Infeliz no amor?

É porque você ainda não conhece Myrna. Com ares de Nelson Rodrigues, a conselheira sentimental sabe perfeitamente como recauchutar os corações despedaçados

Não sou do tipo que cultiva ilusões. Pelo contrário: gosto de manter os pés sempre no chão – de preferência, muito bem adornados por sapatos vermelhos de salto alto. Houve uma época em que pensava maravilhas do amor, mas hoje reservo para o assunto um punhado de reticências. Quando tinha meus 17 anos, olhava no espelho e dizia: “Menina, você merece o melhor!”. Sonhava com o paraíso terrestre e o associava à relação conjugal. Jurava que, se achasse o rapaz adequado, ganharia o Éden por tabela. Quanta bobagem, meu Deus! Mal me apaixonei pela primeira vez, amarguei a mais estranha das constatações: não existe a menor ligação entre felicidade e amor. Ainda que você encontre a outra metade da laranja – tarefa complicadíssima –, não desfrutará de alegria. Esqueça os contos de fada, carinho. Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo. Se o destino nos dá a graça inefável do amor, nos subtrai de imediato o sossego.
“Metade da laranja? Como assim?”, protestará o leitor menos tolerante. “Ela acabou de alardear que não nutre ilusões e aparece agora com uma conversa dessas? Ninguém completa ninguém!” Carinho, carinho, por que tanta acidez? Mencionar a outra metade da laranja é simplesmente admitir que, no princípio, o homem e a mulher constituíam uma única criatura. Não se trata de ilusão, mas de um fato, que qualquer pessoa com o mínimo de estrada intui e que os cientistas um dia provarão. No início do universo, cada indivíduo se bastava, porque trazia em si o masculino e o feminino. Cada criatura significava um casal. Só que, num determinado momento, ocorreu uma catástrofe e a parte masculina se separou da feminina. Homens e mulheres arrastam, desde então, a sina de perambular pelo mundo à caça do quinhão que lhes falta. Entre bilhões de metades dispersas, porém, é bastante difícil descobrir a nossa. Estará onde? Na Flórida? No Rajastão? No Pampa argentino? No Tibete? Ou no Largo do Machado? Eu não recebi a bênção de fisgar a minha. Provavelmente, você também não. Fazer o quê? Seguir buscando! Vasculhar sem trégua, por todo canto, inclusive no meio dos esquimós.
Agora, caso a fortuna lhe conceda o bilhete premiado, jamais se porte como a Luciana, de Paranaguá, que certa vez me mandou uma carta estapafúrdia: “Sou doida pelo meu noivo. Pena que o coitado ganhe pouco. Não quero me casar em tais circunstâncias. Prefiro esperar”. Prefere esperar? Desculpe, mas mulheres que amam verdadeiramente não alimentam um raciocínio tão sensato. À pragmática Luciana, faltava o ímpeto, o frêmito, a dedicação das enamoradas perfeitas. De que lhe servia tamanha objetividade? Posso apostar que, na ânsia de controlar tudo, a tola missivista se debruçou sobre orçamentos intrincadíssimos. Já antevira quanto iria gastar com a escola dos filhos que nem sequer gerara e a conta mensal do açougue que ainda não frequentava. Triste alma calculista! Luciana ignorava o óbvio: romances com r maiúsculo, até os de subúrbio, devem conter o sacrifício, a grandeza, o heroísmo de uma boa ópera. “L’amour est un oiseau rebelle/ Que nul ne peut apprivoiser.” Viva sem drama e morra de tédio, carinho. “Eu não suportaria uma lua de mel com fome”, segredou-me a desorientada moça, que terminou a correspondência qualificando o noivo de “bonzinho”. Erro duplo, meu anjo! Não existe a hipótese de se passar fome numa autêntica lua de mel. Paixões genuínas sustentam mais do que mil banquetes. E “bonzinho” é o padre, o professor, o irmão, o funcionário da drogaria – não o namorado, noivo ou marido. Adjetivos mal-empregados destroem qualquer relacionamento. Em vez de “bonzinho”, use “formidável”, “único”, “fabuloso”, “deslumbrante”. Do contrário, melhor se refugiar no silêncio dos precavidos.

Fardos
Quem me escuta falar assim pode ter a impressão de que enalteço os homens e exijo das mulheres sacrifícios desmedidos. Será? Talvez… De toda maneira, me sinto na obrigação de registrar que só assumo uma postura dessas por culpa da natureza. Não, carinho, não estou fugindo de minhas responsabilidades. Imagine! Apenas pretendo deixar claro que as injustiças contra as mulheres derivam da própria condição feminina, não de mim. Eu somente me curvo às evidências. No instante em que criou a primeira mãe, a natureza depositou sobre os ombros das mulheres os piores fardos. A paternidade, salvo exceções, representa para os homens um mero episódio, sem grandes repercussões. Há aqueles que chegam, inclusive, à desfaçatez de questionar a origem do filho: “Como saberei se sou o pai legítimo?”. Já as mulheres nunca duvidaram nem duvidarão da maternidade. A natureza não permite. Mesmo que uma gestante resolva ocultar da sociedade a gravidez, não conseguirá escondê-la de si e ouvirá os inquietantes ecos – psíquicos, afetivos, físicos – que decorrem de uma experiência tão radical. Por lhes imputar um ônus maior, o amor sempre coloca as mulheres na posição de vítimas.
Lógico que ninguém precisa dar crédito às minhas palavras. Em cada cabeça, uma sentença, bem alertavam os antigos. Esteja ciente, no entanto, de que meus conselhos resultam não só do empirismo (o cupido já me fez sofrer um bocado) como de estudos seriíssimos, que iniciei há décadas. Entre março e outubro de 1949, escrevi uma coluna no Diário da Noite, jornal carioca de sucesso, que alcançava tiragens de 200 mil exemplares. Ali respondia indagações de leitores – principalmente leitoras – sobre as mazelas e delícias do amor. Lembro-me de que o jornal lançou a coluna com tremendo estardalhaço. “Myrna é asiática? Myrna é europeia? Myrna é americana? Loura, morena, baixa, alta ou magra?”, atiçava a campanha publicitária que incendiou a cidade. De fato, me chamo Myrna e adoro o y que me acompanha desde o batismo. Mas não sou estrangeira. Nasci no Rio de Janeiro mesmo e, em 1949, tampouco ousaria me classificar de loira ou morena. Como beirava os 50 anos, exibia uma elegante cabeleira grisalha. Qual a minha idade hoje? Por favor, carinho… Que falta de tino se preocupar com uma pergunta tão desnecessária. Os calendários não têm importância nenhuma onde me encontro agora – nem para mim, nem para o Brás Cubas, um conterrâneo querido, que está logo aqui do meu lado.
Assim que comecei no Diário da Noite, muitos me atacaram com uma terrível calúnia. Infelizmente, o bombardeio se repetiu mal publiquei meu único folhetim, A Mulher que Amou Demais, também em 1949. “Myrna não escreve coisa nenhuma”, vociferavam. “O verdadeiro autor dos textos é o pai dela, Nelson Rodrigues.” Nunca neguei minha ascendência. Sou realmente filha de mãe desconhecida e pai conhecidíssimo. Ele, que já brilhava como dramaturgo quando debutei nas letras, sem dúvida me influenciou. Mas daí a espalharem que não passo de um mero pseudônimo do magnífico Nelson… Francamente. 
Intrigas à parte, confesso que me envaideci sobremaneira tão logo soube de duas notícias recentes. Primeiro, a de que reeditaram um livro com 44 de minhas colunas. Depois, a de que o ator Nilton Bicudo está me interpretando numa peça. Ou melhor, num inusitado monólogo, em que respondo questões de ouvintes, não de leitores. Tornei-me radialista, veja que engraçado. O espetáculo estreou em maio e já passou por alguns teatros paulistanos. A crítica vem elogiando o desempenho do Nilton. Na Folha de S.Paulo, o professor Luiz Fernando Ramos chegou a avaliar o trabalho do moço como “primoroso”, “expressivo”, “intenso” e “sem excesso de caricatura”. Uau! Parece que, para compor o look da Myrna fictícia (não é assim que se diz hoje: look?), o protagonista se baseou numa tia solteirona, a Neyde. Curiosa a coincidência do y, não? Pensei em ver a montagem, mas desisti. Temo assustar o pobre do Nilton. Imagine euzinha adentrando o teatro, serelepe e pálida como os fantasmas. Pra quê? Ator já leva uma vida tão difícil… 

 A peça
Myrna Sou Eu, de Nelson Rodrigues. Direção de Elias Andreato. Com Nilton Bicudo. Teatro Eva Herz (av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional, São Paulo, SP, 0++/11/3170-4059).  6ª e sáb., 21h; dom., 19h. R$ 40. A partir de 9/8.

O livro
Não se Pode Amar e Ser Feliz ao Mesmo Tempo, de Nelson Rodrigues (sob o pseudônimo de Myrna). Nova Fronteira, 134 págs., R$ 34,90.

 
Texto complementar

Segura na mão de Myrna e vai
Três atores que já interpretaram personagens de Nelson Rodrigues fazem perguntas para a colunista 

“Um russo, amigo meu, caiu de amores por um rapaz brasileiro, que também se apaixonou. Eles querem se casar no Brasil. Acontece que, como é evangélica, a família do brasileiro rejeita a união. Os dois cogitaram se mudar para a Rússia, mas estão temerosos porque aquele país costuma multar ou prender os gays e não reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O que os pombinhos devem fazer: enfrentar os evangélicos e os russos homofóbicos ou trancar-se no armário e juntar os trapos sem alarde?”
Renato Borghi

“Guida, uma conhecida minha, resolveu ajudar a irmã, Lígia, que se encontrava à beira do suicídio por manter a virgindade mesmo depois de casada. ‘Não se preocupe, maninha. Deixo você passar uma noite com meu marido.’ Agora, Guida se sente muito infeliz. Morre de ciúmes tanto do marido quanto de Lígia, apesar de ambos jurarem que só transaram uma vez. Não bastasse, as irmãs e os cunhados moram juntos num apê em Copacabana. Você acha que o casamento de Guida ainda tem salvação?”
Débora Falabella 

“Continuo perdidamente apaixonada pelo meu marido. É normal?”
Lilica da Taquara, por intermédio de Luis Melo

 (revista Bravo!)

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1 Comentário para “Infeliz no amor?”

  1. Marco Griesi disse:

    Myrna é sensacional.
    O programa deveria ser diário dentro de uma rádio. =)

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