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terça-feira, 1 de março de 2022

A dor como herança

Uma neta diante das revelações deixadas por escrito pela avó

S
e lhe pedissem para definir a avó materna em poucas palavras, a carioca Nanda Félix não hesitaria em pegar emprestado o título de uma antiga opereta: A Viúva Alegre. Composta pelo austro-húngaro Franz Lehár, a peça cômica narra a trajetória de Hannah, uma jovem bonita, sedutora e espirituosa que herda a fortuna do marido banqueiro. A primeira montagem, de 1905, não agradou. Com o tempo, porém, o espetáculo alcançou tamanho sucesso que acabou ganhando pelo menos três versões cinematográficas. Em março de 1982, quando enviuvou, Maninha – a avó de Félix – já não exibia a mocidade de Hannah (beirava os 60 anos) nem ficou milionária, embora gozasse de boas condições financeiras. Mesmo assim, a neta costumava associá-la à protagonista da opereta famosa. “Como nasci em outubro de 1981, mal conheci o meu avô. Não sei quase nada sobre a personalidade ou os hábitos dele. Em compensação, pude conviver bastante com minha avó, que me dava a impressão de esbanjar felicidade. Era carismática, sagaz, engraçadíssima e, principalmente, curiosa. Ela se interessava por tudo e todos. Não fugia da vida.”
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Faro afiado

Um rato africano contra as minas terrestres

Ele não dava nenhuma bandeira de que defendia os fracos e oprimidos. Pelo contrário: quem o avistasse numa savana ou floresta logo se assustaria e sairia correndo. Dificilmente alguém imaginaria que aquela criaturinha dentuça salvara inúmeras almas por causa de um insólito superpoder, o olfato afiadíssimo. O herói sem capa nem escudo chamava-se Magawa e nasceu na Tanzânia, país da África Oriental, mas virou lenda graças às façanhas que protagonizou em outra região: o Sudeste Asiático. Era, por incrível que pareça, um rato.
Com pelagem castanha, inevitáveis orelhas de abano, cauda maior que o resto do corpo e bigodes tão longos que matariam Salvador Dalí de inveja, pesava 1,2 kg e media 70 cm de comprimento. Não tinha, está claro, o porte de um rinoceronte ou hipopótamo. Mesmo assim, os zoólogos o classificavam como um rato-gigante-do-sul. A espécie atende pelo nome científico de Cricetomys ansorgei e é bem mais parruda que os hamsters, camundongos e outros bigodudos.
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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

"Nunca deixe de se divertir, cara!"

Uma carta para o nadador Gabriel Araújo, que ganhou três medalhas em sua primeira paralimpíada, a de Tóquio

DANIEL DIAS, em depoimento a Armando Antenore

Gabrielzinho,
Como vai? Embora não sejamos muito próximos, me sinto à vontade para chamá-lo assim, pelo diminutivo carinhoso que o acompanha desde criança. Espero que você não se importe. Logo que nos conhecemos, há dois anos, em Lima, durante os Jogos Parapan-Americanos, notei certa semelhança entre nós. Não me refiro apenas às nossas deficiências motoras. Você sofre de focomelia, doença congênita que impede o desenvolvimento normal dos membros superiores e inferiores. Eu tenho má-formação nos braços, na perna direita e no pé esquerdo. Também não estou falando propriamente de nosso apego à natação, o esporte que já nos deu tantas alegrias e nos possibilita rodar o mundo. Penso, acima de tudo, nas características menos notórias que nos unem. Por exemplo: você reparou que nossos pais nos batizaram com nomes de anjo e de profeta? Gabriel e Daniel, uma rima celestial que serviria perfeitamente para qualquer dupla sertaneja! Você é mineiro até a medula – nasceu em Santa Luzia, cresceu em Corinto e se radicou em Juiz de Fora. Eu sou paulista de Campinas, mas me criei numa cidadezinha de Minas, Camanducaia. Por isso, me considero um pouco mineiro também. Você parece tocar a vida com leveza. Esbanja carisma e dança de um jeito engraçado quando vence provas importantes. Eu me julgo igualmente extrovertido e procuro manter o alto-astral mesmo diante dos piores desafios.
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domingo, 1 de agosto de 2021

"Acaba, pelo amor de Deus! Acaba!"

Um grupo de PMs no WhatsApp e a matança do Jacarezinho

Com deboche, espírito corporativo, fake news, ataques contra a TV Globo, demonização da esquerda e panfletos em favor do presidente Jair Bolsonaro. Foi assim que um grupo de PMs reagiu à mais agressiva e letal de todas as incursões já realizadas por forças de segurança pública na cidade do Rio de Janeiro. A operação do último dia 6 de maio começou logo cedo, invadiu a tarde e terminou com 28 mortos, incluindo um policial. A favela do Jacarezinho, uma das 1 018 que se espalham pela capital fluminense, serviu de palco para a matança. Naquela quinta-feira, 250 agentes da Polícia Civil ocuparam a localidade sob a justificativa de capturar 21 denunciados por associação ao tráfico e suspeitos de pertencer à facção Comando Vermelho (CV). Helicópteros blindados – os “caveirões voadores”, como ironizam os cariocas – apoiaram a investida terrestre.
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domingo, 1 de agosto de 2021

Viva Nossa Senhora do Café!

Entrevista imaginária com a criadora do projeto Entreviste um Negro

Helaine com H? Sim, Helaine Braga Martins Pereira, um nome de responsa, quase tão extenso quanto os da nobreza. Mas, na prática, é menorzinho: Helaine Martins e ponto final. Bem mais adequado à plebeia aqui, né? Decidi encurtá-lo quando me tornei jornalista. Nomes grandes não funcionam na hora de assinar uma reportagem. Herdei o H dos parentes maternos. Vovó se chamava Helena. Mamãe se chama Heloísa. Meus tios, Hélio e Helenice. Só o Alan escapou da sina. Privilégio de caçula… Ele é meu único irmão. Apelido? Carrego uma infinidade. Lane, Nani, Lany, He… Deixo a escolha por conta do freguês.
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sábado, 19 de junho de 2021

Nome aos números

No dia em que o Brasil ultrapassa a marca de 500 mil mortos pela Covid, um pouco da história de 137 deles

Celia Kamiya Abdala, de 75 anos, adorava roupas com mangas compridas e largas, que lembravam as asas de um morcego. Não por acaso, ganhou o apelido de Dona Batman. Acácio Cardoso Duarte, 68, cochilava à mesa durante os almoços de família. Humberto Vitach Gambaro, 86, fazia palavras cruzadas diariamente. Heládio Ferreira de Sousa, 91, nunca dormia sem rezar. Gessner Augusto Daré Júnior, 55, imitava o Incrível Hulk. Fernanda Caiuby Novaes Salata, 64, retratou em aquarelas os amigos imaginários dos filhos. Antonio Carlos Durans Diniz, 36, se levantava de madrugada para conversar com as plantas.
Getúlio Omito, 83, chamava a neta de “meu ouro”. Elcio Candido Moreira, 61, se orgulhava de operar empilhadeiras. Madalena Gomes Barbosa, 77, tinha fascinação por papagaios. Jacyr Simão, 80, cuidava de bonsais. Eric Barros Martins, 42, tomava cafezinho com os pães que ele próprio assava. Quando considerava algo espetacular, Ilza Garcia, 98, exclamava: “É federal!” Nerice Laura Eduardo de Mendonça, 56, não gostava do presidente Jair Bolsonaro. Gustavo Barreto Alcântara, 11, curtia viajar para a Disney. Ana Carolina Guimarães dos Santos, 38, detestava suco de goiaba. Robert da Luz Barradas, 62, comia somente a borda das pizzas. Gonçala Nicolau Fernandes, 86, assobiava cânticos religiosos enquanto cozinhava. Peladeiro, Élio Guedes Dias, 53, se vangloriava de jogar melhor que o Zico.
João Ferreira Lima, 79, fumava cigarro de palha. Adair Benedita da Silva, 61, presenteava as visitas com flores e mudas que cultivava em casa. Firmina Marques de Sousa, 97, reservou um par de sapatos para calçar assim que entrasse no Céu. Brazil Montalvao Marques, 64, trabalhava como guia turístico, mas não tirava foto de lugar nenhum. Hisazy Shikasho, 75, andava de bicicleta pelas manhãs. Fã de Taylor Swift, Glauco Moreira Beraldo, 26, não teve tempo de escutar o álbum mais recente da cantora. Jonas Félix de Oliveira, 83, falava esperanto. Edgard Viana de Sant’Ana, 95, leu toda a saga de Harry Potter só para discuti-la com os netos. Hildebrando Brito da Silva, 56, apreciava trocadilhos baratos. Quando lhe perguntavam como se chamava, respondia: “Ih, deu branco…” Nicette Bruno, 87, acreditava em reencarnação. Jonathan Neves, 31, fazia cover de Tim Maia na Avenida Paulista. Elza Maria Alves Gomes, 66, previa o futuro com a ajuda de um pêndulo. A refugiada síria Khadouj Makhzoum, 55, sempre repetia um ditado árabe: “O Paraíso sem as pessoas não é o Paraíso.” José Naves, 93, aprendeu inglês com John Wayne nos faroestes que os cinemas de Uberaba (MG) costumavam exibir. Gleycyely Costa Barros, 28, herdou da mãe, Rosiany, o apreço pelo y e o transmitiu para o filho, Byel.
Quitéria Cordeiro dos Santos, 85, sonhava em aparecer na tevê. Não conseguiu. Zenilde Alves da Silva, 58, alfabetizou os irmãos. Alayde Antônia Rossignolli Abate, 73, não desgrudava do cachorro Paçoca. Juntos, ouviam canções de Roberto Carlos. “Seu pretinho chegou!”, anunciava Eduardo Marques de Lima, 41, quando o ônibus urbano que dirigia parava em algum ponto. Angelo Campanerut, 64, devorava livros de ficção científica. Guiomar Guerreiro Alvares Spedo, 86, praticava hidroginástica com o marido três vezes por semana, havia quase trinta anos, na mesma academia. Marden Washington Pires Cavalcante, 65, inventou a palavra “caximbrema”, mas ninguém sabia direito o que significava. “Quer dizer problema”, arriscavam uns. “Não! Quer dizer saudades”, rebatiam outros.
Vanessa Pereira, 27, tingia os cabelos com cores marcantes: lilás, azul ou rosa-choque. Jaime Antunes, 92, beijava o retrato da mãe logo depois de acordar. Ildiko Êmese Holfinger Farias, 40, prometia à comadre: “Vamos envelhecer juntas e comer acarajé na beira do mar.” Donizete Luiz Frederico, 65, se gabava de ter bebido cerveja com Alceu Valença. José Pinto Neto, 74, viajou pela primeira vez de avião em 2019. Foi para Fortaleza. Abdon Albuquerque Cavalcante, 82, guardava palitos de dente em caixas de sapato. Jorléia da Silva Santos, 51, não recusava uma Coca-Cola. Patydan Castro, 34, estava grávida de seis meses. O bebê também morreu. Helena Hissacko Iwauchi, 79, confeccionava as próprias roupas. Iloivaldo Araújo Rodrigues Júnior, 44, se parecia com Fabio Assunção. Por ser muito culto, Danilo Guimarães Fenelon, 62, ostentava o título de “Google da família”. Geraldo Camilo Gomes, 85, acreditava que a pandemia acabaria no quadragésimo dia da quarentena.
O vaqueiro Ananias Manoel dos Santos, 74, nunca deixou de encontrar boi fujão. Celso Schreiber, 66, se sentia velho demais quando os netos o tratavam por vovô. “Me chamem de parente”, sugeria. Embora fosse brasileiro, Oswaldo Sanchez, 88, não abdicava de falar português com o sotaque espanhol dos pais. Ana Beatriz Cordeiro, 53, gostava de caminhar na mata. O taxista Benedito de Paula Silva, 75, rezava durante vinte minutos para Nossa Senhora Aparecida antes de trabalhar. Cecília Guimarães Mendes, 93, se esbaldava de rir com o seriado do Chaves. Alessandro Ricardo Corrêa, 44, perdia as estribeiras caso alguém o definisse como motoqueiro. “Sou motociclista!” Jorge Pereira de Oliveira, 65, se fantasiou de faraó para comemorar o último aniversário. Louca por novelas, Abigail Pinto Magalhães, 88, interagia com as tramas: “Xiii, sei bem onde isso vai dar…” Alcirene Aires Moura, 59, conheceu o marido num baile de servidores públicos. Ele a tirou para dançar Say You, Say Me, de Lionel Ritchie.
Era sagrado: toda noite, às nove e meia, Cirene Guilhermina Pires, 67, papeava com a filha pelo telefone. Ednilson dos Santos Escobar, 59, sempre lembrava que a sobrinha nasceu “no dia em que o Corinthians ganhou o Mundial”. Às vezes, Ely Marcelo Costa da Silva, 38, fazia voz de bebê. Helena Conti Guimarães, 79, ainda pirava com o Iron Maiden. Haroldo Barbosa Moraes, 66, amava mergulhar. Adélio Electo, 84, embaralhava a ordem das palavras sem perceber. Dizia “no escurema do cininho”, para a delícia de quem o escutava. Pouco antes de sucumbir à Covid-19, Agatha Lima, 25, viu um cavalo branco sair de uma parede. Deduziu que a miragem significava partida.
Jair Táparo, 61, permitia que a única neta o maquiasse. Paulo Azeredo Brito manteve o hábito de xeretar programas eróticos na televisão até os 90 anos. Morreu com 98. Elizabeth Barbosa, 56, só tomava cerveja sem álcool. Marly Gomes da Silva, 49, passou fome na infância. Certa ocasião, Willian Santiago, 30, cismou de ajardinar o próprio rosto. Cobriu um dos olhos com uma margarida e tirou uma selfie. Giovani de Jesus Pesuscki, 52, se vestia de Papai Noel na ceia de Natal. Luiz Fernando Cardoso, 40, mandava cartões postais para os amigos quando viajava. Bruno Cunha Soares, 31, se proclamava são-paulino roxo, mas às vezes torcia pelo Bragantino. José Duque Sobrinho, 75, evitava palavrões. Preferia substituí-los por neologismos, como “potranco” e “mucureba”.
Paulo Gustavo, 42, imitava a mãe perfeitamente. Gracinda dos Santos, 109, lotava os bolsos com balas em forma de coração, que distribuía para todo mundo. Larissa Blanco, 23, colhia frutas no pé. Helio Sebastião Pires, 78, dormia de touca. João Batista Alves dos Reis, 60, animava bailes como percussionista do Conjunto Extremunsom. “Desconheço carro melhor”, replicava Brasílio Gonçalves, 74, sempre que lhe indagavam por que ainda guiava um Passat 1982. Rafael Ramos, 33, visitou uma exposição sobre Game of Thrones com a irmã. Carivaldina Oliveira Costa, 79, caçava caramujo para fazer uma sopa típica dos negros que moram no Quilombo da Rasa, em Búzios (RJ).
Gutemberg da Silva Barbosa, 48, trajava calças jeans tão apertadas quanto as dos sertanejos Bruno & Marrone. O beatlemaníaco Cesar Augusto Martins Medeiros, 59, planejava tirar férias em Liverpool. José Adamastor Morgado Britto, 73, jamais revelou o segredo da batatinha com calabresa que servia à família. Kamilly Ribeiro, 17, se preparava para o vestibular de medicina. Paulo Sérgio Fabiano Bechelli, 53, considerava Sean Connery o melhor James Bond de todos os tempos.
Letícia Neworal Fava, 28, gostava de admirar o pôr do sol. José Lopes da Silva, 80, jurava que se comunicava com ETs. Aldevan Baniwa, 46, arrasava no nheengatu, língua do tronco tupi-guarani. Carlos Alberto Brasil, 75, deu um fogão para cada filho que saiu de casa. Edite do Nascimento Pereira, 83, nunca usava chinelos na rua. Ignez Branco Baptista acreditava que iria viver cem anos. Faltaram nove. Gastão Dias Júnior, 51, colecionava tartarugas decorativas. Braulino de Souza Valadão, 73, arrumava os cabelos com afinco e ficava irritadíssimo se um único fio abandonasse a posição que o pente lhe destinara. Marcelo Morellato, 62, não suportava comida fria. Erich Grossert, 78, xingava o juiz enquanto via jogos do Palmeiras pela tevê. Wellerson Calixto, 23, trabalhava como jovem aprendiz. Leitora compulsiva de biografias, Esther Godoy Penna, 97, concluiu que, no fim das contas, somos todos iguais: “As mesmas dores, as mesmas alegrias.”
Jairo Dornelles da Silva Sales, 34, recomendava à irmã e à mulher que guardassem momentos, não dinheiro. Genival Lacerda, 89, sempre esteve de olho na butique de Severina Xique Xique. Dagmar Thomé Gonçalves, 93, tecia sapatinhos de lã para os parentes. Givanildo Viana de Meneses, 46, estudava hipnotismo. Edgard Farah, 81, buscava os netos na escola com um Fusca bege. Alice Kikue Ishimine, 72, dominava os sete rituais do luto japonês. Madjer Okde, 30, ensinava jiu-jítsu para crianças pobres. Fernando Morais de Melo, 64, queria voar de balão pela Capadócia, na Turquia. Voou, mas em Boituva, no interior de São Paulo. Dalva Maria Portilho da Mata, 59, pedia bênção à mãe todos os dias. Quando atingiu a terceira idade, Joana Silveira, 61, constatou: “Não sou velha. Velho é o mundo!”
Adeilson Marinho da Silva, 39, gastava pelo menos uma hora no banho. O flamenguista José Mauro Brochado, 70, cumprimentava os outros com um bordão improvável: “Fala, vascaíno!” Agostinho Rodrigues Samias, 84, contava que já havia lutado contra um jacaré de cinco metros. João Gadelha da Costa Neto, 49, teimava em comprar brinquedos para si mesmo. Só assim conseguia afugentar as lembranças da infância pobre. Edigar Alves dos Santos, 61, limpava o carro com panos de prato que roubava da mulher. Na cidadezinha onde passou a juventude, Zilma Berriel de Toledo Piza, 82, aprontou tanto que até namorou o padre. Abel Augusto Teixeira, 65, sempre dizia que estava tudo bem, mesmo se não estivesse.
Iracema Amorim, 76, sabia entoar os cantos tradicionais dos guajajaras, povo indígena do Maranhão. João Batista da Silva, 68, pagava as contas antes do vencimento. Cairo José Ferreira Gama, 41, adorava perambular de chapéu pelas ruas de Manaus. Botafoguense fanático, Agnaldo Timóteo, 84, doou uma geladeira para o time carioca. Maria Angélica Rangel, 52, pretendia abrir uma loja de artesanato. Izaac de Souza Tavares, 67, se deleitava em “dar alicate” nos netos, aquele beliscãozinho com os dedos dos pés. Eloi de Lima Alves, 81, demorou muito para assumir os cabelos brancos.
Aldir Blanc, 73, imaginava que a lua, tal qual a dona de um bordel, pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel. Carmo Camilo da Silva, 42, se encarregava de lavar a louça por uma semana quando a mulher e a filha decidiam fazer as unhas. Giduvaldo de Souto Lima, 85, tinha o costume de beber cerveja enquanto acompanhava os telejornais. Mal abria uma latinha, perguntava para quem estivesse perto: “Vai uma água mineral com gás?” Renato Aurélio da Rocha, 77, se negava a apagar velinhas de aniversário. Benedita Aparecida Guicioli, 65, odiava o nome Benedita, mas não o trocou em respeito à mãe, que o escolhera. Depois do almoço, Francis Nunes, 84, saboreava religiosamente uma paçoca diet. Idalice Cordeiro dos Santos, 93, deu o primeiro banho em cada um dos dezesseis netos. Piadista, Filipe Roberto Conde, 40, garantiu para os sobrinhos que descobriria a cura da Covid-19.
* As informações deste texto foram extraídas do portal Inumeráveis e de obituários publicados na Folha de S.Paulo.
(revista piauí)

sábado, 1 de maio de 2021

Um pé na cozinha e outro na pós

A elite branca está preparada para ter uma empregada negra que faz mestrado?
GIZELE MACHADO TORRES, em depoimento a Armando Antenore
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segunda-feira, 1 de março de 2021

"Que presepada, minha irmã…"

Como Daiana Ferreira levou o balé clássico para um conglomerado de favelas cariocas

“Sabe como a gente reagiria se encontrasse a Daiana de novo?” Sentadas à beira de uma mesa simples, comprida e absolutamente vazia, as duas jovens sorriem quando percebem que fizeram a pergunta quase no mesmo instante. Uma tempestade de verão banha o Rio de Janeiro e ameniza o calor da sala muito espaçosa, onde não há ventilador nem ar-condicionado. “A gente apertaria bastante o pescoço dela!”, respondem as próprias moças, em uníssono. Depois, caem na gargalhada, mas a súbita explosão de alegria mal consegue esconder a tristeza que ainda as atormenta. “Pô, Daiana, desta vez tu exagerou…”, resmungam baixinho, assim que o ataque de riso vai embora. Não é incomum que soltem frases idênticas e simultâneas durante um bate-papo ou que uma complete o pensamento da outra. A dupla convive desde a infância. Formada em gestão de recursos humanos, Edna Idarrah dos Santos Corrêa agora está com 33 anos, e Carine Lopes, estudante de direito, com 31. Elas têm gestos, tons de voz e tipos físicos semelhantes. No entanto, Corrêa é negra retinta e Lopes, branca de olhos verdes.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

E.T. de Ipanema

A história de um falso acaso

J
á virou hábito. Todos os dias, quando acordo, olho para a esquerda e verifico se a fotografia continua lá, presa à parede branca, entre molduras de metal e sob um vidro levemente fosco. Na verdade, não verifico coisa nenhuma. Sei que o quadro estará sempre ali, intacto e junto da ampla janela que ilumina o pequeno dormitório. Mesmo assim, repito com perseverança o ato de observá-lo pela manhã, como um vigia inútil ou um pastor que teima em zelar por ovelhas incapazes de fugir. Não se trata de mania nem superstição. É realmente um hábito, que adquiri quase sem notar.
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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Na pele do lobo


Um trumpista resiste a se despedir de Trump
Em setembro de 2018, pouco antes das eleições presidenciais no Brasil, Donald Trump ligou de Washington para Jair Bolsonaro. O então candidato do PSL convalescia de uma operação intestinal depois de levar a facada que quase o matou. “Olá, Trump! Que grande satisfação! I speak English porra nenhuma, but I will try my best aqui, tá o.k.?”, explicou o capitão reformado assim que atendeu o celular. Com um impecável terno azul-escuro, gravata vermelha e uma bandeirinha dos Estados Unidos cravada na lapela, o norte-americano logo cumprimentou o interlocutor pela pronta recuperação da cirurgia. “Você é um tough cookie”, elogiou, pretendendo dizer algo como “um osso duro de roer”. Embora falassem em línguas diferentes e sem tradutores, os dois se entendiam à perfeição. De cara, o político nova-iorquino sugeriu tratar o colega por um apelido “curto e doce”: JB. Esclareceu que aquelas iniciais combinavam bem com as dele próprio. “DT and JB”, enunciou, como se lançasse uma grife – “di ti” e “djei bi”. “Vamos ser parceiros na missão de fazer as Américas great again”, acrescentou.
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