Investigação sobre o amor

Um debate na Flip, um livro e uma instalação buscam compreender por que o escritor Grégoire Bouillier terminou o namoro com Sophie Calle, a cultuada artista contemporânea francesa

“Para onde vai o meu amor quando o amor acaba?”, perguntava-se Chico Buarque numa canção de 1981. Certamente poderia indagar muito mais, uma vez que o desfecho de qualquer romance quase sempre inaugura um vazio abarrotado de interrogações. O amor que acaba de fato termina? Em que momento? E sob os desígnios de que cupido às avessas? As justificativas que selam o fim realmente o explicam?

É bem provável que Sophie Calle, a originalíssima artista contemporânea parisiense, ignore o samba de Chico. Mas, à beira dos 56 anos, sabe exatamente o que significa um coração partido e já mergulhou no mar de questionamentos que o naufrágio de um casal desperta. Tempos atrás, durante uma viagem à Alemanha, recebeu um e-mail do namorado, o escritor franco-argelino Grégoire Bouillier. Era uma mensagem de ruptura. Um fora. Uma despedida. Nos sete parágrafos da correspondência, Grégoire respeitava em parte o script que os amantes costumam seguir quando resolvem se afastar. Proclamava que nunca esqueceria Sophie e enaltecia a relação dos dois. No entanto, uma afirmação inusitada punha em xeque as mesuras diplomáticas, diferenciando aquele adeus de outros do gênero. O escritor confessava que iria saltar do barco por não conseguir atender ao pedido da artista para que ele se mantivesse fiel. Grégoire gostava de mais três mulheres e não pretendia abdicar de visitá-las. Um dilacerante “prenez soin de vous” — ou “cuide-se” — encerrava a carta.

Muito depois, o escritor declararia à imprensa que a monogamia virara um peso no namoro justamente pela insistência de Sophie em exigi-la: “Fidelidade é algo que oferecemos de livre e espontânea vontade. Não convém enxergá-la como uma obrigação”. Grégoire contaria ainda que imaginava rever a artista após mandar a mensagem. “Esperava que dialogássemos, brigássemos ou caíssemos no choro.” Ela, porém, não respondeu nada. Perplexa, simplesmente desapareceu.

E por que o escritor decidiu levar uma história tão íntima para os jornais? Porque Sophie a levou primeiro. Em 2007, quebrou um prolongado silêncio sobre o assunto e lançou na 52ª Bienal de Veneza uma instalação que tinha por nome a última frase do ex: Prenez Soin de Vous. O trabalho não só exibia a carta de Grégoire como a interpretação que 104 mulheres, duas marionetes e uma cacatua lhe davam. “Mostrei o e-mail para cada uma delas e sugeri que o comentassem, dançassem, cantassem. Que o entendessem em meu lugar”, esclareceu a artista no catálogo da exposição. As 107 manifestações foram reproduzidas em texto, foto ou vídeo.

No eclético time, havia uma antropóloga, uma criminologista, uma atiradora, uma estudante de 9 anos, uma consultora de etiqueta, uma mestre de ikebana, uma jogadora de xadrez, uma vidente, uma locutora de rádio, uma rapper, uma clown, uma bailarina e até a mãe de Sophie (“Não faça muito drama, minha filha. Linda, famosa e inteligente como você é, em breve fisgará um cara melhor”). Também figuravam na lista as atrizes Jeanne Moreau, Miranda Richardson, Victoria Abril e Maria de Medeiros, a DJ Miss Kittin e as cantoras Camille, Feist, Peaches e Laurie Anderson.

A cacatua Brenda protagonizou a performance mais curiosa. Mal avistou uma versão em papel da correspondência, tratou de rasgá-la com o bico enquanto eriçava as penas e balbuciava: “Eu sempre vou amar você”. O ritual impiedoso consumiu exatos 108 segundos.

Em Veneza, a crítica saudou calorosamente as ousadias da artista. “Não desejava vingança”, enfatizou Sophie. “Procurei me guiar apenas pelo senso estético.” Conversa fiada? A verdade é que, no trabalho, a francesa jamais identifica o homem que a abandonou. Contenta-se em chamá-lo de X. Mesmo assim, as suspeitas logo recaíram sobre Grégoire. Compreensível: em 2004, ele dedicara um livro à então namorada (O Convidado Surpresa). No intenso relato autobiográfico, de 120 páginas, o escritor relembra como nasceu o affaire com Sophie.

Agora, o Brasil finalmente verá a exposição, lerá o livro e presenciará um encontro do casal. Cuide de Você — título da mostra em português — ocupará o Sesc Pompeia, de São Paulo, entre 10/7 e 7/9. Depois, irá para o Museu de Arte Moderna de Salvador. Também neste mês, a narrativa de Grégoire chegará às lojas do país, editada pela Cosac Naify. A artista e o escritor ainda participarão de um debate na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Será a primeira vez que discutirão o relacionamento diante de uma plateia.

QUEBRA-CABEÇA
Quando despontou com Prenez Soin de Vous, Sophie ganhou da mídia britânica o apelido de “a Marcel Duchamp da roupa suja emocional”. Difícil pensar num rótulo mais adequado. Desde o começo da carreira, em 1979, a francesa sobressai por questionar e embaralhar os limites que separam o público do privado. Usa a própria intimidade — e a alheia — como matéria-prima de criações surpreendentes. Alguns exemplos: arrumou emprego de camareira num hotel com o intuito de fotografar secretamente os quartos dos hóspedes. Perseguiu um estranho pelas ruas e, à semelhança dos detetives, registrou o que o sujeito fazia. Concebeu uma instalação testemunhando as dores de um desengano amoroso que viveu em Nova Délhi (Índia). Produziu um filme sobre os instantes derradeiros da mãe moribunda.

Há quem defenda que o universo da artista prioriza a transparência. Mas a crítica Ligia Canongia, do Rio de Janeiro, sustenta o oposto. Num ensaio recente, notou que os trabalhos de Sophie exploram acima de tudo a ambiguidade — seja por confundirem os papeis de autor, narrador e personagem, seja por atiçarem equívocos de interpretação. Diante das obras, “sofremos um duplo impacto, em si contraditório: ou acreditamos no que vemos e lemos ou enveredamos pela desconfiança de que os textos e as imagens mentem”.

Não à toa, a francesa duvidou dos argumentos que a carta de Grégoire apresentava. O escritor, prometendo honestidade, apontava os motivos da partida. Falava em angústia terrível, em vocação para a poligamia. Entretanto, consciente de que nada é o que parece ser no terreno movediço da linguagem, a artista recusou as “explicações sinceras” do namorado. Preferiu sair à caça de outras, sem desconsiderar que qualquer uma se revelaria igualmente falsa ou, pelo menos, insatisfatória.

Caso buscasse as respostas na novela autobiográfica que Grégoire lhe dedicou, Sophie acabaria tropeçando em pistas bastante significativas — novas peças de um quebra-cabeça que nunca se deixará montar por inteiro. Os dois trocaram as primeiras palavras em outubro de 1990. Ela, já famosa, festejava 37 anos. Ele resvalava os 30 e ainda não publicara nenhum livro. Aterrissou naquela comemoração como “convidado surpresa”. Ou melhor: como cúmplice de um ritual que a artista inventara em 1980 e que só interromperia em 1993. Sempre que fazia aniversário, a francesa juntava um número de pessoas equivalente à idade que celebrava. As regras do jogo previam que a anfitriã desconhecesse um (e apenas um) dos convivas, levado à reunião por amigos em comum para que simbolizasse os mistérios do ano vindouro.

Na época, Grégoire tentava se curar de uma paixão mal resolvida. Cabisbaixo e um tanto irritado, quase não reparou em Sophie. “Quem é você?”, perguntou-lhe a aniversariante. “Sou um especialista em crueldades da existência”, disparou num tom pretensioso. Não conversaram mais. Reencontraram-se somente em 2003, numa outra festa. Grégoire colhia, então, muitos elogios pela estreia literária com o livro Rapport sur Moi, de 2001. Na contramão do que ocorrera antes, se apaixonou de imediato por Sophie. E, em questão de dias, o casal iniciou o namoro.

Nos trechos finais de O Convidado Surpresa, o escritor ressalta que, durante o reencontro, não pôde evitar o desconforto quando a artista lhe informou que logo completaria 50 anos. “Senti uma espécie de minúscula sombra introduzir-se no que havia de ensolarado naquele instante entre nós, […] ela não tinha 50 anos, 50 anos não queria dizer nada, eu tinha 43 e ela parecia tão leve e graciosa e de certo modo infantil e não era a idade dela hoje que me abatia, não, mas o que isso de repente significava de terrível e de insuportável e de escandaloso em relação ao futuro, sim, dentro de cinco anos ela teria 55 anos e depois 60 e essa visão me pareceu irremediável e insuperável como se eu entrevisse minha própria decrepitude.”

De novo, um visitante surpresa perambulava pela festa de Sophie. Só que, desta vez, ninguém o convidara. Era um penetra incômodo e tirânico que, cedo ou tarde, mostraria as garras: o tempo.

“Cuide-se”
O e-mail em que Grégoire Bouillier rompe com Sophie Calle

“Há algum tempo, venho querendo responder seu último e-mail. Na verdade, preferia dizer o que tenho a dizer de viva voz. No entanto, vou fazê-lo por escrito.

Você já pôde notar que não estou bem ultimamente. É como se não me reconhecesse em minha própria existência. Sinto uma espécie de angústia terrível, contra a qual não consigo fazer grande coisa, exceto seguir adiante para tentar superá-la. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a ‘quarta’. Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as ‘outras’, não achando logicamente um meio de vê-las sem transformar você em uma delas.

Pensei que isso bastasse. Pensei que amar você e que o seu amor — o mais benéfico que jamais tive — seriam suficientes. Pensei que assim aquietaria a angústia que me faz sempre querer buscar novos horizontes e me impede de ser tranquilo ou simplesmente feliz e ‘generoso’. Pensei que a escrita seria um remédio, que meu desassossego se dissolveria nela para encontrar você. Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições nem sequer de lhe explicar o estado em que mergulhei. Então, nesta semana, comecei a procurar as ‘outras’. Sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Nunca menti para você e não é agora que vou começar.

Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…) e compreensível (obviamente…). Com isso, jamais poderia me tornar seu amigo. Você pode, então, avaliar a importância de minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante de sua vontade, ainda que deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre os seres e a doçura com que você me trata sejam coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você do modo que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.

Mas hoje seria a pior das farsas manter uma situação que, você sabe tão bem quanto eu, se tornou irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único.

Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.

Cuide-se.”

(revista Bravo!)

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