“‘Além do mais somos cinco e não queremos ser seis” é o mote desta sociedade literária secreta, que é tão secreta que nem os seus membros desconfiam de sua existência. Nossa principal diretriz temática é o uso da piada interna como figura de linguagem, nave-tia da nossa literatura. Formada por mim, Emilio Fraia, Antonio Prata, Paulo Werneck, Chico Mattoso, Fabrício Corsaletti e a minha mãe, tem como principal característica o hábito de responder entrevistas só falando em comida, não importa o que perguntem.
— Como você vê a ficção moderna?
— Veja bem, eu costumo compará-la a um grande pudim de queijo.
— Senhor Emilio, senhor Emilio, qual o sentido da literatura em sua vida?
— Nunca dei muita atenção aos legumes, embora sempre os tenha consumido. E nunca entendi o porquê dessa convenção estúpida de só servir peixe às sextas-feiras.
— Qual a essência do ser humano neste tempo de mudanças? Me parece que seus livros captam isso muito bem.
— Se é preciso definir em uma palavra: ‘quindim’. Não que siga critérios lógicos, o que nos levaria provavelmente às batatas ou ao ovo em estado bruto, mas trata-se da multiformidade que se pode tirar de uma iguaria bem feita.”
“O desastre japonês inverteu qualquer lógica na paisagem humana; todas as coisas ficaram ‘fora do lugar’ e vimos que não há lugar certo para as coisas ficarem, não há paisagem racional: o navio em cima da casa, os edifícios afundando no mar, um manto negro de detritos flutuando calmamente sobre as cidades como se inunda um formigueiro ou se mata uma barata.”
– Quer saber? O seu lugar no inferno já está reservado.
– Ótimo! Odeio pegar fila.
Em que momento deixei minha vida se encher de urgências tão desimportantes?
O homem mais poderoso do mundo é também o mais frágil?
Webmaster: Igor Queiroz