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	<title>Armando Antenore Jornalismo &#187; Perfis</title>
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	<description>Blog das Perguntas e portflólio do jornalista Armando Antenore</description>
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		<title>John Lennon da Silva</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Apr 2011 21:03:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O jovem goiano faz sucesso na internet e na TV com um solo que une o balé clássico à dança de rua A cena se encaixaria perfeitamente num filme de Hollywood, daqueles sobre esforço pessoal, superação e blablablá. O rapaz pobre, alto e magrelo decide encarar um concurso televisivo que apontará o bailarino mais hábil [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O jovem goiano faz sucesso na internet e na TV com um solo que une o balé clássico à dança de rua</strong></p>
<p><span id="more-4824"></span><strong></strong></p>
<p>A cena se encaixaria perfeitamente num filme de Hollywood, daqueles sobre esforço pessoal, superação e blablablá. O rapaz pobre, alto e magrelo decide encarar um concurso televisivo que apontará o bailarino mais hábil do país e o premiará com uma bela quantia em dinheiro. Minutos antes de iniciar a coreografia que preparou para as eliminatórias, baseada num solo refinadíssimo do cardápio erudito, o jovem amarga a descrença de um dos três jurados. “Você vai se exibir dessa maneira?”, pergunta a moça sensual e atrevida, referindo-se às roupas informais do concorrente: tênis de skatista, calça largona, camiseta estampada. O garoto, um tanto ressabiado, diz que vai, claro. E a moça: “Espero que você se saia bem, porque o figurino&#8230;” Ele ocupa, então, o centro do palco e se entrega à música delicada. Mal encerra a apresentação, vê que a moça está boquiaberta e que outro jurado o aplaude de pé. O terceiro, justamente o que cultiva a fama de carrasco, não disfarça as lágrimas.<br />
Ainda que digno de um melodrama, o episódio aconteceu de fato. John Lennon da Silva – o rapaz em questão, filho de uma beatleamaníaca nada enrustida – resolveu participar do programa <em>Se Ela Dança, Eu Danço</em>, que o SBT transmite às quartas-feiras. Natural de Goiânia, mora num bairro operário da zona leste paulistana, onde divide uma casa simples, de apenas três cômodos, com cinco parentes. Tem 21 anos, 1,78 m de altura e 52 kg. Desde novembro, trabalha de ourives, mas já se defendeu como garçom e pizzaiolo. “Sempre ganhei muito pouco”, lamenta. Nas horas vagas, integra o Amazing Break, grupo amador especializado em <em>street dance</em> (ou dança de rua). Não por acaso, arregalou os olhos quando tomou conhecimento do prêmio que a emissora reserva para o campeão da disputa: R$ 200 mil.<br />
Na primeira fase do programa, mostrou um número ousado. Interpretou de modo sui generis <em>O Cisne</em>, 13º andamento de <em>O Carnaval dos Animais</em>, peça escrita pelo compositor francês Camille Saint-Saëns em 1886. No começo do século 20, o russo Mikhail Fokine coreografou o trecho e sugeriu à conterrânea Anna Pavlova que o dançasse. A mitológica bailarina abraçou a tarefa brilhantemente. Executou o solo inteiro na ponta dos pés. Sem nenhuma formação clássica, John releu a obra sob o viés do <em>popping</em> – estilo da <em>street dance</em> caracterizado por movimentos que ora lembram os de um robô, ora o das ondas. Chegou, assim, às semifinais da competição, previstas para este mês. De quebra, assombrou o júri.<br />
Fã ardoroso do poeta português Fernando Pessoa, o garoto também gosta de Beethoven e Chopin. “Descobri os dois ouvindo rádio.” No entanto, até 2010, desconhecia Saint-Saëns. Foi o coreógrafo Luis Ferron, vencedor do Prêmio Bravo! Bradesco Prime de Cultura com o espetáculo <em>Sapatos Brancos</em>, quem lhe falou do autor parisiense e de Anna Pavlova. À época, os cinco rapazes do Amazing Break frequentavam uma oficina de composição cênica oferecida pela prefeitura de São Paulo. Por notar semelhanças entre o <em>popping</em> e o gestual de Pavlova em <em>O Cisne</em>, Ferron – um dos coordenadores do projeto educativo – propôs que John recriasse o célebre solo. A experiência incomum, registrada num vídeo de quatro minutos, alcançou o YouTube e logo se disseminou. Acabou chamando a atenção do SBT, que convidou o jovem para o programa.<br />
“John possui um talento acima da média”, avalia o coreógrafo. “É bastante criativo, sensível e curioso. Tudo o que sabe aprendeu intuitivamente, à base de observação e treinos exaustivos. Se compreender melhor o que faz e o funcionamento do próprio corpo, deverá ir bem longe.”</p>
<p><em>(revista Bravo!)</em></p>
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		<title>Vanessa da Mata: &quot;Beautiful girl! I&#039;m Broder Creize&quot;</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Oct 2010 23:35:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Perfis]]></category>

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		<description><![CDATA[Enquanto lança novo disco, a cantora aprende a lidar com a notoriedade crescente e a esquisitice de certos fãs, como o carioca que a abordou na rua e repetiu, em um inglês macarrônico: “Linda garota! Eu sou o Irmão Malucão”    Na cafeteria do Jardim Botânico carioca, Vanessa da Mata namora um bolo de cenoura [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Enquanto lança novo disco, a cantora aprende a lidar com a notoriedade crescente e a esquisitice de certos fãs, como o carioca que a abordou na rua e repetiu, em um inglês macarrônico: “Linda garota! Eu sou o Irmão Malucão”</strong></p>
<p><span id="more-2950"></span>   Na cafeteria do Jardim Botânico carioca, Vanessa da Mata namora um bolo de cenoura com cobertura de chocolate. A fatia, considerável, repousa intacta em um pratinho à frente da cantora. Parece tão apetitosa quanto devem ser as guloseimas que, não raro, invadem as letras da mato-grossense: paçoca, suspiro, bombom, cocada, jujuba, quindim, brigadeiro, churro, sonho. “Ninguém vai me ajudar?”, pergunta para a assessora de imprensa Jane Barboza e a produtora Karla Gallo, que a acompanham. “Nem pensem em me deixar engolir o bolo sozinha, hein?” Trajando jeans e camiseta, Vanessa usa os cabelos soltos, livres dos lenços, chapéus, flores e tiaras que costumam ostentar no palco. De perto, se mostram ainda mais encaracolados e volumosos.<br />
   Mal dá a primeira garfada no bolo, a compositora de 34 anos vê uma senhora se aproximar. “Onde fica o banheiro?”, indaga a mulher, sem reconhecê-la. A artista logo se solidariza com a interlocutora: “Ruim de achar, né?” Depois, muito naturalmente, indica uma porta à direita. Passam-se dez minutos e, de um rádio próximo, ecoa uma canção da intérprete. “Ouçam”, alerto. “Estão tocando <em>Ai, Ai, Ai&#8230;</em>” Vanessa esboça uma careta e cutuca meu braço de leve: “Por que você chamou a minha atenção? Agora só vou reparar na música, notar os defeitos&#8230;”<br />
Quase simultaneamente, uma moça que lanchava por ali se levanta e, acanhadíssima, pede para tirar uma foto com a cantora. Vanessa não se opõe. A menina, então, se derrama: “Adoro você! Adoro!” Quando a tiete se distancia, a compositora, visivelmente desconcertada, comenta: “O que respondo numa hora dessas? Juro que não sei&#8230;” Jane sorri: “Apenas agradeça: ‘Obrigada por gostar do que faço’”.  E a mato-grossense: “É?”<br />
   Àquela tarde, dia 31 de agosto, falávamos sobre o álbum que Vanessa acabara de concluir. O CD – quinto de uma carreira fonográfica inaugurada em 2002 – está chegando às lojas e exibe um título que remete à atmosfera doce do café onde conversávamos: <em>Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias</em>. Como de hábito, a artista o lança pela Sony. Dessa vez, porém, a maior gravadora do Brasil divide os custos (e os lucros) do projeto com o selo Jabuticaba, que pertence à própria intérprete. O trabalho emerge num momento de transição para Vanessa e sob grande expectativa. O disco de estúdio que o precedeu, <em>Sim</em>, de 2007, alcançou um sucesso notável e propagou os versos da mato-grossense mundo afora. É certo que ela já brilhara antes, mas não com tamanha intensidade. Pode-se afirmar que <em>Sim</em> a colocou à altura de nossas principais cantoras.�<br />
Curiosamente, a mudança de patamar ainda a desnorteia, algo que o encontro daquela tarde e o da tarde seguinte, na Gávea, deixaram transparecer. Vanessa demonstra se sentir bem mais confortável diante dos que não a reconhecem. O status de celebridade aparenta preocupá-la ou mesmo assustá-la. Talvez por isso, para preservar a condição de “reles mortal”, a artista não se prive de alguns gestos simples – ações corriqueiras que diversas estrelas já não se concedem realizar. Exemplos? Comer um bolo imenso em público sem sucumbir à patrulha do açúcar. Ou tocar distraída no braço de um repórter enquanto lhe dá entrevista, como quem papeia com um amigo.</p>
<p><strong>Guiga, Dri e Mateus</strong><br />
    Há oito anos, quando gravou seu álbum de estreia, a mato-grossense despertou uma resposta de público modesta, mas satisfatória. Em compensação, rapidamente arrancou elogios dos colegas e da crítica. “Feliz do país que revela cantoras do naipe de Maria Rita e Vanessa da Mata”, festejou o jornalista Nelson Motta pouco tempo depois. De fato, a filha de Elis Regina e a filha de dona Sebastiana com seu Divinor – uma professora do ensino fundamental e um caminhoneiro que prosperou, tornando-se pecuarista – têm pelo menos uma característica em comum: ocupam um nicho de mercado que se convencionou chamar de MPB (Música Popular Brasileira) e onde também se abrigam Adriana Calcanhotto, Marisa Monte e Ana Carolina.<br />
   De modo geral, a denominação engloba todos os intérpretes nacionais que não se voltam prioritariamente para o sertanejo, o rock, o filão religioso, o pagode, o brega, o rap e os gêneros regionais, dos endiabrados forró e funk carioca à axé music. Estimam os historiadores que a sigla se disseminou a partir de 1965. Na época, abarcava os artistas jovens que sofriam a influência da sofisticada bossa nova e, ao mesmo tempo, abraçavam estilos identificados com as classes baixas, caso do samba de morro e das canções nordestinas. Edu Lobo, Chico Buarque e a própria Elis Regina integravam a turma. Mais tarde, as três consoantes se expandiram na direção dos tropicalistas (Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé) e seus herdeiros, que acolhiam tanto Luiz Gonzaga, Tom Jobim e a Portela como as guitarras dos roqueiros britânicos e norte-americanos. Atualmente, o termo se cristalizou como sinônimo de qualidade – uma chancela que distinguiria as canções “requintadas, duráveis” das “popularescas” ou “descartáveis”. Não à toa, há quem rejeite tal acepção e a classifique de preconceituosa.<br />
   Alheia aos rótulos, Vanessa segue produzindo um pop bastante peculiar e multifacetado, em que a sonoridade urbana do Primeiro Mundo convive com ritmos de países periféricos (o reggae jamaicano, a cumbia argentina) e do interior brasileiro (o xaxado, o caboclinho, a chula baiana, o maracatu, a catira). O inusitado é que a compositora jamais estudou música. Ou melhor: estudou, só que à maneira dela, sem partituras e sem tocar nada. Teve algumas aulas particulares de violão durante a adolescência, mas não chegou a dominá-lo – em parte, por causa de um déficit de atenção que também a prejudicou na escola: repetiu duas séries do antigo ginásio e não terminou o ensino médio. “Uma tarde, quando menina, passei pelo salão paroquial de Alto Garças, a cidadezinha onde nasci, e presenciei o ensaio de uma banda”, conta. “Entendi naquele dia o papel de cada instrumento.” Com 19 anos, depois de infinitas tentativas, desenvolveu um método próprio de composição, em que recorre apenas à voz. “Pego um gravador, cantarolo as melodias que invento e peço para um músico transcrevê-las.”     �<br />
   Nas letras, seu ecletismo se reafirma. Ora a autora discorre sobre encontros e desencontros amorosos, ora lamenta as desigualdades sociais, o consumismo ou a destruição da natureza, ora evoca coisas e personagens de Alto Garças: as merendas de dona Vantina, os quitutes da avó Sinhá, uma bacia cheia de manga bourbon, Guiga, Dri, Mayanna, Duda, Mateus. Outra marca de Vanessa é abordar com bom humor questões que atormentam as mulheres. No disco novo, por exemplo, ironiza o onipresente medo feminino de engordar (em <em>Fiu Fiu</em>).<br />
   “Calculo que escrevi umas mil canções”, diz, ressalvando que “nem todas prestam”. Em tom de brincadeira, se declara “uma compositora obsessivo-compulsiva”. “Ela, às vezes, consegue criar versos tão densos que lembram os do poeta João Cabral de Melo Neto. No entanto, também se permite conceber estrofes muito singelas, muito espontâneas, que aludem à linguagem direta e sentimental da extinta revista <em>Carícia</em>. É uma poesia que praticamente não soa como poesia”, analisa o músico Chico César, amigo e padrinho artístico da cantora. Juntos, no fim da década de 1990, assinaram <em>A Força que Nunca Seca</em>. O paraibano apresentou a composição à baiana Maria Bethânia, que decidiu registrá-la, projetando pela primeira vez o nome de Vanessa. Na canção, segundo Chico, figuram os tais trechos à moda de João Cabral: “Já se pode ver ao longe/ A senhora com a lata na cabeça/ Equilibrando a lata vesga/ Mais do que o corpo dita”. O linguajar à revista <em>Carícia</em> apareceria em frases do tipo “Seus beijos são vermelhos/ Quase que me queimam/ Que meigos são seus olhos” (de <em>Vermelho</em>).<br />
   Com o tempo, navegando entre os dois polos, Vanessa emplacou seis músicas nas novelas da Rede Globo e atingiu a meta que só as divas logram alcançar: arregimentou admiradores de diferentes estratos sociais sem perder o aval da crítica. Hoje, frequenta FMs populares e de elite, protagoniza até 15 shows por mês em ginásios de cidades pequenas ou em casas nobres de São Paulo e do Rio de Janeiro, cerca-se de produtores refinados (Mario Caldato Jr., Kassin, Jacques Morelenbaum) e não se furta de compartilhar o palco com ídolos do povão, como Alcione.<br />
   Tamanha polivalência gerou números crescentes e vultosos para os padrões atuais. <em>Vanessa da Mata</em>, primeiro disco da cantora, vendeu 140 mil cópias em oito anos, de acordo com a Sony. <em>Sim</em>, o álbum de inéditas que antecede o novo trabalho, vendeu 350 mil em três. No total, descontando a pirataria, os fãs da intérprete consumiram 1 milhão de CDs e DVDs. Os de Adriana Calcanhotto e Ana Carolina, artistas que pertencem à mesma gravadora da mato-grossense, compraram respectivamente 2 e 3 milhões, mas ao longo de um período maior (a gaúcha iniciou a trajetória discográfica em 1990 e a mineira em 1999). Quando se considera a internet, o desempenho de Vanessa continua expressivo. Suas canções motivaram 260 mil downloads pagos e 2,5 milhões de streamings igualmente pagos.<br />
O aumento da demanda em plataformas digitais ou não coincidiu com a presença ascendente da intérprete nas rádios. Os relatórios do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) comprovam o fenômeno. Em 2006, <em>Ai, Ai, Ai..</em>, escrita pela cantora e por Liminha, ocupou o terceiro lugar entre as dez músicas mais tocadas do país. A lista das top ten, até então, nunca incluíra Vanessa. Em 2008, <em>Boa Sorte/Good Luck</em> levou a artista para o primeiro lugar, seguida de Alicia Keys e Danni Carlos. O hit, composto com o norte-americano Ben Harper, está justamente no disco <em>Sim</em>, o campeão de vendas.<br />
   A parceria também impulsionou a carreira internacional da mato-grossense. “Passamos a fazer pelo menos duas turnês anuais fora do Brasil”, informa Leninha Brandão, empresária da cantora. Por enquanto, os shows acontecem principalmente na Europa, nos Estados Unidos, na Argentina e no Uruguai. Em 2011, devem se estender para Japão, Austrália, Canadá, Chile, Colômbia e México.         �<br />
   A agenda lotada não impede que Vanessa se aventure por outras searas. Leitora de Pablo Neruda, Cecília Meireles, Manoel de Barros e Mia Couto, já redigiu seis capítulos de um futuro romance, embora não arrisque uma data de lançamento. Planeja, ainda, abrir uma casa de espetáculos no bairro paulistano de Pinheiros com dois sócios. “Se tudo der certo, vamos inaugurá-la até dezembro”, prevê.</p>
<p><strong>Orgulho</strong><br />
   No café do Jardim Botânico, a intérprete mordisca mais um pedaço de bolo. “Veja: me tornei realmente famosa em 2006, 2007. Foi quando minha imagem se espalhou de verdade. Antes, boa parcela do público conhecia minha voz e não o meu rosto. Lógico que sinto um carinho enorme pelos fãs. E pretendo, sim, continuar atingindo um número grande de pessoas. Mas, se o mundo de hoje permitisse, gostaria de fazer sucesso sem me mostrar demais. Numa situação ideal, minhas canções e meu canto se alastrariam, enquanto o resto permaneceria à sombra. Doideira, não?”<br />
   Ela lembra que recebeu ofertas para gravar o primeiro disco aos 21 anos. Naquela altura, já somava seis de profissão. Começou se apresentando em bares de Uberlândia (MG), onde viveu parte da adolescência. Saiu de Alto Garças agarrada numa mentira. O pai almejava que a filha cursasse medicina. A filha almejava cantar. Então&#8230; “Pai, só poderei enfrentar um vestibular tão difícil se estudar numa cidade melhorzinha.” Mudou para Uberlândia e, às escondidas, trocou a escola pelos microfones. Depois, resolveu se estabelecer em São Paulo. Arranjou uma vaga de modelo na agência Elite, estratégia que lhe garantiu dividir um apartamento de graça com outras menina, e seguiu à procura de oportunidades artísticas. Participou de uma banda especializada em ritmos nordestinos e de grupos de reggae. Um dia, arrumou o telefone de Chico César, que despon­tava nacionalmente. Queria ajuda para produzir um “demo” (disco de demonstração).<br />
   “Ela me ligou e deixou mensagem na secretária eletrônica. Não respondi. Telefonou de novo, e de novo, e de novo”, relata o compositor. “Da última vez, cantarolou um recado: ‘Chiquinho, me atenda, por favor! Preciso muito encontrar você’. Pensei: ‘É da minha turma – louca! Merece um retorno’.” As portas finalmente se abriram e o “demo” veio à tona. Logo pipocaram os convites para a morena debutar na carreira fonográfica. “Não aceitei nenhum”, recorda. “Eu, que batalhara tanto, morri na praia. O motivo? Pavor de que um eventual sucesso me roubasse a privacidade.”<br />
   Em razão do conflito, a jovem que desejava aparecer sem aparecer acabou recorrendo à análise. Encarou o divã por um longo período, até que, com 26 anos, superou o bloqueio e gravou o álbum de estreia. O temor da notoriedade, porém, jamais a abandonou completamente. “Dois riscos da fama me assombram. Primeiro, virar ímã de doido, um alvo que atrai rancores, inveja, frustrações, carência e o julgamento dos outros. Depois, ceder à vaidade – aceitar que o orgulho me capture e embriague.”  �<br />
   Para resguardar “a consciência do real”, não abdica de caminhar pelas ruas da Lagoa, bairro carioca onde mora, ou de pegar um táxi. Também busca se manter próxima de Felipe, Micael e Bianca, garotos de 9, 6 e 5 anos, que está adotando com o marido, o ator e fotógrafo Gero Pestalozzi. Já em relação à maluquice de alguns admiradores&#8230;<br />
   Naquela tarde de agosto, após sair do Jardim Botânico, Vanessa se dirige à região central do Rio. Lá, em um predinho charmoso, vai tirar fotos para a <strong>BRAVO!</strong>. Mal chega e desce do carro, um sujeito a aborda na calçada. “Beautiful girl! Você é uma mata de beleza! Não: você é uma floresta de beleza! Meu querubim!” A cantora ri, desarvorada, e entra no hall do edifício. O homem não recua. Cola o rosto na janelinha da porta e continua gritando: “Beautiful girl!” Cerca de três horas depois, Vanessa deixa o prédio. O camarada retoma a perseguição: “Me dê um autógrafo, please! Você é sobrenatural!” Estica-lhe uma folha amarrotada de papel. A artista a apanha e pergunta o nome do desconhecido. Ele, exultante, dispara: “Beautiful girl, I’m Broder Creize (algo como Irmão Malucão, em inglês macarrônico). Bro-der Crei-ze, a seu dispor!”</p>
<p>(<em>revista Bravo!</em>)</p>
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		<title>Vanessa da Mata: &#8220;Beautiful girl! I&#8217;m Broder Creize&#8221;</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Oct 2010 23:35:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Enquanto lança novo disco, a cantora aprende a lidar com a notoriedade crescente e a esquisitice de certos fãs, como o carioca que a abordou na rua e repetiu, em um inglês macarrônico: “Linda garota! Eu sou o Irmão Malucão”</strong></p>
<p><span id="more-7014"></span>   Na cafeteria do Jardim Botânico carioca, Vanessa da Mata namora um bolo de cenoura com cobertura de chocolate. A fatia, considerável, repousa intacta em um pratinho à frente da cantora. Parece tão apetitosa quanto devem ser as guloseimas que, não raro, invadem as letras da mato-grossense: paçoca, suspiro, bombom, cocada, jujuba, quindim, brigadeiro, churro, sonho. “Ninguém vai me ajudar?”, pergunta para a assessora de imprensa Jane Barboza e a produtora Karla Gallo, que a acompanham. “Nem pensem em me deixar engolir o bolo sozinha, hein?” Trajando jeans e camiseta, Vanessa usa os cabelos soltos, livres dos lenços, chapéus, flores e tiaras que costumam ostentar no palco. De perto, se mostram ainda mais encaracolados e volumosos.<br />
   Mal dá a primeira garfada no bolo, a compositora de 34 anos vê uma senhora se aproximar. “Onde fica o banheiro?”, indaga a mulher, sem reconhecê-la. A artista logo se solidariza com a interlocutora: “Ruim de achar, né?” Depois, muito naturalmente, indica uma porta à direita. Passam-se dez minutos e, de um rádio próximo, ecoa uma canção da intérprete. “Ouçam”, alerto. “Estão tocando <em>Ai, Ai, Ai&#8230;</em>” Vanessa esboça uma careta e cutuca meu braço de leve: “Por que você chamou a minha atenção? Agora só vou reparar na música, notar os defeitos&#8230;”<br />
Quase simultaneamente, uma moça que lanchava por ali se levanta e, acanhadíssima, pede para tirar uma foto com a cantora. Vanessa não se opõe. A menina, então, se derrama: “Adoro você! Adoro!” Quando a tiete se distancia, a compositora, visivelmente desconcertada, comenta: “O que respondo numa hora dessas? Juro que não sei&#8230;” Jane sorri: “Apenas agradeça: ‘Obrigada por gostar do que faço’”.  E a mato-grossense: “É?”<br />
   Àquela tarde, dia 31 de agosto, falávamos sobre o álbum que Vanessa acabara de concluir. O CD – quinto de uma carreira fonográfica inaugurada em 2002 – está chegando às lojas e exibe um título que remete à atmosfera doce do café onde conversávamos: <em>Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias</em>. Como de hábito, a artista o lança pela Sony. Dessa vez, porém, a maior gravadora do Brasil divide os custos (e os lucros) do projeto com o selo Jabuticaba, que pertence à própria intérprete. O trabalho emerge num momento de transição para Vanessa e sob grande expectativa. O disco de estúdio que o precedeu, <em>Sim</em>, de 2007, alcançou um sucesso notável e propagou os versos da mato-grossense mundo afora. É certo que ela já brilhara antes, mas não com tamanha intensidade. Pode-se afirmar que <em>Sim</em> a colocou à altura de nossas principais cantoras.�<br />
Curiosamente, a mudança de patamar ainda a desnorteia, algo que o encontro daquela tarde e o da tarde seguinte, na Gávea, deixaram transparecer. Vanessa demonstra se sentir bem mais confortável diante dos que não a reconhecem. O status de celebridade aparenta preocupá-la ou mesmo assustá-la. Talvez por isso, para preservar a condição de “reles mortal”, a artista não se prive de alguns gestos simples – ações corriqueiras que diversas estrelas já não se concedem realizar. Exemplos? Comer um bolo imenso em público sem sucumbir à patrulha do açúcar. Ou tocar distraída no braço de um repórter enquanto lhe dá entrevista, como quem papeia com um amigo.</p>
<p><strong>Guiga, Dri e Mateus</strong><br />
    Há oito anos, quando gravou seu álbum de estreia, a mato-grossense despertou uma resposta de público modesta, mas satisfatória. Em compensação, rapidamente arrancou elogios dos colegas e da crítica. “Feliz do país que revela cantoras do naipe de Maria Rita e Vanessa da Mata”, festejou o jornalista Nelson Motta pouco tempo depois. De fato, a filha de Elis Regina e a filha de dona Sebastiana com seu Divinor – uma professora do ensino fundamental e um caminhoneiro que prosperou, tornando-se pecuarista – têm pelo menos uma característica em comum: ocupam um nicho de mercado que se convencionou chamar de MPB (Música Popular Brasileira) e onde também se abrigam Adriana Calcanhotto, Marisa Monte e Ana Carolina.<br />
   De modo geral, a denominação engloba todos os intérpretes nacionais que não se voltam prioritariamente para o sertanejo, o rock, o filão religioso, o pagode, o brega, o rap e os gêneros regionais, dos endiabrados forró e funk carioca à axé music. Estimam os historiadores que a sigla se disseminou a partir de 1965. Na época, abarcava os artistas jovens que sofriam a influência da sofisticada bossa nova e, ao mesmo tempo, abraçavam estilos identificados com as classes baixas, caso do samba de morro e das canções nordestinas. Edu Lobo, Chico Buarque e a própria Elis Regina integravam a turma. Mais tarde, as três consoantes se expandiram na direção dos tropicalistas (Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé) e seus herdeiros, que acolhiam tanto Luiz Gonzaga, Tom Jobim e a Portela como as guitarras dos roqueiros britânicos e norte-americanos. Atualmente, o termo se cristalizou como sinônimo de qualidade – uma chancela que distinguiria as canções “requintadas, duráveis” das “popularescas” ou “descartáveis”. Não à toa, há quem rejeite tal acepção e a classifique de preconceituosa.<br />
   Alheia aos rótulos, Vanessa segue produzindo um pop bastante peculiar e multifacetado, em que a sonoridade urbana do Primeiro Mundo convive com ritmos de países periféricos (o reggae jamaicano, a cumbia argentina) e do interior brasileiro (o xaxado, o caboclinho, a chula baiana, o maracatu, a catira). O inusitado é que a compositora jamais estudou música. Ou melhor: estudou, só que à maneira dela, sem partituras e sem tocar nada. Teve algumas aulas particulares de violão durante a adolescência, mas não chegou a dominá-lo – em parte, por causa de um déficit de atenção que também a prejudicou na escola: repetiu duas séries do antigo ginásio e não terminou o ensino médio. “Uma tarde, quando menina, passei pelo salão paroquial de Alto Garças, a cidadezinha onde nasci, e presenciei o ensaio de uma banda”, conta. “Entendi naquele dia o papel de cada instrumento.” Com 19 anos, depois de infinitas tentativas, desenvolveu um método próprio de composição, em que recorre apenas à voz. “Pego um gravador, cantarolo as melodias que invento e peço para um músico transcrevê-las.”     �<br />
   Nas letras, seu ecletismo se reafirma. Ora a autora discorre sobre encontros e desencontros amorosos, ora lamenta as desigualdades sociais, o consumismo ou a destruição da natureza, ora evoca coisas e personagens de Alto Garças: as merendas de dona Vantina, os quitutes da avó Sinhá, uma bacia cheia de manga bourbon, Guiga, Dri, Mayanna, Duda, Mateus. Outra marca de Vanessa é abordar com bom humor questões que atormentam as mulheres. No disco novo, por exemplo, ironiza o onipresente medo feminino de engordar (em <em>Fiu Fiu</em>).<br />
   “Calculo que escrevi umas mil canções”, diz, ressalvando que “nem todas prestam”. Em tom de brincadeira, se declara “uma compositora obsessivo-compulsiva”. “Ela, às vezes, consegue criar versos tão densos que lembram os do poeta João Cabral de Melo Neto. No entanto, também se permite conceber estrofes muito singelas, muito espontâneas, que aludem à linguagem direta e sentimental da extinta revista <em>Carícia</em>. É uma poesia que praticamente não soa como poesia”, analisa o músico Chico César, amigo e padrinho artístico da cantora. Juntos, no fim da década de 1990, assinaram <em>A Força que Nunca Seca</em>. O paraibano apresentou a composição à baiana Maria Bethânia, que decidiu registrá-la, projetando pela primeira vez o nome de Vanessa. Na canção, segundo Chico, figuram os tais trechos à moda de João Cabral: “Já se pode ver ao longe/ A senhora com a lata na cabeça/ Equilibrando a lata vesga/ Mais do que o corpo dita”. O linguajar à revista <em>Carícia</em> apareceria em frases do tipo “Seus beijos são vermelhos/ Quase que me queimam/ Que meigos são seus olhos” (de <em>Vermelho</em>).<br />
   Com o tempo, navegando entre os dois polos, Vanessa emplacou seis músicas nas novelas da Rede Globo e atingiu a meta que só as divas logram alcançar: arregimentou admiradores de diferentes estratos sociais sem perder o aval da crítica. Hoje, frequenta FMs populares e de elite, protagoniza até 15 shows por mês em ginásios de cidades pequenas ou em casas nobres de São Paulo e do Rio de Janeiro, cerca-se de produtores refinados (Mario Caldato Jr., Kassin, Jacques Morelenbaum) e não se furta de compartilhar o palco com ídolos do povão, como Alcione.<br />
   Tamanha polivalência gerou números crescentes e vultosos para os padrões atuais. <em>Vanessa da Mata</em>, primeiro disco da cantora, vendeu 140 mil cópias em oito anos, de acordo com a Sony. <em>Sim</em>, o álbum de inéditas que antecede o novo trabalho, vendeu 350 mil em três. No total, descontando a pirataria, os fãs da intérprete consumiram 1 milhão de CDs e DVDs. Os de Adriana Calcanhotto e Ana Carolina, artistas que pertencem à mesma gravadora da mato-grossense, compraram respectivamente 2 e 3 milhões, mas ao longo de um período maior (a gaúcha iniciou a trajetória discográfica em 1990 e a mineira em 1999). Quando se considera a internet, o desempenho de Vanessa continua expressivo. Suas canções motivaram 260 mil downloads pagos e 2,5 milhões de streamings igualmente pagos.<br />
O aumento da demanda em plataformas digitais ou não coincidiu com a presença ascendente da intérprete nas rádios. Os relatórios do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) comprovam o fenômeno. Em 2006, <em>Ai, Ai, Ai..</em>, escrita pela cantora e por Liminha, ocupou o terceiro lugar entre as dez músicas mais tocadas do país. A lista das top ten, até então, nunca incluíra Vanessa. Em 2008, <em>Boa Sorte/Good Luck</em> levou a artista para o primeiro lugar, seguida de Alicia Keys e Danni Carlos. O hit, composto com o norte-americano Ben Harper, está justamente no disco <em>Sim</em>, o campeão de vendas.<br />
   A parceria também impulsionou a carreira internacional da mato-grossense. “Passamos a fazer pelo menos duas turnês anuais fora do Brasil”, informa Leninha Brandão, empresária da cantora. Por enquanto, os shows acontecem principalmente na Europa, nos Estados Unidos, na Argentina e no Uruguai. Em 2011, devem se estender para Japão, Austrália, Canadá, Chile, Colômbia e México.         �<br />
   A agenda lotada não impede que Vanessa se aventure por outras searas. Leitora de Pablo Neruda, Cecília Meireles, Manoel de Barros e Mia Couto, já redigiu seis capítulos de um futuro romance, embora não arrisque uma data de lançamento. Planeja, ainda, abrir uma casa de espetáculos no bairro paulistano de Pinheiros com dois sócios. “Se tudo der certo, vamos inaugurá-la até dezembro”, prevê.</p>
<p><strong>Orgulho</strong><br />
   No café do Jardim Botânico, a intérprete mordisca mais um pedaço de bolo. “Veja: me tornei realmente famosa em 2006, 2007. Foi quando minha imagem se espalhou de verdade. Antes, boa parcela do público conhecia minha voz e não o meu rosto. Lógico que sinto um carinho enorme pelos fãs. E pretendo, sim, continuar atingindo um número grande de pessoas. Mas, se o mundo de hoje permitisse, gostaria de fazer sucesso sem me mostrar demais. Numa situação ideal, minhas canções e meu canto se alastrariam, enquanto o resto permaneceria à sombra. Doideira, não?”<br />
   Ela lembra que recebeu ofertas para gravar o primeiro disco aos 21 anos. Naquela altura, já somava seis de profissão. Começou se apresentando em bares de Uberlândia (MG), onde viveu parte da adolescência. Saiu de Alto Garças agarrada numa mentira. O pai almejava que a filha cursasse medicina. A filha almejava cantar. Então&#8230; “Pai, só poderei enfrentar um vestibular tão difícil se estudar numa cidade melhorzinha.” Mudou para Uberlândia e, às escondidas, trocou a escola pelos microfones. Depois, resolveu se estabelecer em São Paulo. Arranjou uma vaga de modelo na agência Elite, estratégia que lhe garantiu dividir um apartamento de graça com outras menina, e seguiu à procura de oportunidades artísticas. Participou de uma banda especializada em ritmos nordestinos e de grupos de reggae. Um dia, arrumou o telefone de Chico César, que despon­tava nacionalmente. Queria ajuda para produzir um “demo” (disco de demonstração).<br />
   “Ela me ligou e deixou mensagem na secretária eletrônica. Não respondi. Telefonou de novo, e de novo, e de novo”, relata o compositor. “Da última vez, cantarolou um recado: ‘Chiquinho, me atenda, por favor! Preciso muito encontrar você’. Pensei: ‘É da minha turma – louca! Merece um retorno’.” As portas finalmente se abriram e o “demo” veio à tona. Logo pipocaram os convites para a morena debutar na carreira fonográfica. “Não aceitei nenhum”, recorda. “Eu, que batalhara tanto, morri na praia. O motivo? Pavor de que um eventual sucesso me roubasse a privacidade.”<br />
   Em razão do conflito, a jovem que desejava aparecer sem aparecer acabou recorrendo à análise. Encarou o divã por um longo período, até que, com 26 anos, superou o bloqueio e gravou o álbum de estreia. O temor da notoriedade, porém, jamais a abandonou completamente. “Dois riscos da fama me assombram. Primeiro, virar ímã de doido, um alvo que atrai rancores, inveja, frustrações, carência e o julgamento dos outros. Depois, ceder à vaidade – aceitar que o orgulho me capture e embriague.”  �<br />
   Para resguardar “a consciência do real”, não abdica de caminhar pelas ruas da Lagoa, bairro carioca onde mora, ou de pegar um táxi. Também busca se manter próxima de Felipe, Micael e Bianca, garotos de 9, 6 e 5 anos, que está adotando com o marido, o ator e fotógrafo Gero Pestalozzi. Já em relação à maluquice de alguns admiradores&#8230;<br />
   Naquela tarde de agosto, após sair do Jardim Botânico, Vanessa se dirige à região central do Rio. Lá, em um predinho charmoso, vai tirar fotos para a <strong>BRAVO!</strong>. Mal chega e desce do carro, um sujeito a aborda na calçada. “Beautiful girl! Você é uma mata de beleza! Não: você é uma floresta de beleza! Meu querubim!” A cantora ri, desarvorada, e entra no hall do edifício. O homem não recua. Cola o rosto na janelinha da porta e continua gritando: “Beautiful girl!” Cerca de três horas depois, Vanessa deixa o prédio. O camarada retoma a perseguição: “Me dê um autógrafo, please! Você é sobrenatural!” Estica-lhe uma folha amarrotada de papel. A artista a apanha e pergunta o nome do desconhecido. Ele, exultante, dispara: “Beautiful girl, I’m Broder Creize (algo como Irmão Malucão, em inglês macarrônico). Bro-der Crei-ze, a seu dispor!”</p>
<p>(<em>revista Bravo!</em>)</p>
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		<title>Paulo José: Dentro do &quot;Parkinson de diversões&quot;</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Apr 2010 00:43:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Perfis]]></category>

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		<description><![CDATA[O ator Paulo José – protagonista do filme Quincas Berro D’Água, que estreia em maio, e personagem da peça Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar – enfrenta o Parkinson há 17 anos. Embora ele aborde o assunto de maneira bem-humorada, a doença lhe impõe uma dura rotina de exercícios e terapias, faz com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O ator Paulo José – protagonista do filme <em>Quincas Berro D’Água</em>, que estreia em maio, e personagem da peça <em>Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar</em> – enfrenta o Parkinson há 17 anos. Embora ele aborde o assunto de maneira bem-humorada, a doença lhe impõe uma dura rotina de exercícios e terapias, faz com que tome remédios seis vezes ao dia e exige que se reinvente profissionalmente<br />
</strong></p>
<p><span id="more-644"></span>Qualquer observador atento perceberá que existem duas espécies de colecionadores no mundo: os convictos e os acidentais. Os primeiros acumulam coisas voluntariamente, com método e perseverança. Os outros apenas cedem à vontade dos objetos, que parecem se agrupar por decisão própria. Paulo José Gómez de Souza é um colecionador acidental de chapéus. Possui diversos, que se espalham anarquicamente pela casa ampla e agradável onde mora, no Alto da Gávea, um dos bairros mais nobres da zona sul carioca. O ator não consegue precisar como os intrusos brotaram por lá. Mesmo assim, tolera a presença deles e os usa com relativa constância.<br />
Naquela manhã de fevereiro, às vésperas do Carnaval, trajava-se de maneira ambígua quando nos atendeu em um salão arejado da casa. A bermuda simples, a camiseta lisa e as sandálias Birkenstock, bastante gastas, lhe conferiam um aspecto corriqueiro. No entanto, o chapéu-coco preto que ostentava sobre a cabeça o deixava caricato e excêntrico, à semelhança de um Carlitos tropical. Conversa vai, conversa vem, Paulo José se afastou ligeiro do salão e retornou com um chapéu diferente, amarronzado.<br />
- Como se chama?, perguntei, enquanto apontava o acessório.<br />
- Chama-se cha-péu, respondeu o ator, destacando as sílabas.<br />
- Não, não. Quero saber de que tipo é? Chapéu de dois bicos, chapéu-chile, chapéu borsalino&#8230;<br />
- Ah, claro. É do tipo velho. Chapéu velho.<br />
Quem conhece o artista de perto logo se habitua com tiradas do gênero. Ele as solta de repente, em ocasiões que prenunciam tudo, menos um gracejo. São troças invariavelmente concisas, ora tolas, meio infantis, ora sofisticadas, eruditas. O ator sempre as dispara sem abandonar a fleuma – conserva-se aprumado e imperturbável como um duque. No máximo, esboça um leve sorriso, de tal modo que o interlocutor às vezes duvida se está realmente ouvindo uma gozação.<br />
- Você faz análise, Paulo?<br />
- Não, agora faço síntese&#8230;</p>
<p><strong>Bobo alegre</strong><br />
Com 73 anos de idade e 61 de carreira, o gaúcho de Lavras do Sul, descendente de espanhóis e portugueses, enfrenta há 17 o Parkinson, distúrbio crônico, progressivo, degenerativo e incurável que afeta o sistema nervoso central. A doença, apesar de grave, nunca lhe roubou o viés espirituoso. Pelo contrário: o ator gosta de ridicularizá-la em público. Costumava declarar, por exemplo, que vive num “Parkinson de diversões”. “Sou quase um bobo alegre”, define-se. “Ganhei da natureza – ou dos deuses, da sorte, do caos – bem mais do que imaginava. Exerço uma profissão maravilhosa, gozo de boas condições financeiras, me cerquei de amigos excelentes e construí uma família bacana. Não posso reclamar de nada, compreende? Por isso, procuro disseminar a ideia de que, mesmo com a saúde frágil, toco o barco e preservo o alto astral. Só que me arrependi daquela história de ‘Parkinson de diversões’. Acho que escolhi mal a expressão. Perdi o <em>timing</em> da piada&#8230;”<br />
Em razão da brincadeira, uma parte da mídia começou a alardear que Paulo “tira a doença de letra” – clichê reforçado pelo fato de que o artista continua muitíssimo produtivo, sem se acomodar às glórias passadas. Seja como ator, seja como diretor, ele participou de momentos importantes da dramaturgia brasileira. Integrou o revolucionário Teatro de Arena durante a década de 1960, protagonizou filmes tão memoráveis quanto <em>O Padre e a Moça</em>, <em>Todas as Mulheres do Mundo</em> e <em>Macunaíma</em>, incorporou personagens de peso em inúmeras telenovelas (o alcoólatra Orestes, de <em>Por Amor</em>, figura entre os mais notórios) e implantou o inovador programa <em>Você Decide</em> na Rede Globo.<br />
Já teria, portanto, motivos de sobra para sossegar. Mas não sossega: em maio, irá inaugurar a turnê nacional de <em>Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar</em>, peça em que assina a direção e interpreta a si próprio. Quando passou pelo Oi Futuro Ipanema, centro cultural do Rio de Janeiro que ocupa o prédio art déco de uma antiga telefônica, o espetáculo arrancou elogios dos críticos, incluindo a rigorosa Barbara Heliodora (“deleitável”, “encantador”, “ótimo”). Igualmente em maio, Paulo aparecerá na adaptação cinematográfica do romance <em>A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água</em>, escrito por Jorge Amado. O baiano Sérgio Machado dirigiu o longa. Não bastasse, desde o início de março, o ator frequenta o set do filme O Palhaço, em que assume dois papéis, desta vez sob a batuta de Selton Mello.<br />
“Pouco depois de criar o termo ‘Parkinson de diversões’, recebi o e-mail de uma senhora”, conta Paulo. “Ela é mulher de um portador do distúrbio, se não me engano, e mandou um recado gentil, ainda que categórico – algo na linha: ‘Você não devia zombar de um problema tão sério. Reflita melhor. O Parkinson não diverte ninguém’. Aquilo me alertou. Pensei nos milhares de pacientes que não dispõem de grana para se cuidar direito. Um negócio cruel&#8230; Lógico que não desejo me queixar ou posar de coitadinho. Mas, por outro lado, não convém fingir que se trata de um mar de rosas.”<br />
O Parkinson, na verdade, requer do ator uma rotina pesada de exercícios e terapias, lhe restringe a dieta e obriga que tome remédios com uma assiduidade enlouquecedora. Impôs, ainda, que fizesse uma cirurgia delicada em 2007. Graças à operação, o artista introduziu uma espécie de marca-passo no cérebro. “Fiquei biônico, cara.” A doença também exige que se reinvente como intérprete e já lhe causou transtornos profissionais constrangedores.<br />
A atriz Ana Kutner, segunda dos quatro filhos de Paulo, recorre à linguagem teatral para descrever a situação do pai, com quem divide o palco em <em>Um Navio no Espaço</em>: “Não é drama. É tragédia. O drama pede a adjetivação, o juízo de valor. A tragédia reivindica justo o oposto. Por se revelar inexorável, dispensa os adjetivos e se torna mais substantiva. As coisas, no âmbito trágico, simplesmente são. Não há heróis ou bandidos, não há vítimas ou culpados. Há apenas o ser humano e o livre-arbítrio, o homem diante da premência de resolver como lidar com um obstáculo muito concreto e irreversível que lhe atravessou o caminho.”</p>
<p><strong>Mãos voadoras</strong><br />
Identificado em 1817 por um médico britânico, James Parkinson, o distúrbio que acomete o ator se caracteriza pela degradação de neurônios localizados numa área diminuta do cérebro. A região, batizada de substância nigra, mede somente 20 milímetros quadrados. Ali se encontram cerca de 100 mil neurônios (no total, temos 86 bilhões). A atrofia daquelas células coibe drasticamente a produção de um neurotransmissor, a dopamina, molécula que transporta impulsos ao longo do sistema nervoso central. E a falta de dopamina provoca vários sintomas motores: rigidez da musculatura de todo o corpo, lentidão dos gestos, perda dos movimentos automáticos, tremedeira, alteração da postura.<br />
Com um olho na ciência e outro na galhofa, Paulo relata o que acontece: “Primeiro, o cidadão queima a mufa, a cachola. Bate os pinos. Puf! Em seguida, vai se convertendo num camarada vagaroso e atabalhoado. Desequilibra-se, tropeça à toa, derruba as tralhas pelos cantos, suja a roupa quando está comendo manga, sente um grande embaraço para realizar atividades pequeninas, que exigem precisão – digitar, meter a linha dentro da agulha, abotoar camisas. Também se vê incapaz de ações espontâneas. Qualquer uma delas, erguer<br />
o braço à procura de livros ou discos, levantar o pé numa escada, cruzar as pernas, depende de um pensamento, de uma mensagem consciente, mesmo que rápida. ‘Agora vou subir um degrau, agora vou me espreguiçar, agora vou saltar da cama’. Tudo pressupõe algum tipo de cálculo”.<br />
Às dificuldades motoras, se juntam a insônia, a diminuição da memória imediata (“cadê a chave que acabei de pegar?”), a prisão de ventre e a urgência miccional (“uma sensação irritante – e falsa – de que é necessário urinar”).<br />
A medicina desconhece até hoje as causas exatas do Parkinson, que atinge entre 1% e 2% da população mundial acima dos 65 anos, excetuando os habitantes da África negra, onde a taxa se mostra inferior. Sabe-se apenas que fatores genéticos ou ambientais, como a contaminação pelo manganês, podem despertá-lo. Para arrefecer a fúria da doença, os neurologistas receitam uma série de medicamentos. O principal é a levodopa, que se transforma em dopamina no organismo. Ocorre que, com o tempo, as drogas geram efeitos colaterais perturbadores: alucinações, crises fóbicas, angústia e a eclosão de movimentos involuntários. “O sujeito vira um boneco amalucado”, compara Paulo. “As mãos voam, o pescoço se contorce e o tronco balança à revelia do dono.”<br />
Em maio de 2007, o ator amargou um episódio desconcertante por conta dos movimentos involuntários. Preparava-se para dar uma entrevista no programa <em>Roda Viva</em>, da TV Cultura, e não achava jeito de aplacar a ansiedade. Receava que os sintomas do Parkinson, especialmente a tremedeira, surgissem em rede nacional. Na esperança de domá-los, ingeriu uma dose extra de levodopa. Foi pior. Enquanto o artista respondia as questões dos entrevistadores, os efeitos adversos do remédio o assaltaram e os gestos descontrolados explodiram. Paulo sentou-se sobre as mãos voadoras para tentar conter a tormenta. Não funcionou: o resto do corpo teimava em desacatá-lo. “Me chateei demais com aquilo&#8230;”<br />
Caso os efeitos hostis das medicações recrudesçam a ponto de o doente já não os suportar, há a possibilidade de um recurso extremo – justamente o que o ator adotou em 2007, poucos meses após o <em>Roda Viva</em>. “Ele pôs um estimulador cerebral profundo”, afirma o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, que o operou. O aparelho, como os marca-passos cardíacos, se compõe de uma bateria que emite sinais elétricos e que se conecta com um fio bem delgado. Em uma intervenção de cinco horas, instala-se o conjunto no paciente. “Levamos o fio para dentro do cérebro através de um discreto orifício craniano e o ligamos às zonas responsáveis pelos sintomas do Parkinson. Depois, acomodamos a bateria sob a pele, no tórax, abaixo da clavícula. Os sinais elétricos chegarão, assim, às áreas onde o fio se aloja e irão reprimir o desempenho delas, atenuando os sintomas.” Em decorrência, o doente vai reduzir a dosagem dos remédios, o que abrandará os efeitos colaterais.<br />
O preço da cirurgia é alto: somente o estimulador custa R$ 100 mil. Por classificar a operação de experimental, o governo não cobre os gastos. Os convênios de saúde, com raras exceções, seguem trilha idêntica. “O doutor Niemeyer e a Globo, generosíssimos, assumiram as minhas despesas”, confidencia o artista, empregado da emissora desde 1969. Ele inseriu o equipamento no lado esquerdo do cérebro e pretende colocar outro no lado direito.</p>
<p><strong>Bufões</strong><br />
Dezessete anos atrás, mal escutou o diagnóstico da doença, Paulo julgou que logo teria de se afastar definitivamente da profissão. No entanto, à medida que esquadrinhava as próprias mazelas, descobriu um fenômeno incrível: em cena, o distúrbio se revela bastante contornável. “O Parkinson desencadeia hiatos entre o pensamento e a palavra”, explica o artista. “No cotidiano, tais brancos linguísticos e apagões da memória imediata se manifestam sempre que me flagro em situações inesperadas. Só que, quando atuo, quase não me defronto com imprevistos, uma vez que ensaio obsessivamente os diálogos. Entende a mágica? Dentro do set ou do teatro, me distancio dos lapsos verbais e fico menos parkinsoniano. Do mesmo modo, a perda dos movimentos automáticos que a doença acarreta praticamente desaparece no palco. Afinal, lá também existem poucas atitudes espontâneas. A maioria das ações obedece à marcação do diretor.”<br />
Um punhado de artimanhas contribui para que o ator iniba ainda mais o Parkinson diante das plateias. Por exemplo: sob os holofotes, geralmente busca um ponto de apoio, uma superfície em que possa repousar os braços ou se encostar. Com um truque tão banal, alivia a rigidez da musculatura e ganha equilíbrio. Se uma das mãos sobe sem rédeas rumo à cabeça, Paulo trata de completar o gesto e coça o nariz ou a orelha. Assim, o ato que nasceu involuntário se torna voluntário. Outra precaução é não encarar papéis de tons prioritariamente realistas. “A movimentação de um parkinsoniano combina melhor com personagens estranhos, bizarros, que rejeitem o naturalismo – bufões, doidos, bêbados.”</p>
<p><strong>Plácido Domingo</strong><br />
Como um guru de autoajuda às avessas, o artista apregoa que não adianta planejar nada porque tudo vai dar errado. “Tudo, absolutamente tudo! O universo não se curva às nossas vontades&#8230;” Por ironia, o mantra niilista destoa da rígida disciplina que Paulo exibe no combate à doença. A cirurgia de 2007 lhe proporcionou benefícios inegáveis, mas não o livrou de um tratamento dispendioso e árduo.<br />
Seis vezes por dia, de três em três horas, o ator lança mão de um coquetel que associa até cinco drogas diferentes. Começa o ritual às oito da manhã e só o interrompe às onze da noite. Toma a primeira dose em jejum e precisa ingerir as demais uma hora antes ou uma hora depois de se alimentar. As refeições, porém, devem conter baixa quantidade de proteína. Do contrário, interferem na eficácia dos medicamentos. O consumo desregulado de álcool ocasiona o mesmo dano.<br />
Absorvido por incontáveis atribuições, Paulo não conseguia gerenciar demandas tão espartanas. “Notei os percalços dele e resolvi colaborar”, recorda Mírian Cavour, única funcionária da Malagueta, empresa que administra os projetos do artista. “Já que trabalhamos frequentemente juntos, indaguei se podia supervisionar os horários dos remédios.” De início, o ator hesitou: não queria sobrecarregar Mírian. Mas, com o passar dos meses, acabou concordando. “Banco o anjo da guarda numa boa”, garante a funcionária. “O Paulo merece.” Quando não está por perto, Mírian delega os cuidados para terceiros, de maneira que sempre haja alguém vigiando o relógio.<br />
Todas as semanas, na casa do Alto da Gávea, o artista faz uma ou duas sessões de fisioterapia e três ou quatro de ginástica. A meta é restabelecer a flexibilidade, o equilíbrio e a força muscular que o Parkinson arrebata. “Buscamos ainda suavizar as dores trazidas pelo excesso de movimentos involuntários, que desgastou as articulações e tendões do ombro direito de Paulo”, esclarece a fisioterapeuta Mariana Pereira Santos.<br />
Fã de Sigmund Freud, o ator se submeteu à psicanálise durante 12 anos. “Visto a camisa do barbudinho sem grilo nenhum”, confessa, irônico, após sacar do armário uma <em>t-shirt</em> com a foto do médico austríaco. Sob o retrato, um aviso: <em>I know what you think</em> (Eu sei o que você pensa). De uns tempos para cá, entretanto, o artista substituiu o divã pela bioenergética, corrente que une a abordagem verbal psicanalítica às técnicas corporais desenvolvidas por Wilhelm Reich. “A doença me enfraquece muito emocionalmente”, lamenta. “Fico hipersuscetível às notícias ruins, às besteirinhas cotidianas. Basta uma fagulha e pronto: me transformo num menino desprotegido.” A bioenergética lhe oferece alternativas para driblar as oscilações de humor. “Meu terapeuta também bate na tecla de que necessito ser o mais indep<br />
endente possível. Recomenda que não me entregue às limitações motoras, que não deixe de realizar coisas básicas sozinho. ‘Evite pedir auxílio para se trocar, ande sem se escorar em ninguém, não desista da ginástica’, ordena.”<br />
A maratona semanal de Paulo no Alto da Gávea inclui outras duas aulas de voz, ministradas por Célio Rentroya, que já preparou o elenco de peças como <em>Woyzeck, o Brasileiro</em>, com Matheus Nachtergaele, e <em>A Alma Imoral</em>, com Clarice Niskier. “O Parkinson compromete severamente o aparelho fonador. Endurece os músculos da laringe, da boca, da face e da caixa respiratória, além de alterar a percepção que o paciente tem da própria dicção”, enumera o professor. Em consequência, a potência vocal diminui, o ritmo da fala acelera e o rosto se torna apático, sem mobilidade. Dispensável realçar o quanto tais prejuízos sabotam o trabalho de quem vive do palco.<br />
Os exercícios orais que o ator repete sob os arpejos de um piano ou num estúdio caseiro de som objetivam não apenas alongar, relaxar e fortalecer a musculatura enrijecida como resguardar o controle da articulação verbal. “Irrequieto e absurdamente criativo, Paulo prefere o lúdico à sisudez”, ressalta Célio. “Ele sempre inventa algo curioso para fugir do tédio durante as aulas.”<br />
De fato: assistir à dinâmica entre o aluno e o professor é uma experiência engraçada. O artista desfila um arsenal de caretas, imita celebridades e pronuncia montes de “lalelilolu” ou “badebidebadebideba” à moda de um canastrão dramático. O ápice do “espetáculo” acontece quando Paulo, treinando a emissão do canto lírico, entoa o samba <em>Desafinado </em>com a ênfase (e o portunhol) de um tresloucado Plácido Domingo, o tenor madrilenho:<br />
“Se usted insiste em calificar<br />
Mi comportamento de antimusical<br />
Yo mismo mentindo devo argumentar<br />
Que eso és Bossa Nueva, eso és mucho natural”<br />
O ator ainda utiliza a aula para se aproximar de Puro Sangue, o palhaço que interpretará no filme de Selton Mello. Encaixa os sapatões do clown nas mãos e improvisa uma dança com os calçados sobre o piano enquanto cantarola um outro exercício: “Bombombombooom!”.<br />
Toda vez que aceita um papel, o artista age assim – concebe o personagem gradativamente, em meio às tarefas costumeiras. “Dia desses, comprou uns anéis, um óculos de sol e uns colares dourados, misturou os adereços às roupas habituais e saiu pelas ruas. Foi à padaria, tomou um cafezinho, papeou com os conhecidos. Tateava a indumentária de Valdemar, o cigano que também representará no longa do Selton”, relembra a figurinista Kika Lopes, mulher de Paulo.<br />
“O padre Antonio Vieira escreveu um troço que me comove à beça”, diz o ator. “É mais ou menos o seguinte: ‘Aqueles a quem Deus fez mudos, os fez igualmente surdos porque, caso ouvissem e não pudessem falar, arrebentariam de dor’. Eu ouço. Então, preciso falar. Daí o meu empenho em resistir às imposições do Parkinson. Terapias, ginástica, remédios, aulas, nada me incomoda tanto se receber como contrapartida a graça de permanecer ativo, de continuar me expressando.”<br />
Admirador de Vieira, mas alheio às crenças religiosas, Paulo não enxerga razões metafísicas para a doença. Desígnio dos céus? Castigo? Uma bênção travestida de sofrimento? “Nenhuma das opções”, defende o artista. “A resposta, feliz ou infelizmente, está no acaso.”</p>
<p>(<em>revista Bravo!)</em></p>
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		<title>Mallu Magalhães: Revolucionária aos 16 anos</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Oct 2008 23:24:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Perfis]]></category>

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		<description><![CDATA[Foto João Wainer As peripécias que converteram Mallu Magalhães num fenômeno pop e ajudaram a implodir a lógica da indústria musical no Brasil Era um fiapo de música. Uma composição simples e curta que a menina de 12 anos cantava com voz miúda, mas segura, enquanto dedilhava um Di Giorgio de seis cordas. O violão, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://armandoantenore.com.br/perfis/uploaded_images/Mallu-718432.jpg" border="0" alt="" /><br />
<span style="font-family: courier new; font-size: 85%;">Foto João Wainer</span></p>
<p><strong>As peripécias que converteram Mallu Magalhães num fenômeno pop e ajudaram a implodir a lógica da indústria musical no Brasil<br />
</strong></p>
<p><span id="more-643"></span>Era um fiapo de música. Uma composição simples e curta que a menina de 12 anos cantava com voz miúda, mas segura, enquanto dedilhava um Di Giorgio de seis cordas. O violão, específico para crianças, parecia de brinquedo — em parte por exibir uma caixa de ressonância menor que a dos modelos adultos, em parte porque naquelas mãos curiosas tudo sempre parecesse de brinquedo. Ninguém lembra direito a letra da canção, nem a menina, que a concebeu, nem o pai da menina, que observava a filha tocar, surpreso. A melodia, em compensação, ainda ecoa na memória dos dois. “Um negocinho bom de ouvir”, explica o pai, Eduardo Pereira de Magalhães, conhecido como Dudi. “Um lá-lá-ri-dooom”, esboça a menina, Maria Luiza, ou simplesmente Mallu. Quando a filha lhe mostrou o lá-lá-ri-dooom pela primeira vez (“descobri que posso compor, pai!”), Dudi logo pensou: “Ela é muito melhor&#8230;”. Melhor do que ele imaginara, melhor do que ele um dia tentou ser.</p>
<p>Neste mês, Dudi completa 47 anos. Engenheiro civil, possui uma pequena empresa que constrói condomínios em áreas de veraneio. Durante a infância e a juventude, estudou violão clássico e popular. Gostava de chorinho, de bossa nova e dos Beatles. Nas escassas horas livres que a faculdade lhe concedia, arriscava escrever umas canções e, com um amigo pianista, se apresentava em showzinhos universitários. “Minha técnica dava para o gasto”, conta. “O problema é que me faltava talento e coragem.” No palco, nunca conseguia se acalmar. “Ficava tenso, meus dedos travavam. E as canções que fazia&#8230; Redondinhas, corretas, mas extremamente insossas. Chatas&#8230; Medíocres!” O oposto do que identificou em Mallu naquela tarde. “Ela me apareceu com uma criação modesta, de dois acordes. Um nada. E, no entanto, o nada soava de maneira especialíssima. Percebi que um caminho promissor se abria.”</p>
<p>Só não imaginou que a promessa se realizaria tão rapidamente. A paulistana Mallu Magalhães, de 16 anos, inicia outubro como uma das atrações do Video Music Brasil, o badalado prêmio da MTV. A cantora foi indicada em três categorias: revelação, melhor show e artista de 2008. No dia 15, uma quarta-feira, disponibiliza para download algumas faixas do disco independente que gravou sob a batuta de Mario Caldato Jr. O currículo do produtor inclui trabalhos com os Beastie Boys, Jack Johnson, Seu Jorge e Bebel Gilberto.</p>
<p>Mais do que um fenômeno pop, Mallu é uma guerrilheira, expressão disparada pela própria menina para se referir às estripulias que anda aprontando. O motim em que se engajou, colorido, irreverente, frenético, já arrebanhou jovens artistas de outras partes do mundo e se orgulha por contabilizar ao menos uma façanha: implodir a lógica que costumava nortear a indústria fonográfica. No Brasil, a revolução se insinua desde a virada do século 20 para o 21, mas ainda não havia encontrado representante à altura — alguém que, em questão de meses e usando a internet como trampolim, saísse do anonimato, conquistasse uma legião de admiradores e alcançasse a mídia tradicional sem o auxílio de nenhuma gravadora. Agora encontrou.</p>
<p>Em outubro do ano passado, quando começou a divulgar quatro de suas músicas pela rede global<br />
de computadores, Mallu pouco se diferenciava dos adolescentes inquietos e criativos que pertencem à classe média alta e freqüentam bons colégios de São Paulo. No amplo sobrado que divide com os pais e a irmã mais velha, tinha o hábito de desenhar, fazer esculturas de papel machê, consertar instrumentos e inventar canções que revelam influência do folk, do rock sessentista e da MPB. Às vezes, também esquecia que está se tornando adulta e punha-se a brincar de Lego, ávida por orquestrar histórias mirabolantes de índios, caubóis e mocinhas sedutoras. No decorrer de 12 vertiginosos meses, o panorama mudou quase que completamente.</p>
<p>Embora continue desenhando, esculpindo, restaurando banjos e violões, produzindo músicas e brincando de Lego, a menina acumulou proezas que a maioria dos cantores de sucesso leva um bom tempo para realizar. Sua página no MySpace, o site internacional de relacionamentos em que abrigou as quatro canções, atraiu mais de 1,9 milhão de visitas. O número impressiona se considerarmos que a carreira precoce de Mallu mira essencialmente o público brasileiro. No mesmo site, os perfis do requisitado Fresno, grupo gaúcho de rock que surgiu em 1999 e também prioriza o mercado interno, somam cerca de 470 mil acessos. Os de Caetano Veloso, 285 mil. E os de Marisa Monte, 200 mil. Por outro lado, os do Cansei de Ser Sexy — banda pop que, desde 2006, investe em extensas turnês pelo mundo — acusam 5,1 milhões de visitas.</p>
<p>Paralelamente à ascensão no MySpace, Mallu invadiu novas e ruidosas praias. Despertou discussões em blogs. Ganhou destaque nos principais jornais, revistas e sites noticiosos do país. Inspirou a fundação de fãs-clubes. Participou de programas na Globo. Arrancou elogios de Tom Zé. Ocupou palcos lendários, a exemplo do Circo Voador, no Rio de Janeiro. Virou trilha sonora de um comercial da Vivo. E deu uma palhinha em &#8220;Janta&#8221;, faixa do primeiro vôo solo de Marcelo Camelo, guitarrista do Los Hermanos (o álbum se chama &#8220;Sou&#8221;).</p>
<p>Assim que desembarcar nas lojas, em novembro, o CD da garota fechará o ciclo inaugural de uma trajetória tão espantosa quanto incerta. A guerrilheira terá fôlego para seguir adiante? Talvez um exame mais detalhado de como Mallu chegou até aqui ofereça pistas sobre o futuro. Quem esmiuçar os passos da cantora verá que a sorte e o ímpeto juvenil certamente a guiaram, mas também o carisma e uma pitada de estratégia.</p>
<p><strong>O nascimento de um hit<br />
</strong>O sol mal despontara e Mallu já pulava da cama. Os amigos ainda dormiam. Era julho de 2006, férias de inverno em Campos do Jordão (SP). Uma paisagem alpina emoldurava a casa que Dudi alugara. A exuberância do cenário, o calorzinho que afugentava o frio da noite e a convicção de que em breve a farra cotidiana recomeçaria deixavam a menina feliz. E felicidade não é coisa que se deva ignorar. Mallu, então com 13 anos, necessitava exprimir aquilo urgentemente. Pegou o violão e, à medida que improvisava uns acordes, cantarolou: “Tcha tcha tchutchura ba”. De repente, o “tchutchura ba” desembocou em “tchubaruba”. Mallu amou o som. Repetiu-o uma, duas, infinitas vezes. O emaranhado de vogais e consoantes não significava nada. Mesmo assim, traduzia perfeitamente a atmosfera daquela manhã. Tchubaruba, tchubaruba! Em torno do inusitado mantra, Mallu criou uma canção — em inglês, como de costume (“há sensações que só me atrevo a manifestar em inglês”). “If you are down, yes I will say tchubaruba/ If you don’t know where I am, I’ll be tchubarubing/ If you don’t know who you are/ You can tchubada, you can tchubaduba”, sussurrava o refrão. Se você está deprê, eu direi tchubaruba. Se você não sabe onde estou, estarei tchubarubando. Se você não sabe quem é, você pode tchubada, você pode tchubaduba.</p>
<p>“Uau! Parece que acertei”, festejou a garota, intimamente. Ela aprendia violão desde os 10 anos, arranhava o piano, a gaita, o banjo, e sonhava em compor à maneira do pai, que sempre tocou para a filha: &#8220;Blackbird&#8221;, dos Beatles; &#8220;O Leãozinho&#8221;, de Caetano; e uma ou outra das tais bobagens que escreveu nos tempos de universidade. “Bobagens? Claro que não! Um repertório fabuloso! Meu pai é o primeiro artista por quem me fascinei. Johnny Cash, Bob Dylan, Neil Young, Zeca Baleiro, os Mutantes, todos só me conquistaram depois.” Quando concluiu<br />
&#8220;Tchubaruba&#8221;, Mallu finalmente avaliou que encontrara o mapa da mina. Suas poucas canções anteriores não a satisfaziam. Estimulada, entregou-se por inteiro às musas e, dali em diante, produziu mais de 40 composições, algumas também em português.</p>
<p>Nas férias de inverno seguintes, viajou de novo para a serra. Dessa vez, ficou em um acampamento de estudantes. Lá comprovou que &#8220;Tchubaruba&#8221; de fato funcionava. Certo dia, cantou a música em público e hipnotizou a platéia. “Foi muito encorajador. Crianças e adolescentes, que não sossegam nunca, interromperam a bagunça para me assistir.” Um arraso. Exatamente como Mané previra&#8230;</p>
<p><strong>O empurrãozinho do facilitador<br />
</strong>Mané, ou Manoel Brasil Orlandi, é o melhor amigo de Mallu. O rosto imberbe e gorducho, os cabelos cacheados e as roupas largas lhe conferem um ar bonachão. Tem 18 anos, embora aparente menos. Conheceu Mallu num sábado, durante uma reunião informal na casa dela. Um vizinho dos Magalhães o levou. Conversa vai, conversa vem, a menina resolveu driblar a vergonha e mostrar &#8220;Tchubaruba&#8221; para os seis convidados. “Logo que ouvi a canção, meu queixo caiu”, recorda Mané. “Curti cada detalhe: a sonoridade, o refrão, o jogo de palavras.” Num piscar de olhos, adotou o neologismo. “Hoje, quando quero dizer que estou fazendo um negócio bacana, digo que estou tchubarubando.” No mesmo sábado, o rapaz e Mallu trocaram figurinhas sobre preferências musicais e cinematográficas. Entenderam-se tão bem que viraram cúmplices. Juntos, exploram brechós, visitam feiras de antigüidades e perambulam pelo Mercado Municipal. “Eu precisava conhecer o Mané, mas não sabia”, filosofa Mallu. “Somos dois esquisitões”, zomba o garoto. “Por isso, nos identificamos.”</p>
<p>Como o amigo, Mallu sempre se considerou um ponto fora da curva. O patinho feio da turma, com opiniões e gostos difíceis de compartilhar. Na escola, se não costuma tirar notas ruins (ela cursa o primeiro colegial), tampouco engole “os métodos pedagógicos conservadores”, que uniformizam tudo e desrespeitam as particularidades dos alunos. “Aliás, veja que substantivo mais impróprio: aluno. ‘A’ significa sem. E ‘luno’, luz. Aluno: sem-luz!’’, exaspera-se, lançando mão de uma etimologia duvidosa.</p>
<p>Depois de &#8220;Tchubaruba&#8221;, Mané escutou outras canções da menina. “Incríveis! Por que não as grava e joga na internet? Aposto que irão bombar.” O rapaz, que deseja se tornar cineasta, acompanha com lupa o universo da música e carrega o showbiz no sangue. É neto de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, executivo que comandou a Rede Globo entre 1967 e 1997. “Façamos assim”, prosseguiu Mané. “Você grava as canções e coloca no MySpace. Eu ajudo a divulgar.” O garoto reivindicava para si “o nobre papel de facilitador” — atividade de mil caras que desempenha desde os 14 anos. Sob o álibi da função, já atacou de cambista nas concorridas matinês de um clube paulistano (“comprava ingressos por R$ 10 e revendia por R$ 50”). Também agenciou bandas obscuras de hardcore, dividindo com os roqueiros o lucro dos espetáculos. No caso da amiga, não pretendia cobrar nem um centavo pelos serviços.</p>
<p>Mallu hesitou. Mas, em julho de 2007, depois do frenesi que experimentou no acampamento, topou gravar três ou quatro composições. “Respirei fundo e decidi me atirar do penhasco.” Comunicou os planos à família. Uma tia, precavida, a aconselhou: “Ótimo! Só que, antes, registre a autoria das músicas”.</p>
<p>Faltava, agora, arranjar patrocínio para a empreitada. Em agosto, a menina comemorou 15 anos. Não teve dúvidas: pediu o dinheiro de aniversário. Dudi lhe deu R$ 1.500. Em contrapartida, a mãe — a paisagista Maria Eugênia Franco de Arruda Botelho Magalhães — fez questão de presenteá-la com delicados brincos de ouro: “Minha filha completa 15 anos e não ganha uma lembrancinha decente? Protesto!”. Mallu nunca usou a jóia.</p>
<p><strong>Atenção: gravando!<br />
</strong>Para registrar suas criações na Biblioteca Nacional, como manda o figurino, a garota descobriu que precisaria transcrevê-las em partituras. “Impossível”, desanimou-se. “Não domino quase nada de teoria musical.” Estava na iminência de desistir quando lhe ocorreu que, perto de onde mora, existe um conservatório. Aterrissou por lá em busca de socorro. Logo na recepção, avistou o cartaz de um estúdio. Anunciava alguma coisa do tipo: “Gravamos 1 música por R$ 300, sem limite de tempo”. Oferta razoável. Se gravasse quatro canções, gastaria R$ 1.200. Com o resto da grana, bancaria as partituras e os registros. Espiou o nome do estúdio: Lúcia no Céu. O quê?!? Lúcia no Céu, igualzinho à personagem daquele rock dos Beatles (&#8220;Lucy in the Sky with Diamonds&#8221;)? Sensacional!</p>
<p>“No dia 3 de outubro de 2007, atendi o telefone. Era Mallu”, relata Jorge Moreira, o dono do estúdio. “Falava de um jeito tão infantil que pensei: ‘Uma criança&#8230; Não deve nem conseguir afinar o instrumento’.” Baterista de 41 anos, Jorge abrira o Lúcia no Céu recentemente, após se desligar de um outro estúdio, o MK. Com o guitarrista Kadu Abecassis e o baixista Thiago Consorti, integra a banda Something Blue, que acompanha o cantor britânico Pete Hassle em concertos pelo país e pela Inglaterra.</p>
<p>O sobrado do Sumarezinho onde instalou o negócio também lhe serve de residência. O músico, divorciado e sem filhos, vive ali sob a algazarra de dois cocker spaniels. Numa terça-feira, recebeu Mallu. A garota veio sozinha, ostentando uma boina cinza. Perguntou: “Que tal o chapéu? Comprei há séculos, mas esperava uma ocasião mágica para botá-lo”. Jorge lhe sugeriu que mostrasse algo. Ela tocou &#8220;Tchubaruba&#8221; num violão Fender do próprio estúdio. “A originalidade e o suingue da canção me incendiaram”, afirma o baterista. “Se a pirralha tiver outra como essa”, ruminou, “é uma geniazinha.” De imediato, julgou um desperdício gravar aquilo apenas com voz e violão. Propôs que ele, Mallu e Abecassis, da Something Blue, formassem um trio no estúdio. A menina, pasma, consentiu.</p>
<p>Entre outubro e dezembro de 2007, reuniram-se uma vez por semana, em sessões vespertinas de seis horas, para produzir diferentes takes de &#8220;Tchubaruba&#8221;, &#8220;J1&#8243;, &#8220;Get to Den­mark&#8221; e &#8220;Have You Ever&#8221;. Enquanto as gravações avançavam, Mallu e Jorge iam se revelando cada dia mais moleques. Promoviam guerrinha de água e outras brincadeiras infames. Ele a apelidou de Magalu. Ela revidou chamando-o de George, com sotaque americano, em alusão às trapalhadas do protagonista de &#8220;George of the Jungle&#8221;, o desenho animado da década de 1960. “Aleluia! Finalmente descolei alguém da minha idade para trabalhar”, ironizava o músico, certo de que uma misteriosa dança cármica os uniu. Espiritualista e doido por folk, Jorge defende que a garota é a reencarnação de uma cantora do gênero. “Não saberia dizer qual, mas é. Ela já nasceu folk.” Acredita, ainda, que encontrou a parceira em passagens anteriores pela Terra e que a encontrará nas próximas. “Sempre comento com Mallu: ‘Quando você estiver bem velhinha, se surgir um jovem baterista querendo emprego, contrata porque sou eu’.”</p>
<p><strong>A bênção da vó Regina</strong><br />
Mal terminou de gravar &#8220;Tchubaruba&#8221;, a menina tratou de colocá-la na página do MySpace que acabara de inaugurar. Com a providencial mãozinha de Mané, disparou e-mails para Deus e o mundo: “Me ouçam!”. Também pôs alertas no Orkut e no MSN. Batizou a iniciativa de “ação guerrilheira”. No fim de outubro de 2007, a página beirava os 200 acessos. Foi então que uma tremenda oportunidade cruzou o caminho do facilitador. O rapaz se divertia no Tim Festival, em São Paulo, quando a moça que o levara à balada sentiu uma vertigem: necessitava de ar. Afastou-se da multidão e se refugiou no “setor dos tiozinhos”, onde o pai dela papeava com um amigo, Rafael Rossatto Bifi. Enquanto acudia<br />
a moça, Mané cumprimentou a dupla. Descobriu que o gaúcho Rossatto — publicitário de 34 anos, ex-guitarrista da banda Bidê ou Balde — garimpava talentos musicais para associá-los à imagem de marcas como Pepsi, Toddy, Levi’s e Ipiranga. Sem pestanejar, Mané lançou a isca: “Sou produtor de uma garota&#8230;”. Não caía bem empregar o termo “facilitador”.</p>
<p>Poucos dias depois, Rossatto recebeu o link de Mallu no MySpace. Vasculhou a página e se apaixonou: “Mané, tenho uma proposta”. A Levi’s, interessada em estreitar laços com os consumidores adolescentes, desejava financiar o clipe da canção &#8220;J1&#8243;. Havia a possibilidade de exibi-lo na MTV. “Vocês aceitam?”, indagou o publicitário. Sim, sim, por que não?</p>
<p>Mané também apresentou o repertório de Mallu para o avô. Boni o examinou e fez uma única observação: “Ela devia compor em português. Seduziria mais o mercado brasileiro”. Já a avó do garoto — ex-mulher do executivo — conheceu a cantora pessoalmente. “Mané a trouxe aqui”, conta Regina Boni, que mora no bairro nobre dos Jardins. Os três almoçaram em um restaurante das imediações. A menina comeu beirute e tomou dois milk-shakes de coco. “Em seguida, vimos um filme de Pedro Almodóvar no DVD”, continua Regina. “O humor fino de Mallu me cativou. Lembra o de Rita Lee.” Durante as décadas de 1960 e 1970, a avó de Mané conviveu de perto com a roqueira e outros ícones da música popular. Figurinista, desenhou os trajes que Caetano, Gilberto Gil, Tom Zé e Gal Costa vestiam nas performances do tropicalismo. Assinou, igualmente, várias roupas da jovem guarda. Mais tarde, na década de 1980, se transformou em marchand e representou um sem-número de artistas importantes: Tomie Ohtake, Nuno Ramos, José Resende, Luiz Paulo Baravelli.</p>
<p>Mallu escutava, maravilhada, as histórias de Regina. Folheava livros de arte e devorava as obras que se espalham pela sala da marchand (inclusive a célebre bandeira &#8220;Seja Marginal Seja Herói&#8221;, de Helio Oiticica, que acabaria inspirando uma composição da menina). Às tantas, quis cantar, mas não pôde porque o violão da anfitriã quebrara. “Vou arrumar”, prometeu. Botou o instrumento debaixo do braço e se despediu. Retornou em dezembro de 2007, com o violão recuperado, para um sarau que Regina organizava. “Agora cante”, intimaram. Mallu, claro, entoou &#8220;Tchubaruba&#8221;. Uma publicitária que participava da reunião se empolgou: “Preciso avisar a Indayara”. E assim, na semana seguinte, a garota se aproximou de Indayara Moyano, promotora de shows que preparava um espetáculo do Vanguart para janeiro.</p>
<p>O forte da banda mato-grossense, queridinha dos indies, é justamente o folk. “Você topa abrir o concerto deles, Mallu?”, perguntou Indayara. A menina, que venera o grupo, quase morreu do coração: “Eu?!? Tocando no mesmo palco do Vanguart?!?”. Regina a tranqüilizou: “Não se preocupe. Ajudo você com o figurino”. E Jorge garantiu que convocaria a Something Blue para acompanhá-la.</p>
<p><strong>Deu na Folha, no JB, no G1&#8230;<br />
</strong>Janeiro de 2008 começou demonstrando que a “ação guerrilheira” de Mallu rendia frutos. Sua página no MySpace alcançava mil acessos, cinco vezes mais do que em outubro. Um agitado clube do underground paulistano, o Clash, anunciava o début da garota para o dia 12. Naquele sábado à noite, Mallu e a Something Blue realmente entraram em cena. Agarrando-se às dicas de Regina, a cantora usava um chapéu preto, um short bege, uma pulseira de bolinhas coloridas e uma blusa azul desestruturada. Nervosismo? Pouco. Na verdade, saltitava de alegria. Ela, que costumava dormir às 21h, que não tinha idade para freqüentar boates e que cultivava uma paixonite secreta por Helio Flandres, o vocalista do Vanguart, de repente estava ali, abrindo um show do ídolo (hoje são namorados). “Encarei aquilo como uma deliciosa exceção. Do tipo: segunda-feira, volto à rotina e tchau. Com 40 anos, narro a aventura para meus filhos.”</p>
<p>Apenas umas 20 pessoas assistiram à estréia de Mallu. O resto do público se aglomerava em torno do bar. Entre os espectadores, destacava-se Lúcio Ribeiro, um influente colunista de música. “Fui ver o Vanguart”, diz. “Quando cheguei, Mallu já tocava. Só decidi prestar atenção porque notei que, em vez de covers, a menina cantava composições próprias e relativamente sofisticadas para alguém tão novo.” Pegou os contatos dela. No dia 14, redigiu um rápido texto que a apontava como uma das promessas de 2008. O Pop­load, blog do jornalista com aproximadamente 60 mil visitas por mês, veiculou a nota. Pronto: o pavio estava aceso. Num impressionante efeito dominó, Mallu tomaria a mídia de assalto. Figurou, primeiro, em outros blogs: Don’t Touch My Moleskine, de Daniela Arrais; Trabalho Sujo, de Alexandre Matias; e Vitrola, de Ronaldo Evangelista. Depois, migrou para uma reportagem do G1, o portal de notícias das Organizações Globo. Por fim, no dia 30, abocanhou a capa de dois cadernos culturais: o da Folha de S.Paulo e o do Jornal do Brasil. Àquela altura, o MySpace indicava que a página da garota superava os 70 mil acessos.</p>
<p>Os celulares de Mallu e Mané dispararam. Executivos de cinco gravadoras (Warner, EMI, Sony BMG, Universal e Deckdisck) rondavam a cantora. Emissoras de televisão pediam entrevistas. Casas noturnas solicitavam espetáculos.</p>
<p><strong>Um balãozinho<br />
</strong>Em fevereiro de 2008, o facilitador aceitou almoçar com Wagner Vianna, diretor artístico da Warner. Recrutou Mallu e aportaram num restaurante japonês. “Foi surreal, uma experiência divertidíssima”, relata Wagner. “Os moleques me inundaram de dúvidas sobre a indústria fonográfica e sugeriram uns projetos malucos.” Por exemplo: para imitar Juno, a teenager grávida do espirituoso filme que leva o nome da personagem, Mallu esconderia uma bexiga cheia de ar sob a camiseta e se apresentaria com um barrigão de nove meses. Loucuras à parte, o almoço assustou Mané: “Tive medo de me precipitar, de tomar decisões erradas”. A peripécia se tornara séria demais.</p>
<p>Ainda em fevereiro, o pai de Mallu — que até então monitorava tudo à distância — assumiu as rédeas da situação. Estudou os contratos das gravadoras e os recusou. “Se assinasse com qualquer uma, condenaria minha filha à escravidão. Os caras exigem que o artista entregue dez palácios e oferecem um alfinete em troca.” Disposto a administrar a carreira da menina sem se submeter “às cláusulas draconianas das corporações”, preferiu firmar uma sociedade com Rossatto, o publicitário que Mané conheceu no Tim Festival. Em março, os sócios venderam a canção &#8220;J1&#8243; para o comercial da Vivo. O dinheiro que embolsaram (não revelam cifras) viabilizou o disco independente de Mallu.</p>
<p>A ascensão repentina da cantora parece não angustiar Dudi. “Penso como meu pai: filhos são balõezinhos. A gente deve criá-los com imenso cuidado. Mas não pode esquecer que, uma hora, eles sobem, sobem, sobem, e escapam do nosso alcance.” Mallu ainda não escapou.</p>
<p><em>(revista Bravo!)</em></p>
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		<title>A madame do funk</title>
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		<pubDate>Mon, 01 May 2006 22:26:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Perfis]]></category>

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		<description><![CDATA[Num Brasil repleto de cisões, Deize Tigrona seduz os ricos e os modernos sem abandonar a favela. Mas será que os pancadões eróticos da ex-empregada doméstica realmente conseguirão diminuir a distância entre morro e asfalto? Em meados de março, num mesmo fim de semana, dois célebres moradores de Cidade de Deus, a favela do Rio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Num Brasil repleto de cisões, Deize Tigrona seduz os ricos e os modernos sem abandonar a favela. Mas será que os pancadões eróticos da ex-empregada doméstica realmente conseguirão diminuir a distância entre morro e asfalto?</strong></p>
<p><span id="more-641"></span>Em meados de março, num mesmo fim de semana, dois célebres moradores de Cidade de Deus, a favela do Rio de Janeiro que quase ganhou o Oscar, estavam sob os holofotes por razões contrárias. De um lado, o rapper MV Bill mais uma vez alertava o país para um pesadelo que tira o sono de todos, mas que ironicamente parece não acordar ninguém. Exibia, em três blocos do <em>Fantástico</em>, na Rede Globo, o documentário <em>Falcão — Meninos do Tráfico</em>, que ele próprio realizou (com Celso Athayde) e que mostra o quanto o comércio de drogas se alimenta do niilismo, dos impulsos e da energia infinita de crianças e adolescentes nas comunidades pobres brasileiras. Do outro lado, a ex-empregada doméstica Deize Tigrona, musa do funk carioca que se apresenta no Skol Beats, o megafestival paulistano de música eletrônica, surpreendia-se em “uma parada supermaneira”. Uma situação que lhe ecoava como “um sonho bom”.</p>
<p>“Poderosa”, circulava no topo da Daslu. Àquela noite de sábado, a meca do consumo classe AA — que ocupa um prédio de 20 mil metros quadrados, com ares neoclássicos, à beira da marginal Pinheiros, em São Paulo — iria abrigar uma festa de debutante. “Festa, não”, ressaltaria Deize três semanas depois. “Festaça! Sinistra! Um negócio de novela&#8230; De cinema! Tudo impecável: a comida, a bebida, a decoração, o som, as roupas dos convidados.” Nem em “casa de madame”, onde trabalhou dos 12 aos 25 anos, a funkeira, que hoje tem 26, viu sombra de tamanha prosperidade. Como nos tempos de doméstica, Deize encontrava-se entre os bacanas “para dar duro” (“conhece gente do gueto que freqüenta o luxo sem estar a serviço?”). Só que, agora, a dureza não lhe pesava. Era leve, muito leve (“trabalhinho tranqüilo, divertidaço; um sonho bom, não disse?”). A negra de corpo bonito e miúdo subira à cobertura da Daslu para cantar — não os raps politizados de MV Bill, mas uns pancadões repletos de escracho e imagens sexuais. A aniversariante, de finíssimo trato, desejava contaminar o magnífico salão de festas com um pouco do melhor que a favela produz. Nos dias que correm, pelo menos sob a ótica da menina, o melhor é Marcelo D2, MC Leozinho e Deize Tigrona. Nada mais lógico, então, que os contratasse.</p>
<p>Logo após a valsa habitual, os convidados — eles, de smoking; elas, de princesas — tiraram os elegantes sapatos e, sem qualquer hesitação, calçaram os pares de havaianas que receberam da anfitriã. Puderam, assim, curtir os shows dos três artistas com o desembaraço que a ocasião pedia. Às tantas, a mãe da aniversariante resolveu cumprimentar Deize, que se preparava para entrar no palco.</p>
<p>— A madame sabe quem eu sou?</p>
<p>— Sei.</p>
<p>— Sabe mesmo?</p>
<p>— Claro!</p>
<p>— Sabe o tipo de música que faço?</p>
<p>— Sim, sim.</p>
<p>— Sabe que tem palavrão?</p>
<p>— Evidente.</p>
<p>— Sabe que um dos meus sucessos diz: “Pára de palhaçada/ deixa de gracinha/ eu dou pra quem eu quiser”?</p>
<p>— Hum, hum.</p>
<p>— Pensei em abrir o show com esta. A madame se ofende?</p>
<p>— Relaxa, garota! Você veio aqui para isso.</p>
<p><strong>PEIXES GRANDES</strong><br />
De fato, Deize estava lá para aquilo. Ela, porém, ainda não compreende direito por quê. “Provavelmente não entenderei nunca.” Por que as rimas chulas, a coreografia libidinosa, o baticum em alto volume, as calças justíssimas, as camisetas piratas revelando barrigas morenas, os piercings vagabundos pendendo dos umbigos, coisas tão corriqueiras e admiradas na favela, subitamente passaram a seduzir os ricos? Por que, uma noite antes de agitar a Daslu, Deize animara outra festa de 15 anos, desta vez em pleno Jóquei Clube de São Paulo, também um reduto “de endinheirados”? O que o andar de cima enxerga agora na mulherzinha simples do andar de baixo, se a mulherzinha continua idêntica à época em que o andar de cima a menosprezava?</p>
<p>Espanta igualmente a funkeira a atenção que desperta entre “os modernos”. Que graça os habitués do Vegas, a descolada casa noturna paulistana onde se exibe com certa freqüência, vêem em hits populares como <em>Injeção</em> (“Injeção dói quando fura/ arranha quando entra./ Doutor, assim não dá/ minha poupança não agüenta”) ou <em>Miniatura de Lulu</em> (“Pelo que te conheço/ você não é grande coisa./ Seu lulu é tão pequeno/ que não roça nem as coxas”). Por que diabos apreciam <em>Tigrona</em>, a canção de 1997 que originou o apelido famoso de Deize Maria Gonçalves da Silva (“Eu sou a tigrona de barraca pronta/ e não vou te evitar./ Vem, vem, mano safado/ vem que eu te pego de jeito/ te deixo arriado’’)? E os curadores do Skol Beats? O que os motivou a incluir Deize num festival que levará para o Complexo do Anhembi nomes identificados com a renovação do pop, a exemplo do Prodigy e do LCD Soundsystem?</p>
<p>São, todas, questões que às vezes inquietam a cantora. Se ela mesma não consegue solucioná-las, o jornalista Silvio Essinger, autor do livro <em>Batidão — Uma História do Funk</em> (Record, 280 págs.), arrisca uma resposta: “O espaço que Deize cavou junto à elite faz parte de um movimento maior”. Desde que surgiu, em 1989, como um híbrido de outros gêneros minimalistas que tocavam nos morros e subúrbios (o electro funk, o rap e o Miami bass), o funk carioca atravessa períodos de flerte com os bem-nascidos. “Uma dessas ondas se formou por volta de 1994”, lembra Essinger. Foi quando Xuxa, que sempre adorou o pancadão, decidiu divulgá-lo. “Resultado: os jovens da zona sul correram para as baladas nas favelas.” A onda atual, avalia o jornalista, deve-se à bênção que o funk carioca tem recebido fora do país. “Inúmeros DJs e críticos estrangeiros, sobretudo nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Alemanha, o encaram como um braço criativo da música eletrônica. Tal legitimação deixa uma parcela da elite brasileira à vontade para olhá-lo de modo semelhante: menos como algo tosco, descartável, e mais como um produto de relevância cultural.”</p>
<p>Deize, que incendeia “os bailes de comunidade” desde os 18 anos, com certeza se beneficiou do fenômeno. Não à toa, estourou entre “os grã-finos” apenas em 2005, depois que o DJ norte-americano Diplo colou um trecho de <em>Injeção </em>num hit da rapper anglo-cingalesa M. I. A., <em>Bucky Done Gun</em>. “Mas outras personalidades do funk estão pegando a mesma onda, especialmente o DJ Marlboro e Tati Quebra-Barraco, que costumam se apresentar para públicos mais sofisticados”, acentua Essinger.</p>
<p>Graças à boa fase, Deize — cujo repertório soma 28 batidões — protagoniza uma média de cinco shows por semana, em diferentes pontos do Brasil. Logrou pescar “os peixes grandes” sem abrir mão “dos pequeninos”. Se hoje chacoalha numa boate nobre, amanhã rebola num ginásio de periferia. Seu cachê, que de início girava em torno dos R$ 300, agora pode atingir os R$ 10 mil. “Quer saber? Trato é de aproveitar&#8230; Pedem um show aqui? Eu faço. Pedem ali? Faço do mesmo jeito. Pagando direitinho, faço em qualquer lugar. Aliás, pagando direitinho, até volto a limpar o apartamento desses milionários todos.”</p>
<p><strong>BRÓCOLIS</strong><br />
Quinta-feira, dia 6 de abril. Passava um pouco das 14 horas quando a equipe de BRAVO! chegou à casa de Deize em Cidade de Deus, na zona oeste carioca. “Vamos entrando, vamos entrando”, insistiu Rafael Alves de Pinho, marido da cantora. “Não recomendo dar sopa no portão. A chapa anda meio quente. Ontem à noite, teve tiroteio nas redondezas: pá, pá, pá! Uma zoeira dos infernos.” Quem atirou em quem? “Difícil afirmar. A gen<br />
te não sai pela favela investigando&#8230;”</p>
<p>“Parrudiiiinho! Cadê o Parrudinho?” É o vira-lata da família. Estava na rua, dando sopa. “Entra também!” Na sala do sobrado ainda em construção, um Ursinho Puff, uma Branca de Neve e duas Belas Adormecidas enfeitavam um armário. Mais adiante, sobre o sofá novo, Joyce, de 3 anos, filha única do casal, obedecia aos apelos da avó materna, Laizi, que a visitava: “Feche a perninha, feche. Sente como as moças educadas”. No quarto da menina, um aviso, em letras coloridas: “Aqui dorme uma princesa”.</p>
<p>E a Tigrona, onde dorme? Onde afia as garras? Onde devora as caças? Afinal, nada naquele ambiente lembrava o universo frenético (e erotizado) do funk. “A Tigrona está logo ali, lavando a louça. Não morde, não. É uma gatinha&#8230;”, esclareceu Rafael, 32 anos, ex-motorista, ex-entregador de jornal, ex-cabo do Exército, ex-auxiliar de segurança, ex-motoboy e atual DJ da mulher. “Desculpe, não posso estender a mão&#8230; Molhada&#8230;”</p>
<p>De minissaia jeans e blusa cor-de-rosa, Deize preferiu conversar na própria cozinha. Mal falou de música. “Me amarro em lavar louça, imagina? Se dependesse de mim, não arredava o pé de casa. Ajeitava as roupas, tirava o pó, organizava a bagunça e, depois, novela! Amo vegetar em frente à televisão, sossegadona, igualzinho um brócolis.” Também gosta de família numerosa. “Já, já, arrumo um irmão para a Joyce. Eu mesma tenho oito: a Gabriela, a Viviane, a Ana Carolina, a Denise, o Alex, a Creide, o Kreiton e o Wilha.” Creide ou Cleide? Kreiton ou Kleiton? Wilha ou William? “Peraí&#8230; Mãããeee!!” Laizi, de 44 anos, largou a neta na sala e apareceu em socorro: “É Creide, Kreiton e Wilha. Qual a dúvida?”. Quando se afastou, Deize comentou: “Ela ainda trabalha de doméstica. Bebia demais, a coitada. Há cerca de um mês, parou. Ouviu os meus apelos. ‘Mãe, me sinto tão feliz&#8230; Minha vida finalmente mudou. Queria muito ajudar a senhora, mas de que maneira, se a senhora gasta cada centavo em bebida?’ Tanto martelei, tanto esperneei, que acabou me atendendo”. E como a ajuda? “Estou lhe botando os dentes. Uma alegria! Só me recordo dela sem dentes&#8230;”</p>
<p>Desfrutar a maré alta com prudência. Para Deize, eis o que realmente interessa. “O sucesso, o dinheiro, a bajulação da mídia, tudo evapora. O funk não vai passar nunca, mas o meu momento vai. Não sou louca de me iludir. Não vou comprar apartamentão na zona sul; lá o IPTU me destrói assim que o vento virar. Vou é terminar de construir minha casa em Cidade de Deus. Não vou comprar carro zero. Vou é arranjar um usado em boas condições. Por sinal, arranjei: um Gol 98, com quatro portas e IPVA magrinho.”</p>
<p><strong>GATO PRETO</strong><br />
Mãe Dinah, a vidente dos programas sensacionalistas da TV, andou prevendo que as estrelas do funk irão se acidentar. “Por causa dos palavrões e do erotismo”, explicou Deize. “Uma espécie de maldição, um castigo. Acho que não acredito.” Católica, a cantora cultiva “quatro ou cinco” superstições, que herdou de Laizi. “Não caminho debaixo de escada, não brinco com gato preto, não pego o sal da vizinha, não peço vassoura emprestada, se a chave cai do bolso piso logo em cima.” Mas superstição é uma coisa, dar trela para vidente é outra. “Dizem que o funk incentiva a baixaria, que faz as meninas engravidarem. Bobagem. Pelo que me consta, a mulherada da favela sempre engravidou à beça. Só minha mãe pariu nove filhos. Tia Regina pariu seis. Tia Eliane, uns três. Tia Cristina, mais três. Tia Fátima, seis. Prima Adriana, três. Prima Luciana, dois.”</p>
<p>Há quem julgue que Deize devia se envergonhar das letras que compõe. “Já senti vergonha, no começo. Depois, reconsiderei: se uma porção de pessoas pula e dança ao me ouvir, vou me envergonhar do quê?”</p>
<p>“Sabe da maior? Ela é tímida. E muito”, confidenciou Rafael, que acabara de chegar à cozinha. “A Tigrona não existe. É apenas um personagem, que aprendeu tudo com a televisão — com as novelas, os humoristas, os filmes nacionais, a Carla Perez.” “Tudo, vírgula”, corrigiu Deize. “Uma parte aprendi com o que vejo nas ruas. Outro tanto aprendi em casa de madame.” Sério? “Trabalhando de empregada, você pode estar coberta de razão, mas se a madame cisma&#8230; Ela vai jurar que você errou, que aprontou, e você precisa relevar. Precisa ter paciência. Quando escuto desaforos contra o funk, penso nos meus tempos de doméstica e me encho de paciência. Aprendi que, um dia, a verdade aparece. Um dia, todo mundo descobre quem é que está certo&#8230;”</p>
<p>(<em>revista Bravo!</em>)</p>
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