explicar para confundir… Rogai por mim, são Chacrinha!
(revista piauí)

sábado, 1 de julho de 2017

Coxinha de mortadela

Uma tentativa de unir o Brasil

Não tem jeito. O Fla-Flu que toma conta do país vai continuar – inclusive sob o viés culinário. No momento em que Lula e Bolsonaro lideram as pesquisas eleitorais, o Ragazzo avisa: a coxinha de mortadela não voltará. A rede de fast-food italiano lançou o “salgadinho da união nacional” há pouco mais de um ano, logo depois que a Câmara dos Deputados autorizou o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Na ocasião, a disputa entre “coxinhas” e “mortadelas” atingia o ápice. “A gente avaliou que aquela rivalidade não fazia sentido”, relembra André Marques, o executivo responsável pelo marketing da cadeia de restaurantes. “Quem ganhava com a cisão do Brasil? Ninguém!”, prossegue o diretor, esquecendo-se de todos os alguéns que se aproveitavam da animosidade reinante. “Decidimos, então, propor uma trégua à nossa clientela.” Em vez de hastear bandeiras brancas na porta de cada loja, o Ragazzo preferiu comercializar o inusitado tira-gosto de 60 gramas.
Mal estreou, a coxinha de mortadela revelou-se um arraso. “Teve mais procura que as de frango, quatro queijos, calabresa, camarão e carne desfiada, os outros sabores oferecidos pela rede à época”, conta Marques, sem divulgar números. Durante algum tempo, a novata respondeu por praticamente metade das coxinhas vendidas no Ragazzo.
O triunfo, porém, não resistiu muito. À ascensão meteórica seguiu-se uma derrocada igualmente vertiginosa. Os consumidores deixaram de ver graça no quitute, que acabou se retirando de cena. Foram apenas quatro meses de existência – entre maio e agosto de 2016. O apaziguamento da república via papilas gustativas não passou de ilusão.
E agora, quando a Lava Jato desmascara os dois polos do maniqueísmo político e eleitores de ambos os lados convergem em frustração, não seria o caso de ressuscitar o petisco? “Negativo”, responde o diretor de marketing. “A coxinha de mortadela já deu o que tinha que dar.”

Quibe
E
xibindo uma faixa verde-amarela no pescoço, o deputado faz um breve e ardoroso discurso antes de votar “sim”. “Por um Brasil sem divisões!”, justifica-se, sob os aplausos dos colegas que o rodeiam. Outro parlamentar – de gravata vermelha e tão exaltado quanto o primeiro – também vota “sim”. A cena remete à noite em que o plenário da Câmara, inflamadíssimo, aprovou a queda de Dilma. Só que, desta vez, o “sim” vai chancelar o advento de um novo salvador da pátria: a coxinha de mortadela. São 513 votos favoráveis à iguaria e nenhum contra.
Criado pela PPM, agência publicitária do próprio grupo que controla o Ragazzo, o anúncio de trinta segundos apareceu na Globo, no SBT e na Record por um mês. Tudo indica que a propaganda contribuiu para o sucesso inicial do tira-gosto. Quando saiu do ar, as vendas caíram.
A coxinha custava a bagatela de 1,98 real. Quem a comprasse às segundas, terças ou quartas-feiras recebia outra de graça. Vender barato é um dos trunfos que possibilitaram o crescimento do Ragazzo. Fundada há quase três décadas, a empresa soma 155 restaurantes, localizados em São Paulo, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Amazonas e Rio de Janeiro. A holding que a comanda também administra o Habib’s, cadeia de fast-food árabe, notória por cobrar 99 centavos pelas esfirras. Como a similar italiana, a rede já produziu anúncios espirituosos que aludem à nossa barafunda política. Num deles, dois engravatados travam um diálogo telefônico para lá de suspeito:
“Excelência, descobri um esquema em que todo mundo vai se dar bem.”
“Opa! Quanto a gente levará nessa?”
“Depende. Se pedir dois, leva três. Se pedir 20, leva 30.”
“Quem está dentro?”
“O quibe está totalmente envolvido. E o pastel acabou de entrar.”

Bolonha
N
ão se sabe com precisão como a palavra “coxinha” transpôs a seara gastronômica para se converter em sinônimo de reacionário, conservador, elitista ou partidário da direita. A teoria mais corrente remonta à década de 80, quando policiais militares de São Paulo recebiam vales-refeições tão baixos que só lhes permitiam comprar a guloseima. Com o tempo, “coxinha” virou gíria para designar os PMs e, por extensão, aqueles que os admiram.
Já a relação entre o termo “mortadela” e petistas ou adeptos da esquerda parece advir de maledicências propagadas à direita. Segundo tais boatos, a maioria dos presentes em manifestações convocadas pela Central Única dos Trabalhadores e pelo PT estaria protestando apenas para ganhar um lanche dos organizadores. Ou melhor: um sanduíche de mortadela.
Curiosamente, se considerarmos as origens tanto do petisco quanto do embutido, iremos nos deparar com realidades bem distintas das que lhes associamos hoje. A coxinha nasceu como quitute popular e a mortadela, como pitéu de rico. “Na passagem do século XIX para o XX, a Confeitaria Colombo – a mais tradicional do Rio – oferecia um prato de muita reputação e ainda apreciado por lá: a coxa creme. Feito com perna de frango, aipo, louro, alho-poró, pimenta do reino e leite, o empanado provavelmente inspirou a coxinha”, explica Sandro Dias, professor de história da alimentação no Centro Universitário Senac. Versão em miniatura e mais acessível da coxa creme, o salgadinho logo se alastrou pelos botecos cariocas.
Quanto à mortadela, suas raízes se encontram na Antiguidade greco-romana. “Mas só durante o século XV é que o embutido assumiu características semelhantes às atuais”, diz o professor. A transformação ocorreu em Bolonha, na Itália. “Sofisticada, a iguaria levava carne de porco com uns 15% de gordura, além de azeitonas verdes, noz-moscada, pistache e outros temperos.”
A coxinha do Ragazzo se valia justamente da mortadela tipo Bolonha. “Não posso. Nunca provei”, respondeu Dias quando lhe pedi que atribuísse uma nota para o excêntrico salgadinho. “Em tese, experimentações dessa natureza me agradam. São válidas. Divertidas, até.” E na prática? “Nem sempre funcionam. Misturar coxinha com mortadela… Talvez resulte em algo um tanto pesado, não?”
(revista piauí)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

A volta

O professor que decidiu lecionar no colégio onde sofreu bullying quando adolescente

No último dia 9 de março, enquanto caminhava em direção à sala de aula, Thiago Ricardo Soares, o T. Angel, sentia que alunos e funcionários da escola o observavam com um híbrido de curiosidade e assombro, como se estivessem diante de um alienígena. Eram quase sete da manhã. Recém-contratado, o professor de história iria lecionar pela primeira vez no colégio estadual Doutor Américo Marco Antônio, em Osasco, a quinta maior cidade da Grande São Paulo. Ninguém ousava falar nada para o novato. Simplesmente o mediam dos pés à cabeça, talvez se perguntando de onde surgira uma figura tão exótica.
Magro, alto e muito branco, com os longos cabelos presos num coque, T. Angel pertence à tribo dos que optaram por modificar radicalmente o corpo. Ele não apenas se tatuou do pescoço para baixo como espalhou piercings pelo rosto e pôs alargadores no nariz, nos lóbulos de ambas as orelhas e sob o lábio inferior. Também dividiu a ponta da língua em duas partes, deixando-a parecida com a das cobras, e queimou as costas para produzir cicatrizes similares às de um pássaro que teve as asas arrancadas. Não bastasse, colocou implantes subcutâneos de silicone no braço esquerdo e no meio do peito, que criaram relevos na pele em formato de esferas ou círculos. “Sou um campo de batalha, um terreno aberto às experimentações”, costuma explicar, com voz fina, gestual delicado e óculos de hastes azuis.
Naquela quinta-feira, quando chegou à turma 7G, o professor se apresentou rapidamente e logo abriu espaço para que os cerca de trinta estudantes o inundassem de perguntas. Faria o mesmo nas outras quatro classes onde iria trabalhar, todas do 7º ano. As roupas inusitadas que trajava – uma camiseta bem comprida e uma calça feminina – em nada lembravam o uniforme comportado dos alunos. Por que você se enfeita desse jeito? Seus pais concordam? Doeu para botar os alargadores? E os piercings, estão machucando? Você sofre preconceito? Gosta de futebol? É bicha? Com bom humor e o máximo de sinceridade, T. Angel procurava esclarecer cada dúvida dos adolescentes, inclusive as mais indiscretas. “Bicha? Prefiro dizer que posso me apaixonar por qualquer tipo de pessoa, seja mulher ou não.”
Numa das salas, dois meninos de cabelos descoloridos cismaram com as unhas verde-azuladas do professor de 35 anos. “Você pinta sempre? De que cores?”, indagou um deles. “Depende… De preto, marrom, prateado, rosa”, respondeu T. Angel. “Rosa?! É cor de menina!”, protestou o outro garoto. “A gente não acha certo um homem pintar as unhas”, resumiu. “Não acham? Vejam que curioso: vocês reclamam das minhas unhas, mas descoloriram os cabelos. Antigamente, meninos não podiam nem sonhar em fazer algo do gênero. Ganhariam fama de maricas. Dá para acreditar?” A dupla se entreolhou, sorriu sem graça e liquidou o assunto.

Casulo
Embora estivesse debutando como docente no colégio, T. Angel conhecia bem “o Américo”. “Estudei lá durante toda a infância e a maior parte da adolescência. Foi barra-pesada…”, recordou numa noite fria de maio. A escola fica perto do sobrado em que o professor cresceu e mora até hoje. “Entre a primeira e a última série do ensino fundamental, não enfrentei problemas graves. Era quietão e a galera me respeitava. Mas depois…”
Tão logo começou o ensino médio, o rapaz – que ainda não ostentava tatuagens – descobriu os piercings e, desobrigado de usar uniforme, decidiu se vestir com extravagância. Ora andava somente de negro, ora recorria à esfuziante moda clubber. “Os colegas da minha idade e um pouco mais velhos não toleravam aquilo. ‘Arranque os piercings!’, gritavam. ‘Aja como macho!’” Houve um período em que os valentões aguardavam T. Angel na entrada e na saída do colégio para segui-lo pelo pátio ou pelas ruas, enquanto o tachavam de veado e ameaçavam espancá-lo. “Eu morria de medo, claro, mas não os confrontava. Engolia em seco, me trancava num casulo invisível e resistia calado. Talvez por isso nunca me bateram.”
Numa ocasião, arranjou coragem e pediu socorro à diretora. “Ela não deu a mínima. Pior, me culpou: ‘Se você assumisse outras atitudes, não o tratariam tão mal.’ Diversas vezes, os próprios inspetores da escola flagravam o bullying e lavavam as mãos.” Quando o adolescente revelou o tormento em casa, seus pais – uma costureira e um mecânico industrial – quiseram tirá-lo do Américo. Pleitearam vaga num colégio público das redondezas e não conseguiram nada. O jovem cogitou abandonar os estudos, mas os parentes se opuseram. “Sem alternativas, me restou suportar o martírio até a formatura.” Na esperança de conter a perseguição, curvou-se às recomendações da diretora e adotou trajes menos chamativos. “O assédio diminuiu, só que não terminou. Por mais que alterasse meu guarda-roupa, não havia como me livrar do que realmente incomodava os garotos: a minha feminilidade.”

Urso de pelúcia
Caçula de três irmãos, o professor conta que, pouco antes de se alfabetizar, teve um sonho prazeroso. “Eu caía lentamente do céu – um céu policromático, lindo, como o do entardecer. À medida que despencava, com os braços abertos, ouvia uma musiquinha estranha, que ecoava não sei de onde.” Depois daquela noite, adquiriu o hábito de cantarolar a tal música sempre que se ensimesmava. “Já a esqueci, mas me lembro perfeitamente de meus pais intrigados com meu comportamento. Em razão do sonho, virei o ‘anjinho da família’. Todos me chamavam assim.”
Não por acaso, apelidou-se de T. Angel quando aderiu às modificações corporais. Avaliou que a metamorfose exigia uma nova identidade. “Desde pequeno, não me canso de admirar seres mutantes. Super-heróis, personagens de ficção científica, medusas, sereias e outras criaturas mitológicas me fascinam.” Em 1997, aos 15 anos, visitou o Mercado Mundo Mix, feira paulistana dedicada à cultura alternativa, e se deparou justamente com uma legião de esquisitões. “Opa! Encontrei minha turma”, pensou, eufórico. Fez a primeira alteração física àquela época. “Botei um piercing de titânio no lábio.”
De início, movia-se pela vaidade – julgava bonitas as transformações que promovia em si mesmo – e pelo desejo de integrar “o grupo dos moderninhos”. Com o tempo, porém, notou que alargadores, brincos, escarificações e tatuagens o deixavam mais confiante. “Eu me considerava um horror: magricela, desengonçado e branquelo. Odiava me expor. Evitava tirar a camisa em público e não usava nem bermuda, nem regata. Também ficava constrangido se me abraçassem, se me tocassem com mais intimidade. Hoje é diferente. Graças às mudanças extremas que operei em mim, me apropriei completamente do meu corpo. Agora gosto de vê-lo no espelho e de exibi-lo.”
Evangélicos, os familiares do professor tiveram dificuldade para aceitar a transfiguração. Relacionavam aquele visual esdrúxulo à criminalidade e às drogas. Tampouco entendiam a androginia do rapaz. “Meus vizinhos reagiam de modo semelhante. Uns até se benziam quando topavam comigo.”
Alheio às recriminações, T. Angel, que se declara ateu, continuou navegando na contracorrente – e não só em termos estéticos ou sexuais. “Há uma década, me tornei vegano.” Abdicou de quaisquer alimentos, roupas, acessórios e calçados que derivem dos animais. Converteu-se, ainda, em protetor de cães e gatos abandonados. “Procuro resgatá-los das ruas e os encaminho para a adoção.” No sobrado de esquina que divide com a mãe e o irmão do meio (o pai já morreu), cria a tartaruga Clotilde e dois yorkshires. “Batizei o mais novo de Teddy, porque lembra um urso de pelúcia. O outro, velhinho, sofreu maus-tratos antes que o recolhesse. Chegou à nossa casa sem os dentes, escutando mal de um ouvido e muito amedrontado. Por isso, lhe dei o nome de Coragem. Ele também precisava se apoderar do próprio corpo.”

Sêmen
A
pós concluir o ensino médio, T. Angel fez um curso técnico de moda enquanto trabalhava como operador de telemensagens. Identificou-se tanto com “o mundinho fashion” que ingressou numa faculdade da área. Frequentou as aulas durante um ano, mas não seguiu adiante. “Faltou grana para as mensalidades.” Àquela altura, já digerira uma série de informações sobre dança e body art. Percebeu, então, que poderia enveredar pela seara artística e se converteu num performer. “Me apresento principalmente em festivais, embora também protagonize vídeos e participe de intervenções urbanas.” Quase sempre, as exibições buscam testar “os limites psicofísicos” do professor. Numa delas, T. Angel transpassou a pele do tronco e das pernas com inúmeros ganchos de metal e, deitado de costas, deixou-se suspender, como se levitasse. Apenas os ganchos o sustentavam. Na performance Semente, mesclou o próprio sêmen com o de outros homens e congelou a mistura para que ganhasse o formato de um coração. Depois, esfregou-a no corpo nu até derreter.
Em paralelo às apresentações, ele ministra palestras e workshops por todo o país. Fala especialmente do livro A Modificação Corporal no Brasil: 1980–1990, que lançou pela editora paranaense CRV. “Sou um cara aplicado. Desde que coloquei o primeiro piercing, tenho a preocupação de me aprofundar no assunto, tanto sob o prisma histórico quanto antropológico e psíquico.” As pesquisas do professor acabaram minando os preconceitos familiares. “O pessoal lá de casa agora compreende perfeitamente as minhas escolhas. Consegui mostrar a eles que meu jeito de ser não vem do nada.”

Clichê
Q
uando estudou moda, T. Angel se encantou pela história da indumentária. Foi pensando em se especializar no tema que, mais tarde, quis se tornar historiador. “Arrumei uma bolsa de 50% e iniciei minha segunda faculdade.” Desta vez, logrou terminá-la. Formou-se em 2012 e virou o primeiro da família com diploma de nível superior. Ao longo do curso, desistiu de explorar os meandros da indumentária e resolveu abraçar o magistério. “Senti que precisava me dedicar à educação pública e lutar efetivamente por uma sociedade menos preconceituosa. É um clichê, mas…”
Na metade da graduação, T. Angel recebeu a incumbência de estagiar em alguma escola como observador. Teria de assistir às aulas, se relacionar com os alunos durante os intervalos e acompanhar as reuniões pedagógicas. “Escolhi voltar para o Américo.” Desejava saber se algo mudara por lá. “Infelizmente, tudo me soou igual. As provocações homofóbicas ou sexistas entre os estudantes perduravam e o colégio ainda não parecia capaz de lidar com a questão.”
Dois anos depois de concluir a faculdade, T. Angel prestou concurso para professor. Passou, mas ficou esperando o governo estadual convocar os aprovados, o que só ocorreu em dezembro de 2016. “Fui até a Diretoria de Ensino e me perguntaram onde gostaria de lecionar. Sugeri cinco escolas e indiquei o Américo como primeira opção. Retornar no papel de docente seria a maior prova de que sobrevivi à intolerância.” Acabou contratado com salário mensal bruto de 1 449,53 reais.
“Para minha surpresa, encontrei um ambiente muito mais acolhedor. Funcionários, pais e alunos vêm me tratando com bastante respeito. Acho que minha aparência já não os espanta. Lógico que o bullying entre a molecada ainda existe, mas hoje noto que o colégio tenta combatê-lo. No dia em que me conheceu, o diretor frisou: ‘Se você flagrar qualquer discriminação aqui dentro, reaja imediatamente. Não permita que o fogo se espalhe.’” Em parte, o professor atribui a mudança de ares às redes sociais, que nos últimos anos amplificaram as reivindicações das minorias. “Talvez o apelo por um país menos excludente esteja surtindo algum efeito. Veja o exemplo daquela resolução do stf sobre tatuagens.” Em agosto de 2016, o Supremo Tribunal Federal determinou que instituições públicas não podem desclassificar ninguém de um concurso seletivo pelo simples fato de se tatuar.
Procurado, o diretor da escola, Marcos Neves dos Santos, preferiu não conceder entrevista.

Bilhete
F
azia quase uma semana que T. Angel trabalhava no Américo quando uma estudante o abordou logo após a aula. Segurava uma folha pautada de caderno. Em silêncio, entregou-lhe o manuscrito e saiu da classe. O professor leu e releu o bilhete: “Se alguma pessoua te jugar por que você é assim não de atenção. Se você se sentir bem assim continue feliz. Eu não me emcomodei por que você é assim. E fiquei feliz porque você se sente bem. Siga a sua vida como você quiser e nunca deiche alguem te julgar te tratar como se você fosse um animal por que você não é.”
(revista piauí)

terça-feira, 9 de maio de 2017

As três mosqueteiras

Uma aventura teatral

espetáculo no pequeno teatro parisiense mal terminou e uma senhora refinada, que não desgrudara os olhos do palco durante oitenta minutos, sussurrou para si mesma, em bom português: “Que maravilha!” Logo depois, enquanto as luzes da plateia acendiam, subiu um pouco o tom de voz e anunciou: “Quero comprar, Rosa.” A amiga que a acompanhava não entendeu: “Comprar o quê?” “A peça”, respondeu a senhora, sem interromper os aplausos inflamados. Erguendo-se da poltrona, Rosa esboçou um sorrisinho irônico e disparou: “Você enlouqueceu, Bia?”
Era janeiro de 2015. Embora visitem Paris com regularidade, as cariocas Maria Beatriz Bley Martins Costa e Rosina Villemor Cordeiro Guerra ainda não conheciam o acolhedor Ciné 13 Théâtre, onde Jacques Mougenot acabara de encenar o monólogo L’Affaire Dussaert, que ele próprio escreveu. Foram parar ali por indicação de uma francesa. “Sério, Rosa! A gente compra a peça e dá um jeito de montá-la no Brasil”, reiterou Bia. Nenhuma das duas, porém, havia feito algo parecido antes. Não tinham nem sequer pisado numa coxia ou num camarim. “E como se compra uma peça?”, indagou Rosa. O protagonista do espetáculo certamente saberia. Decidiram aguardá-lo na porta do teatro.
“Qual o telefone de vocês?”, pediu o ator, um tanto ressabiado, quando Bia e Rosa o abordaram. “Não se preocupem. Amanhã vou procurá-las”, garantiu. Em cartaz com L’Affaire Dussaert há quase uma década, Mougenot já a apresentou mais de 600 vezes. “Pronto! O homem arranjou um modo gentil de nos dispensar”, deduziram as amigas à medida que se afastavam do teatro. “Duvideodó que alguém irá nos procurar.”
Enganaram-se. O ator não só ligou como as encaminhou à sua agente. Saíram do escritório dela com o negócio praticamente selado. Os direitos para a tradução e adaptação da peça custavam 3 mil euros ou cerca de 9,5 mil reais à época. “Vamos mesmo comprar?”, hesitou Rosa. “Claro! E ainda botaremos a Marilu na jogada”, retrucou Bia.

Spa
D
iplomata aposentada, Marilu de Seixas Corrêa nasceu em Roma, mas tem raízes franco-brasileiras. Como já rodou o mundo, fala cinco idiomas fluentemente: português, espanhol, italiano, francês e inglês. Hoje mora em Copacabana, na Zona Sul do Rio, à semelhança de Rosa. Bia vive perto delas, no bairro de Ipanema. Com idades entre 64 e 71 anos, constituíram famílias numerosas, que somam nove filhos e dezesseis netos. Inseparáveis, gostam de conversar pelo WhatsApp, num grupo batizado de As Três Mosqueteiras.
O trio, de início, era uma dupla. Rosa e Bia se tornaram sócias há muito tempo numa empresa que organiza eventos relacionados à sustentabilidade – ou à “economia verde”, como preferem dizer. Mais tarde, a parceria se ampliou e as duas inauguraram uma galeria de arte, a CorMovimento, especializada em obras modernistas. Um dia, vinte anos atrás, resolveram emagrecer e viajaram para o litoral fluminense. Trancafiaram-se num spa de Búzios, onde conheceram Marilu. Logo viraram cúmplices. Costumavam fugir da “prisão” com o intuito de “comer um peixinho” na cidade.
Desde então, perambulam pelo circuito cultural do Rio, de Paris e de Nova York. Tentam ver um pouco de tudo: exposições, filmes, peças, musicais, óperas e concertos. Marilu, que toca violoncelo, é quem cuida da programação erudita. Ela também recebeu a incumbência de verter para o português o monólogo que as amigas cismaram de adquirir. “Quando trabalhava no Ministério das Relações Exteriores, traduzi livros de ciência política e economia. Mas jamais ousei me arriscar pelo campo literário ou teatral. Foi a primeira vez que encarei uma tradução do gênero.” L’Affaire Dussaert se converteu, assim, em O Escândalo Philippe Dussaert.
Com um quê de comédia, o espetáculo se desenrola à maneira de uma conferência. No palco, está um palestrante que discorre sobre a trajetória de um respeitado pintor, capaz de se dividir entre o figurativismo e a arte conceitual. O escândalo mencionado no título se dá quando, em 1991, o governo da França propõe pagar 8 milhões de francos por uma polêmica criação do artista.
A trama despertou o interesse das Três Mosqueteiras principalmente pelo fato de expor e questionar os preceitos muito peculiares que norteiam a arte contemporânea. “Certa ocasião, em Paris, me deparei com um baldinho no meio de uma galeria. Um baldinho e nada mais. Toda vez que me aproximava, o baldinho andava. Pensei: ‘Que troço ridículo, meu Deus! Por que um artista produz uma bobagem dessas?’”, conta Rosa. “São coisas que não nos comovem. Mesmo assim, nos esforçamos para compreendê-las, porque não temos uma opinião fechada sobre o assunto”, prossegue Bia. “Nossa cabeça é aberta, mas nossa emoção permanece conservadora”, resume Marilu.

Presentão
Semanas depois de importarem a peça, as amigas ainda não sabiam quem convidar para interpretá-la. Eis que, almoçando num restaurante por quilo do Leblon, Bia e Rosa avistaram Marcos Caruso. “Taí! Ele é o cara!”, intuíram de imediato. O ator se encontrava na fila do caixa. “Prazer, Marcos! Você se incomodaria de bater um papo em nossa mesa?” Iniciou-se, então, uma nova etapa da aventura orquestrada pelas Três Mosqueteiras. Caruso – que, em 44 anos de carreira, nunca protagonizara um monólogo – abraçou o projeto e se dispôs a concretizá-lo. Escolheu o diretor, Fernando Philbert, montou uma equipe técnica e, via patrocínio, arrumou os 400 mil reais necessários para bancar os custos.
Em agosto de 2016, O Escândalo Philippe Dussaert estreou no Rio. Fez tanto sucesso que cumpriu uma temporada de sete meses. Agora está em turnê nacional. Cerca de 40 mil pessoas já prestigiaram o espetáculo, que abocanhou seis prêmios, incluindo o Shell de melhor ator. “No fim das contas, Bia, Rosa e Marilu me deram um presentão”, reconhece Caruso. “Jamais imaginei que anjos pudessem aparecer num restaurante por quilo…”
(revista piauí)

sábado, 1 de abril de 2017

Bela, engajada e do laiá-laiá

No Carnaval, com seios nus

Enquanto se observava no espelho pela última vez antes de ganhar a rua, Andréia de Matos Rocha ainda sentia certa apreensão, mas já não tinha dúvidas: iria, sim, correr o risco de se misturar à multidão. Era sábado de Carnaval. Faltavam vinte minutos para o meio-dia e um mar de foliões se espalhava por toda a cidade, em blocos ora gigantescos, ora paroquiais. Mignon, de pele clara e traços marcantes – os olhos castanhos e reluzentes, as sobrancelhas grossas, a boca sinuosa, o pescoço comprido –, a cientista social de 27 anos, que trabalha como pesquisadora de imagens e tendências comportamentais numa agência publicitária, gosta de metamorfoses. Vira e mexe, muda radicalmente o corte dos cabelos negros. Houve uma época em que os deixou à beira da cintura. Depois, os encurtou e alterou de tantos modos que, às vezes, parecia uma índia e, outras, uma egípcia ou uma melindrosa. Naquele sábado, exibia a cabeça raspada, à maneira da atriz Natalie Portman no filme V de Vingança. Usava botas de cano curto, um short cor de vinho, bastante apertado, e uma camiseta branca com o rosto estilizado da drag queen Ivana Wonder. Também portava dois piercings no nariz e vistosos brincos triangulares de acrílico. O batom preto e os longos cílios postiços lhe acentuavam a personalidade do rosto, salpicado de glitter.
O visual carnavalesco se distinguia muito pouco do look que a jovem costuma ostentar em baladas noturnas. Apenas um detalhe tornava o conjunto inusual: sob a camiseta, sustentados pela parte superior de um biquíni, seus pequenos seios reluziam. O mesmo glitter dourado que lambuzava o rosto lhe cobria os mamilos. É que a moça pretendia desfilar nos blocos de São Paulo com os peitos nus. Se tudo corresse como planejara, sacaria a t-shirt e o biquíni em pleno asfalto e se juntaria à massa de corpos suados. Queria viver uma experiência semelhante à dos homens que se divertiam sem camisa.
Quando saiu do apartamento que divide com uma amiga, lembrou mais uma vez que nunca fizera topless na praia ou num clube. Já protagonizara ensaios fotográficos em que mostrava os seios, mas as imagens resultavam invariavelmente de sessões privadas. Expor-se nas ruas e avenidas, sem a proteção de seguranças ou cordões de isolamento, seria bem diferente. Mesmo sob o peso de tais reflexões, não recuou. Sozinha, caminhou até a estação Fradique Coutinho do metrô, no bairro de Pinheiros, e embarcou rumo à Praça da República, no Centro.

Ambiguidade
“Lobisomem! Lobisomem!” Os gritos dos meninos ainda reverberam em Andréia Rocha, menos como um trauma e mais como um norte. Ela morava com os pais, o irmão e a irmã no Portal da Vila Prudente, condomínio paulistano de classe média. Caçula da família, herdou dos antepassados portugueses o excesso de pelos e uma cabeleira tão farta quanto repleta de caracóis. O legado em nada a incomodava até a chacota dos moleques. Uma menina cabeludíssima, com braços e pernas cobertos por uma penugem escura? Cruz-credo! Lembrava um homem. Pior: um lobisomem! O coro impiedoso a perseguiu durante meses e só findou depois que a garota seguiu o conselho da irmã: “Chute o saco dos babacas! Se gritarem bobagens, acerte um deles nos ‘países baixos’ e saia correndo.”
O episódio poderia ter se diluído entre as infindáveis crueldades que a infância nos obriga a sofrer e praticar, mas virou um marco por duas razões. “Foi meu primeiro contato íntimo com o sexo oposto”, ironizou a jovem uma semana após o Carnaval, na sala de seu espaçoso apartamento. Foi também quando ela começou a tomar consciência do abismo que separa os gêneros. Claro que, antes, já havia percebido o óbvio: garotos e garotas não habitam propriamente o mesmo planeta. No entanto, até aquele momento, as discrepâncias só lhe despertavam curiosidade. Não a rebaixavam nem engrandeciam os meninos. O bullying no condomínio fez a balança pender para um dos lados. Revelou que, em determinadas situações, diferenças são sinônimo de desvantagens. Ou melhor: que, publicamente, o corpo das mulheres amarga mais limites que o masculino. “Meu irmão tinha pelos nos braços e nas pernas, mas ninguém o xingava de lobisomem.”
À zombaria da molecada somou-se, logo em seguida, a rejeição insinuada pela mídia. “Caiu a ficha de que, como meus vizinhos, as revistas femininas e a publicidade não toleravam cabelos abundantes e enrolados.” A menina iniciou, então, uma batalha contra os cachos. Xampus, cremes, tesouras, escovas, secadores e chapinha entraram em ação e, à custa de muita insistência, lograram domar a juba. Cada vez menos elásticos, os fios rebeldes acabaram se tornando lisos e pouco volumosos. Mantê-los assim demandava uma disciplina espartana. “Minhas aulas na escola começavam às sete e meia da manhã. Eu acordava bem mais cedo, às cinco e cinquenta, só para arrumar os cabelos.”
No princípio da adolescência, desgostosa com as olheiras (será que a tachariam de urso panda?), a garota descobriu a maquiagem. Passar base, sombra e afins se transformou em obrigação. “Fiquei dependente de máscaras, sabe? Não conseguia sair de casa sem esconder as imperfeições do rosto, por menores que fossem.” Espichada no sofá, interrompeu as recordações e, após um breve silêncio, emendou: “Não conseguia e não consigo. Até hoje preciso de maquiagem para enfrentar o mundo.”
Naquela noite de quinta-feira, enquanto conversávamos, a jovem usava rímel, corretivo e batom vermelho, além de esmalte cinza-azulado nas unhas das mãos. “Quando raspei o cabelo, me senti totalmente liberta. Pensei: ‘Acho que botei um fim naquela preocupação toda com alisamento e cortes.’ Da maquiagem, porém, continuo escrava.” E da depilação, idem. Mal despontam, os pelos são prontamente eliminados. “Vê? Apesar dos meus esforços, sigo mordendo a isca das revistas e dos publicitários. Já desconstruí um bocado de coisas na tal da feminilidade hegemônica, mas… It’s a long way.
Abdicar dos padrões significa, em última instância, abrir mão da vaidade? “De jeito nenhum! Significa encontrar em mim outro tipo de vaidade, menos subserviente às convenções. Por que só as mulheres devem parecer angelicais? Por que precisamos sempre exalar aroma de flor? O que há de errado com o nosso cheiro natural? Por que os pelos de nossas axilas causam tanto nojo?”
A cabeça raspada confere ares francamente masculinos à jovem. No entanto, não lhe obscurece os atributos que, em geral, classificamos como femininos. Com 1,60 metro de altura e 44 quilos, a moça tem movimentos graciosos, voz fina e um sorriso frequente, que lhe adoça as frases e não raro deságua numa gargalhada curta. “Se me julgo bonita? Sim, mas sei que uma porção de gente me considera apenas estranha.”
A ambiguidade, apesar dos pesares, lhe cai muito bem – e não se manifesta somente em termos estéticos. No convívio social, a jovem mostra-se extrovertida. Papeia com todo mundo, brinca e gesticula sem rédeas. “Faço a política da boa vizinhança.” Em contrapartida, é capaz de ensimesmar-se prazerosamente. “Aprecio o silêncio e a solidão.” Quando discorre sobre assuntos que lhe interessam, emprega jargões característicos dos “fefeleches” – aqueles que estudam ou estudaram na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, a FFLCH: objetificação, heteronormatividade, cisgênero, lugar de fala, statement. Por outro lado, tempera o discurso quase professoral e bastante veloz com expressões adolescentes, como “de boa” e o inescapável “tipo”: “Eu as conheci tipo há uns cinco anos” ou “Nunca participei tipo de nenhum grupo que…” Cosmopolita, menciona artistas e intelectuais de diversos países ao longo das conversas, mas não abandona o sotaque do interior paulista. Embora originária da capital, emula dos pais, nascidos em Andradina, o erre puxado: “vendedorrr”, “irrrmã”, “elevadorrr”, “verrrdade”.
As ambiguidades da moça invadem igualmente a seara afetiva. “Sou bissexual. Quer dizer: talvez seja pansexual. Entende?” Mais ou menos… “Normalmente, saio com meninas e meninos. Só que não descarto a possibilidade de sair também com transexuais. Nunca rolou. Se um dia rolar, vou me definir como pansexual, ainda que não ligue para rótulos. Entendeu agora?”

Abstêmia
No sábado de Carnaval, assim que chegou à Praça da República, Andréia Rocha se encontrou com um amigo. Os dois andaram rumo à esquina mais famosa da cidade: a das avenidas Ipiranga e São João, celebradas por Caetano Veloso em Sampa. Era ali que se concentrava o bloco Tarado Ni Você, fundado justamente para homenagear o compositor baiano. Àquela altura, milhares de pessoas já se aglomeravam ao redor dos músicos, que percorreriam o centro histórico. Com o amigo, a jovem procurou outros dez conhecidos. Pretendia ficar perto deles todo o tempo. Formado por duas moças e oito rapazes, a maioria gays, o grupo poderia intervir caso a flagrasse em perigo quando estivesse com os seios à mostra.
Ela tomou ainda uma segunda precaução: não ingeriu nenhuma gota de álcool antes de se aventurar pelas ruas. Fã de cerveja, vinho e gim-tônica, iria se manter abstêmia o dia inteiro. Receava que a bebida a tornasse mais vulnerável às eventuais ameaças.
Até onde seu olhar alcançava, não havia ninguém de topless no bloco. Várias foliãs, porém, levantavam as mesmas bandeiras que a mobilizavam. Aguerridas, inscreveram no próprio corpo palavras de ordem contra o assédio. “Não é não!”, avisava uma das tatuagens provisórias. “Deixa ela em paz”, exigia outra. “Não sou obrigada”, proclamava uma terceira. Afirmações idênticas ou similares pipocavam pelo resto do Brasil, no rosto, pernas, braços, costas e barriga de incontáveis carnavalescas.
“Tiro agora? Será?”, perguntou a jovem para o amigo. O bloco mal saíra da concentração, e o calor já se fazia insuportável. “Tire!”, atiçou o garoto. Sentindo-se à vontade, ela se livrou da camiseta, soltou a parte superior do biquíni e finalmente libertou os seios. “Amigaaaa! Sua louca!”, festejou o rapaz.

Piercing
Era branco, de cetim e com borboletinhas cor-de-rosa. A irmã de Andréia Rocha o usou primeiro, na adolescência. Depois o passou para a caçula: “Mais tarde, você poderá usar também.” Mas a menina não aguentou. Tinha 6 anos quando pôs o sutiã. Ficou largo, mal-ajambrado. Mesmo assim, a pequena adotou a lingerie extemporânea por um período, debaixo de umas blusinhas muito infantis.
O jogo inverteu completamente tão logo a garota viu os seios desabrocharem. “Chegou a hora. Use o sutiã”, recomendou a irmã. A caçula se negou. Rejeitou não apenas o de borboletinhas como qualquer outro. “Usar por quê? Meus peitos são minúsculos.” A irmã insistiu: “Porque seus mamilos aparecem toda vez que você bota uma camisa mais transparente.” A caçula se manteve irredutível: “Só por isso? Que ridículo!” Tempos depois, acabou cedendo. Precisava que a irmã, hábil no manejo da chapinha, lhe alisasse os cabelos. “Combinado. Mas, em troca, você terá de usar sutiã.”
Hoje, a jovem continua arredia à lingerie. “Reconheço que certas mulheres necessitam dela. Quando os peitos são grandes, o sutiã faz diferença. Evita que pesem ou balancem excessivamente. Agora, no meu caso… Qual a funcionalidade da peça para a galera de seios menores? Sutiã incomoda, aperta, esquenta. Por que me sujeitar às desvantagens daquele negócio se não vou desfrutar de nenhum benefício? ‘Ah, é indecente deixar entrever os mamilos sob a roupa…’ É mesmo? Qual o problema de exibir uma região do corpo tão característica do feminino? Eu só visto sutiã quando quero. Jamais por imposição.”
A moça acredita que, se parassem para refletir sobre o gesto condicionado de “amarrar os seios”, diversas mulheres abdicariam dele. “É como aquela história de dormir nua. ‘Não pode, não! Ponha pelo menos a calcinha’, dizia minha mãe. Nunca entendi o motivo. Higiene? Compostura? Minha mãe não conseguia explicar.”
A jovem tampouco consegue explicar por que fixou um piercing no mamilo direito. Não seria igualmente uma convenção, ainda que restrita à tribo dos alternativos? “Xiii… Não faço ideia. Botei por impulso.”

Flor de cerejeira
“U
ma, duas, três…” Andréia Rocha perdeu as contas de quantas tatuagens possui. Precisa conferir. “Treze!” Para ela, corpo e arte se confundem. Durante dezesseis anos, dedicou-se intensamente às aulas de balé clássico. Também praticou sapateado, jazz, flamenco e butô, embora com menos regularidade. “Por causa da dança, enxergo os membros inferiores e superiores, o torso e a cabeça como matérias-primas, massas que devem ser moldadas e exibidas.” Não à toa, já se despiu para dez fotógrafos, alguns profissionais, outros diletantes. Os ensaios, muito bonitos, circularam pelas redes sociais. A ousadia lhe rendeu advertências e bloqueios por parte do Facebook e do Instagram, que proíbem a divulgação de nudez.
A primeira tatuagem da jovem reproduz uma frase de Isadora Duncan: Danser sa vie [Dançar a vida]. A revolucionária bailarina californiana, que morou na França, a registrou em sua autobiografia: “Desde o início, nada mais fiz do que dançar a vida. Criança, dançava a alegria espontânea dos seres em crescimento. Adolescente, dancei com uma felicidade que se transformava em apreensão diante das correntes obscuras e trágicas que começava a vislumbrar no meu caminho.” Andréia Rocha gravou a expressão acima do cotovelo. “Está à minha direita. Tenho uma regrinha para as tatuagens. As do lado direito remetem sempre à arte.” Encontram-se ali desenhos ou pinturas de Egon Schiele, Gustav Klimt e Hans Bellmer, além da inscrição “R. Mutt”, um dos pseudônimos de Marcel Duchamp.
Já o lado esquerdo abriga imagens de teor mais filosófico. “São as coisas em que acredito.” O braço, por exemplo, traz as consoantes “grl pwr”, de girl power, e doze flores de cerejeira. “Os japoneses cultivam uma tradição que me comove bastante. Eles se reúnem anualmente para observar o florescimento da cerejeira. A árvore produz flores lindíssimas, que duram apenas uma ou duas semanas. Então, convém olhá-las com o máximo de atenção, porque logo vão desaparecer. Gosto do ensinamento que deriva desse ritual: ‘Apreciar a beleza do efêmero.’”

Periguete
P
assava um pouco das 16 horas quando a jovem e seu grupo resolveram deixar o Tarado Ni Você e se dirigiram para outro bloco, o MinhoQueens, também no Centro. Depois, ainda engrossariam o Batekoo. Desde que se livrara da camiseta, a moça só cobrira os seios uma vez, numa lanchonete. A aventura estava saindo melhor que a encomenda. Ninguém tentara agarrá-la ou agredi-la nem a xingara. Houve quem lhe dissesse umas baixarias (“Delícia, vou te chupar todinha!”), lhe virasse a cara ou a tomasse por maluca (“Pirou, menina?”). Houve, ainda, uma garota que quebrou o pau com o namorado (“Pare de secar aqueles peitos!”) e o afastou da “periguete”.
Majoritariamente, porém, as reações se mostraram positivas. Homens e mulheres elogiaram a valentia da foliã: “Maravilhosa!”, “Empoderada!”, “Da hora!”, “Arrasou!” Alguns, mal a avistavam, berravam lemas feministas, como “Free the nipple” [Liberte o mamilo]. Uma turma de rapazes a abordou e, “veja bem, com o maior respeito”, pediu para tirar fotos perto dela. Mesmo os policiais militares que patrulhavam os blocos não a importunaram. Embora inexista no país uma lei específica que desautorize o topless em público, o artigo 233 do Código Penal possibilita enquadrá-lo como ato obsceno. Tudo depende de quem interpreta a legislação. A pena prevista soa um tanto despropositada: multa ou três meses a um ano de detenção.
“Livre, leve e solta.” Era assim, com um simpático clichê, que a jovem respondia quando lhe indagavam como estava se sentindo. Temores à parte, vivenciava uma espécie de epifania. Tinha absoluta consciência de que se encontrava num momento de exceção. Em breve, o experimento terminaria. Mas, enquanto durava, revelava-se belo, igualzinho à flor da cerejeira.

Pais
N
ascida no Twitter, a campanha #MeuAmigoSecreto se disseminou pela web em novembro de 2015. Sob os ventos do neofeminismo, milhares de brasileiras lançaram mão da hashtag para denunciar atos que consideravam machistas, mesmo se partiam de homens à primeira vista tolerantes: “#MeuAmigoSecreto acha que, em briga de marido e mulher, não se mete a colher” ou “#MeuAmigoSecreto pensa que cantadas são elogios e não assédios.” Andréia Rocha aderiu à mobilização e se identificou com os depoimentos de outras internautas. Cerca de trinta delas, inclusive a jovem, decidiram formar um grupo para estudar questões de gênero. “A gente não só debate o assunto via Facebook ou WhatsApp como participa de marchas e promove reuniões presenciais.”
Foi na Universidade de São Paulo, onde ingressou em 2007, que a moça conheceu as teorias feministas. Pôde, assim, compreender melhor o inconformismo difuso que a acompanhava desde cedo, quando se via diante de determinados padrões comportamentais. Justamente por estar próxima desse tipo de discussão, ela sabe que nem todas as correntes do feminismo apoiam integralmente a atitude que tomou no Carnaval.
Exibir os seios para reivindicar – e, de certa maneira, concretizar – a igualdade entre os sexos é uma tática que ativistas utilizam há pelo menos cinco décadas. Quem a desaprova avalia que a estratégia acaba incentivando aquilo que procura combater: a hipererotização do corpo feminino e o voyeurismo masculino. Não por acaso, várias negras recusam a prática. Alegam que o patriarcalismo as encara prioritariamente como objetos sexuais, mucamas fogosas à disposição do sinhô libidinoso. Ao se despirem nas ruas, mesmo sob o fervor da militância, reiterariam o papel que a escravidão lhes reservou.
“De fato, em relação às negras, a premissa faz todo sentido. Acontece que sou branca. E às brancas o patriarcalismo impõe o recato, principalmente fora ‘do lar’. Minha nudez pública tem o potencial de contrariar as regras do jogo.” Para a jovem, o machismo destinou às brancas um lugar paradoxal: o da pudica que, quando o homem deseja, se torna lasciva (“Dama na sala e puta no quarto”, reza o ditado). Atualmente, o paradoxo até tolera – ou mesmo estimula – alguma libertinagem da sinhá fora do âmbito doméstico, desde que em sintonia com as veleidades do macho. “Durante o Carnaval, agi como um ator político, não como um bibelô que tira a roupa na esperança de aguçar a fantasia dos homens.”
Ironicamente, a moça que compra briga em público encontra dificuldades para enfrentar a família. Seus pais – um representante comercial no setor de autopeças e uma dona de casa – desconhecem os posicionamentos da filha. “Não lhes contei que sou bissexual, que desfilei com os seios nus ou que apareci naqueles ensaios fotográficos. Vão descobrir lendo a piauí.” Ela própria lhes mostrará a revista. “Faz tempo que preciso ter uma conversa com os dois. Preciso, não. Eu quero…” E por que ainda não teve? “Boa pergunta. Não sei… Meus pais são conservadores, mas respeitosos, compreensivos, bacanas. Não reagem com violência às mudanças. Gostaria de lhes falar o que penso sobre o corpo, os gêneros, o feminismo. Só que até agora…”

Paraquedas
D
epois de pular no Batekoo, Andréia Rocha seguiu para o Vale do Anhangabaú, onde a prefeitura instalara um palco em que a funkeira MC Carol e outros músicos se apresentariam. Eram oito da noite. A jovem estava sem camiseta havia mais de sete horas. Enquanto assistia aos shows, notou que dois sujeitos não tiravam os olhos dela. “Esquisitos, né?”, comentou uma das foliãs que a acompanhavam. “Já escureceu. Melhor você se vestir.” Receosa, a moça concordou.
“Percebe a gravidade do que aconteceu?”, indagou em seu apartamento. “Uma experiência maravilhosa, libertária, interrompida por causa do medo. O mesmo medo que nós, mulheres, sentimos diariamente quando andamos pelas ruas. O fantasma da violência sexual nos assombra o tempo inteiro, às vezes com estardalhaço, às vezes de modo sutil. Sob a ótica do machismo, nossos corpos são eróticos em qualquer circunstância – no ônibus, no escritório, no supermercado. Se saio de jeans e casaco, me assediam. Se uso bermuda, também. E se mostro os seios, idem! As besteiras que ouvi nos blocos não diferem das que escuto na feira ou na padaria. Uma garota que vê o tórax nu de um cara não pensa necessariamente: ‘Uau! Quero te lamber todinho!’ O erotismo, para nós, depende de um contexto. Para vocês, não. Por quê? Culpa da biologia? Me poupem! Vocês ainda têm de aprender muita coisa.”
Ela parecia realmente indignada. Talvez preferisse que uma repórter, e não um homem, a entrevistasse. “Confesso que, quando você me procurou, hesitei: ‘Ih, um jornalista… O sujeito vai cair de paraquedas. Não está na pele de uma mulher para entender perfeitamente o que lhe direi. Vai deturpar tudo.’ Mas, o.k. Sou positiva. Resolvi apostar. Espero não me dar mal…”
(revista piauí)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A vez de Andréa

Sobre o direito de morrer como travesti

Em 1998, cercada de travestis e ativistas gays, Andréa de Mayo pediu o microfone na plateia do Programa Livre. Queria fazer uma pergunta para o convidado daquela tarde, o ultraconservador Afanasio Jazadji, então deputado estadual pelo PFL paulista. Ela estava furiosa. Com cabelos negros, crespos e longos, trajava calça social e um camisão listrado de mangas curtas. Não usava maquiagem nem adereços, exceto um relógio de pulso, e tinha a voz fina. Era deliberadamente uma figura ambígua, que trafegava entre o masculino e o feminino.
Transmitido pelo SBT, sob a batuta de Serginho Groisman, o Programa Livre se notabilizou por promover debates acalorados. Àquele dia, o apresentador e o público sabatinavam Jazadji sobre questões de gênero. O parlamentar, claro, defendia aguerridamente a tradição e achincalhava os que a colocavam em xeque. “Vi-aaa-do! Conversa de viadinho, de mariquinha!”, bradava, com sotaque italianado, apesar das origens romenas. Mal pegou o microfone, Andréa mirou o deputado e disparou: “Quando o senhor saiu às ruas angariando votos, disse para o indivíduo homossexual ‘Não vote em mim’?” Os aplausos e gritos da plateia quase abafaram a resposta do político. “Não, não, absolutamente…”, admitiu Jazadji. Ainda irritada, Andréa jogou o braço esquerdo para o alto e para trás, como se falasse: “Então vá se catar!”
A cena encontra-se no YouTube e dura míseros onze segundos. Não deixa de ser uma relíquia, já que a internet reúne poucos vídeos com Andréa. Ela – que nasceu Ernani dos Santos Moreira Filho e se definia como travesti, embora nem sempre envergasse roupas ou acessórios de mulher – morreu em 2000, logo após comemorar 50 anos. Principalmente no underground de São Paulo, sua cidade natal, ficou conhecida pelas peripécias noturnas e por defender com unhas (às vezes, coloridérrimas) e dentes (bem cuidados) a dignidade dos LGBT. “O palhaço pinta o rosto para viver. O travesti também. Por que o travesti não trabalha? Quem dá trabalho para o travesti? Me conta isso! Se falta trabalho para pai de família, vão dar trabalho para travesti?”, resumiu em 1985, no programa Comando da Madrugada, conduzido pelo telejornalista Goulart de Andrade.
Depois de um longo ostracismo, quando nem mesmo os movimentos gays costumavam evocar o legado de Andréa, a militante desbocada e pioneira está retornando às discussões sobre os direitos dos transgêneros. É que, em novembro de 2016, por iniciativa da prefeitura paulistana, o túmulo dela no cemitério da Consolação recebeu uma nova identificação. Agora, os que visitarem a sepultura descobrirão que ali jaz não apenas Ernani dos Santos Moreira Filho, como anuncia a placa de bronze original, mas também Andréa de Mayo, conforme indica a placa recém-afixada. As duas inscrições aparecem juntas, uma embaixo da outra.
Já faz algum tempo que, em diferentes documentos, travestis e transexuais vêm conseguindo substituir seus nomes de batismo pelos adotados socialmente. O reconhecimento oficial, desta vez, se estende à seara dos mortos. Se a ativista decidiu viver como Andréa, gesto que lhe custou um bocado, por que haveria de morrer somente como Ernani?

Prohibidu’s
“P
ai, vou operar logo. Preciso tirar a merda do silicone. Está dando rejeição.” Era uma sexta-feira quando Andréa comunicou por telefone que iria se submeter à delicada cirurgia. Avisou não o pai biológico, com quem tinha péssima relação, mas o amigo e guia espiritual Walter Alegrio – ou Pai Walter de Logun Edé, sacerdote iniciado no candomblé da nação Egbá-Arakê, a mesma de Mãe Menininha do Gantois. “Meu filho, nós, do santo, nunca fazemos nada importante sem ouvir os orixás. Não se opere antes de jogar os búzios e conferir se o momento é propício”, aconselhou o religioso, que sempre se referia à travesti no masculino. Ela concordou. Naquela manhã, Pai Walter viajaria para o Rio de Janeiro. Planejava voltar uns dias depois e consultar os búzios diante da própria Andréa.
Bem alta e branquela, a travesti ostentava coxas e nádegas imensas (os seios, em contrapartida, se revelavam pequenos). O corpão desabrochara da pior maneira: à custa de hormônio e muito silicone industrial, injetado sem nenhum acompanhamento médico. Na época, quanto mais litros do produto uma travesti aplicasse, mais poder detinha entre os pares.
Discriminada pela família, a futura militante saiu de casa antes dos 18, ainda sob a máscara de Ernani. Morou na rua e abraçou toda sorte de bicos: lavava carros, engraxava sapatos, varria calçadas. Tentou cantar e dançar profissionalmente, mas não deslanchou. Com 20 e poucos anos, resolveu se montar e virou Andréa de Mayo. O sobrenome celebrava o mês em que Ernani nasceu. Por ironia, acabou se mostrando premonitório, uma vez que a travesti morreu igualmente em maio, no dia 17.
Quem a conheceu jura que não bebia álcool, não consumia drogas nem se prostituía. Ganhava dinheiro negociando carros e como dona de boates – a Val Improviso e a Prohibidu’s, onde garçons trabalhavam nus, se tornaram míticas. Frequentemente, recepcionava os habitués dos nightclubs em companhia de Al Capone, um cão pequinês. Quando sobrava grana, comprava apartamentos, abarrotava-os de beliches e alugava os leitos para outras travestis. Há relatos de que também atuava como cafetina. Explosiva, não fugia de brigas. Andava com um nunchaku, o bastão duplo das artes marciais, sob o braço – alguns afirmam que se tratava de uma corrente – e chegou a levar seis tiros de um namorado.
Curiosamente, em oposição à faceta agressiva e oportunista, exibia um lado protetor. Ajudava favelas e instituições de caridade, acolhia travestis com Aids, denunciava preconceitos contra homossexuais e reivindicava a criação de um estatuto que garantisse todos os direitos da comunidade LGBT.

Batonzinho
“Em maio de 2000, retornei de viagem como previsto e procurei Andréa imediatamente. Pretendia jogar os búzios para ela”, relembra Pai Walter. Foi quando recebeu a notícia: negligenciando as recomendações do amigo, a travesti se operou antes de escutar os orixás. Sofreu complicações pós-cirúrgicas e não resistiu. Tinha pressa em extrair o silicone tanto por razões de saúde quanto estéticas. Já não suportava ver o corpo deformado – de tal modo que, nos últimos tempos, raramente se montava. Passava um batonzinho e olhe lá.
Segundo o guia espiritual, o pai biológico de Andréa não deixou que a enterrassem no jazigo dos parentes. “Autorizei, então, que pusessem o menino no túmulo de minha própria família”, conta o sacerdote, que completa 69 anos em março. Quase duas décadas depois, quando o Serviço Funerário do Município de São Paulo manifestou o desejo de reparar a memória da ativista, Pai Walter permitiu que instalassem a nova placa, doada pelo professor e arquiteto Renato Cymbalista, um dos idealizadores do ato. “Gostava à beça de Andréa”, diz o guia. “Nunca o tratei no feminino porque não reconheço travestis como mulheres. Ele respeitava minha opinião. Eu também respeitava a dele. Cada um com seus pecados, né?”
(revista piauí)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Mama África

Uma família negra e o desejo de batizar a filha com um nome etíope

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sexta-feira, 1 de julho de 2016

O último amigo

Uma homenagem em bronze ao vira-lata de Clarice Lispector
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