Mais dia, menos dia, todo casamento vira um calvário?

“No momento em que a liberdade amorosa – o desejo de ter uniões movidas pelo prazer, de casar-se com a pessoa amada e não com alguém imposto -, exerce seu poder de sedução sobre boa parte das sociedades tradicionais, como a dos países muçulmanos ou da Índia e da China (…), e, entre nós, gays e lésbicas querem obter direito ao casamento, este passa por uma crise de legitimidade no Ocidente. Na forma clássica, ele vem sendo acusado de todos os males: desigualdade, despotismo, redução da mulher à condição de propriedade. Além disso, vem trazendo a reboque o adultério e a prostituição. Poucas instituições provocaram tanto sarcasmo e raiva. Na forma contemporânea de consentimento que triunfou no pós-guerra, o casamento criou outros flagelos, sem se livrar dos antigos: nem o prazer pago nem a infidelidade desapareceram e acrescentou-se, ainda, a explosão do número de divórcios e o crescimento do celibato.
A história do casamento clássico era feita de resignação ou de repulsa à reclusão conjugal. Sua história atual, pelo menos na Europa, é a de desinteresse. Ao longo do tempo, o casamento teve múltiplos adversários, até que se tornou ele próprio o seu pior inimigo. Preocupado com a harmonia, o século 20 emancipara os corações e os corpos, mas o resultado disso foi o crescimento da discórdia.
O que aconteceu? Será que o castelo encantado do afeto recíproco não passava de um barracão tosco e exposto às intempéries? Como, então, o amor, tradicionalmente insubmisso à lei, pode nela se articular, uma vez que a transgressão é a sua característica natural?”

Trecho de Fracassou o Casamento por Amor?, livro do filósofo francês Pascal Bruckner      
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