domingo, 1 de agosto de 2021

“Acaba, pelo amor de Deus! Acaba!”

Um grupo de PMs no WhatsApp e a matança do Jacarezinho

Com deboche, espírito corporativo, fake news, ataques contra a TV Globo, demonização da esquerda e panfletos em favor do presidente Jair Bolsonaro. Foi assim que um grupo de PMs reagiu à mais agressiva e letal de todas as incursões já realizadas por forças de segurança pública na cidade do Rio de Janeiro. A operação do último dia 6 de maio começou logo cedo, invadiu a tarde e terminou com 28 mortos, incluindo um policial. A favela do Jacarezinho, uma das 1 018 que se espalham pela capital fluminense, serviu de palco para a matança. Naquela quinta-feira, 250 agentes da Polícia Civil ocuparam a localidade sob a justificativa de capturar 21 denunciados por associação ao tráfico e suspeitos de pertencer à facção Comando Vermelho (CV). Helicópteros blindados – os “caveirões voadores”, como ironizam os cariocas – apoiaram a investida terrestre.

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domingo, 1 de agosto de 2021

Viva Nossa Senhora do Café!

Entrevista imaginária com a criadora do projeto Entreviste um Negro

Helaine com H? Sim, Helaine Braga Martins Pereira, um nome de responsa, quase tão extenso quanto os da nobreza. Mas, na prática, é menorzinho: Helaine Martins e ponto final. Bem mais adequado à plebeia aqui, né? Decidi encurtá-lo quando me tornei jornalista. Nomes grandes não funcionam na hora de assinar uma reportagem. Herdei o H dos parentes maternos. Vovó se chamava Helena. Mamãe se chama Heloísa. Meus tios, Hélio e Helenice. Só o Alan escapou da sina. Privilégio de caçula… Ele é meu único irmão. Apelido? Carrego uma infinidade. Lane, Nani, Lany, He… Deixo a escolha por conta do freguês.

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sábado, 19 de junho de 2021

Nome aos números

No dia em que o Brasil ultrapassa a marca de 500 mil mortos pela Covid, um pouco da história de 137 deles

Celia Kamiya Abdala, de 75 anos, adorava roupas com mangas compridas e largas, que lembravam as asas de um morcego. Não por acaso, ganhou o apelido de Dona Batman. Acácio Cardoso Duarte, 68, cochilava à mesa durante os almoços de família. Humberto Vitach Gambaro, 86, fazia palavras cruzadas diariamente. Heládio Ferreira de Sousa, 91, nunca dormia sem rezar. Gessner Augusto Daré Júnior, 55, imitava o Incrível Hulk. Fernanda Caiuby Novaes Salata, 64, retratou em aquarelas os amigos imaginários dos filhos. Antonio Carlos Durans Diniz, 36, se levantava de madrugada para conversar com as plantas.

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sábado, 1 de maio de 2021

Um pé na cozinha e outro na pós

A elite branca está preparada para ter uma empregada negra que faz mestrado?

GIZELE MACHADO TORRES, em depoimento a Armando Antenore

A tristeza ainda teima em reinar, como a pandemia do coronavírus não nos deixa esquecer. No entanto, mesmo sob o império da tragédia e do luto, a alegria encontra maneiras de nos acalentar. Foi o que concluí, boquiaberta, em dezembro do ano passado, assim que deparei com meu nome no visor do celular. “Você conseguiu, Gizele! Entrou no mestrado de uma universidade pública!”, festejei em silêncio enquanto conferia pela enésima vez a lista de aprovados. Eu tentava cursar a pós-graduação da UFMG, a Federal de Minas Gerais, desde 2018. Depois de amargar duas rejeições, finalmente me saí bem. Passei em terceiro lugar na prova de admissão e conquistei uma das treze vagas disponíveis. Agora vou estudar no Departamento de Comunicação Social, onde pretendo analisar como os telejornais populares do Brasil retratam os direitos humanos. Salvo algum imprevisto, as aulas começarão neste mês. Serão de manhã ou à tarde e sempre online, pelo menos até a superação da crise sanitária.

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segunda-feira, 1 de março de 2021

“Que presepada, minha irmã…”

Como Daiana Ferreira levou o balé clássico para um conglomerado de favelas cariocas

“Sabe como a gente reagiria se encontrasse a Daiana de novo?” Sentadas à beira de uma mesa simples, comprida e absolutamente vazia, as duas jovens sorriem quando percebem que fizeram a pergunta quase no mesmo instante. Uma tempestade de verão banha o Rio de Janeiro e ameniza o calor da sala muito espaçosa, onde não há ventilador nem ar-condicionado. “A gente apertaria bastante o pescoço dela!”, respondem as próprias moças, em uníssono. Depois, caem na gargalhada, mas a súbita explosão de alegria mal consegue esconder a tristeza que ainda as atormenta. “Pô, Daiana, desta vez tu exagerou…”, resmungam baixinho, assim que o ataque de riso vai embora. Não é incomum que soltem frases idênticas e simultâneas durante um bate-papo ou que uma complete o pensamento da outra. A dupla convive desde a infância. Formada em gestão de recursos humanos, Edna Idarrah dos Santos Corrêa agora está com 33 anos, e Carine Lopes, estudante de direito, com 31. Elas têm gestos, tons de voz e tipos físicos semelhantes. No entanto, Corrêa é negra retinta e Lopes, branca de olhos verdes.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

E.T. de Ipanema

A história de um falso acaso

J
á virou hábito. Todos os dias, quando acordo, olho para a esquerda e verifico se a fotografia continua lá, presa à parede branca, entre molduras de metal e sob um vidro levemente fosco. Na verdade, não verifico coisa nenhuma. Sei que o quadro estará sempre ali, intacto e junto da ampla janela que ilumina o pequeno dormitório. Mesmo assim, repito com perseverança o ato de observá-lo pela manhã, como um vigia inútil ou um pastor que teima em zelar por ovelhas incapazes de fugir. Não se trata de mania nem superstição. É realmente um hábito, que adquiri quase sem notar.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Na pele do lobo


Um trumpista resiste a se despedir de Trump
Em setembro de 2018, pouco antes das eleições presidenciais no Brasil, Donald Trump ligou de Washington para Jair Bolsonaro. O então candidato do PSL convalescia de uma operação intestinal depois de levar a facada que quase o matou. “Olá, Trump! Que grande satisfação! I speak English porra nenhuma, but I will try my best aqui, tá o.k.?”, explicou o capitão reformado assim que atendeu o celular. Com um impecável terno azul-escuro, gravata vermelha e uma bandeirinha dos Estados Unidos cravada na lapela, o norte-americano logo cumprimentou o interlocutor pela pronta recuperação da cirurgia. “Você é um tough cookie”, elogiou, pretendendo dizer algo como “um osso duro de roer”. Embora falassem em línguas diferentes e sem tradutores, os dois se entendiam à perfeição. De cara, o político nova-iorquino sugeriu tratar o colega por um apelido “curto e doce”: JB. Esclareceu que aquelas iniciais combinavam bem com as dele próprio. “DT and JB”, enunciou, como se lançasse uma grife – “di ti” e “djei bi”. “Vamos ser parceiros na missão de fazer as Américas great again”, acrescentou.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Joia rara

Otto Lara Resende agora brilha como cantor

A dengue hemorrágica chegou sorrateiramente e, em poucos dias, levou o garoto de olhos amendoados à uti. Ele mal completara 5 anos quando a doença o castigou com diarreias incessantes, vômitos caudalosos e um febrão obstinado. Duas transfusões de sangue não bastaram para reanimá-lo. À beira da cama em que o filho agonizava, o dramaturgo Bruno Lara Resende lhe acariciou as mãos e se desmanchou numa declaração de amor. A criança o escutou por uns segundos, mas logo se aborreceu. “Mahler, papai, Mahler!”, suplicou baixinho. O pai entendeu de imediato o pedido. O menino desejava ouvir a Sinfonia Nº 1, de Gustav Mahler. “Era como se me dissesse: ‘Deixe de choramingo, cara! Eu quero energia!” Sem hesitar, o pai entoou um trecho da composição enquanto imitava os gestos exaltados de um maestro.

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terça-feira, 1 de setembro de 2020

Muita coisa!

A pandemia e a saúde mental nas favelas

E
la se chama Preta. Tem os cabelos bem crespos, olhos arregalados e lábios tão vermelhos que parecem sangrar. Usa bermuda com desenhos psicodélicos, camisa de mangas curtas e uma gravata-borboleta azul, que lhe confere um ar mais burlesco do que solene. É uma boneca de pano e a principal companhia de Diene Carvalho Silva desde que o novo coronavírus pôs o Brasil em distanciamento social. Na segunda quinzena de março, a fotógrafa e produtora cultural de 32 anos decidiu atender os conselhos das autoridades sanitárias e se isolou. Por sofrer de asma e de “tudo com ite” (“sinusite, rinite…”), temia não resistir caso pegasse a Covid-19. Como acabara de entregar o imóvel onde morava de aluguel, pediu guarida para um conhecido.

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quarta-feira, 1 de julho de 2020

“Estou sonhando?”

Uma sessão espírita dedicada às vítimas do coronavírus 

Num sobrado de Copacabana, quatro mulheres e dois homens se reuniam em silêncio, com os olhos fechados e as cabeças baixas. A sala ampla que ocupavam sobressaía pela austeridade. Quase não havia móveis, somente um par de armários, meia dúzia de cadeiras e duas mesas. As paredes claras exibiam um retrato solitário de Jesus. Do teto, irradiava uma luz amarela muito tênue, que deixava o recinto na penumbra.

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