“Que presepada, minha irmã…”

Como Daiana Ferreira levou o balé clássico para um conglomerado de favelas cariocas

“Sabe como a gente reagiria se encontrasse a Daiana de novo?” Sentadas à beira de uma mesa simples, comprida e absolutamente vazia, as duas jovens sorriem quando percebem que fizeram a pergunta quase no mesmo instante. Uma tempestade de verão banha o Rio de Janeiro e ameniza o calor da sala muito espaçosa, onde não há ventilador nem ar-condicionado. “A gente apertaria bastante o pescoço dela!”, respondem as próprias moças, em uníssono. Depois, caem na gargalhada, mas a súbita explosão de alegria mal consegue esconder a tristeza que ainda as atormenta. “Pô, Daiana, desta vez tu exagerou…”, resmungam baixinho, assim que o ataque de riso vai embora. Não é incomum que soltem frases idênticas e simultâneas durante um bate-papo ou que uma complete o pensamento da outra. A dupla convive desde a infância. Formada em gestão de recursos humanos, Edna Idarrah dos Santos Corrêa agora está com 33 anos, e Carine Lopes, estudante de direito, com 31. Elas têm gestos, tons de voz e tipos físicos semelhantes. No entanto, Corrêa é negra retinta e Lopes, branca de olhos verdes.

“A Daiana sempre meteu a gente em situações complicadas. Ô menina para gostar de aprontar!”, relembram. “Nos tempos de colégio, questionava todo mundo e acabava arranjando briga. Imagine alguém espevitado. Era a Daiana! Acontece que a criatura não aguentava o tranco sozinha. Media o quê? Um metro e 60 ou menos. Depois de arrumar as tretas, precisava de ajuda. Adivinhe quem saía correndo para defender a tampinha. Nós, né?”
Há três meses, Daiana Ferreira dos Santos de Oliveira festejou 32 anos. “Minha irmã do meio… Eu nasci em 3 de dezembro de 1987. Ela, em 1º de dezembro de 1988. Ficávamos dois dias com a mesma idade. Por isso, vivíamos zombando: ‘Somos gêmulas! Praticamente gêmeas.’ A caçula da família, Ana Beatriz, só chegou em 1995”, diz Corrêa. As “gêmulas” e Lopes se conheceram antes da alfabetização, quando já moravam no Complexo de Manguinhos, um agrupamento de favelas cariocas. Desde então, nunca mais se largaram. Estudaram juntas, inventaram mil brincadeiras, compartilharam segredos amorosos, discutiram por bobagens e fizeram as pazes. Certa ocasião, uma delas cismou de batizar o trio. “Viramos ‘as monetes’”, prossegue Corrêa. A palavra denomina um tipo de penteado feminino que se parece com o coque. As garotas, porém, ignoravam a definição e julgavam ter criado o vocábulo.
Em 2012, Daiana tomou coragem e abriu uma escola de dança no complexo, a única da comunidade que oferece aulas de balé clássico. Ao longo dos primeiros anos, a iniciativa arregimentou centenas de alunos, despertou a atenção de patrocinadores e ganhou a anuência de Claudia Mota, principal bailarina do Theatro Municipal do Rio. Gratificada, mas surpresa com o avanço, a fundadora e presidente do projeto temeu não poder levá-lo adiante por conta própria e pediu socorro às demais “monetes”. “Foi, disparado, a melhor confusão em que a Daiana nos colocou”, avalia Lopes, que assumiu a vice-presidência da escola. Já Corrêa se tornou analista de planejamento institucional. Quando aceitaram as funções em 2019, as duas amigas nem sequer cogitavam que um novo – e intrincadíssimo – desafio se avizinhava. “Fala sério, Daiana! Custava aliviar um pouco a barra?”, reclamam outra vez, cientes de que a interlocutora jamais  responderá.

Mãe das “gêmulas”, a carioca Rosali Ferreira dos Santos só terminou o ensino fundamental. Mesmo assim, adora ler. Na juventude, devorava “romances de banca”, como Júlia e Sabrina. Os livros propagavam aventuras amorosas que transbordavam erotismo e se desenrolavam em lugares exóticos. “Meu segundo nome é Idarrah por causa de uma daquelas histórias”, explica Corrêa. Um índio e uma antropóloga se apaixonam nos confins da selva. Sob o luar, concebem um bebê muito gracioso, que resolvem chamar de Idarrah. “Significa ‘o nascer do sol’”, afirma a primogênita de Rosali dos Santos, sem estar totalmente certa da informação nem do enredo que acabou de narrar.
O nome de Daiana também dialoga com os contos de fada modernos. Ela o herdou de Lady Di, a princesa de Gales. “Foi nossa prima Agda, que tinha 6 anos, quem o sugeriu”, rememora Corrêa. À época, boa parte do mundo ainda desconhecia que as bodas reais de Diana Frances Spencer haviam se convertido num pesadelo.
A mãe das “gêmulas” e de Ana Beatriz manteve uma relação errática com o pai delas, um comerciante mineiro. O casal nunca morou junto. Tampouco dividia as responsabilidades e os gastos familiares. “Até porque meu pai gerou mais nove filhos, com outras três mulheres”, ressalta Corrêa. Para sustentar as meninas, Rosali dos Santos trabalhava como empregada doméstica e, esporadicamente, acompanhava os patrões em teatros ou galerias de arte. O apreço pela leitura se uniu, assim, à admiração por quadros, concertos, peças e óperas.
“Sempre que possível, minha mãe buscava nos ‘transmitir cultura’, como gostava de dizer. Ela levava a gente à biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, onde passávamos o dia inteiro. Também economizava para nos comprar livros em sebos.” Com o incentivo da mãe, as crianças leram O Caso da Borboleta AtíriaO Menino do Dedo Verde e outros clássicos da literatura infantojuvenil que não integravam o currículo escolar. Uma vez, a mãe e as filhas visitaram o suntuoso edifício de 1909 que abriga o Municipal do Rio. Lá puderam ver, maravilhadas, O Lago dos Cisnes, balé dramático do compositor russo Piotr Tchaikovski. Daiana travou, então, o primeiro contato com a dança erudita.
Bem antes do passeio, a garota já demonstrava interesse por coreografias. Em casa, diante da tevê, imitava os remelexos frenéticos do grupo É o Tchan! e a sensualidade da adolescente Britney Spears. Não à toa, odiava a movimentação insossa do coral que se exibia na igreja batista frequentada pela família. “Meus antepassados curtiam os terreiros de umbanda ou de candomblé, não sei direito. Mas, quando uma de nossas tias migrou para o cristianismo, tratou de converter todos os parentes”, recorda Corrêa.
Apesar de ser profundamente religiosa, Daiana se permitia questionar alguns dogmas. “Por que os homens, e não as mulheres, escreveram a Bíblia?”, indagava para as irmãs logo após os cultos dominicais. “Porque queriam eternizar o poder masculino, claro!”, emendava, sem aguardar a opinião de ninguém.
Frustrada com o desempenho do coral, procurou o pastor. Tinha 13 anos, se tanto:
– Precisamos mudar aquilo!
– Aquilo o quê? – retrucou o pastor.
– O jeito como os participantes do coral se mexem. Cadê a atitude? A criatividade? Eles movem apenas os braços. Parecem uns robozinhos. E o resto do corpo?
– Você nem canta no coral! Para que se meter?
– Não canto, mas vejo as apresentações. Péssimas! Dançar é importante, pastor. Está no Velho Testamento. Lembra-se da Miriã?
A mocinha se referia à profetisa que, no livro do Êxodo, comemorou o momento em que os judeus atravessaram o Mar Vermelho, sob a liderança de Moisés. “Então Miriã […] pegou um tamborim, e todas as mulheres a seguiram, […] dançando”, relata o trecho bíblico. A travessia inaugurou uma nova fase para o povo hebreu, que enfim se livrou dos perseguidores egípcios. Soterrado pela insistência da jovem, o pastor cedeu e autorizou a intervenção no coral. “Só não abuse da minha confiança, hein? Faça alterações suaves”, advertiu.

À 
medida que se incumbia da tarefa, Daiana percebeu o óbvio: faltavam-lhe conhecimentos mais sólidos para aprimorar o gestual dos cantores. “Tenho que aprender balé”, concluiu. Mas onde? Escolas particulares custariam os olhos da cara. Depois de uma rápida pesquisa, a menina descobriu um projeto social que dava aulas gratuitas e o abraçou sem hesitar. Permaneceu lá por três anos. “Eu também me inscrevi”, diz Corrêa. “Nós duas saíamos do colégio e andávamos até o projeto, que ficava longe de nossa casa. O percurso de ida e volta somava uns 4 km, pelo menos.”
Praticar balé clássico não apenas possibilitou que Daiana repaginasse o coral da igreja como lhe forneceu a base para se aventurar em outras danças, das populares (especialmente, o jongo e o samba) à contemporânea. “Ela nunca deixou de se aperfeiçoar”, enfatiza Lopes. “Fez uma porção de workshops e batia ponto nos espetáculos das grandes companhias brasileiras. Amava a da Deborah Colker, por exemplo.”
Com 16 anos, Daiana arrumou o primeiro emprego. Tornou-se monitora do Museu da Vida, que pertence à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Mais tarde, assim que finalizou o ensino médio, conseguiu uma bolsa do governo federal para estudar educação física no Centro Universitário Celso Lisboa. Enquanto cursava a faculdade, não parou de trabalhar. Foi atendente de telemarketing e recreadora de festas.
Em 2010, um colégio municipal a contratou como professora de jongo. Dois anos depois, a moça resolveu empreender. “Vou criar uma escola infantil de balé em Manguinhos”, anunciou para os familiares. O plano soava absurdo. Quem teria condições de bancar as aulas numa comunidade tão pobre? “Não se preocupem. Vou cobrar barato”, argumentou Daiana. Espalhado pela Zona Norte do Rio, o Complexo de Manguinhos reúne sete favelas, de acordo com a prefeitura, mas os moradores afirmam que são catorze. Cerca de 42 mil pessoas habitam o conglomerado, ainda segundo a população local, que está sob o controle da facção criminosa Comando Vermelho.
A escola recém-aberta funcionava numa sala alugada e logo atraiu oitenta crianças. Ocorre que, de fato, a inadimplência dos alunos se mostrou um problema, e o empreendimento naufragou em menos de seis meses. Como não dependia economicamente do negócio por continuar lecionando no colégio municipal, Daiana decidiu que ensinaria balé de graça. Perto da casa dela, existia uma igreja evangélica. A professora se muniu da ousadia costumeira e bateu à porta do templo. “Pastor, quero usar a igreja para minhas doideiras. O senhor empresta?” O religioso concordou de imediato, e a escola renasceu ali.
“A Daiana tinha um lema: ‘O não já é certo. Vou em busca do sim.’ Por um lado, tamanha persistência a favorecia. Por outro, a transformava numa figura muito centralizadora, que não media esforços para atingir os objetivos”, analisa Corrêa. “Era uma mulher teimosa! Cabeça-dura mesmo! Se encasquetava com uma ideia… Sai debaixo!”, resume Lopes.
Em 2013, o ponta-direita Jairzinho, craque da Copa de 70, soube da escola. Ele ministrava aulas de futebol para a garotada de Manguinhos e dos arredores. A Petrobras financiava a ação. “O cara se impressionou tanto com as maluquices da Daiana que propôs ajudá-la. Separou uma parcela do dinheiro que ganhava da Petrobras e pagou um salário para a minha irmã.” O auxílio garantiu que a professora deixasse o colégio municipal e se dedicasse somente à escola de dança.
Quando o jogador interrompeu o aporte por falta de recursos, Daiana ficou um período sem patrocínio até conquistar o apoio da Asfoc-SN, o sindicato dos trabalhadores da Fiocruz. A essa altura, a iniciativa já contava com outros professores e não ocupava mais a igreja. Mudara-se para a Biblioteca Parque de Manguinhos, espaço mantido pelo governo fluminense. Entusiastas do projeto, as atrizes Priscila Fantin e Samara Felippo o divulgavam na mídia enquanto Claudia Mota – a bailarina do Municipal – virava madrinha da escola. Para tourear os novos obstáculos que a improvável jornada lhe trazia, Daiana frequentava cursos de produção cultural e empreendedorismo social.

No finzinho de 2016, a Secretaria de Estado de Cultura fechou a Biblioteca Parque para conter despesas. “Como assim?”, indignou-se Daiana. “Onde vou botar minhas crianças?” Ela tentou negociar com as autoridades, mas não teve sucesso. Optou, então, pela alternativa mais radical: juntou as mães de alguns alunos e invadiu o espaço na marra em janeiro de 2017. Durante um ano e cinco meses, o grupo se encarregou de gerir a área para que as aulas de balé prosseguissem. A estratégia funcionou. O governo reabriu a biblioteca e lhe deu o nome de Marielle Franco, a vereadora negra do Psol assassinada havia pouco tempo.
A batalha de Daiana mereceu uma reportagem no New York Times em julho de 2018. O artigo do jornalista Ernesto Londoño acabou chegando à fundação norte-americana The Secular Society. Localizada na Virgínia, a TSS investe em ações educacionais, artísticas, esportivas ou ambientais de diversos países: Argentina, Itália, Nepal, Quênia, Iraque, Madagascar e Paquistão.
Embora não falasse inglês, Daiana compreendeu perfeitamente quando a organização manifestou o propósito de patrocinar a escola. A oferta parecia um sonho. Entre novembro de 2018 e agosto de 2021, a TSS substituiria a Asfoc-SN e arcaria não só com a verba necessária para sustentar o projeto, mas também para ampliá-lo e lhe comprar uma sede definitiva. A injeção monetária, no entanto, não seria renovável.
Hoje, o Ballet Manguinhos – como a escola se chama desde 2014 – possui onze funcionários remunerados e 250 alunos com idades entre 6 e 29 anos. Escolhidos por sorteio, os estudantes podem fazer tanto aulas de dança quanto de circo. A maioria deles é do sexo feminino e se declara branca. Quinhentos jovens e crianças estão na fila à espera de uma vaga.
Mensalmente, a TSS destina uma média de 35 mil reais para o projeto. Em dezembro de 2020, a escola adquiriu o prédio de quatro andares e 600 m2 que lhe serve de base. O imóvel, situado na entrada de Manguinhos, custou 800 mil reais.

“Era magérrima, acredita? Um varapau, mas sempre teve seios imensos.” Corrêa descreve assim a irmã, toda vez que se lembra da adolescência de ambas. “A Daiana só ganhou peso depois do estupro.” O ataque se deu numa rua escura e deserta. A garota de 19 anos saía do trabalho quando um desconhecido a agarrou. “Ela não escondia de ninguém o que rolou”, conta Lopes. “A questão é que, no fundo, jamais superou o trauma e se refugiou na comida, entende? Comer a reconfortava.”
Por uma década, Daiana nutriu o desejo de emagrecer e reduzir as mamas, que lhe sobrecarregavam a coluna e dificultavam sua respiração. A moça, porém, nunca encontrava uma brecha para se submeter à cirurgia plástica. Com o advento da pandemia, o ritmo da escola diminuiu bastante, e a professora finalmente marcou a operação.
O procedimento ocorreu em setembro de 2020. Enquanto se recuperava, Daiana desenvolveu uma enfermidade raríssima, o pioderma gangrenoso. Trata-se de uma inflamação que provoca feridas recorrentes e bem dolorosas pelo corpo. Uma resposta imune exagerada pode desencadear o quadro. “Tudo indica que o organismo da Daiana encarou a cirurgia como uma agressão excessiva e reagiu de maneira anormal”, lamenta Corrêa.
No último dia 7 de janeiro, a professora sentiu os primeiros sintomas da Covid-19. Ela ainda exibia várias lesões cutâneas, principalmente na parte superior do tronco. O coronavírus se revelou impiedoso. Aproveitou a fragilidade da paciente e a levou para o CTI. No dia 18 de janeiro, às 10h30, a presidente do Ballet Manguinhos morreu. Deixou um filho de 3 anos.
“E agora? Como vamos continuar sem a líder das ‘monetes’?”, pergunta Lopes na sala abafada da escola. “Pois é… Que presepada, minha irmã…”, suspira Corrêa.

(revista piauí)

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