Liza Eu e Tu

Foto João Wainer

A atriz Maíra Dvorek com a máscara de Liza Eu e Tu

Híbrido de homem e mulher, o personagem do espetáculo Olerê! Olará! incorpora na atriz Maíra Dvorek e se desentende com o editor de BRAVO!

Eles levaram o romantismo às últimas consequências e se uniram num só corpo, em que a mulher ocupa a metade esquerda e o homem, a direita.

BRAVO!: Como vocês se chamavam antes de se juntarem?
Ele: Desculpe, mas não podemos responder. Segredo de casal…
Ela: É que o antes deixou de contar para nós.
Ele: Exato. Decidimos apagar o passado, já que nossa existência se fez plena somente depois de nos ligarmos. Agora somos apenas Liza Eu e Tu.

Por que Liza e não um nome masculino?
Ele:
Ora, porque as mulheres sempre têm preferência. O senhor nunca ouviu falar de cavalheirismo?
Ela: Ele não é mesmo um gentleman?

Quando vocês se conheceram?
Ele: Há três primaveras. Eu frequentava festas de casamento, sabe? Ali as moças solitárias se mostram mais vulneráveis…
Ela: Até me fisgar ele se portava como um sedutor irresponsável. Um dom Juan, imagine!
Ele: De fato. Era um autêntico heartbreaker. E não me incomodava de agir assim. Mas as coisas mudaram da água para o vinho mal a avistei em uma daquelas festas.
Ela: Eu estava distraída, muito distraída. Perto da meia-noite, saquei da bolsa minha cigarrilha francesa e…
Ele: …prontamente acendi meu Zippo prateado.
Ela: Um isqueiro robusto que, numa fração de segundos, se colocou à minha frente, com uma labareda irrecusável.
Ele: E olhe que nem fumo! Carregava o Zippo no paletó justamente para emergências do gênero.
Ela: Costumo dizer que nos completamos desde o primeiro instante. Eu com a cigarrilha francesa, ele com o Zippo prateado.

Vocês buscavam a alma gêmea ou tudo se deu por acaso?
Ele: Não buscava conscientemente. Só compreendi que a procurava quando a encontrei.
Ela: Também não creio que buscasse. Estava distraída demais para pensar nisso. Gosto de acreditar que o acaso nos apadrinhou.
Ele: O acaso é o pai da felicidade, meu caro. E a expectativa, a mãe da decepção.

O que o atraiu nela?
Ele: A distração, sem dúvida. Adoro mulheres distraídas. Uma dama distraída é uma dama desprotegida.

E o que a atraiu nele?
Ela:
A elegância, a masculinidade germânica e principalmente o ar protetor.

Em que momento vocês se fundiram?
Ela:
Foi quando nos abraçamos, ainda naquela deliciosa festa de casamento.
Ele: Um único abraço, enquanto os músicos tocavam uma valsa…
Ela: …e não nos separamos mais. Como nos folhetins.

Vocês têm saudade da época em que eram inteiros?
Ele: Que pergunta estranha… Nós somos inteiros, senhor!
Ela: Um inteiro que se compõe de duas metades. Não parece óbvio?

Vou indagar de outra maneira: depois que vocês se aglutinaram, o que ocorreu com os desejos de cada um? Sumiram? Modificaram-se?
Ele:
Não sumiram de jeito nenhum. Ela, inclusive, se esforça bastante para realizar os meus desejos.

Quais?
Ele: Francamente! Pedir que um cavalheiro desnude intimidades de alcova em público…

Não me refiro a desejos sexuais.
Ele: Ah, perdão. Na verdade, jamais examinei o assunto em detalhes. Permita-me consultá-la: querida, você acha que possuímos desejos individuais?
Ela: Não sei… O meu olhar já se confundiu tanto com o seu…
Ele: O que existem são diferenças de comportamento.
Ela: Sim, algumas.

Por exemplo?
Ela:
Eu fumo, como mencionei no início da conversa.
Ele: Eu abomino cigarro.

E de que modo resolvem o impasse?
Ela: Tento fumar longe dele.

Impossível, não?
Ela: Nada é impossível para o amor.
Ele: Bingo! A danadinha sempre tira a frase da cartola quando se vê em apuros.
Ela: Eu também aprecio um bom drinque.
Ele: Eu bebo pouco. Mas não me importo de, às vezes, surpreendê-la alegrinha. Admiro o senso de humor dela sob a inspiração do álcool.
Ela: Em contrapartida, dormimos e acordamos no mesmíssimo horário.
Ele: É incrível! Todas as manhãs, tão logo me espreguiço, lhe pergunto: “Acordou?”. E ela: “Acabei de despertar”.

Caso vocês se separem…
Ela: Por favor, nem continue! Não suporto a ideia de nos separarmos. Se uma tragédia dessas acontecer, vou tomar litros de champanhe de quinta. Litros!
Ele: Os profissionais da imprensa deveria poupar os leitores de ilações sensacionalistas…
Ela: Mas por que o senhor levantou a hipótese? Ele lhe confidenciou algo? O canalha planeja me abandonar?!?
Ele: Alto lá! Vamos encerrar imediatamente a entrevista! O senhor não percebe que está magoando minha esposa?

Deixe-me apenas finalizar… Qual a maior vantagem de dividir o mesmo corpo?
Ele e ela:
Nunca ficar só.

E a maior desvantagem?
Ele e ela: Nunca ficar só.

Onde encontrar Liza Eu e Tu
No espetáculo Olerê! Olará!, escrito e dirigido por Dionisio Neto. Com Maíra Dvorek, Giovanna Velasco, Jeyne Stakflett, Mayana Neiva, Sabrina Orthmann e outros. Café-teatro O Inflamável (rua Maria Borba, 87, Consolação, São Paulo, tel. 0++/11/2533-8543). Até junho.

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1 Comentário para “Liza Eu e Tu”

  1. BabMixaccinia disse:

    o que eu estava procurando, obrigado

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