Joan Didion

Foto de João Wainer

A atriz Imara Reis com a máscara de Joan Didion

A personagem do monólogo O Ano do Pensamento Mágico incorpora na atriz Imara Reis e afirma: “Acreditei que, mesmo morto, meu marido voltaria”. A peça se baseia num caso verídico

Talvez não pareça, mas a história que Joan Didion protagonizou é real. Escritora de sucesso, perdeu o marido, John, em dezembro de 2003. Ele tinha 71 anos e sofreu um infarto poucas horas depois de visitar Quintana, filha única do casal. A jovem se encontrava em coma num hospital de Nova York. Pegara uma pneumonia, que desencadeou um choque séptico e outros distúrbios. Em 2005, devido às complicações, a moça também morreu.

BRAVO!: Por que duas tragédias recaíram sobre você num período tão curto? Já se perguntou?
Joan Didion:
Claro que me perguntei, mas não como quem se julga alvo de uma maldição. Desde o início do vendaval, tentei fugir de ilações que me vitimassem ainda mais. Evitei disciplinadamente questões do tipo: “Por que comigo?”. Sempre considerei que, naquelas circunstâncias, a indagação deveria ser oposta: “Por que não comigo?”. Se estamos vivos, qualquer coisa pode nos acontecer. Participamos de um jogo intrincado em que o acaso pesa muitíssimo. Acreditar que um deus onipotente se voltou contra mim significaria me atribuir uma importância exagerada. Entre bilhões de humanos, os céus escolheriam justamente a pobre da Joan para castigar? Há uma inegável megalomania em pensamentos assim. O que me pergunto, na verdade, é se a primeira tragédia motivou a segunda. Ou melhor: se existe relação entre a via-crúcis de Quintana e a morte de John. Por herança genética, meu marido possuía um coração frágil _tanto que enfrentou uma cirurgia cardíaca em 1987 e outra em 2003. Será que o calvário de Quintana não o colocou num nível de estresse perigoso? Será que não exigiu demais do coração dele? Lembro que, após visitá-la pela última vez, John comentou no táxi: “Temo não aguentar tudo isso”. Eu, absorta e exausta, limitei-me a responder: “Não lhe resta escolha”. Não restava de fato? Caso rejeitasse a minha indiferença e teimasse em desabafar, John conseguiria aliviar a tensão e impedir o ataque fatal? Difícil responder.

Sente culpa?
Não, não sinto. Faço tais conjecturas somente pelo desejo inescapável de achar um mínimo de nexo para episódios que ainda me soam estapafúrdios. O problema é que a vida não tem compromisso com a verossimilhança. Apenas os escritores têm.

O povo gosta de apregoar que “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”. Em nenhum momento, você imaginou que estaria livre de outros infortúnios enquanto Quintana permanecesse hospitalizada?
Creio que não. Mas cogitava algo similar. Sempre que chegava em casa à noite, independentemente da temperatura, acendia a lareira. Era um ritual que me dava a ideia de segurança, como se o fogo espantasse os predadores, os inimigos. Dizia para os meus botões que nada de mau ocorreria dentro daquele apartamento depois que as chamas ganhassem corpo. No entanto, John morreu bem próximo à lareira acesa…

Uma morte que, por muito tempo, não lhe pareceu concreta.
Exato, e provavelmente em razão de John ter sofrido o ataque derradeiro num espaço tão acolhedor. As peças não se encaixavam, compreende? Se nosso apartamento dispunha de uma “zona protegida”, o homem com quem me relacionei ao longo de quatro décadas não iria morrer ali. É lógico que o levantei do chão na hora do infarto, é lógico que o vi inconsciente, é lógico que chamei a ambulância e que escutei dos médicos a palavra “óbito”, é lógico que cuidei do funeral. Quem me observasse afirmaria se tratar de uma viúva zelosa e resignada. Entretanto, secretamente, a mulher exemplar nutria a estranha convicção de que presenciava um julgamento. O réu acabara de ouvir a sentença de morte. O magistrado e os integrantes do júri davam o processo por concluído. Mas o advogado de defesa ainda poderia recorrer. Ele descobriria falhas nas provas e anularia o veredicto.

Você não percebia o nonsense do raciocínio?
Sou, em geral, uma pessoa bastante cartesiana e nunca alimentei crenças religiosas profundas. Mesmo assim, naqueles meses, confiei fervorosamente que John ressurgiria. Não comentava nada com a família ou os amigos. Continuava trajando em público a armadura da lucidez. Meus delírios, porém, garantiam que, se me comportasse de determinados jeitos, apressaria o retorno de John. Enxergava-me como uma espécie de feiticeira, capaz de alterar a ordem natural das coisas. Um exemplo: procurava não receber visitas em nosso apartamento por acreditar que John queria me reencontrar a sós. Outro: quando doei os pertences dele, tomei o cuidado de manter os sapatos. “John precisará de um bom par logo que reaparecer”, sussurrava. Passei quase um ano mergulhada em fantasias dessa natureza.

Como os devaneios cessaram?
De repente, e antes de Quintana morrer. Eu viajava num jatinho. Às tantas, o avião pousou para reabastecer perto de um milharal. Resolvi desembarcar. Caminhando pela pista e olhando a imensa plantação, notei que algo mudara em mim. “É tudo inútil, Joan. Ele não voltará…” Deixei, então, o absurdo dos meus pensamentos e fiquei apenas com o absurdo da realidade.

ONDE ENCONTRAR JOAN
Na peça O Ano do Pensamento Mágico, inspirada em livro da escritora americana Joan Didion. Direção: Caio de Andrade. Com Imara Reis. Teatro Sérgio Cardoso (rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3288-0136). De 13/11 a 20/12.

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