Podemos nos enganar por toda a vida?

“Piano, contrabaixo, sax-tenor e bateria, o quarteto se orgulhava de sua versatilidade. Tocavam de tudo, em qualquer estilo solicitado, e, a julgar pela satisfação estampada em seus olhos, não faziam ideia da própria mediocridade. Em três integrantes do quarteto, a falta de discernimento era desculpável, por inexperiência, amadorismo, ou ambos, mas era mais difícil de ser perdoada no líder, o baterista. Troncudo, de aspecto rude, o maxilar azulado, quase quarentão, era profissional havia 20 anos, sem jamais ter aprendido o ofício. Despertado e nutrido artisticamente pelas primeiras gravações e pelos filmes de Gene Krupa, ele passara as últimas horas felizes da juventude em transe, imitando e adorando o herói _ primeiramente, batendo em guias telefônicos e panelas emborcadas, depois usando uma bateria de verdade, em meio ao cheiro de suor e brilhantina do ginásio da escola secundária_, até que, numa noite de junho, no ano da sua formatura, o restante da banda parou de tocar, as centenas de casais pararam de dançar, e Steve Kovick sentiu o peso do êxtase da plateia enquanto ele sacudia a cabeça de um lado para o outro, durante um solo de três minutos. Mas a batida esplêndida dos pratos com a qual concluía a performance marcou o ápice e o fracasso do seu talento. Nunca mais tocaria tão bem assim, nunca mais conquistaria tamanha admiração, e nunca mais deixaria de se agarrar à convicção de que era muito bom e que melhorava a cada dia.”

Trecho de Foi Apenas um Sonho, romance de Richard Yates

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