– Por que votou nele?
– Porque tenho absoluta confiança de que não irá se eleger.
De dia? Fiel escravo.
À noite? Teu predador.
“E assim fui levado pelos corredores até o centro cirúrgico. No caminho, uma ideia esdrúxula, mas acho que espirituosa. Por que não aproveitar o teto dos corredores a caminho da mesa de cirurgia, com a cabeça na maca voltada para cima, para fazer publicidade? Remédios, desejos de boa sorte em nome de laboratórios, sugestões de roteiros turísticos etc. Ah, a publicidade!… Esse misto de casta, gênio, glamour e impunidade…”
“As pessoas costumam perguntar a escritores há quanto tempo eles escrevem. Se eles escrevem ‘desde sempre’. Nunca perguntam aos engenheiros se eles desenhavam carros ou pontes quando crianças ou se os administradores tinham planilhas de gastos com bala e paçoca.”
“‘A rainha Elizabeth é a Hebe da realeza’, anuncia Daniella Albuquerque, âncora da transmissão na Rede TV!, enquanto alguém explica o motivo de a monarca vestir amarelo: ‘Significa dinheiro’. Tipo calcinha do Réveillon? A rainha ficou pobre? É isso?”
Passeando pelo calçadão, um casal observa os banhistas que se divertem no mar.
– Estão felizes, hein?, comentou a mulher.
– Estão mal-informados, retrucou o marido.
“- Sabe, Persio, o que eu queria? Aproveitar a passagem de volta e conhecer a Disney.
Quase caí de costas ao ouvir o pedido de meu pai. Estávamos em Boston, anos depois da Lei da Anistia, à procura de um tratamento alternativo qualquer que lhe concedesse uma esperança de cura. Tinha sido tudo em vão, e a leucemia progredia exatamente de acordo com os livros-texto de medicina que eu comprara em Nova York na esperança de entender melhor a doença que o afligia. A peregrinação chegara ao fim, e com ela qualquer esperança efetiva de reversão do quadro. E ele queria conhecer a Disney!
Pois fomos. E naquele mundo de fantasia, ele se divertindo com os Piratas do Caribe e a Space Mountain, o mundo ficou de ponta-cabeça. Era eu quem falava inglês, quem comprava os bilhetes e organizava a viagem; e era ele quem se maravilhava como uma criança, incrédulo naquele mundo perfeito. Chegou a entrar várias vezes na fila do mesmo brinquedo só para acompanhar um novo amiguinho de 7 anos. Do lado de fora, vi os dois se divertindo a valer na xícara que roda, se esmerando em imprimir máxima velocidade aos rodopios e soltando uma exclamação de lástima quando soava o gongo.”
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