Íris da Silva

Foto João Wainer
 
Mariana Lima com a máscara de Íris

A personagem da peça A Máquina de Abraçar incorpora na atriz Mariana Lima e pergunta se o amor chove 

 Jovem, vivaz e inteligente, Íris da Silva é autista. Na infância, já exibia as características danosas do transtorno que dificulta severamente a integração social de quem o manifesta. Ela atravessava longos períodos imóvel e em absoluto silêncio, com o olhar disperso. Depois, agitava mecanicamente as mãos, gritava, tremia ou rodava em volta de si. Não demonstrava afeto por ninguém, repelia os contatos físicos e não pronunciava nenhuma palavra. Mais tarde, no entanto, abandonou em parte os comportamentos inusitados e se tornou capaz de dialogar. Também revelou aptidões espantosas, como o talento para a botânica. Recentemente, escreveu e lançou o livro A Vida Afetiva das Plantas — um ensaio de 90 páginas em que discorre sobre “a memória ancestral das samambaias”, “a astúcia da árvore caída”, “os soluços entrecortados do jasmim”. O trabalho logo despertou a curiosidade dos leitores e hoje se encontra na 11ª edição.

BRAVO!: Por que você se interessa pelo mundo vegetal?
Íris da Silva:
Por causa da paciência, da calma que impera naquele universo. Pinheiros, avencas, cravos, gérberas… As plantas chegaram à Terra há muito tempo. Milhões de anos. Elas escolheram a quietude. Acácias, mangueiras, orquídeas… Ipês, begônias, margaridas… Todas se contentam com o sossego, a imobilidade, a paz. Enquanto nós… Mexer, buscar, perseguir, atacar, devorar. Nós… Caçadores e presas. Dia e noite. Tensos. Nós quisemos a ansiedade. Correr, pegar, mastigar. As plantas desejaram apenas a mansidão. Eu sei. Eu as conheço. Entendo o que lhes acontece. Eu já estive lá. Com as plantas, como as plantas. Sem confusão, sem terror. Não buscar, não perseguir, não atacar. Eu podia continuar por ali indefinidamente.  Podia, mas… O clamor de fora, o alvoroço, as cores… Me chamando… Me chamando… Minha existência inteira é uma demorada viagem da luz à escuridão. Não, não… Da escuridão à luz. De uma escuridão luminosa, tranquila, monástica, à claridade débil, frenética, compartilhada.

Você tem saudades de quando se parecia com as plantas?
Você tem saudades de quando se parecia com as plantas? Tem? Saudades? Daquela época? Sim. Saudades. Antes: janeiro, fevereiro, março. Agora: julho, agosto, setembro.

Desculpe, não compreendi.
Antes, quente. Agora, frio. Janeiro, fevereiro, março… Verão. Quente. Julho, agosto, setembro… Inverno. Frio. Eu, quando habitava o reino das plantas, saboreava um verão infinito. Quente. Agora, no reino dos animais, o inverno me castiga. Frio.

É frio porque você sente falta de amigos?
É… Falta de amigos… Sente… Cinquenta e um. Quinto. Moro no apartamento 51. Quinto andar. Sozinha. Não há amigos, nem cachorro, nem gato, nem namorado. Solitária. Vazia. No 51, quinto. Penso muito, muito mesmo. E falo demais às vezes. Coisas que as pessoas se cansam de ouvir. Falo, falo, falo. Sobre fotossíntese, cloroplastos, trifosfato de adenosina. Ou sobre as cidades da Turquia, as marcas de celulares. Outras vezes, fecho a boca. Zíper. Passo seis, sete, oito horas sem dizer nada. Nove, dez, onze. Sem dizer nada. Doze, treze. As pessoas também se cansam de quem permanece mudo. Catorze, quinze, dezesseis. Por isso, a solidão. A minha solidão.

Você gostaria de arranjar um namorado?
Gostaria, gostaria…  Ue airidolpxe ed edadicilef.

Ah, me avisaram que você constroi frases usando as palavras na ordem inversa.
Construo. Desenvolvi a linguagem com minha terapeuta. Não me pergunte a razão. Nem sempre existem razões, motivos, fundamentos, justificativas. Oiedo racilpxe o euq é levácilpxeni. (Interrompe o discurso abruptamente e, mirando um ponto fixo, enrijece o corpo. Mantém o braço direito esticado, como se pretendesse alcançar algo numa prateleira alta. Depois de três minutos, relaxa.) Namorado… Gostaria, gostaria… Para passear, jantar, almoçar, tomar café. Beijar, não. Abraçar, não. Dói. Incomoda. Prefiro que não encostem em mim. Que não me afoguem, asfixiem, prendam, sufoquem. Se necessito de abraços, recorro à máquina que meu tio Júlio inventou.

A tal máquina de abraçar?
Sim, a tal máquina de abraçar. A tal… Istambul, Nokia… A tal… Esmirna, LG, Ancara, Samsung… Máquina… De abraçar… Entro nela e aperto os botões. Quatro pressões leves do equipamento em meus ombros, quatro distensões. Quatro, quatro. Pressões e distensões. Um abraço mecânico, isento de riscos.  

Você já amou?
Amar? Não. Amar, não. Uma vez me descreveram o amor. Coração pulsante, coração selvagem, coração aflito. Deve ser assombroso o amor. Bom? Ruim? Quente? Frio? Assombroso… Também me contaram que, em certos momentos, o amor faz chorar. Uma chuvinha fina…

Ou grossa. Depende…
Depende. De qualquer modo, o amor chove. Foi o que me contaram. Não chove?

ONDE ENCONTRAR ÍRIS DA SILVA
Na peça A Máquina de Abraçar, do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra. Direção: Malu Galli. Com Marina Vianna. Sesc Pompeia (rua Clélia, 93, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3871-7700). Até 6/6.

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1 Comentário para “Íris da Silva”

  1. Armando Antenore,
    Quando li essa entrevista na BRAVO! me emocionei. Aliás, tenho certeza que todos os leitores se surpreenderam, se divertiram, aprenderam e, sobretudo, se emocionaram ao ter a chance de enxergar a vida através dos olhos da jovem Íris e sentir o mundo através da sua alma, pura e encantadora. Falo por mim, que tive em meus olhos uma “chuvinha fina”.
    É assustador pensar o universo em que nós, seres humanos vivemos, como uma bolha resplandescente que cega, que oprime. É o susto que precisamos para acordar à escuridão tranquilamente luminosa de tudo aquilo que nos cerca, oprimidos pelo nosso fulgor.

    A propósito, o senhor saberia me informar se o livro, “A Vida Afetiva das Plantas”, por acaso se esgotou? A entrevista despertou uma curiosidade incrível em conhecê-lo, mas eu não consigo achá-lo em livrarias.

    Desde já, muito obrigado
    e mais uma vez, PARABÉNS pela entrevista.

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