Arquivo de maio de 2020

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Isolamento à beira-mar

Como idosos lidam com a pandemia num prédio de Copacabana

Pela manhã, quando abri a porta de casa para apanhar o jornal, ouvi uma conversa nada corriqueira no andar logo acima do meu. “Que barbaridade, Seu Zé! O senhor tem certeza?”, indagava a moradora da cobertura. Ela vive ali com o marido e sem empregados ou animais de estimação. Nunca vi o casal, nem sequer de relance, mas sei que amos já passaram dos 90 anos e estão no prédio há quase seis décadas. “Tenho certeza, sim! Internaram o moço ontem, lá no Copa D’Or. Um rapaz novinho de tudo, universitário”, respondeu Seu Zé com um quê de impaciência. “Quer dizer, não posso garantir a data da internação. Foi ontem à noite, parece. Ou hoje bem cedo? Não importa…”

O cearense José Cordeiro de Farias é zelador no pequeno edifício de Copacabana para onde me mudei em outubro de 2017. Ele e minha vizinha, imagino, conversavam à beira da escadaria acinzentada que percorre os onze andares do prédio. Embora não pudesse enxergá-los, escutei perfeitamente: “Deus do céu! O que vai acontecer agora?”, perguntou a vizinha, mais para si mesma do que para o zelador. “Será que a gente corre perigo?”

Era dia 18 de março, quarta-feira. Na antevéspera, o novo coronavírus levara à morte um aposentado em São Paulo. O Ministério da Saúde o identificou como a primeira vítima fatal da Covid-19 entre os brasileiros. Até o início daquela quarta, o vírus contaminara 33 pessoas no Rio de Janeiro, mas ainda não havia provocado nenhum óbito. Com o intuito de retardar a pandemia, o governador do estado, Wilson Witzel (PSC), começou a semana anunciando uma série de restrições temporárias, como a suspensão de aulas em instituições públicas ou particulares, o fechamento de teatros, cinemas, academias e shopping centers, a proibição de eventos esportivos e a recomendação para que ninguém fosse às praias. O isolamento social ganhava corpo, e o lema “Fique em casa” se espalhava.

Assim que tive oportunidade, procurei o zelador:

– Desculpe, mas ouvi parte da conversa de vocês na cobertura. Algum morador está internado?

– Morador, não. Um rapazinho que veio olhar o 301 no final da semana passada. Ele queria alugar o apartamento, que vagou faz uns dias. Espiou tudo bem espiado e depois bateu papo comigo aqui no hall de entrada. Agora me contaram que pegou o tal do vírus pouco antes de assinar o contrato.

– Quem contou?

– A faxineira que limpa o apartamento. Ela falou que já puseram o moço na UTI. Misericórdia! Eu cheguei perto do rapaz, apertei a mão dele… Não posso me contaminar. Sou do grupo de risco! E a Lourdes também!

O zelador se referia à sua mulher, a pernambucana Maria de Lourdes Barbosa de Farias, com quem divide as tarefas do condomínio. Em tese, o casal realmente figura entre os alvos preferenciais do novo coronavírus – não porque sofra de diabete, asma, bronquite, enfisema pulmonar ou hipertensão arterial, mas pela idade avançada. Taurinos, os dois aniversariam em maio. Ele vai completar 78 anos. Ela, 75. No entanto, jamais os tomei por velhos, embora tampouco os considerasse jovens, é claro. Eu simplesmente não pensava sobre o tempo quando os flagrava em plena atividade. Desde 1992, Farias e Lourdes são os únicos funcionários do edifício: limpam todos os andares, cuidam da portaria durante o dia (à noite, a partir das oito, não há porteiro), fazem reparos miúdos nas áreas comuns, recebem encomendas, distribuem correspondências e recolhem o lixo. Labutam como formiguinhas, sem muito tempo para o dolce far niente das cigarras. “Consigo subir do térreo até a cobertura, pelas escadas, num pique só”, gosta de trombetear o zelador. Não se trata de exagero.

O térreo, aliás, é onde o casal mora. Eles ocupam um apartamento com quarto, sala, cozinha, dois banheiros, lavanderia e um quintalzinho. No imóvel abarrotado de coisas, terminaram de criar a filha, Giseli, uma dona de casa que cursou administração de empresas e direito, mas nunca se formou, e lhes deu um par de netos. Bem menor que a cobertura dúplex da vizinha nonagenária, a residência do casal revela-se maior que os demais vinte apartamentos do prédio, cada um com 50 m2 e apenas um dormitório.

Inaugurado em 1964, o edifício também abriga salas comerciais. Tem uma garagem modesta, com apenas duas vagas, e não exibe nenhum “penduricalho”: nem playground, nem salão de festas, nem piscina. Apesar de franciscano, fica muito perto da praia, numa região privilegiada do Rio, o ponto em que Copacabana se aproxima de Ipanema – divisa batizada pelos cariocas de Copanema.

“Sou do grupo de risco!” A frase do zelador não só me fez atinar que o prédio se encontra sob a guarda de dois “velhinhos” – dispostos, prestativos, mas agora ameaçados – como me lembrou que moro no epicentro da terceira idade.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula que o país reúne, atualmente, 34 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Cerca de 1,5 milhão está no município do Rio de Janeiro. Apenas São Paulo, entre as capitais, o supera. Lá vivem 2,3 milhões de indivíduos que pertencem àquela faixa etária. Em termos relativos, porém, a situação muda – e o Rio se converte na capital com a maior porcentagem de idosos. Essa população representa 22,7% dos 6,7 milhões de habitantes. Porto Alegre, Vitória e Belo Horizonte aparecem, respectivamente, em segundo, terceiro e quarto lugares no ranking (22,3%, 19,7% e 18,8%). Florianópolis, Curitiba e São Paulo compartilham a quinta colocação (18,4%).

O IBGE também estima que Copacabana seja o bairro carioca com maior número de idosos. O Censo de 2010 – a pesquisa mais recente sobre o assunto – indicou haver 43,4 mil moradores sexagenários ou acima dos 70 anos por aqui. Depois, vinham Campo Grande (41,4 mil) e Tijuca (39,5 mil).

O zelador, sua mulher e eu moramos, assim, no bairro com mais idosos da capital que detém a maior proporção deles. Um epicentro, portanto, ou algo do gênero. Alheio à demografia, Farias se angustiava cada vez mais: “Quem entrou em contato com um infectado precisa se isolar? A Lourdes pode pegar o vírus de mim? Como vou me isolar se tenho que ganhar a vida?” (mais…)

Compartilhar
Contato | Bio | Blog | Reportagens | Entrevistas | Perfis | Artigos | Minha Primeira Vez | Confessionário | Máscara | Livros

Para visualizar melhor este site, use Explorer 8, Firefox 3, Opera 10 ou Chrome 4. Webmaster: Igor Queiroz