E.T. de Ipanema

A história de um falso acaso

J
á virou hábito. Todos os dias, quando acordo, olho para a esquerda e verifico se a fotografia continua lá, presa à parede branca, entre molduras de metal e sob um vidro levemente fosco. Na verdade, não verifico coisa nenhuma. Sei que o quadro estará sempre ali, intacto e junto da ampla janela que ilumina o pequeno dormitório. Mesmo assim, repito com perseverança o ato de observá-lo pela manhã, como um vigia inútil ou um pastor que teima em zelar por ovelhas incapazes de fugir. Não se trata de mania nem superstição. É realmente um hábito, que adquiri quase sem notar.


Salvo engano, mandei emoldurar a imagem no começo de 2019, pouco depois de me mudar para o quarto e sala onde ainda moro sozinho. A foto certamente não se destaca pelo tamanho. Tem apenas 20 cm de comprimento por 13 cm de largura. Muitos dos que já me visitaram nem sequer a perceberam. Não se aproximaram dela para apreciar a cena idêntica à que ilustra esta reportagem ou perguntar quem, afinal, é aquela mulher de capacete espelhado. Caso me perguntassem, confesso que não conseguiria responder. Tampouco saberia informar em que praia a misteriosa personagem se deixara retratar. Tudo o que dissesse seria pura suposição e revelaria mais sobre mim do que sobre a foto.
A praia, por exemplo. Mal vi a imagem pela primeira vez, cismei que a mulher se encontrava em Ipanema. Falta de imaginação, sem dúvida, e talvez o sintoma de uma alma irremediavelmente provinciana. A mulher poderia estar na Indonésia, no Havaí ou na Sicília, mas escolhi situá-la justo no Rio de Janeiro, a alguns quarteirões de minha casa. A criatividade exígua acabou por me inspirar uma piadinha tola e ligeiramente machista. “Tom e Vinicius tinham a Garota de Ipanema. Eu tenho a E.T. de Ipanema”, gracejei certas manhãs, enquanto admirava a fotografia.
Sim, uma E.T. Logo de cara, a mulher enigmática me pareceu vir de outro mundo. Era divertido considerá-la de Marte, Júpiter ou Saturno. Uma alienígena morta de cansaço, que resolveu tirar férias em Ipanema. O faz de conta, porém, se mostrou bem menos prazeroso quando admiti o óbvio: a criatura em questão dispunha de um corpo demasiadamente humano, que me impedia de aderir por completo à divagação. Como acreditar numa extraterrestre com feições tão terrenas?
Quanto mais examinava o quadro, mais paradoxos me esforçava em lhe atribuir. Garimpar incoerências na imagem se tornou um entretenimento irresistível, sobretudo depois que a Covid-19 nos impeliu à clausura doméstica. Volta e meia, a figura feminina me evocava um orixá futurista – o que, em si, já é uma contradição. Orixás provêm de um passado remotíssimo, que se localiza quase fora do tempo. Pertencem à solidez da ancestralidade, não às incertezas do futuro. Em determinados instantes, a protagonista da cena também me lembrava as passistas do Sambódromo. Uma mulher branca, portanto, sintetizava duas marcas inequívocas da negritude no Brasil: as religiões de matriz africana e o Carnaval. Mais um contrassenso da foto.
O quadro me remetia, ainda, à situação exasperante em que a pandemia nos meteu. Por um lado, o capacete da personagem dialogava com as incômodas máscaras que todos precisamos usar desde março do ano passado. Por outro, refletia em sua superfície um grupo de banhistas à moda antiga: aglomerados e sem nenhuma proteção facial. A nova e a velha normalidades compunham um retrato que, agora, me soava profético. Quando emoldurei a imagem, não havia nem sinal do Sars-CoV-2, mas os dilemas e limites que o vírus iria nos impor já se apresentavam na cena. Aliás, em que circunstâncias a mulher sem rosto teria sido fotografada? Durante a realização de um clipe, um filme, um comercial? Ou justamente na concentração de um bloco carnavalesco?
Quatro meses e meio atrás, enquanto me distraía com tantas especulações, recebi uma notificação incomum pelo celular. Uma desconhecida solicitava autorização para me seguir no Instagram. Hoje em dia, já não sou frequentador das redes sociais. Se dependesse de minha influência digital, estaria na rua da amargura. Por isso, me surpreendi quando a mensagem chegou. Eu tinha, à época, somente 257 seguidores e conhecia todos – uns de perto, outros só pela internet. Até aquele 17 de setembro de 2020, ninguém que não fizesse parte, direta ou indiretamente, do meu círculo íntimo manifestara o desejo de acompanhar minhas escassas publicações. Cismado com a estranha, tratei de xeretar o perfil dela. Das 1 735 pessoas ou instituições que a seguiam, nenhuma também me seguia.
Um vídeo de 86 segundos figurava entre os posts mais recentes da desconhecida. Tão logo o abri, levei um susto. Era a E.T. de Ipanema! A protagonista enigmática da foto agora surgia de corpo inteiro, diante de um ponto turístico muito disputado no Rio, o Museu do Amanhã. Trajava o mesmo figurino exótico do retrato e posava para as câmeras dos curiosos que a rodeavam. De vez em quando, dava alguns passos. A trilha sonora do vídeo, instrumental, se assemelhava à das ficções científicas hollywoodianas.
Explorando um pouco mais o perfil, descobri outras paisagens que a alienígena desbravara. Ora pude avistá-la na capital da Islândia, ora num deserto dos Estados Unidos ou numa ilha da Bahia. Não demorei para concluir que a extraterrestre de capacete espelhado e a dona do perfil, uma mulher sorridente, de cabelos bem longos, eram a mesma pessoa. Por incrível que pareça, a criatura sem identidade que zelava o meu sono e amenizava a minha quarentena de repente ganhou nome, sobrenome e uma face. Mera casualidade ou artimanhas de um destino em que nem ao menos me permito crer?

“Vou participar da Tijuana no sábado e no domingo. Quer ir?” A Tijuana é uma feira descolada onde artistas expõem e comercializam toda sorte de impressos: gravuras, pôsteres, cartões-postais, quadrinhos, livros e adesivos. Idealizado pela Galeria Vermelho, de São Paulo, o evento nasceu há doze anos. De início, se restringia à capital paulista, mas depois avançou para o Rio, Buenos Aires e Lima. O Parque Lage, na Zona Sul carioca, abrigou a 19ª edição da mostra em agosto de 2018. Foi quando uma amiga, Maíra Marques, me fez o convite: “Passa lá. Vou tentar vender alguns dos meus livrinhos artesanais.” Ela trabalha com publicidade e se diz comunicóloga. No entanto, prefiro defini-la como uma “artista tímida”. Minha amiga pensa o tempo todo em arte, adora conversar sobre o tema, nunca deixa de estudá-lo, frequenta exposições e usa as horas vagas para desenvolver projetos artísticos. Cria desde intervenções urbanas e performances até cartazes, vídeos e obras sonoras. Só que, apesar das evidências, raramente se proclama artista. “Nem sempre consigo… Em que momento alguém vira artista? Em que momento pode assumir socialmente a condição de artista? Ainda não sei a resposta.”
Entre os livros artesanais que Marques levou para a Tijuana, um me interessou de imediato: Psilocibina. Tinha oito ou dez páginas, já não lembro direito, e reunia somente fotografias. O título da publicação coincidia com o nome da substância alucinógena que está presente em vários tipos de cogumelos e que minha amiga provara recentemente. “Tomei uma microdose, um tiquinho de nada, mas o bastante para sentir vontade de abordar a experiência num livro”, contou. Psilocibina juntava, assim, uma série de imagens que aludiam às visões trazidas pela droga, incluindo o retrato da E.T.
– Quem é? – perguntei, enquanto folheava o livro.
– A mulher de capacete? Não faço a mínima ideia – retrucou Marques. – Eu a vi na praia e fotografei.
Não me ocorreu questionar em que praia exatamente a cena se desenrolara.
– Gostei! Topa vender?
– Só a foto?
– Sim.
– E o resto do livro?
– Pois é… Pensei em comprar apenas a imagem original, sem as modificações. Muita folga?
No livro de 150 reais, o retrato da alienígena exibia duas interferências. O céu originalmente azulado se tornara cor-de-rosa. “Arranjei uma canetinha com tinta cintilante e o pintei”, esclareceu minha amiga. Ela também escreveu uma frase um tanto hermética embaixo da foto: “Capacete invisível para pensamentos perigosos é mais importante do que colágeno.”
Com 37 anos recém-festejados, Marques andava refletindo sobre o envelhecimento. “Claro que ainda sou jovem. Mesmo assim, noto que minha pele já mudou. A maciez, o viço e a firmeza de antes se perderam. É por causa do colágeno, né? Está diminuindo… Ninguém curte lidar com o declínio do próprio corpo, mas existe coisa pior do que a decadência física. São as ideias tortas, retrógradas, pessimistas, que nos envenenam e fazem a gente murchar rapidinho. Imagine se houvesse um capacete invisível que bloqueasse os pensamentos nocivos, que os impedisse de circular dentro e fora de nós. A gente envelheceria sem envelhecer.”
Naquele domingo, minha amiga não me vendeu a foto. Recusou gentilmente a oferta, mas não cerrou todas as portas: “Vou avaliar…” Mal saí da feira, me penitenciei pela proposta deselegante. Onde estava com a cabeça? O que um escritor me responderia se lhe dissesse: “Cara, adorei o teu romance! Só que vou comprar apenas o capítulo 12, o.k.?”
Passaram-se uns meses e, para minha surpresa, Marques aceitou fechar o negócio. Ela cobrou pela imagem da extraterrestre o preço do livro: 150 reais.

“Você se repete? Você se arrepende? Procuro pessoas que, mesmo depois de arrependidas, continuam repetindo seus atos.” Eu acabara de deixar a estação Carioca do metrô, no Centro do Rio, quando deparei com o cartaz que estampava o curioso apelo. Não me recordo de onde se encontrava. Num poste? Ou na fachada imunda de algum boteco? A convocação trazia um endereço digital: arrepetimento@gmail.com. O neologismo me despertou ainda mais atenção do que o apelo. Arrepetimento! Que palavra engenhosa! Resolvi entrar na brincadeira (seria uma brincadeira?) e escrevi para o endereço. Foi assim que, em setembro de 2017, conheci Maíra Marques.
Ela colara três daqueles cartazes pela cidade sem um propósito muito definido. “Já reparou que todos nós repetimos certos comportamentos ruins? Às vezes, sabemos por experiência própria que vamos nos ferrar se agirmos novamente de determinada maneira. Mas não adianta: a gente insiste no erro. Por quê? Na esperança de compreender minimamente a questão, decidi estudá-la”, relatou a artista em resposta à minha mensagem. Estudá-la significava ler um pouco sobre carma, reencarnação, compulsões e a milenar teoria do eterno retorno, que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche reinterpretou no século XIX. Também significava debater o assunto com quaisquer estranhos que se mostrassem interessados. Daí os cartazes espalhados pelo Rio. “Para mim, a pesquisa que estou fazendo já é o trabalho artístico”, explicou. “Se vai resultar em algo mais palpável, não arrisco dizer.”
No decorrer de dez meses, acompanhei o processo de longe, com muito entusiasmo, ainda que sem participar do experimento. Periodicamente, Marques me enviava sinais de fumaça por e-mail. “Recebi arrepetimentos de todos os cantos”, escreveu numa ocasião. “Gente que se arrepende de beber, de roubar, de mentir ou de não se esforçar o suficiente em termos profissionais. Mas a maioria dos que me procuram se arrepende mesmo é de comportamentos equivocados no terreno afetivo, amoroso, sexual.”
Em julho de 2018, nós finalmente marcamos o primeiro bate-papo offline. Num café de Ipanema, minha nova amiga anunciou, empolgada, que terminara a investigação. Cerca de trinta pessoas haviam aderido à iniciativa, que teve, sim, desdobramentos mais concretos. A artista não só realizou um ensaio fotográfico com alguns dos participantes como produziu uma espécie de colagem sonora.
“Imprimi todos os testemunhos que me mandaram por e-mail e grifei as palavras-chaves de cada um deles”, contou. Depois, elaborou uma lista em que tais vocábulos apareciam tantas vezes quantas surgiram nos depoimentos, formando sequências do tipo: “vazio vazio vazios encontro encontros Tinder Tinder Tinder transo transamos transar transava transaríamos tesão sauna sauna sauna.” A lista totalizava 190 palavras, repetidas ou não. “Assim que finalizei o inventário, pedi para os participantes gravarem áudios no WhatsApp em que liam a relação inteira.” Marques, então, misturou as gravações e teceu a instigante colagem sonora de 3 minutos e 44 segundos.
Foi só quando a extraterrestre praiana baixou no meu Instagram que descobri onde minha amiga a retratara. “Ipanema? Errado, mano!”, me corrigiu a artista em setembro de 2020, tão logo lhe falei da inusitada aparição. “Eu passava férias na Ilha de Boipeba. Sul da Bahia, conhece? Ali tem um lugarejo paradisíaco, Moreré, que abriga uma vila de pescadores e um monte de piscinas naturais. No primeiro dia de 2017, enquanto pegava sol por aquelas bandas, avistei a tal figura. Era de manhã. A praia estava calma, quase vazia. A mulher se movimentava devagarzinho e calada. Parecia dançar, com uns gestos bem fluidos, bem suaves. Fiquei deslumbrada, mas tive receio de fazer perguntas, mesmo porque não sabia se o capacete a deixava ouvir direito. Apenas cheguei perto e tirei a foto (costumo levar minha câmera para todo lado). Em seguida, saí fora com a sensação de ter presenciado um instante mágico. Tão mágico quanto o fato de a mulher pintar agora no teu Instagram. Que maluquice…”
“Nem de Moreré, nem de Ipanema. A E.T. é da minha terra, Minas Gerais!”, me garantiu outra amiga, Georgia Barcellos, sem atinar para o absurdo que dizia: como uma extraterrestre poderia ser da terra de um terráqueo? A criatura espacial havia publicado no Instagram um comentário sobre si própria e a quarentena que acabou se tornando revelador: “Saudade de fazer teatro, né, minha filha? Nó…” Mal tomou conhecimento da aparição que me inquietava, Barcellos correu para vasculhar a rede social da E.T. e logo pescou o termo “nó”. “Mineira, com certeza!”, exultou, julgando-se uma Sherlock Holmes do Cerrado (“Xerloquirromis”).
Em mineirês castiço, “nó” é uma interjeição de pena ou espanto, talvez derivada de “Nossa Senhora!”. Importante não a confundir com “nu!”, que expressa os mesmos sentimentos, mas num grau bem mais elevado. “Rapaz! Desconfio que você encontrou a E.T. de Varginha…”, concluiu a detetive brejeira.

Como a Xerloquirromis deduzira, Andressa Furletti – eis o nome da esfinge – nasceu realmente em Minas. Filha de uma comerciante e um administrador de empresas, tem origem italiana, portuguesa, negra e indígena. “Uma mistureba das mais brasileiras”, resumiu por telefone, em nossa primeira conversa. A ascendência multirracial lhe confere traços francamente híbridos, de tal modo que a pele muito alva contrasta com os olhos bem pretos. Já os cabelos castanhos, que beiram a cintura, hesitam entre o liso e o cacheado. Magra, “mas não magricela”, a belo-horizontina de 42 anos gosta de ressaltar que mede 1,58 metro “e meio”. “Ai de você se me tirar o meio centímetro!”, zombou. Em 2002, trocou BH pelo Rio, onde morou até 2007. Logo depois, se mudou para Nova York e vive lá ainda hoje. Compartilha um apartamento no distrito do Brooklyn com o marido, biólogo especializado em imunologia, e a cadela Shanti Lee, uma border collie simpaticíssima.
Quando a alienígena invadiu meu Instagram, pedindo para me seguir, não aceitei de cara a solicitação. Antes, relatei o “causo” às minhas duas amigas, e ambas sugeriram o mesmo: “Entre em contato com a E.T. a-go-ra!” Foi o que fiz. Às 12h19 do dia 18 de setembro de 2020, lhe enviei uma breve mensagem, em que narrava o acontecido. Às 17h52, Furletti me retornou: “Gente! Que história! Fico feliz que minha imagem esteja te acompanhando!” Sem rodeios, perguntei: “Como você me descobriu? E por que pediu para me seguir?” A resposta: “Juro que não sei! Provavelmente, você publicou alguma coisa que apareceu no meu feed e me agradou. O quê? Não vou lembrar de jeito nenhum! Vejo zilhões de postagens nas redes…”
Desde então, tivemos duas longas conversas telefônicas e várias interações pelo WhatsApp. Em todas as circunstâncias, minha interlocutora passou a impressão de ser um tanto reservada e tímida. Ela escapulia de questões que considerava invasivas e, às vezes, se tornava monossilábica, como uma criança vacilante, de quem o gato comeu a língua. Em compensação, também se revelava muito pragmática e obstinada. “Sou taurina: se não materializo os meus planos, me irrito profundamente. Uns chamam isso de persistência. Outros, de teimosia…”

Na infância, Andressa Furletti adorava reunir as amigas para encenar séries fictícias de tevê em que cavalinhos de plástico representavam os personagens. “Há garotas que brincam com a Barbie. Eu brincava com cavalinhos.” A diversão recorrente evidenciava duas particularidades que acabaram por nortear o futuro da menina: a predileção pelos bichos e pela arte.
Gostar de animais contribuiu para que Furletti praticasse equitação durante a adolescência e estudasse biologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde se formou em 2001. “Enquanto me graduava, trabalhei num laboratório de ornitologia. Depois, me dediquei à genética do câncer e, um pouco mais tarde, aos transgênicos.”
Já o apreço por toda espécie de manifestação artística fez com que Furletti adquirisse noções de balé e flauta, além de empurrá-la progressivamente para o ofício de atriz. Em Belo Horizonte e no Rio, ela frequentou inúmeros cursos de atuação, que lhe possibilitaram arriscar os primeiros passos teatrais.
“Tentei me equilibrar entre a biologia e as artes cênicas”, relembrou. “Mas, com o tempo, percebi que não conseguiria e abandonei a carreira científica.” No afã de se estabelecer como atriz, encarou de tudo: longas e curtas-metragens, comerciais, peças, esquetes e figurações em programas de humor. À medida que se aventurava diante dos holofotes, tratou de concluir outra faculdade, a de cinema, e virou também editora de imagens.
Deixou o país quando o marido recebeu uma proposta para cursar o pós-doutorado em Manhattan. “Pretendíamos ficar apenas um ano e já estamos há treze…” Assim que chegou a Nova York, a atriz ingressou no Stella Adler Studio of Acting, escola de interpretação que surgiu em 1949 e teve alunos tão talentosos quanto Marlon Brando, Robert de Niro, Warren Beatty e Candice Bergen.
O prestigioso conservatório abriu algumas portas para Furletti na cidade, o que lhe permitiu construir um reduzido, mas sólido, círculo profissional. Desde 2011, a mineira dirige a Group .BR, companhia que fundou com o carioca Thiago Felix e a curitibana Debora Balardini. A trupe se encarrega de disseminar a cultura brasileira por meio de espetáculos que misturam não somente o português e o inglês como também as artes visuais, o teatro de vanguarda, a música e a dança. Entre as montagens do grupo, destacam-se A Serpente, de Nelson Rodrigues, Infinite While It Lasts, sobre Vinicius de Moraes, e Inside the Wild Heart, baseada na trajetória de Clarice Lispector.

Em junho de 2014, um colega da atriz a convidou para participar do Northside Festival. O evento costuma ocorrer durante o verão no Brooklyn. Com o intuito de celebrar “a inovação e a arte”, agrega músicos, DJs, performers, jornalistas, designers, publicitários e donos de startups, que protagonizam shows, intervenções, palestras ou workshops. “Você não tem nenhum projeto dando sopa, Andressa?”, interpelou o colega, que planejava recitar uma série de poemas na mostra. Um deles sempre chamou a atenção de Furletti e dizia algo como “quando te olho, me vejo”. “Tenho, sim”, respondeu a artista, lembrando-se de uma ideia que acalentava havia tempos e que, de certa maneira, dialogava com aquele verso. Era a performance #TakeASelfieOnMe (Faça uma selfie em mim).
“Desde que os celulares adquiriram câmeras de fácil manuseio, todo mundo se rendeu à mania do autorretrato. Fulano visita o Louvre, por exemplo, e só dispõe de quinze segundos para observar a Mona Lisa. Em vez de admirar o quadro, o sujeito gasta os quinze segundos tirando uma foto diante da pintura. Não é esquisito? Como a febre das selfies me intriga demais, cogitei desenvolver um trabalho que abordasse o fenômeno de um jeito bem lúdico”, me explicou a atriz por telefone. Ela já havia esboçado parte do projeto, mas nunca arranjava uma brecha para concretizá-lo. A proposta do colega lhe deu o empurrão que faltava.
Na performance, Furletti usaria um traje exuberante que, quando fotografado, refletiria quem o estivesse fotografando. O fotógrafo experimentaria, assim, o prazer simultâneo de retratar o outro e se retratar, como se o egocentrismo da selfie pudesse redundar em altruísmo.
A própria artista desenhou e produziu cada peça da roupa. Uma saia de paetê, tão longa que quase varre o chão. Um par de luvas muito compridas, que se avizinham dos ombros. Um bustiê confeccionado com três semiesferas de plástico, ocas e rígidas – as maiores cobrem os seios enquanto a terceira, menor, repousa sobre o abdome. Um capacete também constituído de duas semiesferas plásticas, que se unem por parafusos. O figurino inteiro alterna diversos tons de prateado. As luvas e as cinco semiesferas  têm as superfícies espelhadas.
“Não pensei em orixás, extraterrestres ou passistas quando criei o traje”, prosseguiu a atriz. “Eu desejava apenas me transformar num espelho itinerante e pouco óbvio.” Furletti comprou toda a matéria-prima da roupa em lojas baratas de Nova York. “No total, gastei uns 100 dólares, ou até menos.”
A performance dura, em média, duas horas. “Procuro me movimentar lentamente e de modo improvisado. Mantenho os braços sempre abertos, o que é um tanto doloroso, e nunca paro de me mexer.” Às vezes, caminha. Outras vezes, deixa de andar, mas oscila o pescoço, as mãos ou o tronco. Jamais emite sons e conserva o silêncio mesmo se alguém puxa conversa. Sob o capacete, ouve tudo perfeitamente, ainda que só enxergue vultos.
Depois da estreia no Brooklyn, a artista já se apresentou em mais dez lugares: Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Ouro Preto, Moreré, Paris, Berlim, Reykjavík, Miami e o deserto de Black Rock, no estado norte-americano de Nevada, onde acontece o Burning Man, uma badalada celebração contracultural. “O figurino é bem fácil de transportar. Por isso, gosto de levá-lo em minhas viagens de trabalho e lazer. Não preciso de festivais ou algo do gênero para realizar a performance. Se me dá vontade, saio na rua e faço.” #TakeASelfieOnMe, aliás, não tem nenhuma relação com a trupe de Furletti.
Em geral, o público corresponde às expectativas da atriz e a fotografa avidamente. “É a mulher do futuro!”, presumem alguns. “Outros me comparam com uma E.T., lógico, ou com Iemanjá, principalmente se estou perto do mar.” Certa vez, nos Estados Unidos, um homem se aproximou da performer e indagou: “Lady Gaga, é você?! Não acredito! Que máximo!”

Embora não professe nenhuma religião, a artista diz ter “fé no mistério”. “Longe de mim bancar a cética absoluta! Creio no ‘pode ser’. Deus existe? Pode ser. Os mortos reencarnam? Pode ser.” Ela não ousa explicar de maneira assertiva por que a gente se cruzou – e justo num momento em que a quarentena nos impunha tantos desencontros. “Destino? Pura coincidência? Vai saber… Minha predisposição é atribuir nosso encontro às escolhas. Eu escolhi criar a performance e mostrá-la em Moreré. Sua amiga escolheu viajar para lá e me fotografar. Você escolheu ir à feira Tijuana e comprar a foto. Nós dois escolhemos baixar o Instagram etc. etc. etc. Rolou uma convergência de escolhas, percebe? No fundo, tudo aconteceu por causa das opções que fizemos ao longo do tempo. Agora, será que tomamos aquelas decisões livremente? Ou será que nossas escolhas já estavam predestinadas?”
Em vez de buscar respostas com os astros, decidi consultar Virgílio Augusto Fernandes Almeida, professor emérito do Departamento de Ciência da Computação na UFMG. Contei-lhe a história detalhadamente e questionei:
– Por que o Instagram indicou o meu perfil para a performer se nenhuma das 257 pessoas que me seguiam a acompanhava e se nenhum dos 1 735 seguidores dela me acompanhava?
– Boa pergunta… Vou estudar o caso – respondeu.
Semanas depois, o professor me telefonou. Ele analisara o episódio com a ajuda de um aluno, o doutorando Gabriel Magno. “É complicado desvendar exatamente o que se passou.”, admitiu. “A gente não conhece todos os códigos que regem o funcionamento do Instagram, né? Mesmo assim, dá para levantar umas hipóteses.”
A mais provável: “Você e Andressa não possuíam seguidores em comum, mas seguiam 46 contas idênticas. A do petista Fernando Haddad, por exemplo. Ou a do projeto Quebrando o Tabu. Suponha que, um dia, você tenha aprovado com o ícone do coraçãozinho alguma postagem do Haddad, e a Andressa também. Suponha ainda que, noutra ocasião, você e a Andressa aplaudiram virtualmente uma publicação específica do Quebrando o Tabu. Pronto, o aplicativo já ficou de orelha em pé: ‘Opa! Eles são parecidos! Interagem com os mesmos posts! Vale a pena sugerir o perfil do cara para a Andressa.’”
Trocando em miúdos: o Instagram, ardiloso, tramou toda a “coincidência”. “Pode-se dizer que sim”, concordou o professor. “Não há acaso nem destino quando as redes sociais entram na jogada.”

(revista piauí)
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