O artesanal é necessariamente incompatível com o industrial?

“Por que os livros demoram ‘tanto’ a sair, perguntam os autores. Não definirei ‘tanto’. Quem faz livro sabe que o tempo corre em velocidade diferente para cada autor, para cada obra. Mas hoje, conversando com um par de autores, me veio a explicação mais satisfatória a que cheguei: há, no fazer do livro, duas partes que se completam. A primeira é o fazer industrial. Livro é mercadoria, feita na fábrica: é preciso pensar na matéria-prima, definir o fornecedor, negociar preço, imprimir, colar, transportar, vender, consignar, fazer nota fiscal. E há um processo que é, parcialmente, artesanal: refletir, definir, fazer, esquecer, relembrar, refazer. São tempos complementares. Mas é possível estressar o tempo artesanal para acelerar o processo industrial? Claro que é, só que há perdas: o livro ficará menos pensado, a letra será um padrão, o desenho da página mais óbvio, mais clichê. O desenhista (designer, diagramador, como quiserem) vai realizar as correções sem ter apagado de sua memória alguns de seus movimentos mais recentes e, portanto, estará menos apto a ver o trabalho que fez com algum distanciamento crítico. Se outro designer (diagramador, desenhista) for fazer esse trabalho, não terá o tempo necessário para penetrar nas ideias do colega. A gráfica vai imprimir não na velocidade de cruzeiro. Fará o caminho mais curto, não o mais seguro.
Essa é uma defesa do artesanal contra a industrialização? Não, é a defesa do respeito a essas duas partes do processo. Do cuidado com o detalhe e das necessidades industriais.”

De Haroldo Ceravolo Sereza, um dos sócios da Alameda Editorial 
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