Um ensaio inédito sobre a construção de Brasília
A cerimônia – sem dúvida, histórica – estava marcada para 3 de maio de 1957. Fotógrafo com algum renome no Triângulo Mineiro, Geraldo Vieira nem cogitou faltar. Queria registrar cada detalhe da celebração, embora a tarefa não parecesse fácil. Haveria gente demais por lá, sobretudo em torno do presidente Juscelino Kubitschek, o grande astro do dia. Como vencer o empurra-empurra e mostrar o político de modo original? O dilema atormentava Vieira.
Pouco antes do evento, o fotógrafo teve uma ideia amalucada. Pegou um cabo de vassoura e o levou para a marcenaria instalada na chácara onde gostava de se refugiar, em Araguari, cidade de Minas Gerais com quase 50 mil habitantes à época. Mexeu, remexeu e confeccionou um apetrecho que, meio século depois, os parentes apelidariam de trapizonga. Numa ponta do cabo, prendeu a câmera Rolleiflex que costumava usar. Em seguida, com um pedaço de arame, improvisou um disparador. Quando puxado, o fio metálico acionava a máquina. Vieira concebeu, assim, o precursor dos atuais “paus de selfie”.
Graças à trapizonga, o mineiro conseguiu fotografar Kubitschek de cima, entre bajuladores e fãs genuínos, durante a primeira missa rezada no território que iria sediar Brasília. Quinze mil pessoas acompanharam o culto, incluindo representantes do povo Karajá. Um avião da Aeronáutica buscou os indígenas na Ilha do Bananal, que fazia parte de Goiás e agora integra o Tocantins. Uma cruz de madeira, a bandeira do Brasil e uma escultura de Nossa Senhora Aparecida pontuaram toda a celebração, ministrada por dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, cardeal-arcebispo de São Paulo. A réplica da santa tinha peregrinado pelas cinco regiões do país antes da missa, que ocorreu ao ar livre, na área mais elevada do Plano Piloto, onde hoje fica a Praça do Cruzeiro.
Muitos dos presentes se divertiram com a trapizonga. Até o sisudo Israel Pinheiro – que chefiava a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) – abriu um sorriso mal avistou a gambiarra em ação. As cenas da cerimônia engrossam um ensaio praticamente desconhecido sobre a construção de Brasília. A série totaliza 457 negativos em preto e branco, que estão sob a guarda dos familiares de Vieira. Como juscelinista roxo e entusiasta do tão incensado “progresso nacional”, o fotógrafo visitou inúmeras vezes o canteiro de obras que se transformaria na cidade. Ele viajava para o Centro-Oeste de ônibus, carro ou avião sem nenhum objetivo profissional. Ia por mero diletantismo. Desejava testemunhar o épico acontecimento e perpetuá-lo em imagens.
Não raro, o jornal Gazeta do Triângulo publicava fragmentos do ensaio. O mineiro também divulgava uma seleção dos registros na vitrine do estúdio que mantinha em Araguari. Mais recentemente, uns poucos trabalhos acadêmicos reproduziram partes do acervo. Neste mês, quando a capital projetada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer comemora o 66º aniversário, a editora Afluente lança Brasília: Geraldo Vieira. O livro, organizado pela jornalista e doutora em história Fernanda Torquato, reúne 130 fotos da série. Extraídas da coletânea, as dez imagens que a piauí exibe aqui são inéditas.
O fotógrafo nasceu em abril de 1911 na pequenina Estrela do Sul. Era filho de Maria Augusta e Honorato Vieira, um notório faz-tudo, que entendia de mecânica, eletricidade, marcenaria e hidráulica. Nas horas vagas, ainda bancava o luthier e manufaturava violinos. Diz a lenda que, um dia, funcionários de uma mineradora britânica o procuraram com um equipamento de raio X avariado. A multinacional explorava pedras preciosas em Romaria, município contíguo e igualmente minúsculo. Ninguém das redondezas sabia consertar o aparelho, incomum no princípio do século XX. Honorato encarou o desafio e acabou reparando a máquina.
Caçula de sete irmãos, o inventor da trapizonga herdou a versatilidade do pai e exerceu vários ofícios até abraçar a fotografia. Com 12 anos, bombeava água num garimpo de diamantes. Já adulto, gerenciou um cinema. Também se aventurou como marceneiro, mecânico e barbeiro. Não bastasse, no decorrer da vida, criou abelhas, plantou flores e cultivou uma porção de hobbies – tocava bandolim e violino, praticava tiro ao alvo, pilotava aviões e disputava provas de motociclismo. Durante uma das competições, aliás, levou um tombo feio. O escapamento da moto lhe queimou a perna, que ganhou uma incômoda cicatriz.
Ele aprendeu os primeiros segredos da fotografia em casa. Seu pai não só tirava retratos como os revelava e ampliava. De quebra, coloria algumas imagens com pincéis e lápis, à moda dos pictorialistas europeus. No começo da década de 1930, Geraldo Vieira decidiu percorrer vilarejos próximos de Estrela do Sul para fotografar moradores que precisavam de títulos eleitorais. Um velho amigo, Jorge da Costa Neto, o assessorava. O negócio prosperou, e a dupla faturou um dinheirinho.
Em 1935, assim que completou 24 anos, Vieira sentiu necessidade de novos ares e trocou Estrela do Sul por Araguari, município do Triângulo Mineiro que vivenciava um boom econômico devido à presença de duas ferrovias: a Mogiana e a Goiás. Ali o jovem adquiriu o estúdio de um italiano, perto da praça que abrigava a Igreja Matriz, e o renomeou de Foto Geraldo. Mais tarde, convidou um sobrinho adolescente – Napier do Nascimento, o Bulute – para auxiliá-lo. Ensinou-lhe as manhas da profissão, e o garoto se converteu num exímio laboratorista.
De início, em Araguari, Vieira retratava sobretudo romeiros de passagem, que se dirigiam à cidade vizinha de Monte Carmelo com o intuito de louvar Nossa Senhora da Abadia, protetora da região. Depois de conquistar a simpatia dos araguarinos, o fotógrafo pôde documentar festividades cívicas, familiares, políticas, esportivas e militares. Nada lhe escapava: comícios, aniversários, funerais, casamentos, batizados, formaturas, concursos de beleza e estreias de filmes nos cinemas locais.
As imagens que o Foto Geraldo produzia se destacaram gradativamente pelo esmero técnico. Os fregueses aplaudiam os enquadramentos perfeitos, o foco impecável, a revelação cuidadosa, o retoque primoroso e a ampliação sem manchas nem perda de contraste. Tio e sobrinho dominavam cada vez mais as diferentes etapas do ofício.
Certa ocasião, um abastado engenheiro de Araguari resolveu vender o moderníssimo estúdio em que se arriscava como fotógrafo amador. Vieira comprou o ponto com a porteira fechada e mudou de endereço comercial. A melhor infraestrutura possibilitou que o Foto Geraldo atraísse clientes de todo o Triângulo Mineiro e de Goiânia.
A vitrine do estúdio se tornou um espaço disputado. Rapazes e moças sonhavam em protagonizar as habituais exposições de retratos que o estabelecimento promovia. Se uma personalidade visitava o município, acabava merecendo lugar de honra nas mostras. Foi o caso da baiana Martha Rocha. Em julho de 1955, a Miss Brasil aceitou participar de uma festa beneficente que ajudaria o Educandário Eunice Weaver. A imagem da forasteira na vitrine do Foto Geraldo trazia uma inscrição que exaltava “o encanto e a graça” da beldade.
Com o tempo, Vieira também prestou serviços para agências publicitárias e incorporou o papel de repórter fotográfico. Suas contribuições jornalísticas saíam quase sempre na Gazeta do Triângulo. De vez em quando, chegavam às páginas do diário Estado de Minas e da revista Alterosa, que circulou entre 1939 e 1964.
O fotógrafo não inventou apenas a trapizonga. No estúdio, desenvolveu um sistema que ligava automaticamente as luzes do camarim onde a clientela se arrumava antes de ser retratada. Volta e meia, o mineiro viajava até São Paulo para obter matérias-primas da Kodak e da Fujifilm. Padres de Araguari, que coordenavam o tradicional Colégio Regina Pacis e gozavam férias na Europa, traziam da Holanda as câmeras encomendadas por Geraldo Vieira.
Ele e o sobrinho nunca frequentaram cursos de arte ou fotografia. Tudo o que sabiam resultava da observação e de experimentações. Uma vez, um dentista araguarino viu um manual sobre iluminação fotográfica numa loja dos Estados Unidos. Como gostava de Vieira e Bulute, quis presenteá-los com o volume. “Os dois vão aprender um bocado de coisa aqui”, pensou.
Logo que regressou do exterior, o dentista levou a obra para a dupla. Quando pisou no Foto Geraldo, percebeu que os retratos expostos ali não se diferenciavam tecnicamente dos exibidos pelo manual. “Uai, vocês já conheciam o livro?”, perguntou. “Nós?!”, espantou-se Bulute. “Imagine, sô! A gente nem lê inglês!”
Em 21 de abril de 1960, Juscelino Kubitschek inaugurou Brasília. Claro que o fotógrafo compareceu à solenidade. Naquele momento, estava casado havia quinze anos e tinha oito filhos. Três deles o acompanharam, além de um sobrinho (não o Bulute) e uns amigos. O mineiro acomodou a turma numa Kombi mal-ajambrada e assumiu o volante. A perua sofreu para atravessar os cerca de 400 km que conduziam à nova capital. Nas subidas, perdia tanta velocidade que exigia o engate da primeira marcha. Nas descidas, sacolejava como um liquidificador.
Geraldo Vieira deixou o estúdio sob os cuidados do quarto filho, Bruno, em 1975 e se mudou de Minas para Goiânia. Continuou fotografando até morrer de ataque cardíaco, dezoito anos depois. Os 81 605 negativos que lhe pertenciam – sem contar os do ensaio sobre Brasília – se encontram agora no Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto, em Araguari. São considerados patrimônio cultural da cidade.
O Foto Geraldo segue em funcionamento. O publicitário e professor de fotografia Henrique Vieira, neto do fundador e filho de Bruno, comanda o negócio. Ele guarda memórias inusitadas do patriarca. Lembra-se em detalhes, por exemplo, dos carros que o avô possuiu, especialmente um Ford Escort standard cinza, modelo 1983, com motor 1.3 CHT a álcool. “A gente adorava falar de mecânica. Muitas vezes, sentávamos à mesa do almoço, na sala, para desmontar carburadores. Fazíamos uma bagunça danada enquanto o cheiro de combustível se espalhava pelo ambiente. Minha avó, Célia de Souza, ficava enlouquecida.”
(revista piauí)