quarta-feira, 1 de junho de 2022

Macaco, não!

Uma carta para o lateral do Corinthians que foi acusado de injúria racial

MARIO ARANHA, em depoimento a Armando Antenore

Caro Rafael Ramos,
Faz quatro anos que não vejo um jogo de futebol. Nas quase duas décadas em que fui goleiro, vivi o esporte intensamente. Era um atleta obstinado. Treinava sem reclamar, estudava os adversários e me esforçava para manter o preparo físico. Hoje não acompanho os jogos nem pela tevê. Mesmo assim, fiquei sabendo do que rolou no dia 14 de maio. O Corinthians enfrentava o Internacional em Porto Alegre. O Campeonato Brasileiro estava na sexta rodada, e o Beira-Rio recebia cerca de 17 mil torcedores. Quando faltavam quinze minutos para o fim da partida, o volante Edenilson, do time gaúcho, acusou você de racismo. Ele é negro. Você é branco.
O juiz Bráulio da Silva Machado interrompeu o jogo. Queria entender melhor o que se passava. Edenilson disse que você o xingou de macaco. O árbitro anotou o caso na súmula, mas não tomou mais nenhuma providência. O jogo continuou e acabou empatado: 2 a 2. Logo depois do confronto, Edenilson prestou queixa à Polícia Civil, que foi até o vestiário e prendeu você por injúria racial. O Corinthians pagou a fiança de 10 mil reais na madrugada do dia 15. Agora você responderá ao inquérito em liberdade. “Sei o que ouvi”, escreveu Edenilson no Instagram. Mas você nega tudo: “Não fui, não sou e nunca serei racista.” O Corinthians acionou o Centro de Perícias Curitiba para analisar o vídeo de 28 segundos que registrou parte da discussão em campo. Os técnicos concluíram que ninguém falou a palavra “macaco”. No bate-boca, de acordo com a perícia, o volante do Internacional berrou “maluco!”, e você, “pô, caralho!”.
Como negro, minha tendência é acreditar no Edenilson. Também sei o que já ouvi dentro dos gramados… No entanto, não vou questionar o parecer de especialistas. Só decidi redigir esta carta porque você jogava em Portugal, onde nasceu, e virou lateral do Corinthians há apenas dois meses. Certa vez, o compositor Tom Jobim disse que o Brasil não é para principiantes. Falou de gozação, mas acertou em cheio. Nem os brasileiros sabem direito como lidar com o Brasil. Imagine os estrangeiros… Provavelmente, você não compreende muito bem em que pé está a luta racial por aqui. Gostaria de explicar.

Para começo de conversa, você não é o primeiro jogador a sair preso de um estádio no país. Me lembro perfeitamente de outro episódio. Em abril de 2005, no Morumbi, o São Paulo recebeu o Quilmes pela Taça Libertadores da América. Uma hora, o zagueiro Desábato, do clube argentino, ofendeu Grafite: “Negro de merda!” Indignado, o centroavante são-paulino empurrou o rosto do adversário e acabou expulso. Assim que a partida terminou, a polícia levou Desábato à delegacia. Ele ficou detido por duas noites. Pagou fiança e voltou para Buenos Aires. Grafite retirou a queixa em outubro daquele ano e sepultou a pendência.
Infelizmente, é comum que atletas ou torcedores do Brasil sofram injúria racial na Libertadores. Só em 2022, já aconteceram oito casos. Os racistas estavam nas torcidas do Olimpia (Paraguai), do Emelec (Equador), do Millonarios (Colômbia), do Universidad Católica (Chile), do Estudiantes de La Plata, do Boca Juniors e do River Plate (os três da Argentina). A Confederação Sul-Americana de Futebol abriu processos disciplinares para investigar os ataques. Por enquanto, multou cinco equipes.
Alvos habituais dos insultos, os torcedores, cartolas e jogadores brasileiros jamais deveriam se comportar como quem os provoca. Só que, para vergonha de todos nós, muitos se comportam. Eu próprio escutei coisas terríveis no dia 28 de agosto de 2014, quando defendia o Santos. Jogávamos contra o Grêmio pela Copa do Brasil, em Porto Alegre. Parte da torcida gaúcha me importunou o tempo inteiro. Uns gritavam “preto fedido” e “macaco”. Outros imitavam os sons do animal. Alertei o juiz Wilton Pereira Sampaio, que não moveu uma palha e ainda me ameaçou com cartão amarelo. Foi então que explodi. Passei a mão na pele do meu braço e berrei para os torcedores: “Sou preto, sim!” No final do jogo, dei várias entrevistas condenando duramente aquele circo de horrores.
O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) excluiu o Grêmio da Copa do Brasil, mas a decisão acabou revogada. Pouco antes do  julgamento, dirigentes do time gaúcho apelaram à velha tática de culpar a vítima. Disseram que irritei a torcida gremista porque fiz cera no decorrer da partida. Um ex-presidente do clube me chamou de trapaceiro. Declarou à imprensa que armei “uma cena teatral depois de ouvir uns gritinhos”. Em 18 de setembro de 2014, o Santos enfrentou de novo o Grêmio, agora pelo Brasileirão. Mais uma vez, torcedores me atormentaram. Levei vaia durante todo o jogo.
A perseguição não parou nem mesmo quando mudei de equipe. No dia 16 de julho de 2017, como goleiro da Ponte Preta, encarei o Grêmio em Porto Alegre e amarguei outra enxurrada de vaias. Por determinação de cartolas gremistas, uma câmera acompanhou cada um dos meus movimentos dentro de campo. O clube me considerava “uma pessoa perigosa e difícil”, nas palavras de um diretor. Daí a vigilância. A única recordação agradável daquela tarde é o cartaz que dois gremistas, pai e filho, ergueram nas arquibancadas: “Aranha!! O tempo passa, mas a dor não! Novamente… perdão por tudo!!! Somos a verdadeira torcida do Grêmio!”

Virei profissional em 1999, no Palmeirinha, um pequeno time de Porto Ferreira (SP). Depois, vesti a camisa de mais sete equipes. Pela ordem: Esporte Clube União Suzano, Ponte Preta, Atlético Mineiro, Santos, Palmeiras, Joinville, Ponte Preta outra vez e Avaí. Tinha 38 anos quando parei. Agora, estou com 41.
O racismo me infernizou até o final. No Avaí, de Florianópolis, onde pendurei as chuteiras em novembro de 2018, pensei que teria sossego. Doce ilusão… Enquanto disputava o campeonato catarinense, aturei muita afronta de torcedores rivais. Eles não me ofendiam com termos racistas, mas faziam alusão à atitude que tomei contra os gremistas em 2014: “Aranha chorão! Aranha criador de caso! Aranha treteiro!”
A verdade é que minha carreira saiu dos trilhos depois que abracei a causa negra nos gramados. De 2014 em diante, nunca mais deixei de discutir o assunto publicamente. A mídia não parava de me procurar para tratar da questão. Nenhum dirigente gosta de jogadores que agem assim. Com o distintivo do clube e as marcas dos patrocinadores no peito, eu denunciava a estrutura racista do futebol. Mostrava a poeira debaixo do tapete. Botava o dedo na ferida. Era uma situação embaraçosa. Creio que, por isso, as boas propostas minguaram. Em dezembro de 2015, o Palmeiras me dispensou. Fiquei um semestre desempregado, sem receber um único convite. Atletas que deixam uma potência como o Palmeiras costumam se recolocar no mercado rapidamente. Em geral, vão para outro time grande. Imaginei que aconteceria o mesmo comigo, mas…
Até hoje, me entristece relembrar certos episódios. Por exemplo: quando jogava no Santos, peguei um voo comercial. Durante a viagem, uma passageira branca perguntou para um segurança negro do clube: “Aquele é o goleiro Aranha?” O segurança confirmou. A passageira logo emendou com uma observação surreal: “Não sei por que o cara reclamou tanto dos torcedores que o chamaram de macaco. Um bicho tão simpático, tão fofinho…” Sem elevar a voz, o segurança retrucou: “A senhora gostaria que a chamassem de vaca ou de galinha? Também são bichos simpáticos, fofinhos…”
Nas redes sociais, li coisas piores. Os racistas me bombardeavam com palavrões, ironias, piadinhas, textões e ameaças. Incomodavam até minha família. Tive de apagar todos os meus perfis. Só voltei para o Instagram e o Facebook há poucos meses.
Não é à toa que passei os últimos quatro anos sem ver jogos de futebol. O racismo tirou a felicidade que o esporte me dava. Você consegue se colocar na minha pele, Rafael? Consegue medir a violência dos gestos e expressões que roubaram de mim um dos meus bens mais preciosos? Recentemente, me tornei cartola. Aceitei um cargo administrativo no Mogi Mirim, clube paulista da quarta divisão. Tomara que a experiência me devolva o prazer do futebol.

Nasci em Pouso Alegre, no Sul de Minas Gerais. Quando criança, jogava com os moleques do bairro. Depois das partidas, matávamos a sede na casa de algum garoto. Às vezes, as mães dos meninos brancos não permitiam que os negros entrassem. A gente bebia o copo d’água na porta. Eu demorei para associar aquilo à discriminação. De início, me parecia natural que negros e brancos não compartilhassem determinados espaços. A ficha caiu apenas na adolescência, por causa do hip-hop. Meus primos tinham um grupo de rap. Aprendi bastante com o que cantavam e ouviam. As rimas condenavam os abusos da polícia, alertavam para o perigo das drogas, aplaudiam a negritude e protestavam contra o racismo. Estimulado pelo hip-hop, resolvi pesquisar mais sobre os pretos. Li biografias e livros de história, troquei ideia com estudiosos, participei de debates e acompanhei batalhas de MCs. Eu já estava na luta havia um tempão quando a torcida do Grêmio me provocou. Já militava, já participava de conversas em escolas e instituições sem fins lucrativos, já dava uns toques para os companheiros de time: “Mano, quem você acha que libertou os escravos? A princesa Isabel? Não, cara! A mina não cuidou de tudo sozinha…” Eu comia pelas beiradas e evitava me expor como ativista na imprensa. Se jogasse mal, os espíritos de porco iriam me encher o saco: “Está vendo? O Aranha esqueceu a bola. Só pensa em agitar.” Claro que minha estratégia se alterou por completo depois que reagi daquele jeito na partida de 2014.
Não me arrependo. Levantar a bandeira do antirracismo me trouxe problemas, mas também me engrandeceu como cidadão – tanto que, no finzinho de 2014, ganhei do governo federal o Prêmio Direitos Humanos. Sinto profundo orgulho das brigas que comprei em nome da igualdade. Hoje, recebo mais incentivo e elogios do que críticas. Sou convidado para dar palestras no país inteiro. Solto o verbo principalmente em ONGs, colégios e empresas. Tento seguir a trilha do ator Lázaro Ramos, que trata de questões raciais com certa suavidade. Ele manda a real sem usar palavras ásperas. Os brancos que o escutam acabam baixando as armas. Saem da defensiva, não se fecham para a mensagem.
Outra inspiração é Carolina Maria de Jesus, a catadora de papel que fazia um diário sobre a vida na favela onde morava com os filhos. Em 1960, os registros se transformaram no livro Quarto de Despejo. Como tinha pouco estudo, Carolina escrevia de maneira bem própria. Ela entregou o diário para o jornalista Audálio Dantas, que organizou a papelada toda, mas sem mudar o estilo da autora. Foi assim que surgiu o livro.
Eu também curto escrever e não avancei muito na escola (concluí o ensino médio só depois de adulto). Por dois anos, redigi pequenos textos sobre a história brasileira, destacando a contribuição de personagens negros, como o geógrafo Teodoro Sampaio, o psiquiatra Juliano Moreira, a socióloga Virgínia Bicudo e o engenheiro André Rebouças. Queria mostrar que os pretos não aceitaram passivamente a escravidão do passado nem aceitam as explorações do presente. Mesmo sob condições ruins, buscam caminhos para crescer.
Quando li Quarto de Despejo, tomei coragem e apresentei as anotações à editora Mostarda. Os profissionais da casa ajeitaram os escritos sem adulterar o meu palavreado. O trabalho resultou no livro Brasil Tumbeiro, que publiquei em 2021 com a intenção de atrair especialmente os jovens. Talvez você não saiba, mas tumbeiro é sinônimo de navio negreiro. Na travessia marítima da África para a América, os pretos morriam às dezenas. Viajavam em tumbas, não em navios. Agora preparo outro livro, um infantil sobre o abolicionista José do Patrocínio, que será lançado em julho, na Bienal de São Paulo.

Costumo dizer que não tenho nada contra os brancos. Minha desavença é com os racistas. Ou melhor: é com o racismo que está impregnado em nossa sociedade e se manifesta nas situações mais comuns. Nem sempre as pessoas que expressam preconceito desejam realmente discriminar. Muitas vezes, agem por impulso, sem perceber a imensa dor que causam. Chamar negros de macacos pode até não parecer tão ofensivo para um branco. Há quem ache que o xingamento é uma brincadeira. Estão redondamente enganados. Nenhum branco faz ideia do que os negros sentem quando são desumanizados.
Lembre-se disso toda vez que entrar em campo, Rafael, e continue lembrando fora dos estádios. Se por acaso você derrapar e disser uma bobagem para alguém, admita logo. Não finja que nada aconteceu. Assuma o erro e peça desculpas.
(revista piauí)

domingo, 1 de maio de 2022

Esqueceram de mim

Um casal de veterinários, uma guerra e uma legião de animais abandonados

Assim que Leonid e Valentina Stoyanov iniciaram a conversa por vídeo, uma sinfonia desordenada de gorjeios, assobios, grasnidos, arrulhos, pios e cacarejos se misturou às vozes deles. “Mil desculpas pela barulheira. É que estamos cuidando de umas cem aves”, explicou Valentina. Nenhum dos bichos aparecia na tela do computador. A sala em que a dupla se acomodou para a entrevista abrigava somente um camaleão. O pequeno réptil descansava num aquário retangular, espaçoso e sem água. Embora risonho, o casal de veterinários não conseguia esconder o cansaço.
Eram onze e meia da manhã no Rio de Janeiro. Em Odessa, onde nasceram e ainda moram, os Stoyanov estavam seis horas à frente. Naquela segunda-feira de abril, a terceira maior cidade da Ucrânia, com 1 milhão de habitantes, aguardava novos ataques russos. Desde que as tropas de Vladimir Putin invadiram o país, em fevereiro, a litorânea Odessa e seus arredores têm sofrido bombardeios frequentes. Os mísseis vêm de navios no Mar Negro. Às vezes, a fuzilaria também parte de aviões supersônicos. Os ataques visam sobretudo fábricas, refinarias, depósitos de combustíveis e outros pontos que a Rússia considera estratégicos para abalar a infraestrutura ucraniana. De tempos em tempos, drones sobrevoam a cidade com o intuito de mapear futuros alvos. Muitas das agressões têm como efeito colateral a destruição de moradias, já que as explosões espalham uma quantidade significativa de estilhaços.
As autoridades acionam sirenes tão logo detectam o risco de ataques. Nessas ocasiões, as igrejas badalam os sinos freneticamente. Uns saem das ruas ou se afastam das janelas caso estejam em ambiente fechado. Outros buscam proteção nos abrigos subterrâneos que a Ucrânia instalou quando pertencia à União Soviética. Há, ainda, quem procure as centenas de galerias, também subterrâneas, que atravessam Odessa. Escavadas a partir do século XVIII, somam pelo menos 2,5 mil km de extensão. A maioria funcionava como mina de calcário, rocha sedimentar usada na construção civil. Algumas integravam o sistema de esgoto. Hoje todas estão inativas e muitas viraram atração turística. Ironicamente, mesmo contando com uma rede tão vasta de túneis, a cidade não dispõe de metrô.
Nos momentos de maior perigo, o governo decreta toques de recolher, que podem suspender a circulação pelas ruas por mais de 24 horas. Milhares de pessoas saíram de Odessa desde que a guerra começou. Uma parcela dos egressos abandonou os animais de estimação, seja pela dificuldade de transportá-los, seja pelo temor de não conseguir entrar nos países fronteiriços com os bichos.
Sem intenção de ir embora da Ucrânia, os Stoyanov resolveram acolher uma legião de cães, gatos, roedores, pássaros, galinhas, cacatuas, papagaios, tartarugas, lagartos e camaleões deixados para trás. “Fora as cem aves, resgatamos 120 animais até agora”, diz Leonid. “Uma loucura! Estamos tão atarefados que já não sabemos direito o que é dormir.” A dupla levou boa parte dos recolhidos para a clínica que comanda perto do Centro de Odessa. Os restantes ficam na casa térrea dos veterinários, que tem um quintal amplo e arborizado, ou nos domicílios de familiares e amigos. “Ultimamente, nenhum dos nossos conhecidos ousa atender às minhas ligações. Eles logo pensam: ‘Aposto que aquele maluco vai querer me empurrar mais um cachorro…’”, reclama Leonid, em tom de zombaria.

Odessa é uma cidade bilíngue. Lá se fala tanto russo quanto ucraniano. Não raro, os nativos misturam os dois idiomas num mesmo diálogo. O casal preferiu dar a entrevista de quase três horas em russo. George Yurievitch Ribeiro, filho de uma pedagoga moscovita e um historiador paulistano, a traduziu. “Conseguem escutar as sirenes?”, pergunta Valentina após quarenta minutos de conversa. “Acabaram de soar.” Por estar dentro da clínica, numa espécie de porão, a dupla não precisou buscar abrigo.
Os Stoyanov já criavam diversos bichos quando o conflito estourou – as cadelas Alma, Bonitta e Aurora, o macaco Tosya, dez sapos, um camaleão e algumas tartarugas, além de cobras. “Somos exagerados”, admite Leonid. De acordo com o veterinário, no ano passado, 30% dos ucranianos tinham animais de estimação. Como o país reunia 43,7 milhões de habitantes à época, a fauna doméstica superava os 13 milhões de bichos, especialmente gatos. Quantos perderam os tutores de fevereiro para cá? “Difícil responder. Não existem levantamentos oficiais”, diz Valentina. A Organização das Nações Unidas calcula que 5 milhões de pessoas fugiram da Ucrânia e 7,1 milhões se deslocaram internamente em virtude dos recentes confrontos. Grande parte dos refugiados migrou para a Polônia, Moldávia, Hungria e Romênia. É o maior êxodo na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
A minoria dos 220 animais que os Stoyanov acolheram chegou por intermédio dos próprios tutores. “A situação do Kasper nos parece a mais trágica”, diz Leonid. Cego, o husky siberiano morava com um jovem militar. “As Forças Armadas convocaram o rapaz para o front. Ele é órfão e não tem parentes vivos. Por isso, considera o cachorro um membro da família”, conta Valentina. Pouco antes de se juntar às tropas, o soldado entregou o husky para o casal e pediu, chorando: “Gostaria que vocês me enviassem imagens do Kasper todos os dias.” Os dois vêm cumprindo o desejo do combatente. “Só que não sabemos nada dele há três semanas. Mandamos as fotos e os vídeos, mas o rapaz segue em silêncio. Não se manifesta de jeito nenhum, ao contrário do que fazia antes”, lamenta a veterinária. “É inevitável pensar no pior…” Noventa por cento dos animais acolhidos pela dupla já não recebiam cuidados de ninguém. Ocupavam gaiolas largadas nas ruas, ou estavam amarrados em postes, ou padeciam dentro de casas vazias. “A gente mesmo resgatou os bichos, depois de avaliar denúncias enviadas por telefone e pelas redes sociais”, diz Leonid. Os Stoyanov acreditam que havia mais abandonos no princípio da guerra. Àquela altura, a comunidade internacional ainda não decidira se aceitaria refugiados com animais de estimação. “Agora as coisas mudaram”, festeja Valentina. “Muitos países facilitaram a entrada de bichos ucranianos, inclusive o Brasil.” Em março, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento permitiu o ingresso de cães e gatos originários da Ucrânia, sem a necessidade de certificação sanitária. A medida, porém, não vale para répteis, aves e demais mamíferos.
Um dos destaques entre os bichos que escaparam é Stepan, gato malhado com milhões de admiradores no Instagram e TikTok. O influencer de quatro patas vivia em Kharkiv e se tornou ainda mais célebre há quase seis meses, depois que a cantora norte-americana Britney Spears postou uma foto dele. A família responsável por Stepan deixou às pressas a cidade do nordeste ucraniano, severamente bombardeada. No início de março, cruzou a fronteira com a Polônia e seguiu para a França. De lá, o bichano continua atraindo novos fãs.

Os Stoyanov planejam oferecer os animais recolhidos à adoção logo que o confronto terminar. “Mas é claro que, se os tutores quiserem os bichos de volta, nós vamos devolver”, diz Leonid. Outros ativistas realizam ações similares às da dupla em toda a Ucrânia. Mesmo alemães, holandeses, romenos e poloneses viajam até as zonas de guerra para acudir pets desalojados. Eles também resgatam habitantes de zoológicos danificados pelos russos ou sob a ameaça de bombardeio.
Não bastasse o abandono, os animais ficam assustadíssimos com os tiroteios, estrondos e sirenes. “Hoje uma moradora de Odessa me escreveu, desesperada: ‘Minha tartaruga parou de comer! O que faço?’ Infelizmente, não tenho como ajudar. É o estresse que está tirando a fome da pobrezinha”, aflige-se Leonid. No zoo de Kiev, capital ucraniana, o elefante-asiático Horace toma sedativos. Mesmo assim, desperta inúmeras vezes durante a noite. Para acalmá-lo, tratadores dormem perto dele e lhe dão maçã sempre que acorda.
Casados desde agosto de 2017 e sem filhos, os Stoyanov descobriram bem cedo o apreço pela veterinária. “Nunca cogitei outra profissão. Eu mal sabia falar e já anunciava: ‘Quando crescer, vou salvar os bichos doentes’”, lembra Valentina, que completará 29 anos em julho. Leonid, de 34, recorda que pegava minhocas na infância para lhes aplicar injeções fictícias. Agora a dupla cuida tanto de animais selvagens quanto dos domésticos. O casal também faz pesquisas acadêmicas na área de parasitologia. Valentina estuda os parasitas das aves. Leonid, os dos répteis. Nas redes sociais, há fotos e vídeos em que os dois interagem com tigres, leões, antílopes, zebras, leopardos, rinocerontes, bisões, lêmures, girafas, crocodilos e flamingos na Europa, Ásia e África.
Antes da guerra, além de se dedicarem à clínica particular, os Stoyanov reservavam parte do tempo para a Vet Crew. Fundada e administrada por ambos, a instituição sem fins lucrativos socorre bichos selvagens que se acidentaram ou sofreram agressões. “Em geral, a violência acontece nos circos e zoológicos de contato, uma vergonhosa tradição ucraniana. Não posso acreditar que ainda existam”, diz Leonid. Os zoos de contato operam em shoppings e permitem que o público toque nos animais, o que os incomoda bastante.
A própria dupla banca os custos da Vet Crew, que tem quatro funcionários – dois remunerados e dois voluntários. Os demais colaboradores são esporádicos e também não ganham nada. “Depois de tratar dos bichos, procuramos devolvê-los à natureza”, diz Valentina. No caso dos que sempre viveram em cativeiro ou perderam a capacidade de se virar, a saída é mandá-los para santuários ecológicos. “Um dia, aliás, vamos inaugurar o nosso”, promete Leonid.

Em abril de 2021, os veterinários dirigiram mais de 800 km até Kharkiv com a missão de resgatar Simba, um leão de 9 meses que enfrentava maus-tratos num diminuto zoológico. “O dono exibia o felino dentro de um shopping. Frequentemente, botava uma coleira no bicho e o levava para passear em meio às lojas, causando um tumulto que perturbava o leãozinho”, diz Valentina. De início, o dono não topou abrir mão do animal. “Gastamos muita saliva para convencê-lo.”
No mesmo zoo de contato, o casal encontrou Anatoli, um filhote de macaco-berbere que estava à beira da morte. “Ele dividia uma gaiola com vários porquinhos-da-índia. Tinha fraturas pelo corpo inteiro e um rasgo imenso no crânio”, recorda Valentina. Outro prisioneiro do zoológico, um primata adulto, mordera e espancara o filhote. “Assim que nos viu, o macaquinho saiu da gaiola aberta e segurou o meu polegar. Era um pedido de ajuda”, diz Leonid.
A dupla aproveitou a viagem e também resgatou Anatoli. “De cara, trocamos o nome dele para Tosya”, conta Valentina. Mais tarde, na clínica, os Stoyanov constataram que o bicho sofre de epilepsia, provocada pela lesão craniana, e gastrite crônica, fruto da má alimentação. Em vez de leite, o zoo lhe fornecia salsicha, pão e água. “Macacos-berberes duram entre duas e três décadas. Com uma saúde tão frágil, o Tosya só vai sobreviver tanto tempo se receber atenção humana. Jamais poderemos libertá-lo”, prevê Leonid.
O casal já fazia certo sucesso antes de adotar o macaquinho. Aparecia em programas de tevê e mantinha um bom número de seguidores nas redes sociais. Tosya, porém, elevou a fama da dupla à enésima potência. Há um ano, Valentina divulgou um vídeo no TikTok em que comia rabanetes com o mascote, sem falar absolutamente nada. Foi uma sensação: a cena rendeu mais de 15 milhões de visualizações. Empolgada, a veterinária decidiu gravar outros vídeos do gênero. Ela só mudava os petiscos do macaco – cenoura, queijo cottage, maçã, blueberry, melancia… O público de diversos países continuou aplaudindo. A glória suprema chegou quando o filhote e a tutora compartilharam um punhado de morangos. A gracinha ultrapassou 180 milhões de visualizações. Lógico que Valentina pegou carona no êxito planetário de Tosya para difundir, em inglês, o trabalho da Vet Crew.
Com a guerra, os fãs do macaquinho resolveram doar remédios, ração e dinheiro à causa dos Stoyanov. “Os donativos possibilitam que a gente atenda todas as necessidades dos animais resgatados. Sempre que sobra alguma coisa, encaminhamos para outros ativistas”, explica Leonid. A maioria das doações estrangeiras advém da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos, da Alemanha e do Brasil. “Nós amamos os brasileiros! Que povo generoso e simpático!”, derrama-se o veterinário. “As mensagens de vocês nas redes sociais nos enchem de calor e afeto. Se tudo correr bem, conheceremos a Amazônia e o Pantanal em breve.”

Fascistas. É assim que o casal define os militares da Rússia. “Vamos expulsá-los! Queria muito estar em combate. Tentei ingressar nos batalhões civis de resistência, mas me barraram porque não sei atirar”, conta Leonid. Valentina faz coro: “Eu também queria ir para o front. Somos pacifistas e não nos metíamos em política. Só que a guerra exige coragem e perseverança de cada ucraniano. Se os russos pretendem usurpar a nossa liberdade, não vamos permitir. Eles imaginavam o quê? Que invadiriam a terra alheia e logo ditariam as regras? Pois vão se dar mal!”
Os dois evitam citar o nome de Putin, “o chefão dos inimigos”. “Basta pensar no cara que sinto calafrios. Idiota!”, esbraveja Leonid. Para a dupla, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, se revelou um líder excepcional, “o único em toda a história ucraniana que abdicou dos próprios interesses e priorizou a nação”. “Qualquer outro já teria fugido do país. Votamos no Zelensky e não nos arrependemos”, diz Valentina.
Os Stoyanov cortaram relações com os amigos e colegas russos. “Eles simplesmente não acreditam que há um genocídio por aqui. Parece que o governo daquele imbecil os hipnotizou”, resmunga Leonid. Ex-praticante de luta livre (ou wrestling), o veterinário perdeu 11 dos 113 kg que pesava antes da guerra. “Culpa da tensão… Há algumas semanas, um míssil passou em cima da nossa casa. O barulho nos acordou às quatro da manhã. Por enquanto, as tropas fascistas não tomaram Odessa. E se tomarem? O que será de nós?”
Em 23 de abril, dezenove dias depois da entrevista, a cidade amargou o pior ataque aéreo desde o começo do conflito. Os russos lançaram sete mísseis contra Odessa. Um dos artefatos atingiu uma zona residencial e matou pelo menos oito pessoas, incluindo um bebê de 3 meses. No TikTok, os Stoyanov informaram estar bem, apesar do susto.
(revista piauí)

terça-feira, 1 de março de 2022

A dor como herança

Uma neta diante das revelações deixadas por escrito pela avó

S
e lhe pedissem para definir a avó materna em poucas palavras, a carioca Nanda Félix não hesitaria em pegar emprestado o título de uma antiga opereta: A Viúva Alegre. Composta pelo austro-húngaro Franz Lehár, a peça cômica narra a trajetória de Hannah, uma jovem bonita, sedutora e espirituosa que herda a fortuna do marido banqueiro. A primeira montagem, de 1905, não agradou. Com o tempo, porém, o espetáculo alcançou tamanho sucesso que acabou ganhando pelo menos três versões cinematográficas. Em março de 1982, quando enviuvou, Maninha – a avó de Félix – já não exibia a mocidade de Hannah (beirava os 60 anos) nem ficou milionária, embora gozasse de boas condições financeiras. Mesmo assim, a neta costumava associá-la à protagonista da opereta famosa. “Como nasci em outubro de 1981, mal conheci o meu avô. Não sei quase nada sobre a personalidade ou os hábitos dele. Em compensação, pude conviver bastante com minha avó, que me dava a impressão de esbanjar felicidade. Era carismática, sagaz, engraçadíssima e, principalmente, curiosa. Ela se interessava por tudo e todos. Não fugia da vida.”

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terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Faro afiado

Um rato africano contra as minas terrestres

Ele não dava nenhuma bandeira de que defendia os fracos e oprimidos. Pelo contrário: quem o avistasse numa savana ou floresta logo se assustaria e sairia correndo. Dificilmente alguém imaginaria que aquela criaturinha dentuça salvara inúmeras almas por causa de um insólito superpoder, o olfato afiadíssimo. O herói sem capa nem escudo chamava-se Magawa e nasceu na Tanzânia, país da África Oriental, mas virou lenda graças às façanhas que protagonizou em outra região: o Sudeste Asiático. Era, por incrível que pareça, um rato.
Com pelagem castanha, inevitáveis orelhas de abano, cauda maior que o resto do corpo e bigodes tão longos que matariam Salvador Dalí de inveja, pesava 1,2 kg e media 70 cm de comprimento. Não tinha, está claro, o porte de um rinoceronte ou hipopótamo. Mesmo assim, os zoólogos o classificavam como um rato-gigante-do-sul. A espécie atende pelo nome científico de Cricetomys ansorgei e é bem mais parruda que os hamsters, camundongos e outros bigodudos.

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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

"Nunca deixe de se divertir, cara!"

Uma carta para o nadador Gabriel Araújo, que ganhou três medalhas em sua primeira paralimpíada, a de Tóquio

DANIEL DIAS, em depoimento a Armando Antenore

Gabrielzinho,
Como vai? Embora não sejamos muito próximos, me sinto à vontade para chamá-lo assim, pelo diminutivo carinhoso que o acompanha desde criança. Espero que você não se importe. Logo que nos conhecemos, há dois anos, em Lima, durante os Jogos Parapan-Americanos, notei certa semelhança entre nós. Não me refiro apenas às nossas deficiências motoras. Você sofre de focomelia, doença congênita que impede o desenvolvimento normal dos membros superiores e inferiores. Eu tenho má-formação nos braços, na perna direita e no pé esquerdo. Também não estou falando propriamente de nosso apego à natação, o esporte que já nos deu tantas alegrias e nos possibilita rodar o mundo. Penso, acima de tudo, nas características menos notórias que nos unem. Por exemplo: você reparou que nossos pais nos batizaram com nomes de anjo e de profeta? Gabriel e Daniel, uma rima celestial que serviria perfeitamente para qualquer dupla sertaneja! Você é mineiro até a medula – nasceu em Santa Luzia, cresceu em Corinto e se radicou em Juiz de Fora. Eu sou paulista de Campinas, mas me criei numa cidadezinha de Minas, Camanducaia. Por isso, me considero um pouco mineiro também. Você parece tocar a vida com leveza. Esbanja carisma e dança de um jeito engraçado quando vence provas importantes. Eu me julgo igualmente extrovertido e procuro manter o alto-astral mesmo diante dos piores desafios.

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domingo, 1 de agosto de 2021

"Acaba, pelo amor de Deus! Acaba!"

Um grupo de PMs no WhatsApp e a matança do Jacarezinho

Com deboche, espírito corporativo, fake news, ataques contra a TV Globo, demonização da esquerda e panfletos em favor do presidente Jair Bolsonaro. Foi assim que um grupo de PMs reagiu à mais agressiva e letal de todas as incursões já realizadas por forças de segurança pública na cidade do Rio de Janeiro. A operação do último dia 6 de maio começou logo cedo, invadiu a tarde e terminou com 28 mortos, incluindo um policial. A favela do Jacarezinho, uma das 1 018 que se espalham pela capital fluminense, serviu de palco para a matança. Naquela quinta-feira, 250 agentes da Polícia Civil ocuparam a localidade sob a justificativa de capturar 21 denunciados por associação ao tráfico e suspeitos de pertencer à facção Comando Vermelho (CV). Helicópteros blindados – os “caveirões voadores”, como ironizam os cariocas – apoiaram a investida terrestre.

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domingo, 1 de agosto de 2021

Viva Nossa Senhora do Café!

Entrevista imaginária com a criadora do projeto Entreviste um Negro

Helaine com H? Sim, Helaine Braga Martins Pereira, um nome de responsa, quase tão extenso quanto os da nobreza. Mas, na prática, é menorzinho: Helaine Martins e ponto final. Bem mais adequado à plebeia aqui, né? Decidi encurtá-lo quando me tornei jornalista. Nomes grandes não funcionam na hora de assinar uma reportagem. Herdei o H dos parentes maternos. Vovó se chamava Helena. Mamãe se chama Heloísa. Meus tios, Hélio e Helenice. Só o Alan escapou da sina. Privilégio de caçula… Ele é meu único irmão. Apelido? Carrego uma infinidade. Lane, Nani, Lany, He… Deixo a escolha por conta do freguês.

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sábado, 19 de junho de 2021

Nome aos números

No dia em que o Brasil ultrapassa a marca de 500 mil mortos pela Covid, um pouco da história de 137 deles

Celia Kamiya Abdala, de 75 anos, adorava roupas com mangas compridas e largas, que lembravam as asas de um morcego. Não por acaso, ganhou o apelido de Dona Batman. Acácio Cardoso Duarte, 68, cochilava à mesa durante os almoços de família. Humberto Vitach Gambaro, 86, fazia palavras cruzadas diariamente. Heládio Ferreira de Sousa, 91, nunca dormia sem rezar. Gessner Augusto Daré Júnior, 55, imitava o Incrível Hulk. Fernanda Caiuby Novaes Salata, 64, retratou em aquarelas os amigos imaginários dos filhos. Antonio Carlos Durans Diniz, 36, se levantava de madrugada para conversar com as plantas.
Getúlio Omito, 83, chamava a neta de “meu ouro”. Elcio Candido Moreira, 61, se orgulhava de operar empilhadeiras. Madalena Gomes Barbosa, 77, tinha fascinação por papagaios. Jacyr Simão, 80, cuidava de bonsais. Eric Barros Martins, 42, tomava cafezinho com os pães que ele próprio assava. Quando considerava algo espetacular, Ilza Garcia, 98, exclamava: “É federal!” Nerice Laura Eduardo de Mendonça, 56, não gostava do presidente Jair Bolsonaro. Gustavo Barreto Alcântara, 11, curtia viajar para a Disney. Ana Carolina Guimarães dos Santos, 38, detestava suco de goiaba. Robert da Luz Barradas, 62, comia somente a borda das pizzas. Gonçala Nicolau Fernandes, 86, assobiava cânticos religiosos enquanto cozinhava. Peladeiro, Élio Guedes Dias, 53, se vangloriava de jogar melhor que o Zico.
João Ferreira Lima, 79, fumava cigarro de palha. Adair Benedita da Silva, 61, presenteava as visitas com flores e mudas que cultivava em casa. Firmina Marques de Sousa, 97, reservou um par de sapatos para calçar assim que entrasse no Céu. Brazil Montalvao Marques, 64, trabalhava como guia turístico, mas não tirava foto de lugar nenhum. Hisazy Shikasho, 75, andava de bicicleta pelas manhãs. Fã de Taylor Swift, Glauco Moreira Beraldo, 26, não teve tempo de escutar o álbum mais recente da cantora. Jonas Félix de Oliveira, 83, falava esperanto. Edgard Viana de Sant’Ana, 95, leu toda a saga de Harry Potter só para discuti-la com os netos. Hildebrando Brito da Silva, 56, apreciava trocadilhos baratos. Quando lhe perguntavam como se chamava, respondia: “Ih, deu branco…” Nicette Bruno, 87, acreditava em reencarnação. Jonathan Neves, 31, fazia cover de Tim Maia na Avenida Paulista. Elza Maria Alves Gomes, 66, previa o futuro com a ajuda de um pêndulo. A refugiada síria Khadouj Makhzoum, 55, sempre repetia um ditado árabe: “O Paraíso sem as pessoas não é o Paraíso.” José Naves, 93, aprendeu inglês com John Wayne nos faroestes que os cinemas de Uberaba (MG) costumavam exibir. Gleycyely Costa Barros, 28, herdou da mãe, Rosiany, o apreço pelo y e o transmitiu para o filho, Byel.
Quitéria Cordeiro dos Santos, 85, sonhava em aparecer na tevê. Não conseguiu. Zenilde Alves da Silva, 58, alfabetizou os irmãos. Alayde Antônia Rossignolli Abate, 73, não desgrudava do cachorro Paçoca. Juntos, ouviam canções de Roberto Carlos. “Seu pretinho chegou!”, anunciava Eduardo Marques de Lima, 41, quando o ônibus urbano que dirigia parava em algum ponto. Angelo Campanerut, 64, devorava livros de ficção científica. Guiomar Guerreiro Alvares Spedo, 86, praticava hidroginástica com o marido três vezes por semana, havia quase trinta anos, na mesma academia. Marden Washington Pires Cavalcante, 65, inventou a palavra “caximbrema”, mas ninguém sabia direito o que significava. “Quer dizer problema”, arriscavam uns. “Não! Quer dizer saudades”, rebatiam outros.
Vanessa Pereira, 27, tingia os cabelos com cores marcantes: lilás, azul ou rosa-choque. Jaime Antunes, 92, beijava o retrato da mãe logo depois de acordar. Ildiko Êmese Holfinger Farias, 40, prometia à comadre: “Vamos envelhecer juntas e comer acarajé na beira do mar.” Donizete Luiz Frederico, 65, se gabava de ter bebido cerveja com Alceu Valença. José Pinto Neto, 74, viajou pela primeira vez de avião em 2019. Foi para Fortaleza. Abdon Albuquerque Cavalcante, 82, guardava palitos de dente em caixas de sapato. Jorléia da Silva Santos, 51, não recusava uma Coca-Cola. Patydan Castro, 34, estava grávida de seis meses. O bebê também morreu. Helena Hissacko Iwauchi, 79, confeccionava as próprias roupas. Iloivaldo Araújo Rodrigues Júnior, 44, se parecia com Fabio Assunção. Por ser muito culto, Danilo Guimarães Fenelon, 62, ostentava o título de “Google da família”. Geraldo Camilo Gomes, 85, acreditava que a pandemia acabaria no quadragésimo dia da quarentena.
O vaqueiro Ananias Manoel dos Santos, 74, nunca deixou de encontrar boi fujão. Celso Schreiber, 66, se sentia velho demais quando os netos o tratavam por vovô. “Me chamem de parente”, sugeria. Embora fosse brasileiro, Oswaldo Sanchez, 88, não abdicava de falar português com o sotaque espanhol dos pais. Ana Beatriz Cordeiro, 53, gostava de caminhar na mata. O taxista Benedito de Paula Silva, 75, rezava durante vinte minutos para Nossa Senhora Aparecida antes de trabalhar. Cecília Guimarães Mendes, 93, se esbaldava de rir com o seriado do Chaves. Alessandro Ricardo Corrêa, 44, perdia as estribeiras caso alguém o definisse como motoqueiro. “Sou motociclista!” Jorge Pereira de Oliveira, 65, se fantasiou de faraó para comemorar o último aniversário. Louca por novelas, Abigail Pinto Magalhães, 88, interagia com as tramas: “Xiii, sei bem onde isso vai dar…” Alcirene Aires Moura, 59, conheceu o marido num baile de servidores públicos. Ele a tirou para dançar Say You, Say Me, de Lionel Ritchie.
Era sagrado: toda noite, às nove e meia, Cirene Guilhermina Pires, 67, papeava com a filha pelo telefone. Ednilson dos Santos Escobar, 59, sempre lembrava que a sobrinha nasceu “no dia em que o Corinthians ganhou o Mundial”. Às vezes, Ely Marcelo Costa da Silva, 38, fazia voz de bebê. Helena Conti Guimarães, 79, ainda pirava com o Iron Maiden. Haroldo Barbosa Moraes, 66, amava mergulhar. Adélio Electo, 84, embaralhava a ordem das palavras sem perceber. Dizia “no escurema do cininho”, para a delícia de quem o escutava. Pouco antes de sucumbir à Covid-19, Agatha Lima, 25, viu um cavalo branco sair de uma parede. Deduziu que a miragem significava partida.
Jair Táparo, 61, permitia que a única neta o maquiasse. Paulo Azeredo Brito manteve o hábito de xeretar programas eróticos na televisão até os 90 anos. Morreu com 98. Elizabeth Barbosa, 56, só tomava cerveja sem álcool. Marly Gomes da Silva, 49, passou fome na infância. Certa ocasião, Willian Santiago, 30, cismou de ajardinar o próprio rosto. Cobriu um dos olhos com uma margarida e tirou uma selfie. Giovani de Jesus Pesuscki, 52, se vestia de Papai Noel na ceia de Natal. Luiz Fernando Cardoso, 40, mandava cartões postais para os amigos quando viajava. Bruno Cunha Soares, 31, se proclamava são-paulino roxo, mas às vezes torcia pelo Bragantino. José Duque Sobrinho, 75, evitava palavrões. Preferia substituí-los por neologismos, como “potranco” e “mucureba”.
Paulo Gustavo, 42, imitava a mãe perfeitamente. Gracinda dos Santos, 109, lotava os bolsos com balas em forma de coração, que distribuía para todo mundo. Larissa Blanco, 23, colhia frutas no pé. Helio Sebastião Pires, 78, dormia de touca. João Batista Alves dos Reis, 60, animava bailes como percussionista do Conjunto Extremunsom. “Desconheço carro melhor”, replicava Brasílio Gonçalves, 74, sempre que lhe indagavam por que ainda guiava um Passat 1982. Rafael Ramos, 33, visitou uma exposição sobre Game of Thrones com a irmã. Carivaldina Oliveira Costa, 79, caçava caramujo para fazer uma sopa típica dos negros que moram no Quilombo da Rasa, em Búzios (RJ).
Gutemberg da Silva Barbosa, 48, trajava calças jeans tão apertadas quanto as dos sertanejos Bruno & Marrone. O beatlemaníaco Cesar Augusto Martins Medeiros, 59, planejava tirar férias em Liverpool. José Adamastor Morgado Britto, 73, jamais revelou o segredo da batatinha com calabresa que servia à família. Kamilly Ribeiro, 17, se preparava para o vestibular de medicina. Paulo Sérgio Fabiano Bechelli, 53, considerava Sean Connery o melhor James Bond de todos os tempos.
Letícia Neworal Fava, 28, gostava de admirar o pôr do sol. José Lopes da Silva, 80, jurava que se comunicava com ETs. Aldevan Baniwa, 46, arrasava no nheengatu, língua do tronco tupi-guarani. Carlos Alberto Brasil, 75, deu um fogão para cada filho que saiu de casa. Edite do Nascimento Pereira, 83, nunca usava chinelos na rua. Ignez Branco Baptista acreditava que iria viver cem anos. Faltaram nove. Gastão Dias Júnior, 51, colecionava tartarugas decorativas. Braulino de Souza Valadão, 73, arrumava os cabelos com afinco e ficava irritadíssimo se um único fio abandonasse a posição que o pente lhe destinara. Marcelo Morellato, 62, não suportava comida fria. Erich Grossert, 78, xingava o juiz enquanto via jogos do Palmeiras pela tevê. Wellerson Calixto, 23, trabalhava como jovem aprendiz. Leitora compulsiva de biografias, Esther Godoy Penna, 97, concluiu que, no fim das contas, somos todos iguais: “As mesmas dores, as mesmas alegrias.”
Jairo Dornelles da Silva Sales, 34, recomendava à irmã e à mulher que guardassem momentos, não dinheiro. Genival Lacerda, 89, sempre esteve de olho na butique de Severina Xique Xique. Dagmar Thomé Gonçalves, 93, tecia sapatinhos de lã para os parentes. Givanildo Viana de Meneses, 46, estudava hipnotismo. Edgard Farah, 81, buscava os netos na escola com um Fusca bege. Alice Kikue Ishimine, 72, dominava os sete rituais do luto japonês. Madjer Okde, 30, ensinava jiu-jítsu para crianças pobres. Fernando Morais de Melo, 64, queria voar de balão pela Capadócia, na Turquia. Voou, mas em Boituva, no interior de São Paulo. Dalva Maria Portilho da Mata, 59, pedia bênção à mãe todos os dias. Quando atingiu a terceira idade, Joana Silveira, 61, constatou: “Não sou velha. Velho é o mundo!”
Adeilson Marinho da Silva, 39, gastava pelo menos uma hora no banho. O flamenguista José Mauro Brochado, 70, cumprimentava os outros com um bordão improvável: “Fala, vascaíno!” Agostinho Rodrigues Samias, 84, contava que já havia lutado contra um jacaré de cinco metros. João Gadelha da Costa Neto, 49, teimava em comprar brinquedos para si mesmo. Só assim conseguia afugentar as lembranças da infância pobre. Edigar Alves dos Santos, 61, limpava o carro com panos de prato que roubava da mulher. Na cidadezinha onde passou a juventude, Zilma Berriel de Toledo Piza, 82, aprontou tanto que até namorou o padre. Abel Augusto Teixeira, 65, sempre dizia que estava tudo bem, mesmo se não estivesse.
Iracema Amorim, 76, sabia entoar os cantos tradicionais dos guajajaras, povo indígena do Maranhão. João Batista da Silva, 68, pagava as contas antes do vencimento. Cairo José Ferreira Gama, 41, adorava perambular de chapéu pelas ruas de Manaus. Botafoguense fanático, Agnaldo Timóteo, 84, doou uma geladeira para o time carioca. Maria Angélica Rangel, 52, pretendia abrir uma loja de artesanato. Izaac de Souza Tavares, 67, se deleitava em “dar alicate” nos netos, aquele beliscãozinho com os dedos dos pés. Eloi de Lima Alves, 81, demorou muito para assumir os cabelos brancos.
Aldir Blanc, 73, imaginava que a lua, tal qual a dona de um bordel, pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel. Carmo Camilo da Silva, 42, se encarregava de lavar a louça por uma semana quando a mulher e a filha decidiam fazer as unhas. Giduvaldo de Souto Lima, 85, tinha o costume de beber cerveja enquanto acompanhava os telejornais. Mal abria uma latinha, perguntava para quem estivesse perto: “Vai uma água mineral com gás?” Renato Aurélio da Rocha, 77, se negava a apagar velinhas de aniversário. Benedita Aparecida Guicioli, 65, odiava o nome Benedita, mas não o trocou em respeito à mãe, que o escolhera. Depois do almoço, Francis Nunes, 84, saboreava religiosamente uma paçoca diet. Idalice Cordeiro dos Santos, 93, deu o primeiro banho em cada um dos dezesseis netos. Piadista, Filipe Roberto Conde, 40, garantiu para os sobrinhos que descobriria a cura da Covid-19.

* As informações deste texto foram extraídas do portal Inumeráveis e de obituários publicados na Folha de S.Paulo.
(site da revista piauí)

sábado, 1 de maio de 2021

Um pé na cozinha e outro na pós

A elite branca está preparada para ter uma empregada negra que faz mestrado?
GIZELE MACHADO TORRES, em depoimento a Armando Antenore
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segunda-feira, 1 de março de 2021

"Que presepada, minha irmã…"

Como Daiana Ferreira levou o balé clássico para um conglomerado de favelas cariocas

“Sabe como a gente reagiria se encontrasse a Daiana de novo?” Sentadas à beira de uma mesa simples, comprida e absolutamente vazia, as duas jovens sorriem quando percebem que fizeram a pergunta quase no mesmo instante. Uma tempestade de verão banha o Rio de Janeiro e ameniza o calor da sala muito espaçosa, onde não há ventilador nem ar-condicionado. “A gente apertaria bastante o pescoço dela!”, respondem as próprias moças, em uníssono. Depois, caem na gargalhada, mas a súbita explosão de alegria mal consegue esconder a tristeza que ainda as atormenta. “Pô, Daiana, desta vez tu exagerou…”, resmungam baixinho, assim que o ataque de riso vai embora. Não é incomum que soltem frases idênticas e simultâneas durante um bate-papo ou que uma complete o pensamento da outra. A dupla convive desde a infância. Formada em gestão de recursos humanos, Edna Idarrah dos Santos Corrêa agora está com 33 anos, e Carine Lopes, estudante de direito, com 31. Elas têm gestos, tons de voz e tipos físicos semelhantes. No entanto, Corrêa é negra retinta e Lopes, branca de olhos verdes.
“A Daiana sempre meteu a gente em situações complicadas. Ô menina para gostar de aprontar!”, relembram. “Nos tempos de colégio, questionava todo mundo e acabava arranjando briga. Imagine alguém espevitado. Era a Daiana! Acontece que a criatura não aguentava o tranco sozinha. Media o quê? Um metro e 60 ou menos. Depois de arrumar as tretas, precisava de ajuda. Adivinhe quem saía correndo para defender a tampinha. Nós, né?”
Há três meses, Daiana Ferreira dos Santos de Oliveira festejou 32 anos. “Minha irmã do meio… Eu nasci em 3 de dezembro de 1987. Ela, em 1º de dezembro de 1988. Ficávamos dois dias com a mesma idade. Por isso, vivíamos zombando: ‘Somos gêmulas! Praticamente gêmeas.’ A caçula da família, Ana Beatriz, só chegou em 1995”, diz Corrêa. As “gêmulas” e Lopes se conheceram antes da alfabetização, quando já moravam no Complexo de Manguinhos, um agrupamento de favelas cariocas. Desde então, nunca mais se largaram. Estudaram juntas, inventaram mil brincadeiras, compartilharam segredos amorosos, discutiram por bobagens e fizeram as pazes. Certa ocasião, uma delas cismou de batizar o trio. “Viramos ‘as monetes’”, prossegue Corrêa. A palavra denomina um tipo de penteado feminino que se parece com o coque. As garotas, porém, ignoravam a definição e julgavam ter criado o vocábulo.
Em 2012, Daiana tomou coragem e abriu uma escola de dança no complexo, a única da comunidade que oferece aulas de balé clássico. Ao longo dos primeiros anos, a iniciativa arregimentou centenas de alunos, despertou a atenção de patrocinadores e ganhou a anuência de Claudia Mota, principal bailarina do Theatro Municipal do Rio. Gratificada, mas surpresa com o avanço, a fundadora e presidente do projeto temeu não poder levá-lo adiante por conta própria e pediu socorro às demais “monetes”. “Foi, disparado, a melhor confusão em que a Daiana nos colocou”, avalia Lopes, que assumiu a vice-presidência da escola. Já Corrêa se tornou analista de planejamento institucional. Quando aceitaram as funções em 2019, as duas amigas nem sequer cogitavam que um novo – e intrincadíssimo – desafio se avizinhava. “Fala sério, Daiana! Custava aliviar um pouco a barra?”, reclamam outra vez, cientes de que a interlocutora jamais  responderá.

Mãe das “gêmulas”, a carioca Rosali Ferreira dos Santos só terminou o ensino fundamental. Mesmo assim, adora ler. Na juventude, devorava “romances de banca”, como Júlia e Sabrina. Os livros propagavam aventuras amorosas que transbordavam erotismo e se desenrolavam em lugares exóticos. “Meu segundo nome é Idarrah por causa de uma daquelas histórias”, explica Corrêa. Um índio e uma antropóloga se apaixonam nos confins da selva. Sob o luar, concebem um bebê muito gracioso, que resolvem chamar de Idarrah. “Significa ‘o nascer do sol’”, afirma a primogênita de Rosali dos Santos, sem estar totalmente certa da informação nem do enredo que acabou de narrar.
O nome de Daiana também dialoga com os contos de fada modernos. Ela o herdou de Lady Di, a princesa de Gales. “Foi nossa prima Agda, que tinha 6 anos, quem o sugeriu”, rememora Corrêa. À época, boa parte do mundo ainda desconhecia que as bodas reais de Diana Frances Spencer haviam se convertido num pesadelo.
A mãe das “gêmulas” e de Ana Beatriz manteve uma relação errática com o pai delas, um comerciante mineiro. O casal nunca morou junto. Tampouco dividia as responsabilidades e os gastos familiares. “Até porque meu pai gerou mais nove filhos, com outras três mulheres”, ressalta Corrêa. Para sustentar as meninas, Rosali dos Santos trabalhava como empregada doméstica e, esporadicamente, acompanhava os patrões em teatros ou galerias de arte. O apreço pela leitura se uniu, assim, à admiração por quadros, concertos, peças e óperas.
“Sempre que possível, minha mãe buscava nos ‘transmitir cultura’, como gostava de dizer. Ela levava a gente à biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, onde passávamos o dia inteiro. Também economizava para nos comprar livros em sebos.” Com o incentivo da mãe, as crianças leram O Caso da Borboleta AtíriaO Menino do Dedo Verde e outros clássicos da literatura infantojuvenil que não integravam o currículo escolar. Uma vez, a mãe e as filhas visitaram o suntuoso edifício de 1909 que abriga o Municipal do Rio. Lá puderam ver, maravilhadas, O Lago dos Cisnes, balé dramático do compositor russo Piotr Tchaikovski. Daiana travou, então, o primeiro contato com a dança erudita.
Bem antes do passeio, a garota já demonstrava interesse por coreografias. Em casa, diante da tevê, imitava os remelexos frenéticos do grupo É o Tchan! e a sensualidade da adolescente Britney Spears. Não à toa, odiava a movimentação insossa do coral que se exibia na igreja batista frequentada pela família. “Meus antepassados curtiam os terreiros de umbanda ou de candomblé, não sei direito. Mas, quando uma de nossas tias migrou para o cristianismo, tratou de converter todos os parentes”, recorda Corrêa.
Apesar de ser profundamente religiosa, Daiana se permitia questionar alguns dogmas. “Por que os homens, e não as mulheres, escreveram a Bíblia?”, indagava para as irmãs logo após os cultos dominicais. “Porque queriam eternizar o poder masculino, claro!”, emendava, sem aguardar a opinião de ninguém.
Frustrada com o desempenho do coral, procurou o pastor. Tinha 13 anos, se tanto:
– Precisamos mudar aquilo!
– Aquilo o quê? – retrucou o pastor.
– O jeito como os participantes do coral se mexem. Cadê a atitude? A criatividade? Eles movem apenas os braços. Parecem uns robozinhos. E o resto do corpo?
– Você nem canta no coral! Para que se meter?
– Não canto, mas vejo as apresentações. Péssimas! Dançar é importante, pastor. Está no Velho Testamento. Lembra-se da Miriã?
A mocinha se referia à profetisa que, no livro do Êxodo, comemorou o momento em que os judeus atravessaram o Mar Vermelho, sob a liderança de Moisés. “Então Miriã […] pegou um tamborim, e todas as mulheres a seguiram, […] dançando”, relata o trecho bíblico. A travessia inaugurou uma nova fase para o povo hebreu, que enfim se livrou dos perseguidores egípcios. Soterrado pela insistência da jovem, o pastor cedeu e autorizou a intervenção no coral. “Só não abuse da minha confiança, hein? Faça alterações suaves”, advertiu.

À 
medida que se incumbia da tarefa, Daiana percebeu o óbvio: faltavam-lhe conhecimentos mais sólidos para aprimorar o gestual dos cantores. “Tenho que aprender balé”, concluiu. Mas onde? Escolas particulares custariam os olhos da cara. Depois de uma rápida pesquisa, a menina descobriu um projeto social que dava aulas gratuitas e o abraçou sem hesitar. Permaneceu lá por três anos. “Eu também me inscrevi”, diz Corrêa. “Nós duas saíamos do colégio e andávamos até o projeto, que ficava longe de nossa casa. O percurso de ida e volta somava uns 4 km, pelo menos.”
Praticar balé clássico não apenas possibilitou que Daiana repaginasse o coral da igreja como lhe forneceu a base para se aventurar em outras danças, das populares (especialmente, o jongo e o samba) à contemporânea. “Ela nunca deixou de se aperfeiçoar”, enfatiza Lopes. “Fez uma porção de workshops e batia ponto nos espetáculos das grandes companhias brasileiras. Amava a da Deborah Colker, por exemplo.”
Com 16 anos, Daiana arrumou o primeiro emprego. Tornou-se monitora do Museu da Vida, que pertence à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Mais tarde, assim que finalizou o ensino médio, conseguiu uma bolsa do governo federal para estudar educação física no Centro Universitário Celso Lisboa. Enquanto cursava a faculdade, não parou de trabalhar. Foi atendente de telemarketing e recreadora de festas.
Em 2010, um colégio municipal a contratou como professora de jongo. Dois anos depois, a moça resolveu empreender. “Vou criar uma escola infantil de balé em Manguinhos”, anunciou para os familiares. O plano soava absurdo. Quem teria condições de bancar as aulas numa comunidade tão pobre? “Não se preocupem. Vou cobrar barato”, argumentou Daiana. Espalhado pela Zona Norte do Rio, o Complexo de Manguinhos reúne sete favelas, de acordo com a prefeitura, mas os moradores afirmam que são catorze. Cerca de 42 mil pessoas habitam o conglomerado, ainda segundo a população local, que está sob o controle da facção criminosa Comando Vermelho.
A escola recém-aberta funcionava numa sala alugada e logo atraiu oitenta crianças. Ocorre que, de fato, a inadimplência dos alunos se mostrou um problema, e o empreendimento naufragou em menos de seis meses. Como não dependia economicamente do negócio por continuar lecionando no colégio municipal, Daiana decidiu que ensinaria balé de graça. Perto da casa dela, existia uma igreja evangélica. A professora se muniu da ousadia costumeira e bateu à porta do templo. “Pastor, quero usar a igreja para minhas doideiras. O senhor empresta?” O religioso concordou de imediato, e a escola renasceu ali.
“A Daiana tinha um lema: ‘O não já é certo. Vou em busca do sim.’ Por um lado, tamanha persistência a favorecia. Por outro, a transformava numa figura muito centralizadora, que não media esforços para atingir os objetivos”, analisa Corrêa. “Era uma mulher teimosa! Cabeça-dura mesmo! Se encasquetava com uma ideia… Sai debaixo!”, resume Lopes.
Em 2013, o ponta-direita Jairzinho, craque da Copa de 70, soube da escola. Ele ministrava aulas de futebol para a garotada de Manguinhos e dos arredores. A Petrobras financiava a ação. “O cara se impressionou tanto com as maluquices da Daiana que propôs ajudá-la. Separou uma parcela do dinheiro que ganhava da Petrobras e pagou um salário para a minha irmã.” O auxílio garantiu que a professora deixasse o colégio municipal e se dedicasse somente à escola de dança.
Quando o jogador interrompeu o aporte por falta de recursos, Daiana ficou um período sem patrocínio até conquistar o apoio da Asfoc-SN, o sindicato dos trabalhadores da Fiocruz. A essa altura, a iniciativa já contava com outros professores e não ocupava mais a igreja. Mudara-se para a Biblioteca Parque de Manguinhos, espaço mantido pelo governo fluminense. Entusiastas do projeto, as atrizes Priscila Fantin e Samara Felippo o divulgavam na mídia enquanto Claudia Mota – a bailarina do Municipal – virava madrinha da escola. Para tourear os novos obstáculos que a improvável jornada lhe trazia, Daiana frequentava cursos de produção cultural e empreendedorismo social.

No finzinho de 2016, a Secretaria de Estado de Cultura fechou a Biblioteca Parque para conter despesas. “Como assim?”, indignou-se Daiana. “Onde vou botar minhas crianças?” Ela tentou negociar com as autoridades, mas não teve sucesso. Optou, então, pela alternativa mais radical: juntou as mães de alguns alunos e invadiu o espaço na marra em janeiro de 2017. Durante um ano e cinco meses, o grupo se encarregou de gerir a área para que as aulas de balé prosseguissem. A estratégia funcionou. O governo reabriu a biblioteca e lhe deu o nome de Marielle Franco, a vereadora negra do Psol assassinada havia pouco tempo.
A batalha de Daiana mereceu uma reportagem no New York Times em julho de 2018. O artigo do jornalista Ernesto Londoño acabou chegando à fundação norte-americana The Secular Society. Localizada na Virgínia, a TSS investe em ações educacionais, artísticas, esportivas ou ambientais de diversos países: Argentina, Itália, Nepal, Quênia, Iraque, Madagascar e Paquistão.
Embora não falasse inglês, Daiana compreendeu perfeitamente quando a organização manifestou o propósito de patrocinar a escola. A oferta parecia um sonho. Entre novembro de 2018 e agosto de 2021, a TSS substituiria a Asfoc-SN e arcaria não só com a verba necessária para sustentar o projeto, mas também para ampliá-lo e lhe comprar uma sede definitiva. A injeção monetária, no entanto, não seria renovável.
Hoje, o Ballet Manguinhos – como a escola se chama desde 2014 – possui onze funcionários remunerados e 250 alunos com idades entre 6 e 29 anos. Escolhidos por sorteio, os estudantes podem fazer tanto aulas de dança quanto de circo. A maioria deles é do sexo feminino e se declara branca. Quinhentos jovens e crianças estão na fila à espera de uma vaga.
Mensalmente, a TSS destina uma média de 35 mil reais para o projeto. Em dezembro de 2020, a escola adquiriu o prédio de quatro andares e 600 m2 que lhe serve de base. O imóvel, situado na entrada de Manguinhos, custou 800 mil reais.

“Era magérrima, acredita? Um varapau, mas sempre teve seios imensos.” Corrêa descreve assim a irmã, toda vez que se lembra da adolescência de ambas. “A Daiana só ganhou peso depois do estupro.” O ataque se deu numa rua escura e deserta. A garota de 19 anos saía do trabalho quando um desconhecido a agarrou. “Ela não escondia de ninguém o que rolou”, conta Lopes. “A questão é que, no fundo, jamais superou o trauma e se refugiou na comida, entende? Comer a reconfortava.”
Por uma década, Daiana nutriu o desejo de emagrecer e reduzir as mamas, que lhe sobrecarregavam a coluna e dificultavam sua respiração. A moça, porém, nunca encontrava uma brecha para se submeter à cirurgia plástica. Com o advento da pandemia, o ritmo da escola diminuiu bastante, e a professora finalmente marcou a operação.
O procedimento ocorreu em setembro de 2020. Enquanto se recuperava, Daiana desenvolveu uma enfermidade raríssima, o pioderma gangrenoso. Trata-se de uma inflamação que provoca feridas recorrentes e bem dolorosas pelo corpo. Uma resposta imune exagerada pode desencadear o quadro. “Tudo indica que o organismo da Daiana encarou a cirurgia como uma agressão excessiva e reagiu de maneira anormal”, lamenta Corrêa.
No último dia 7 de janeiro, a professora sentiu os primeiros sintomas da Covid-19. Ela ainda exibia várias lesões cutâneas, principalmente na parte superior do tronco. O coronavírus se revelou impiedoso. Aproveitou a fragilidade da paciente e a levou para o CTI. No dia 18 de janeiro, às 10h30, a presidente do Ballet Manguinhos morreu. Deixou um filho de 3 anos.
“E agora? Como vamos continuar sem a líder das ‘monetes’?”, pergunta Lopes na sala abafada da escola. “Pois é… Que presepada, minha irmã…”, suspira Corrêa.
(revista piauí)

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