Delegado Espinosa

Foto João Wainer

Luiz Alfredo Garcia-Roza com a máscara de Espinosa.
O personagem foi desenhado por Claudius, fã do delegado

O protagonista do romance Céu de Origamis incorpora em Luiz Alfredo Garcia-Roza, autor do livro, e afirma: “O crime compensa, sim”

Inteligente, discreto e workaholic, o delegado Espinosa comanda um dos distritos policiais mais agitados do Rio de Janeiro, o 12º, em Copacabana. Mora perto dali, sozinho, num prédio antigo do Bairro Peixoto, e frequenta alguns restaurantes das imediações, onde saboreia pratos italianos ou árabes e bebe vinho tinto. Tem um único filho e uma namorada, Irene. Recentemente, andou às voltas com o sumiço de um dentista que traficava remédios. Como de hábito, solucionou o enigma.

BRAVO!: Por que você entrou na polícia? Vocação ou acaso?
Delegado Espinosa: Completei 52 anos e estou na profissão desde os 25. É tempo à beça, mas não ouso dizer que uma vocação irresistível me levou à carreira. Enquanto terminava o curso de direito, me apaixonei perdidamente por uma colega de faculdade. Queria muito casar, só que me faltava dinheiro. Estagiava num escritório de advocacia e não ganhava absolutamente nada. Surgiu, então, a possibilidade de prestar um concurso para a polícia civil. Contrariando a opinião de minha noiva, fiz as provas e passei. O casamento durou pouco _três anos. Já a união com a polícia…

Arrepende-se do rumo que tomou?
Não, não me arrependo. No entanto, sem aquela premência de me casar, é bastante provável que seguisse a trilha da advocacia.

Que atributos você considera indispensáveis para um policial?
Primeiro, saber usar a inteligência em vez da força física. Os inspetores e delegados precisam compreender que desempenham uma função essencialmente investigativa e não repressiva. A violência no exercício profissional costuma se revelar desnecessária e ineficaz. Em geral, bravatas e pancadaria não contribuem para a solução de um crime. Recorro às ações violentas somente quando sofro investidas agressivas de alguém. Outro atributo que qualquer policial deveria possuir é o de não se deixar corromper e o de estabelecer um rígido compromisso ético consigo próprio.

Você sempre levanta a bandeira do combate à corrupção na polícia. Tal postura me soa um tanto messiânica, quase arrogante. Sinto que você se põe acima dos colegas e se julga capaz de liderar uma espécie de cruzada higienizadora.
Nunca pretendi liderar cruzada nenhuma nem me julgo mais puro do que ninguém. Não sou herói. Sou apenas um tira, um funcionário público que busca agir com responsabilidade e honestidade. Frequentemente me perguntam por que optei pela retidão, mas pouquíssimas vezes indagam por que eles, os corruptos, abandonaram o comportamento íntegro. A corrupção é um aprendizado que, com o tempo, se incorpora como hábito. O sujeito acaba se transformando num dependente, num “corrupto adicto”. Daí a imensa dificuldade de extinguir o problema dentro das delegacias.

Você gostaria de viver num mundo sem policiais?
Depende. Numa comunidade idêntica ou similar à nossa, a polícia me parece imprescindível. Agora, em se tratando de um mundo ideal, prefiro concebê-lo sem polícia, embora pense que um mundo desses jamais existirá.

Se entendi corretamente, você acredita que o crime é intrínseco à natureza humana?
Exato. Não acredito numa sociedade livre de crimes assim como não acredito numa sociedade livre do mal (ou do mau). Creio somente em escolhas.

E na verdade, você acredita? Ou melhor: você acredita que, quando resolve um crime, descobre de fato o que o motivou?
Acredito em verdades, no plural. Um escritor americano que admiro, Edgar Allan Poe, dizia: “A essência de todo crime permanece irrevelada”. Concordo inteiramente. Um assassinato, por exemplo, é algo complexo demais para abarcar uma única explicação. Não basta reunir as provas e identificar quem matou. Procedimentos do gênero colocam um ponto final na investigação, mas não esclarecem as intenções profundas do criminoso.

Você lê romances policiais?
Sim, muito. Entretanto, nenhum detetive clássico da literatura me serve de modelo. Eles não dariam conta da realidade carioca… Também aprecio outros tipos de ficção, sobretudo as de língua inglesa. Adquiri o hábito da leitura na infância. Fiquei órfão com 10 anos e minha avó, tradutora, cuidou de mim. Por isso, os livros faziam parte de meu cotidiano. Virei um leitor assíduo, apesar de selvagem, anárquico, sem método.

Para desvendar um crime, você normalmente se entrega à imaginação. Projeta cenários, personagens, circunstâncias. A atividade de um policial se assemelha à de um ficcionista?
O meu jeito de trabalhar certamente se assemelha. Tenho a impressão de que minha cabeça trava uma luta contínua entre a razão e a imaginação, com franco predomínio da segunda.

O ditado popular afirma que “o crime não compensa”. Você assina embaixo?
(Risos) Não… É lógico que o crime compensa! Alguma satisfação, ainda que momentânea, o delito sempre traz para o infrator _satisfação financeira, política ou mesmo sexual.

ONDE ENCONTRAR ESPINOSA
No romance Céu de Origamis, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, lançado pela Companhia das Letras. O personagem também está em mais sete livros do autor, como Perseguido

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