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quinta-feira, 1 de junho de 2017

A volta

O professor que decidiu lecionar no colégio onde sofreu bullying quando adolescente

No último dia 9 de março, enquanto caminhava em direção à sala de aula, Thiago Ricardo Soares, o T. Angel, sentia que alunos e funcionários da escola o observavam com um híbrido de curiosidade e assombro, como se estivessem diante de um alienígena. Eram quase sete da manhã. Recém-contratado, o professor de história iria lecionar pela primeira vez no colégio estadual Doutor Américo Marco Antônio, em Osasco, a quinta maior cidade da Grande São Paulo. Ninguém ousava falar nada para o novato. Simplesmente o mediam dos pés à cabeça, talvez se perguntando de onde surgira uma figura tão exótica.
Magro, alto e muito branco, com os longos cabelos presos num coque, T. Angel pertence à tribo dos que optaram por modificar radicalmente o corpo. Ele não apenas se tatuou do pescoço para baixo como espalhou piercings pelo rosto e pôs alargadores no nariz, nos lóbulos de ambas as orelhas e sob o lábio inferior. Também dividiu a ponta da língua em duas partes, deixando-a parecida com a das cobras, e queimou as costas para produzir cicatrizes similares às de um pássaro que teve as asas arrancadas. Não bastasse, colocou implantes subcutâneos de silicone no braço esquerdo e no meio do peito, que criaram relevos na pele em formato de esferas ou círculos. “Sou um campo de batalha, um terreno aberto às experimentações”, costuma explicar, com voz fina, gestual delicado e óculos de hastes azuis.
Naquela quinta-feira, quando chegou à turma 7G, o professor se apresentou rapidamente e logo abriu espaço para que os cerca de trinta estudantes o inundassem de perguntas. Faria o mesmo nas outras quatro classes onde iria trabalhar, todas do 7º ano. As roupas inusitadas que trajava – uma camiseta bem comprida e uma calça feminina – em nada lembravam o uniforme comportado dos alunos. Por que você se enfeita desse jeito? Seus pais concordam? Doeu para botar os alargadores? E os piercings, estão machucando? Você sofre preconceito? Gosta de futebol? É bicha? Com bom humor e o máximo de sinceridade, T. Angel procurava esclarecer cada dúvida dos adolescentes, inclusive as mais indiscretas. “Bicha? Prefiro dizer que posso me apaixonar por qualquer tipo de pessoa, seja mulher ou não.”
Numa das salas, dois meninos de cabelos descoloridos cismaram com as unhas verde-azuladas do professor de 35 anos. “Você pinta sempre? De que cores?”, indagou um deles. “Depende… De preto, marrom, prateado, rosa”, respondeu T. Angel. “Rosa?! É cor de menina!”, protestou o outro garoto. “A gente não acha certo um homem pintar as unhas”, resumiu. “Não acham? Vejam que curioso: vocês reclamam das minhas unhas, mas descoloriram os cabelos. Antigamente, meninos não podiam nem sonhar em fazer algo do gênero. Ganhariam fama de maricas. Dá para acreditar?” A dupla se entreolhou, sorriu sem graça e liquidou o assunto.

Casulo
Embora estivesse debutando como docente no colégio, T. Angel conhecia bem “o Américo”. “Estudei lá durante toda a infância e a maior parte da adolescência. Foi barra-pesada…”, recordou numa noite fria de maio. A escola fica perto do sobrado em que o professor cresceu e mora até hoje. “Entre a primeira e a última série do ensino fundamental, não enfrentei problemas graves. Era quietão e a galera me respeitava. Mas depois…”
Tão logo começou o ensino médio, o rapaz – que ainda não ostentava tatuagens – descobriu os piercings e, desobrigado de usar uniforme, decidiu se vestir com extravagância. Ora andava somente de negro, ora recorria à esfuziante moda clubber. “Os colegas da minha idade e um pouco mais velhos não toleravam aquilo. ‘Arranque os piercings!’, gritavam. ‘Aja como macho!’” Houve um período em que os valentões aguardavam T. Angel na entrada e na saída do colégio para segui-lo pelo pátio ou pelas ruas, enquanto o tachavam de veado e ameaçavam espancá-lo. “Eu morria de medo, claro, mas não os confrontava. Engolia em seco, me trancava num casulo invisível e resistia calado. Talvez por isso nunca me bateram.”
Numa ocasião, arranjou coragem e pediu socorro à diretora. “Ela não deu a mínima. Pior, me culpou: ‘Se você assumisse outras atitudes, não o tratariam tão mal.’ Diversas vezes, os próprios inspetores da escola flagravam o bullying e lavavam as mãos.” Quando o adolescente revelou o tormento em casa, seus pais – uma costureira e um mecânico industrial – quiseram tirá-lo do Américo. Pleitearam vaga num colégio público das redondezas e não conseguiram nada. O jovem cogitou abandonar os estudos, mas os parentes se opuseram. “Sem alternativas, me restou suportar o martírio até a formatura.” Na esperança de conter a perseguição, curvou-se às recomendações da diretora e adotou trajes menos chamativos. “O assédio diminuiu, só que não terminou. Por mais que alterasse meu guarda-roupa, não havia como me livrar do que realmente incomodava os garotos: a minha feminilidade.”

Urso de pelúcia
Caçula de três irmãos, o professor conta que, pouco antes de se alfabetizar, teve um sonho prazeroso. “Eu caía lentamente do céu – um céu policromático, lindo, como o do entardecer. À medida que despencava, com os braços abertos, ouvia uma musiquinha estranha, que ecoava não sei de onde.” Depois daquela noite, adquiriu o hábito de cantarolar a tal música sempre que se ensimesmava. “Já a esqueci, mas me lembro perfeitamente de meus pais intrigados com meu comportamento. Em razão do sonho, virei o ‘anjinho da família’. Todos me chamavam assim.”
Não por acaso, apelidou-se de T. Angel quando aderiu às modificações corporais. Avaliou que a metamorfose exigia uma nova identidade. “Desde pequeno, não me canso de admirar seres mutantes. Super-heróis, personagens de ficção científica, medusas, sereias e outras criaturas mitológicas me fascinam.” Em 1997, aos 15 anos, visitou o Mercado Mundo Mix, feira paulistana dedicada à cultura alternativa, e se deparou justamente com uma legião de esquisitões. “Opa! Encontrei minha turma”, pensou, eufórico. Fez a primeira alteração física àquela época. “Botei um piercing de titânio no lábio.”
De início, movia-se pela vaidade – julgava bonitas as transformações que promovia em si mesmo – e pelo desejo de integrar “o grupo dos moderninhos”. Com o tempo, porém, notou que alargadores, brincos, escarificações e tatuagens o deixavam mais confiante. “Eu me considerava um horror: magricela, desengonçado e branquelo. Odiava me expor. Evitava tirar a camisa em público e não usava nem bermuda, nem regata. Também ficava constrangido se me abraçassem, se me tocassem com mais intimidade. Hoje é diferente. Graças às mudanças extremas que operei em mim, me apropriei completamente do meu corpo. Agora gosto de vê-lo no espelho e de exibi-lo.”
Evangélicos, os familiares do professor tiveram dificuldade para aceitar a transfiguração. Relacionavam aquele visual esdrúxulo à criminalidade e às drogas. Tampouco entendiam a androginia do rapaz. “Meus vizinhos reagiam de modo semelhante. Uns até se benziam quando topavam comigo.”
Alheio às recriminações, T. Angel, que se declara ateu, continuou navegando na contracorrente – e não só em termos estéticos ou sexuais. “Há uma década, me tornei vegano.” Abdicou de quaisquer alimentos, roupas, acessórios e calçados que derivem dos animais. Converteu-se, ainda, em protetor de cães e gatos abandonados. “Procuro resgatá-los das ruas e os encaminho para a adoção.” No sobrado de esquina que divide com a mãe e o irmão do meio (o pai já morreu), cria a tartaruga Clotilde e dois yorkshires. “Batizei o mais novo de Teddy, porque lembra um urso de pelúcia. O outro, velhinho, sofreu maus-tratos antes que o recolhesse. Chegou à nossa casa sem os dentes, escutando mal de um ouvido e muito amedrontado. Por isso, lhe dei o nome de Coragem. Ele também precisava se apoderar do próprio corpo.”

Sêmen
A
pós concluir o ensino médio, T. Angel fez um curso técnico de moda enquanto trabalhava como operador de telemensagens. Identificou-se tanto com “o mundinho fashion” que ingressou numa faculdade da área. Frequentou as aulas durante um ano, mas não seguiu adiante. “Faltou grana para as mensalidades.” Àquela altura, já digerira uma série de informações sobre dança e body art. Percebeu, então, que poderia enveredar pela seara artística e se converteu num performer. “Me apresento principalmente em festivais, embora também protagonize vídeos e participe de intervenções urbanas.” Quase sempre, as exibições buscam testar “os limites psicofísicos” do professor. Numa delas, T. Angel transpassou a pele do tronco e das pernas com inúmeros ganchos de metal e, deitado de costas, deixou-se suspender, como se levitasse. Apenas os ganchos o sustentavam. Na performance Semente, mesclou o próprio sêmen com o de outros homens e congelou a mistura para que ganhasse o formato de um coração. Depois, esfregou-a no corpo nu até derreter.
Em paralelo às apresentações, ele ministra palestras e workshops por todo o país. Fala especialmente do livro A Modificação Corporal no Brasil: 1980–1990, que lançou pela editora paranaense CRV. “Sou um cara aplicado. Desde que coloquei o primeiro piercing, tenho a preocupação de me aprofundar no assunto, tanto sob o prisma histórico quanto antropológico e psíquico.” As pesquisas do professor acabaram minando os preconceitos familiares. “O pessoal lá de casa agora compreende perfeitamente as minhas escolhas. Consegui mostrar a eles que meu jeito de ser não vem do nada.”

Clichê
Q
uando estudou moda, T. Angel se encantou pela história da indumentária. Foi pensando em se especializar no tema que, mais tarde, quis se tornar historiador. “Arrumei uma bolsa de 50% e iniciei minha segunda faculdade.” Desta vez, logrou terminá-la. Formou-se em 2012 e virou o primeiro da família com diploma de nível superior. Ao longo do curso, desistiu de explorar os meandros da indumentária e resolveu abraçar o magistério. “Senti que precisava me dedicar à educação pública e lutar efetivamente por uma sociedade menos preconceituosa. É um clichê, mas…”
Na metade da graduação, T. Angel recebeu a incumbência de estagiar em alguma escola como observador. Teria de assistir às aulas, se relacionar com os alunos durante os intervalos e acompanhar as reuniões pedagógicas. “Escolhi voltar para o Américo.” Desejava saber se algo mudara por lá. “Infelizmente, tudo me soou igual. As provocações homofóbicas ou sexistas entre os estudantes perduravam e o colégio ainda não parecia capaz de lidar com a questão.”
Dois anos depois de concluir a faculdade, T. Angel prestou concurso para professor. Passou, mas ficou esperando o governo estadual convocar os aprovados, o que só ocorreu em dezembro de 2016. “Fui até a Diretoria de Ensino e me perguntaram onde gostaria de lecionar. Sugeri cinco escolas e indiquei o Américo como primeira opção. Retornar no papel de docente seria a maior prova de que sobrevivi à intolerância.” Acabou contratado com salário mensal bruto de 1 449,53 reais.
“Para minha surpresa, encontrei um ambiente muito mais acolhedor. Funcionários, pais e alunos vêm me tratando com bastante respeito. Acho que minha aparência já não os espanta. Lógico que o bullying entre a molecada ainda existe, mas hoje noto que o colégio tenta combatê-lo. No dia em que me conheceu, o diretor frisou: ‘Se você flagrar qualquer discriminação aqui dentro, reaja imediatamente. Não permita que o fogo se espalhe.’” Em parte, o professor atribui a mudança de ares às redes sociais, que nos últimos anos amplificaram as reivindicações das minorias. “Talvez o apelo por um país menos excludente esteja surtindo algum efeito. Veja o exemplo daquela resolução do stf sobre tatuagens.” Em agosto de 2016, o Supremo Tribunal Federal determinou que instituições públicas não podem desclassificar ninguém de um concurso seletivo pelo simples fato de se tatuar.
Procurado, o diretor da escola, Marcos Neves dos Santos, preferiu não conceder entrevista.

Bilhete
F
azia quase uma semana que T. Angel trabalhava no Américo quando uma estudante o abordou logo após a aula. Segurava uma folha pautada de caderno. Em silêncio, entregou-lhe o manuscrito e saiu da classe. O professor leu e releu o bilhete: “Se alguma pessoua te jugar por que você é assim não de atenção. Se você se sentir bem assim continue feliz. Eu não me emcomodei por que você é assim. E fiquei feliz porque você se sente bem. Siga a sua vida como você quiser e nunca deiche alguem te julgar te tratar como se você fosse um animal por que você não é.”
(revista piauí)

terça-feira, 9 de maio de 2017

As três mosqueteiras

Uma aventura teatral

espetáculo no pequeno teatro parisiense mal terminou e uma senhora refinada, que não desgrudara os olhos do palco durante oitenta minutos, sussurrou para si mesma, em bom português: “Que maravilha!” Logo depois, enquanto as luzes da plateia acendiam, subiu um pouco o tom de voz e anunciou: “Quero comprar, Rosa.” A amiga que a acompanhava não entendeu: “Comprar o quê?” “A peça”, respondeu a senhora, sem interromper os aplausos inflamados. Erguendo-se da poltrona, Rosa esboçou um sorrisinho irônico e disparou: “Você enlouqueceu, Bia?”
Era janeiro de 2015. Embora visitem Paris com regularidade, as cariocas Maria Beatriz Bley Martins Costa e Rosina Villemor Cordeiro Guerra ainda não conheciam o acolhedor Ciné 13 Théâtre, onde Jacques Mougenot acabara de encenar o monólogo L’Affaire Dussaert, que ele próprio escreveu. Foram parar ali por indicação de uma francesa. “Sério, Rosa! A gente compra a peça e dá um jeito de montá-la no Brasil”, reiterou Bia. Nenhuma das duas, porém, havia feito algo parecido antes. Não tinham nem sequer pisado numa coxia ou num camarim. “E como se compra uma peça?”, indagou Rosa. O protagonista do espetáculo certamente saberia. Decidiram aguardá-lo na porta do teatro.
“Qual o telefone de vocês?”, pediu o ator, um tanto ressabiado, quando Bia e Rosa o abordaram. “Não se preocupem. Amanhã vou procurá-las”, garantiu. Em cartaz com L’Affaire Dussaert há quase uma década, Mougenot já a apresentou mais de 600 vezes. “Pronto! O homem arranjou um modo gentil de nos dispensar”, deduziram as amigas à medida que se afastavam do teatro. “Duvideodó que alguém irá nos procurar.”
Enganaram-se. O ator não só ligou como as encaminhou à sua agente. Saíram do escritório dela com o negócio praticamente selado. Os direitos para a tradução e adaptação da peça custavam 3 mil euros ou cerca de 9,5 mil reais à época. “Vamos mesmo comprar?”, hesitou Rosa. “Claro! E ainda botaremos a Marilu na jogada”, retrucou Bia.

Spa
D
iplomata aposentada, Marilu de Seixas Corrêa nasceu em Roma, mas tem raízes franco-brasileiras. Como já rodou o mundo, fala cinco idiomas fluentemente: português, espanhol, italiano, francês e inglês. Hoje mora em Copacabana, na Zona Sul do Rio, à semelhança de Rosa. Bia vive perto delas, no bairro de Ipanema. Com idades entre 64 e 71 anos, constituíram famílias numerosas, que somam nove filhos e dezesseis netos. Inseparáveis, gostam de conversar pelo WhatsApp, num grupo batizado de As Três Mosqueteiras.
O trio, de início, era uma dupla. Rosa e Bia se tornaram sócias há muito tempo numa empresa que organiza eventos relacionados à sustentabilidade – ou à “economia verde”, como preferem dizer. Mais tarde, a parceria se ampliou e as duas inauguraram uma galeria de arte, a CorMovimento, especializada em obras modernistas. Um dia, vinte anos atrás, resolveram emagrecer e viajaram para o litoral fluminense. Trancafiaram-se num spa de Búzios, onde conheceram Marilu. Logo viraram cúmplices. Costumavam fugir da “prisão” com o intuito de “comer um peixinho” na cidade.
Desde então, perambulam pelo circuito cultural do Rio, de Paris e de Nova York. Tentam ver um pouco de tudo: exposições, filmes, peças, musicais, óperas e concertos. Marilu, que toca violoncelo, é quem cuida da programação erudita. Ela também recebeu a incumbência de verter para o português o monólogo que as amigas cismaram de adquirir. “Quando trabalhava no Ministério das Relações Exteriores, traduzi livros de ciência política e economia. Mas jamais ousei me arriscar pelo campo literário ou teatral. Foi a primeira vez que encarei uma tradução do gênero.” L’Affaire Dussaert se converteu, assim, em O Escândalo Philippe Dussaert.
Com um quê de comédia, o espetáculo se desenrola à maneira de uma conferência. No palco, está um palestrante que discorre sobre a trajetória de um respeitado pintor, capaz de se dividir entre o figurativismo e a arte conceitual. O escândalo mencionado no título se dá quando, em 1991, o governo da França propõe pagar 8 milhões de francos por uma polêmica criação do artista.
A trama despertou o interesse das Três Mosqueteiras principalmente pelo fato de expor e questionar os preceitos muito peculiares que norteiam a arte contemporânea. “Certa ocasião, em Paris, me deparei com um baldinho no meio de uma galeria. Um baldinho e nada mais. Toda vez que me aproximava, o baldinho andava. Pensei: ‘Que troço ridículo, meu Deus! Por que um artista produz uma bobagem dessas?’”, conta Rosa. “São coisas que não nos comovem. Mesmo assim, nos esforçamos para compreendê-las, porque não temos uma opinião fechada sobre o assunto”, prossegue Bia. “Nossa cabeça é aberta, mas nossa emoção permanece conservadora”, resume Marilu.

Presentão
Semanas depois de importarem a peça, as amigas ainda não sabiam quem convidar para interpretá-la. Eis que, almoçando num restaurante por quilo do Leblon, Bia e Rosa avistaram Marcos Caruso. “Taí! Ele é o cara!”, intuíram de imediato. O ator se encontrava na fila do caixa. “Prazer, Marcos! Você se incomodaria de bater um papo em nossa mesa?” Iniciou-se, então, uma nova etapa da aventura orquestrada pelas Três Mosqueteiras. Caruso – que, em 44 anos de carreira, nunca protagonizara um monólogo – abraçou o projeto e se dispôs a concretizá-lo. Escolheu o diretor, Fernando Philbert, montou uma equipe técnica e, via patrocínio, arrumou os 400 mil reais necessários para bancar os custos.
Em agosto de 2016, O Escândalo Philippe Dussaert estreou no Rio. Fez tanto sucesso que cumpriu uma temporada de sete meses. Agora está em turnê nacional. Cerca de 40 mil pessoas já prestigiaram o espetáculo, que abocanhou seis prêmios, incluindo o Shell de melhor ator. “No fim das contas, Bia, Rosa e Marilu me deram um presentão”, reconhece Caruso. “Jamais imaginei que anjos pudessem aparecer num restaurante por quilo…”
(revista piauí)

sábado, 1 de abril de 2017

Bela, engajada e do laiá-laiá

No Carnaval, com seios nus

Enquanto se observava no espelho pela última vez antes de ganhar a rua, Andréia de Matos Rocha ainda sentia certa apreensão, mas já não tinha dúvidas: iria, sim, correr o risco de se misturar à multidão. Era sábado de Carnaval. Faltavam vinte minutos para o meio-dia e um mar de foliões se espalhava por toda a cidade, em blocos ora gigantescos, ora paroquiais. Mignon, de pele clara e traços marcantes – os olhos castanhos e reluzentes, as sobrancelhas grossas, a boca sinuosa, o pescoço comprido –, a cientista social de 27 anos, que trabalha como pesquisadora de imagens e tendências comportamentais numa agência publicitária, gosta de metamorfoses. Vira e mexe, muda radicalmente o corte dos cabelos negros. Houve uma época em que os deixou à beira da cintura. Depois, os encurtou e alterou de tantos modos que, às vezes, parecia uma índia e, outras, uma egípcia ou uma melindrosa. Naquele sábado, exibia a cabeça raspada, à maneira da atriz Natalie Portman no filme V de Vingança. Usava botas de cano curto, um short cor de vinho, bastante apertado, e uma camiseta branca com o rosto estilizado da drag queen Ivana Wonder. Também portava dois piercings no nariz e vistosos brincos triangulares de acrílico. O batom preto e os longos cílios postiços lhe acentuavam a personalidade do rosto, salpicado de glitter.
O visual carnavalesco se distinguia muito pouco do look que a jovem costuma ostentar em baladas noturnas. Apenas um detalhe tornava o conjunto inusual: sob a camiseta, sustentados pela parte superior de um biquíni, seus pequenos seios reluziam. O mesmo glitter dourado que lambuzava o rosto lhe cobria os mamilos. É que a moça pretendia desfilar nos blocos de São Paulo com os peitos nus. Se tudo corresse como planejara, sacaria a t-shirt e o biquíni em pleno asfalto e se juntaria à massa de corpos suados. Queria viver uma experiência semelhante à dos homens que se divertiam sem camisa.
Quando saiu do apartamento que divide com uma amiga, lembrou mais uma vez que nunca fizera topless na praia ou num clube. Já protagonizara ensaios fotográficos em que mostrava os seios, mas as imagens resultavam invariavelmente de sessões privadas. Expor-se nas ruas e avenidas, sem a proteção de seguranças ou cordões de isolamento, seria bem diferente. Mesmo sob o peso de tais reflexões, não recuou. Sozinha, caminhou até a estação Fradique Coutinho do metrô, no bairro de Pinheiros, e embarcou rumo à Praça da República, no Centro.

Ambiguidade
“Lobisomem! Lobisomem!” Os gritos dos meninos ainda reverberam em Andréia Rocha, menos como um trauma e mais como um norte. Ela morava com os pais, o irmão e a irmã no Portal da Vila Prudente, condomínio paulistano de classe média. Caçula da família, herdou dos antepassados portugueses o excesso de pelos e uma cabeleira tão farta quanto repleta de caracóis. O legado em nada a incomodava até a chacota dos moleques. Uma menina cabeludíssima, com braços e pernas cobertos por uma penugem escura? Cruz-credo! Lembrava um homem. Pior: um lobisomem! O coro impiedoso a perseguiu durante meses e só findou depois que a garota seguiu o conselho da irmã: “Chute o saco dos babacas! Se gritarem bobagens, acerte um deles nos ‘países baixos’ e saia correndo.”
O episódio poderia ter se diluído entre as infindáveis crueldades que a infância nos obriga a sofrer e praticar, mas virou um marco por duas razões. “Foi meu primeiro contato íntimo com o sexo oposto”, ironizou a jovem uma semana após o Carnaval, na sala de seu espaçoso apartamento. Foi também quando ela começou a tomar consciência do abismo que separa os gêneros. Claro que, antes, já havia percebido o óbvio: garotos e garotas não habitam propriamente o mesmo planeta. No entanto, até aquele momento, as discrepâncias só lhe despertavam curiosidade. Não a rebaixavam nem engrandeciam os meninos. O bullying no condomínio fez a balança pender para um dos lados. Revelou que, em determinadas situações, diferenças são sinônimo de desvantagens. Ou melhor: que, publicamente, o corpo das mulheres amarga mais limites que o masculino. “Meu irmão tinha pelos nos braços e nas pernas, mas ninguém o xingava de lobisomem.”
À zombaria da molecada somou-se, logo em seguida, a rejeição insinuada pela mídia. “Caiu a ficha de que, como meus vizinhos, as revistas femininas e a publicidade não toleravam cabelos abundantes e enrolados.” A menina iniciou, então, uma batalha contra os cachos. Xampus, cremes, tesouras, escovas, secadores e chapinha entraram em ação e, à custa de muita insistência, lograram domar a juba. Cada vez menos elásticos, os fios rebeldes acabaram se tornando lisos e pouco volumosos. Mantê-los assim demandava uma disciplina espartana. “Minhas aulas na escola começavam às sete e meia da manhã. Eu acordava bem mais cedo, às cinco e cinquenta, só para arrumar os cabelos.”
No princípio da adolescência, desgostosa com as olheiras (será que a tachariam de urso panda?), a garota descobriu a maquiagem. Passar base, sombra e afins se transformou em obrigação. “Fiquei dependente de máscaras, sabe? Não conseguia sair de casa sem esconder as imperfeições do rosto, por menores que fossem.” Espichada no sofá, interrompeu as recordações e, após um breve silêncio, emendou: “Não conseguia e não consigo. Até hoje preciso de maquiagem para enfrentar o mundo.”
Naquela noite de quinta-feira, enquanto conversávamos, a jovem usava rímel, corretivo e batom vermelho, além de esmalte cinza-azulado nas unhas das mãos. “Quando raspei o cabelo, me senti totalmente liberta. Pensei: ‘Acho que botei um fim naquela preocupação toda com alisamento e cortes.’ Da maquiagem, porém, continuo escrava.” E da depilação, idem. Mal despontam, os pelos são prontamente eliminados. “Vê? Apesar dos meus esforços, sigo mordendo a isca das revistas e dos publicitários. Já desconstruí um bocado de coisas na tal da feminilidade hegemônica, mas… It’s a long way.
Abdicar dos padrões significa, em última instância, abrir mão da vaidade? “De jeito nenhum! Significa encontrar em mim outro tipo de vaidade, menos subserviente às convenções. Por que só as mulheres devem parecer angelicais? Por que precisamos sempre exalar aroma de flor? O que há de errado com o nosso cheiro natural? Por que os pelos de nossas axilas causam tanto nojo?”
A cabeça raspada confere ares francamente masculinos à jovem. No entanto, não lhe obscurece os atributos que, em geral, classificamos como femininos. Com 1,60 metro de altura e 44 quilos, a moça tem movimentos graciosos, voz fina e um sorriso frequente, que lhe adoça as frases e não raro deságua numa gargalhada curta. “Se me julgo bonita? Sim, mas sei que uma porção de gente me considera apenas estranha.”
A ambiguidade, apesar dos pesares, lhe cai muito bem – e não se manifesta somente em termos estéticos. No convívio social, a jovem mostra-se extrovertida. Papeia com todo mundo, brinca e gesticula sem rédeas. “Faço a política da boa vizinhança.” Em contrapartida, é capaz de ensimesmar-se prazerosamente. “Aprecio o silêncio e a solidão.” Quando discorre sobre assuntos que lhe interessam, emprega jargões característicos dos “fefeleches” – aqueles que estudam ou estudaram na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, a FFLCH: objetificação, heteronormatividade, cisgênero, lugar de fala, statement. Por outro lado, tempera o discurso quase professoral e bastante veloz com expressões adolescentes, como “de boa” e o inescapável “tipo”: “Eu as conheci tipo há uns cinco anos” ou “Nunca participei tipo de nenhum grupo que…” Cosmopolita, menciona artistas e intelectuais de diversos países ao longo das conversas, mas não abandona o sotaque do interior paulista. Embora originária da capital, emula dos pais, nascidos em Andradina, o erre puxado: “vendedorrr”, “irrrmã”, “elevadorrr”, “verrrdade”.
As ambiguidades da moça invadem igualmente a seara afetiva. “Sou bissexual. Quer dizer: talvez seja pansexual. Entende?” Mais ou menos… “Normalmente, saio com meninas e meninos. Só que não descarto a possibilidade de sair também com transexuais. Nunca rolou. Se um dia rolar, vou me definir como pansexual, ainda que não ligue para rótulos. Entendeu agora?”

Abstêmia
No sábado de Carnaval, assim que chegou à Praça da República, Andréia Rocha se encontrou com um amigo. Os dois andaram rumo à esquina mais famosa da cidade: a das avenidas Ipiranga e São João, celebradas por Caetano Veloso em Sampa. Era ali que se concentrava o bloco Tarado Ni Você, fundado justamente para homenagear o compositor baiano. Àquela altura, milhares de pessoas já se aglomeravam ao redor dos músicos, que percorreriam o centro histórico. Com o amigo, a jovem procurou outros dez conhecidos. Pretendia ficar perto deles todo o tempo. Formado por duas moças e oito rapazes, a maioria gays, o grupo poderia intervir caso a flagrasse em perigo quando estivesse com os seios à mostra.
Ela tomou ainda uma segunda precaução: não ingeriu nenhuma gota de álcool antes de se aventurar pelas ruas. Fã de cerveja, vinho e gim-tônica, iria se manter abstêmia o dia inteiro. Receava que a bebida a tornasse mais vulnerável às eventuais ameaças.
Até onde seu olhar alcançava, não havia ninguém de topless no bloco. Várias foliãs, porém, levantavam as mesmas bandeiras que a mobilizavam. Aguerridas, inscreveram no próprio corpo palavras de ordem contra o assédio. “Não é não!”, avisava uma das tatuagens provisórias. “Deixa ela em paz”, exigia outra. “Não sou obrigada”, proclamava uma terceira. Afirmações idênticas ou similares pipocavam pelo resto do Brasil, no rosto, pernas, braços, costas e barriga de incontáveis carnavalescas.
“Tiro agora? Será?”, perguntou a jovem para o amigo. O bloco mal saíra da concentração, e o calor já se fazia insuportável. “Tire!”, atiçou o garoto. Sentindo-se à vontade, ela se livrou da camiseta, soltou a parte superior do biquíni e finalmente libertou os seios. “Amigaaaa! Sua louca!”, festejou o rapaz.

Piercing
Era branco, de cetim e com borboletinhas cor-de-rosa. A irmã de Andréia Rocha o usou primeiro, na adolescência. Depois o passou para a caçula: “Mais tarde, você poderá usar também.” Mas a menina não aguentou. Tinha 6 anos quando pôs o sutiã. Ficou largo, mal-ajambrado. Mesmo assim, a pequena adotou a lingerie extemporânea por um período, debaixo de umas blusinhas muito infantis.
O jogo inverteu completamente tão logo a garota viu os seios desabrocharem. “Chegou a hora. Use o sutiã”, recomendou a irmã. A caçula se negou. Rejeitou não apenas o de borboletinhas como qualquer outro. “Usar por quê? Meus peitos são minúsculos.” A irmã insistiu: “Porque seus mamilos aparecem toda vez que você bota uma camisa mais transparente.” A caçula se manteve irredutível: “Só por isso? Que ridículo!” Tempos depois, acabou cedendo. Precisava que a irmã, hábil no manejo da chapinha, lhe alisasse os cabelos. “Combinado. Mas, em troca, você terá de usar sutiã.”
Hoje, a jovem continua arredia à lingerie. “Reconheço que certas mulheres necessitam dela. Quando os peitos são grandes, o sutiã faz diferença. Evita que pesem ou balancem excessivamente. Agora, no meu caso… Qual a funcionalidade da peça para a galera de seios menores? Sutiã incomoda, aperta, esquenta. Por que me sujeitar às desvantagens daquele negócio se não vou desfrutar de nenhum benefício? ‘Ah, é indecente deixar entrever os mamilos sob a roupa…’ É mesmo? Qual o problema de exibir uma região do corpo tão característica do feminino? Eu só visto sutiã quando quero. Jamais por imposição.”
A moça acredita que, se parassem para refletir sobre o gesto condicionado de “amarrar os seios”, diversas mulheres abdicariam dele. “É como aquela história de dormir nua. ‘Não pode, não! Ponha pelo menos a calcinha’, dizia minha mãe. Nunca entendi o motivo. Higiene? Compostura? Minha mãe não conseguia explicar.”
A jovem tampouco consegue explicar por que fixou um piercing no mamilo direito. Não seria igualmente uma convenção, ainda que restrita à tribo dos alternativos? “Xiii… Não faço ideia. Botei por impulso.”

Flor de cerejeira
“U
ma, duas, três…” Andréia Rocha perdeu as contas de quantas tatuagens possui. Precisa conferir. “Treze!” Para ela, corpo e arte se confundem. Durante dezesseis anos, dedicou-se intensamente às aulas de balé clássico. Também praticou sapateado, jazz, flamenco e butô, embora com menos regularidade. “Por causa da dança, enxergo os membros inferiores e superiores, o torso e a cabeça como matérias-primas, massas que devem ser moldadas e exibidas.” Não à toa, já se despiu para dez fotógrafos, alguns profissionais, outros diletantes. Os ensaios, muito bonitos, circularam pelas redes sociais. A ousadia lhe rendeu advertências e bloqueios por parte do Facebook e do Instagram, que proíbem a divulgação de nudez.
A primeira tatuagem da jovem reproduz uma frase de Isadora Duncan: Danser sa vie [Dançar a vida]. A revolucionária bailarina californiana, que morou na França, a registrou em sua autobiografia: “Desde o início, nada mais fiz do que dançar a vida. Criança, dançava a alegria espontânea dos seres em crescimento. Adolescente, dancei com uma felicidade que se transformava em apreensão diante das correntes obscuras e trágicas que começava a vislumbrar no meu caminho.” Andréia Rocha gravou a expressão acima do cotovelo. “Está à minha direita. Tenho uma regrinha para as tatuagens. As do lado direito remetem sempre à arte.” Encontram-se ali desenhos ou pinturas de Egon Schiele, Gustav Klimt e Hans Bellmer, além da inscrição “R. Mutt”, um dos pseudônimos de Marcel Duchamp.
Já o lado esquerdo abriga imagens de teor mais filosófico. “São as coisas em que acredito.” O braço, por exemplo, traz as consoantes “grl pwr”, de girl power, e doze flores de cerejeira. “Os japoneses cultivam uma tradição que me comove bastante. Eles se reúnem anualmente para observar o florescimento da cerejeira. A árvore produz flores lindíssimas, que duram apenas uma ou duas semanas. Então, convém olhá-las com o máximo de atenção, porque logo vão desaparecer. Gosto do ensinamento que deriva desse ritual: ‘Apreciar a beleza do efêmero.’”

Periguete
P
assava um pouco das 16 horas quando a jovem e seu grupo resolveram deixar o Tarado Ni Você e se dirigiram para outro bloco, o MinhoQueens, também no Centro. Depois, ainda engrossariam o Batekoo. Desde que se livrara da camiseta, a moça só cobrira os seios uma vez, numa lanchonete. A aventura estava saindo melhor que a encomenda. Ninguém tentara agarrá-la ou agredi-la nem a xingara. Houve quem lhe dissesse umas baixarias (“Delícia, vou te chupar todinha!”), lhe virasse a cara ou a tomasse por maluca (“Pirou, menina?”). Houve, ainda, uma garota que quebrou o pau com o namorado (“Pare de secar aqueles peitos!”) e o afastou da “periguete”.
Majoritariamente, porém, as reações se mostraram positivas. Homens e mulheres elogiaram a valentia da foliã: “Maravilhosa!”, “Empoderada!”, “Da hora!”, “Arrasou!” Alguns, mal a avistavam, berravam lemas feministas, como “Free the nipple” [Liberte o mamilo]. Uma turma de rapazes a abordou e, “veja bem, com o maior respeito”, pediu para tirar fotos perto dela. Mesmo os policiais militares que patrulhavam os blocos não a importunaram. Embora inexista no país uma lei específica que desautorize o topless em público, o artigo 233 do Código Penal possibilita enquadrá-lo como ato obsceno. Tudo depende de quem interpreta a legislação. A pena prevista soa um tanto despropositada: multa ou três meses a um ano de detenção.
“Livre, leve e solta.” Era assim, com um simpático clichê, que a jovem respondia quando lhe indagavam como estava se sentindo. Temores à parte, vivenciava uma espécie de epifania. Tinha absoluta consciência de que se encontrava num momento de exceção. Em breve, o experimento terminaria. Mas, enquanto durava, revelava-se belo, igualzinho à flor da cerejeira.

Pais
N
ascida no Twitter, a campanha #MeuAmigoSecreto se disseminou pela web em novembro de 2015. Sob os ventos do neofeminismo, milhares de brasileiras lançaram mão da hashtag para denunciar atos que consideravam machistas, mesmo se partiam de homens à primeira vista tolerantes: “#MeuAmigoSecreto acha que, em briga de marido e mulher, não se mete a colher” ou “#MeuAmigoSecreto pensa que cantadas são elogios e não assédios.” Andréia Rocha aderiu à mobilização e se identificou com os depoimentos de outras internautas. Cerca de trinta delas, inclusive a jovem, decidiram formar um grupo para estudar questões de gênero. “A gente não só debate o assunto via Facebook ou WhatsApp como participa de marchas e promove reuniões presenciais.”
Foi na Universidade de São Paulo, onde ingressou em 2007, que a moça conheceu as teorias feministas. Pôde, assim, compreender melhor o inconformismo difuso que a acompanhava desde cedo, quando se via diante de determinados padrões comportamentais. Justamente por estar próxima desse tipo de discussão, ela sabe que nem todas as correntes do feminismo apoiam integralmente a atitude que tomou no Carnaval.
Exibir os seios para reivindicar – e, de certa maneira, concretizar – a igualdade entre os sexos é uma tática que ativistas utilizam há pelo menos cinco décadas. Quem a desaprova avalia que a estratégia acaba incentivando aquilo que procura combater: a hipererotização do corpo feminino e o voyeurismo masculino. Não por acaso, várias negras recusam a prática. Alegam que o patriarcalismo as encara prioritariamente como objetos sexuais, mucamas fogosas à disposição do sinhô libidinoso. Ao se despirem nas ruas, mesmo sob o fervor da militância, reiterariam o papel que a escravidão lhes reservou.
“De fato, em relação às negras, a premissa faz todo sentido. Acontece que sou branca. E às brancas o patriarcalismo impõe o recato, principalmente fora ‘do lar’. Minha nudez pública tem o potencial de contrariar as regras do jogo.” Para a jovem, o machismo destinou às brancas um lugar paradoxal: o da pudica que, quando o homem deseja, se torna lasciva (“Dama na sala e puta no quarto”, reza o ditado). Atualmente, o paradoxo até tolera – ou mesmo estimula – alguma libertinagem da sinhá fora do âmbito doméstico, desde que em sintonia com as veleidades do macho. “Durante o Carnaval, agi como um ator político, não como um bibelô que tira a roupa na esperança de aguçar a fantasia dos homens.”
Ironicamente, a moça que compra briga em público encontra dificuldades para enfrentar a família. Seus pais – um representante comercial no setor de autopeças e uma dona de casa – desconhecem os posicionamentos da filha. “Não lhes contei que sou bissexual, que desfilei com os seios nus ou que apareci naqueles ensaios fotográficos. Vão descobrir lendo a piauí.” Ela própria lhes mostrará a revista. “Faz tempo que preciso ter uma conversa com os dois. Preciso, não. Eu quero…” E por que ainda não teve? “Boa pergunta. Não sei… Meus pais são conservadores, mas respeitosos, compreensivos, bacanas. Não reagem com violência às mudanças. Gostaria de lhes falar o que penso sobre o corpo, os gêneros, o feminismo. Só que até agora…”

Paraquedas
D
epois de pular no Batekoo, Andréia Rocha seguiu para o Vale do Anhangabaú, onde a prefeitura instalara um palco em que a funkeira MC Carol e outros músicos se apresentariam. Eram oito da noite. A jovem estava sem camiseta havia mais de sete horas. Enquanto assistia aos shows, notou que dois sujeitos não tiravam os olhos dela. “Esquisitos, né?”, comentou uma das foliãs que a acompanhavam. “Já escureceu. Melhor você se vestir.” Receosa, a moça concordou.
“Percebe a gravidade do que aconteceu?”, indagou em seu apartamento. “Uma experiência maravilhosa, libertária, interrompida por causa do medo. O mesmo medo que nós, mulheres, sentimos diariamente quando andamos pelas ruas. O fantasma da violência sexual nos assombra o tempo inteiro, às vezes com estardalhaço, às vezes de modo sutil. Sob a ótica do machismo, nossos corpos são eróticos em qualquer circunstância – no ônibus, no escritório, no supermercado. Se saio de jeans e casaco, me assediam. Se uso bermuda, também. E se mostro os seios, idem! As besteiras que ouvi nos blocos não diferem das que escuto na feira ou na padaria. Uma garota que vê o tórax nu de um cara não pensa necessariamente: ‘Uau! Quero te lamber todinho!’ O erotismo, para nós, depende de um contexto. Para vocês, não. Por quê? Culpa da biologia? Me poupem! Vocês ainda têm de aprender muita coisa.”
Ela parecia realmente indignada. Talvez preferisse que uma repórter, e não um homem, a entrevistasse. “Confesso que, quando você me procurou, hesitei: ‘Ih, um jornalista… O sujeito vai cair de paraquedas. Não está na pele de uma mulher para entender perfeitamente o que lhe direi. Vai deturpar tudo.’ Mas, o.k. Sou positiva. Resolvi apostar. Espero não me dar mal…”
(revista piauí)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A vez de Andréa

Sobre o direito de morrer como travesti

Em 1998, cercada de travestis e ativistas gays, Andréa de Mayo pediu o microfone na plateia do Programa Livre. Queria fazer uma pergunta para o convidado daquela tarde, o ultraconservador Afanasio Jazadji, então deputado estadual pelo PFL paulista. Ela estava furiosa. Com cabelos negros, crespos e longos, trajava calça social e um camisão listrado de mangas curtas. Não usava maquiagem nem adereços, exceto um relógio de pulso, e tinha a voz fina. Era deliberadamente uma figura ambígua, que trafegava entre o masculino e o feminino.
Transmitido pelo SBT, sob a batuta de Serginho Groisman, o Programa Livre se notabilizou por promover debates acalorados. Àquele dia, o apresentador e o público sabatinavam Jazadji sobre questões de gênero. O parlamentar, claro, defendia aguerridamente a tradição e achincalhava os que a colocavam em xeque. “Vi-aaa-do! Conversa de viadinho, de mariquinha!”, bradava, com sotaque italianado, apesar das origens romenas. Mal pegou o microfone, Andréa mirou o deputado e disparou: “Quando o senhor saiu às ruas angariando votos, disse para o indivíduo homossexual ‘Não vote em mim’?” Os aplausos e gritos da plateia quase abafaram a resposta do político. “Não, não, absolutamente…”, admitiu Jazadji. Ainda irritada, Andréa jogou o braço esquerdo para o alto e para trás, como se falasse: “Então vá se catar!”
A cena encontra-se no YouTube e dura míseros onze segundos. Não deixa de ser uma relíquia, já que a internet reúne poucos vídeos com Andréa. Ela – que nasceu Ernani dos Santos Moreira Filho e se definia como travesti, embora nem sempre envergasse roupas ou acessórios de mulher – morreu em 2000, logo após comemorar 50 anos. Principalmente no underground de São Paulo, sua cidade natal, ficou conhecida pelas peripécias noturnas e por defender com unhas (às vezes, coloridérrimas) e dentes (bem cuidados) a dignidade dos LGBT. “O palhaço pinta o rosto para viver. O travesti também. Por que o travesti não trabalha? Quem dá trabalho para o travesti? Me conta isso! Se falta trabalho para pai de família, vão dar trabalho para travesti?”, resumiu em 1985, no programa Comando da Madrugada, conduzido pelo telejornalista Goulart de Andrade.
Depois de um longo ostracismo, quando nem mesmo os movimentos gays costumavam evocar o legado de Andréa, a militante desbocada e pioneira está retornando às discussões sobre os direitos dos transgêneros. É que, em novembro de 2016, por iniciativa da prefeitura paulistana, o túmulo dela no cemitério da Consolação recebeu uma nova identificação. Agora, os que visitarem a sepultura descobrirão que ali jaz não apenas Ernani dos Santos Moreira Filho, como anuncia a placa de bronze original, mas também Andréa de Mayo, conforme indica a placa recém-afixada. As duas inscrições aparecem juntas, uma embaixo da outra.
Já faz algum tempo que, em diferentes documentos, travestis e transexuais vêm conseguindo substituir seus nomes de batismo pelos adotados socialmente. O reconhecimento oficial, desta vez, se estende à seara dos mortos. Se a ativista decidiu viver como Andréa, gesto que lhe custou um bocado, por que haveria de morrer somente como Ernani?

Prohibidu’s
“P
ai, vou operar logo. Preciso tirar a merda do silicone. Está dando rejeição.” Era uma sexta-feira quando Andréa comunicou por telefone que iria se submeter à delicada cirurgia. Avisou não o pai biológico, com quem tinha péssima relação, mas o amigo e guia espiritual Walter Alegrio – ou Pai Walter de Logun Edé, sacerdote iniciado no candomblé da nação Egbá-Arakê, a mesma de Mãe Menininha do Gantois. “Meu filho, nós, do santo, nunca fazemos nada importante sem ouvir os orixás. Não se opere antes de jogar os búzios e conferir se o momento é propício”, aconselhou o religioso, que sempre se referia à travesti no masculino. Ela concordou. Naquela manhã, Pai Walter viajaria para o Rio de Janeiro. Planejava voltar uns dias depois e consultar os búzios diante da própria Andréa.
Bem alta e branquela, a travesti ostentava coxas e nádegas imensas (os seios, em contrapartida, se revelavam pequenos). O corpão desabrochara da pior maneira: à custa de hormônio e muito silicone industrial, injetado sem nenhum acompanhamento médico. Na época, quanto mais litros do produto uma travesti aplicasse, mais poder detinha entre os pares.
Discriminada pela família, a futura militante saiu de casa antes dos 18, ainda sob a máscara de Ernani. Morou na rua e abraçou toda sorte de bicos: lavava carros, engraxava sapatos, varria calçadas. Tentou cantar e dançar profissionalmente, mas não deslanchou. Com 20 e poucos anos, resolveu se montar e virou Andréa de Mayo. O sobrenome celebrava o mês em que Ernani nasceu. Por ironia, acabou se mostrando premonitório, uma vez que a travesti morreu igualmente em maio, no dia 17.
Quem a conheceu jura que não bebia álcool, não consumia drogas nem se prostituía. Ganhava dinheiro negociando carros e como dona de boates – a Val Improviso e a Prohibidu’s, onde garçons trabalhavam nus, se tornaram míticas. Frequentemente, recepcionava os habitués dos nightclubs em companhia de Al Capone, um cão pequinês. Quando sobrava grana, comprava apartamentos, abarrotava-os de beliches e alugava os leitos para outras travestis. Há relatos de que também atuava como cafetina. Explosiva, não fugia de brigas. Andava com um nunchaku, o bastão duplo das artes marciais, sob o braço – alguns afirmam que se tratava de uma corrente – e chegou a levar seis tiros de um namorado.
Curiosamente, em oposição à faceta agressiva e oportunista, exibia um lado protetor. Ajudava favelas e instituições de caridade, acolhia travestis com Aids, denunciava preconceitos contra homossexuais e reivindicava a criação de um estatuto que garantisse todos os direitos da comunidade LGBT.

Batonzinho
“Em maio de 2000, retornei de viagem como previsto e procurei Andréa imediatamente. Pretendia jogar os búzios para ela”, relembra Pai Walter. Foi quando recebeu a notícia: negligenciando as recomendações do amigo, a travesti se operou antes de escutar os orixás. Sofreu complicações pós-cirúrgicas e não resistiu. Tinha pressa em extrair o silicone tanto por razões de saúde quanto estéticas. Já não suportava ver o corpo deformado – de tal modo que, nos últimos tempos, raramente se montava. Passava um batonzinho e olhe lá.
Segundo o guia espiritual, o pai biológico de Andréa não deixou que a enterrassem no jazigo dos parentes. “Autorizei, então, que pusessem o menino no túmulo de minha própria família”, conta o sacerdote, que completa 69 anos em março. Quase duas décadas depois, quando o Serviço Funerário do Município de São Paulo manifestou o desejo de reparar a memória da ativista, Pai Walter permitiu que instalassem a nova placa, doada pelo professor e arquiteto Renato Cymbalista, um dos idealizadores do ato. “Gostava à beça de Andréa”, diz o guia. “Nunca o tratei no feminino porque não reconheço travestis como mulheres. Ele respeitava minha opinião. Eu também respeitava a dele. Cada um com seus pecados, né?”
(revista piauí)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O futuro há de ser tão novo quanto a novidade de que tanto precisamos?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sem álcool, com Jaguar

Lembranças de um amnésico alcoólico que se tornou abstêmio

(mais…)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Nunca teremos tempo suficiente?

Somos um instante.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Prova de literatura ou de religião?

Kardecismo

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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Questões metafísicas

Inferno 3

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Tudo o que tenho a oferecer

“Um – Posso colocar meu coração a seus pés?
Dois – Se não me sujar o chão.
Um – Meu coração é puro.
Dois – Veremos.
Um – Eu não consigo tirá-lo!
Dois – Quer ajuda?
Um – Se não for incomodar.
Dois – É um prazer! Mas também não consigo tirá-lo…
Um – (Chora)
Dois – Vou fazer uma cirurgia e tirá-lo já. Para que tenho um canivete, afinal? Vamos dar um jeito. O negócio é trabalhar e não se desesperar. Pronto – aqui está! Só que isso é um tijolo… Seu coração é um tijolo!
Um – Mas ele bate por você.”

Peça do Coração, escrita por Heiner Müller
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