<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Armando Antenore Jornalismo &#187; Entrevistas</title>
	<atom:link href="http://www.armandoantenore.com.br/index.php/category/entrevistas/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.armandoantenore.com.br</link>
	<description>Blog das Perguntas e portflólio do jornalista Armando Antenore</description>
	<lastBuildDate>Thu, 17 May 2012 23:53:55 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.3.2</generator>
		<item>
		<title>Nelson Xavier: “A doença me trouxe a noção da finitude, e a arte, a da transcendência”</title>
		<link>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/nelson-xavier/</link>
		<comments>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/nelson-xavier/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 02 Mar 2011 02:07:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://armandoantenore.com.br/?p=4334</guid>
		<description><![CDATA[O ator Nelson Xavier, que volta a representar Chico Xavier no cinema, conta como a experiência de interpretar o médium o fez abandonar o ateísmo e apostar em um tratamento espiritual contra o câncer Em cinco horas de entrevista, Nelson Xavier chorou oito vezes – um choro que se manifestou sempre do mesmo jeito. Primeiro, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O ator Nelson Xavier, que volta a representar Chico Xavier no cinema, conta como a experiência de interpretar o médium o fez abandonar o ateísmo e apostar em um tratamento espiritual contra o câncer </strong></p>
<p><span id="more-4334"></span>Em cinco horas de entrevista, Nelson Xavier chorou oito vezes – um choro que se manifestou sempre do mesmo jeito. Primeiro, lhe embargava a voz e contraía fortemente o rosto. Depois de uns segundos, desembocava em poucas lágrimas e quase nenhum ruído. Nelson, então, interrompia o raciocínio. Deixava a onda passar, tirava os óculos, enxugava os olhos e prosseguia. A emoção despontava apenas quando o ator de 69 anos, outrora ateu, discorria sobre fé, Jesus Cristo ou o médium de Minas Gerais que emprestou o nome (e a biografia) a um dos sucessos cinematográficos de 2010.<br />
<em>Chico Xavier</em>, o filme, se baseia num livro-reportagem do jornalista Marcel Souto Maior e levou 3,4 milhões de espectadores às salas do país. Nelson interpretava o líder espírita, que viveu entre 1910 e 2002. Agora, volta a representá-lo no longa <em>As Mães de Chico Xavier</em>, inspirado em <em>Por Trás do Véu de Ísis</em>, outro livro-reportagem de Souto Maior. A produção, dirigida pelos cearenses Halder Gomes e Glauber Filho, narra a história de três mulheres que buscam estabelecer contato com mortos queridos. Do elenco, fazem parte Caio Blat, Vanessa Gerbelli e Tainá Müller. A estreia deve ocorrer em 1º de abril.<br />
De passagem por São Paulo, Nelson – que mora no Rio de Janeiro – recebeu <strong>BRAVO!</strong> para falar dos dois filmes. A seguir, um resumo da conversa.    </p>
<p><strong>BRAVO! – Você não teve receio de se repetir quando decidiu encenar Chico Xavier novamente? Ou de parecer oportunista por reeditar um personagem que alcançou tamanho sucesso há menos de um ano?<br />
</strong><strong>Nelson Xavier –</strong> Na verdade, relutei bastante até aceitar o convite. Tão logo me procuraram, pedi desculpas e recusei a proposta. Expliquei que não me sentiria confortável em interpretar o médium outra vez. Os dois pontos que você levanta me preocupavam. Temia o risco de ficar demasiadamente marcado pelo papel e, acima de tudo, não desejava me aproveitar do Chico, explorá-lo, usufruir em excesso do carisma e da imagem positiva dele. Mas, conversando melhor com os diretores do longa, percebi que havia espaço para tentar um caminho diferente, que não se tratava de reciclar uma fórmula já testada. O Chico de agora lembra apenas vagamente o que construí no trabalho anterior. Está bem mais idoso, mais alquebrado, quase trôpego. Encontra-se no fim da vida e precisa de amparo. Sem contar que não é o protagonista da trama, como ocorria antes.</p>
<p><strong>Em 1982, com a minissérie <em>Lampião e Maria Bonita</em>, da Rede Globo, você atraiu elogios do público e da crítica, que gostaram de vê-lo na pele do cangaceiro. Noto uma coincidência entre o que lhe aconteceu àquela época e o que se passa hoje: você ganhou destaque representando homens que realmente existiram, ainda que agissem de modo oposto – Lampião como o arauto da violência e Chico como o mensageiro da paz.<br />
</strong>De fato, ao longo de minha carreira, encenei apenas dois personagens não fictícios, justamente os que você menciona, e ambos cativaram os espectadores. Por quê? Talvez porque um e outro, apesar de muito desiguais, comungassem duas características admiráveis: ocuparam posições de liderança e ousaram levar às últimas consequências aquilo em que acreditavam. Curiosamente, demorei para me dar conta de tais similaridades. Quando resolvi interpretar o Lampião e o Chico, mal os conhecia.</p>
<p><strong>Li em diversas reportagens que sua mãe professava o espiritismo. Mesmo assim, você praticamente desconhecia o médium?<br />
</strong>Exato. Não lhe dava a menor bola. Tenho uma origem simples. Nasci na Vila Prudente <em>(bairro paulistano)</em> e sou filho único de um caiçara com uma jovem de ascendência italiana. Ele, que se sustentava retocando fotografias, costumava escrever poemas. Bom de lábia, dedicou versos à minha mãe – uma garota linda, sardentinha, de olhos claros – e a seduziu. Teve de se casar sob pressão, numa delegacia, após engravidá-la. O relacionamento, é óbvio, não vingou. Meu pai sumiu e deixou minha mãe sem dinheiro e com o fardo de educar sozinha uma criança ainda pequena. Nunca o vi. Mas lembro que, um dia, meu avô paterno, um mulato alto, magro, elegante, me raptou. Apareceu de repente e me carregou para Santos, no litoral, onde morava. Foi um drama! Minha mãe se desdobrou até conseguir me resgatar. De formação católica, ela abraçou o espiritismo depois de adulta, não sei dizer propriamente como. Só sei que, certa vez, participamos juntos de uma sessão. Ali, presenciei a materialização de um espírito. Não me esqueço do episódio. Estávamos no escuro quando avistei uma luzinha branca, uma fosforescência. Era a entidade que baixava e, pela boca do médium, pronunciava frases com uma voz sibilada. Embora menino, assisti à cena traquilamente, sem sobressaltos.</p>
<p><strong>Não gelou de medo?<br />
</strong>De jeito nenhum! Aproveitei a chance e perguntei uma porção de coisas para a alma que nos visitava. Sempre encarei naturalmente o universo dos espíritas. Por influência materna, não duvidava – e não duvido – daquilo tudo. Jamais me declarei incrédulo em relação à capacidade humana de dialogar com os mortos. Apenas achava uma perda de tempo me escorar no além. “Para quê?”, indagava à minha mãe. “Como os espíritos poderão nos ajudar? Não me interessa o mundo de lá. Interessa-me o daqui. Somos nós os únicos responsáveis por solucionar os problemas terrenos.” Já durante a infância e a adolescência, me opunha às crenças dela – o que a entristecia muitíssimo. Os conflitos se agravaram quando, à beira dos anos 60, ingressei no Teatro de Arena, em São Paulo, e iniciei a carreira de ator. O pessoal do grupo, sobretudo o Vianninha <em>(Oduvaldo Vianna Filho, dramaturgo)</em>, me deu alguns livros marxistas. Em poucos meses, os ideais do socialismo me conquistaram. Como tantos jovens daquele período, confiava que, cedo ou tarde, iríamos revolucionar o país e implantar um regime mais solidário, mais justo. Che Guevara e Fidel Castro se tornaram meus heróis. Numa turnê nacional com o Arena, descobri o Movimento de Cultura Popular (MCP) em Recife. O coletivo de intelectuais, estudantes e artistas se dedicava, entre outras atividades político-educativas, à alfabetização de adultos. A iniciativa logo me fascinou, e decidi me transferir para Pernambuco. Enquanto trabalhava no Movimento, promovendo seminários de dramaturgia e montando uma peça sobre um levante camponês <em>(Julgamento em Novo Sol)</em>, virei membro do Partido Comunista Brasileiro. Declarava-me ateu, claro, e mantinha distância cada vez maior das convicções espirituais de minha mãe. Por décadas, permaneci longe da seara religiosa. Até que, em 2004, caí num abismo horroroso&#8230;<br />
<strong><br />
Abismo?<br />
</strong>Sim, o chão se abriu sob meus pés. Recebi a notícia de um câncer na próstata. Sentia umas dores estranhas, consultei o urologista e&#8230; Fiquei atônito. Eu, com câncer?! Em razão de uma onipotência tola, um atrevimento absurdo, sempre me considerei imune às doenças graves e não realizava exames preventivos. Desde garoto, aliás, cultivava a certeza de que atingiria os 100 anos. Imagine, então, o que aquele diagnóstico significou. A finitude se impôs de maneira inequívoca. As perspectivas de cura pareciam remotas. “Nelson deve durar uns seis meses”, previu o urologista à minha mulher. Perdi o rumo. Só experimentara vertigem semelhante em março de 1964. Quando o governo de João Goulart se esfacelou, pensei que desmoronaria junto. O golpe militar me aniquilou. Bateu de frente com o MCP e triturou nossos sonhos de transformar a sociedade. Para me recuperar do baque, enfrentei nove anos de psicanálise. Hoje talvez soe esquisito comparar o impacto de uma doença séria à derrocada de um projeto coletivo. Mas, naquele momento, a vida da gente se confundia com o voluntariado. Tínhamos a utopia por horizonte e, não nego, um bocado de ingenuidade. Tanto que, em 1966 ou 1967, a ânsia de expulsar os milicos do poder me empurrou para situações patéticas. Uma ocasião, por exemplo, me flagrei treinando guerrilha num apartamento da zona sul carioca. Rastejava pelo carpete como se me encontrasse em plena selva. Foi meu único flerte com a luta armada&#8230;</p>
<p><strong>A descoberta do câncer o aproximou da religião?<br />
</strong>Mais ou menos. Tão logo soube do diagnóstico, comecei o tratamento alopático. Minha mulher <em>(a cantora Via Negromonte)</em>, adepta da meditação transcendental e da ioga tântrica, sugeria que aliássemos a terapia convencional às espirituais. Amigos e conhecidos assinavam embaixo. Eu resistia: “Por um tempão, me proclamei materialista e, agora que me vejo em apuros, vou pedir socorro à metafísica? É muita falta de caráter!” Uma hora, porém, entreguei os pontos. Busquei uma instituição filantrópica do Rio de Janeiro e me coloquei diante de um médium. Ele incorporava o espírito de um francês, que me inquiriu: “Você acredita em Cristo?” <em>(chora)</em> Respondi que sim, apesar de estar mentindo. Sempre admirei Cristo como personagem histórico, precursor das bandeiras socialistas de igualdade e solidariedade, mas não o enxergava como Filho de Deus. “Onde vou arranjar fé nessa altura do campeonato?”, perguntava-me em silêncio <em>(chora novamente)</em>. Dizendo-se médico, o francês me receitou um tratamento curto, que incluía uma cirurgia espiritual. Cumpri as orientações mesmo sem crer profundamente naquilo e voltei à rotina. Uns anos depois, recebi em casa <em>As Vidas de Chico Xavier</em>, a biografia redigida pelo Marcel Souto Maior. Eu não conhecia o autor. Ele, entretanto, me mandou o livro com um bilhete: “Se a história do Chico virar filme, gostaria que você o interpretasse”. Usou o condicional porque não existia, naquele instante, nenhum indício de que a publicação alcançaria as telas. Estimulado pelo bilhete, resolvi ler a reportagem e vivenciei um fenômeno intrigante. À medida que cruzava as páginas, me descobria inundado por uma emoção imensurável, que me fazia chorar, exatamente como acabou de acontecer. Sou um cara sensível, mas nunca provara nada tão intenso. Tudo que o livro narrava, em especial a infância de Chico, me comovia com uma força avassaladora.<br />
<strong><br />
Era uma sensação ruim?<br />
</strong>Pelo contrário! Era muito boa. O choro funcionava como uma catarse. A biografia me impressionou tanto que, mal pipocaram notinhas na imprensa sobre a adaptação cinematográfica, telefonei para o Daniel Filho, diretor do futuro <em>Chico Xavier</em>, e expressei o interesse de representar o protagonista. Quando ganhei o papel, decidi visitar Uberaba e Pedro Leopoldo, cidades de Minas Gerais onde o médium atuou. Pretendia conhecer seus parentes, colaboradores e amigos. Bastou iniciar o percurso e a tal emoção me fisgou de novo. Chorei durante a viagem inteira. Não podia ouvir relatos sobre o Chico ou tocar nos objetos dele que as lágrimas irrompiam. Veio, então, o primeiro dia de filmagem. Na hora em que enveredei pelo set, aquela emoção me invadiu outra vez. Respirei fundo e, de olhos cerrados, supliquei baixinho: “Não me abandone, por favor, mas também não me deixe perder o controle”. Fui atendido: terminei a cena sem chorar, ainda que hipersensibilizado. O mesmo se deu nos dias seguintes. Eu chegava às filmagens e negociava com a emoção. Costumava chamá-la de “ele”.</p>
<p><strong>Como assim? A emoção simbolizava alguém?</strong><br />
Não apenas simbolizava. Fui concluindo ao longo do processo que Chico de fato se manifestava por meio da emoção. Ele é quem a trazia. Tenho certeza! Em décadas de profissão, sempre utilizei um método de interpretação que deriva dos ensinamentos de Constantin Stanislavski <em>(ator e pedagogo russo, morto há 73 anos)</em>: garimpo dentro de mim as emoções que caracterizam os personagens e as empresto a eles. No caso do Chico, aconteceu o oposto. Eu não procurei a emoção interiormente. A emoção brotou de fora e me contaminou. O fenômeno se passou tanto nas filmagens do primeiro longa quanto nas do segundo, embora com menos intensidade.</p>
<p><strong>Você está contando que viveu uma espécie de transe?<br />
</strong>Não, não houve transe. Não perdi a consciência nem recebi o espírito do Chico. Não sou médium. O que contei é que a emoção partiu do Chico. Ele, surpreendentemente, a entregou para mim. O motivo? Não sei. Talvez desejasse me ver no papel&#8230; Quando li a biografia dele e visitei as cidades de Minas, me deparei com um santo, um sujeito que exerceu o altruísmo de maneira extraordinária. “Amai-vos uns aos outros.” O Chico amou, compreende? Ele amou! <em>(chora)</em> Pôs em prática as lições de Cristo e, involuntariamente, os preceitos mais nobres do socialismo. Provou que a fraternidade é possível e que não precisamos recorrer à violência para semear um mundo menos desigual. Propôs uma revolução pacífica. Conseguiu mostrar que pode existir uma síntese entre as crenças de minha mãe e tudo que busquei no Arena, no MCP, no Partido Comunista&#8230; <em>(chora)<br />
</em><br />
<strong>Você se tornou espírita depois do primeiro filme?<br />
</strong>Prefiro afirmar que me espiritualizei. Continuo socialista, mas passei a crer numa força sobrenatural. Só não declaro que acredito em Deus porque a palavra Deus é muito gasta. Recentemente, aderi à meditação e, sem abdicar das terapêuticas convencionais, retomei o tratamento alternativo contra o câncer, agora com uma médium. A doença está sob controle, de tal modo que, numa das sessões, os espíritos me confirmaram: atingirei, sim, os 100 anos. Se tivesse que resumir nossa prolongada conversa, diria: o câncer me trouxe a ideia da finitude e a arte me presenteou com o Chico. Ou melhor: me deu a noção da transcendência.</p>
<p><a class="a2a_dd a2a_target addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save#url=http%3A%2F%2Fwww.armandoantenore.com.br%2Findex.php%2Fentrevistas%2Fnelson-xavier%2F&amp;title=Nelson%20Xavier%3A%20%E2%80%9CA%20doen%C3%A7a%20me%20trouxe%20a%20no%C3%A7%C3%A3o%20da%20finitude%2C%20e%20a%20arte%2C%20a%20da%20transcend%C3%AAncia%E2%80%9D" id="wpa2a_2">Compartilhar</a></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/nelson-xavier/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Luiz Schwarcz: &quot;Sou um editor severo demais comigo&quot;</title>
		<link>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/luiz-schwarcz-sou-um-editor-severo-demais-comigo/</link>
		<comments>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/luiz-schwarcz-sou-um-editor-severo-demais-comigo/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 01 Jan 2011 21:17:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://armandoantenore.com.br/?p=3798</guid>
		<description><![CDATA[O fundador e dono da Companhia das Letras, uma das principais editoras brasileiras, tenta escrever romances desde a década de 1990 sem sucesso. O que o atrapalha? &#8220;Aconteceu de novo. Era para ser mais, era para ser outro, era para ser romance, não é.” As cinco frases abrem o posfácio de Linguagem de Sinais, quarto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O fundador e dono da Companhia das Letras, uma das principais editoras brasileiras, tenta escrever romances desde a década de 1990 sem sucesso. O que o atrapalha?</strong></p>
<p><span id="more-3798"></span></p>
<p>&#8220;Aconteceu de novo. Era para ser mais, era para ser outro, era para ser romance, não é.” As cinco frases abrem o posfácio de <em>Linguagem de Sinais</em>, quarto livro do paulistano Luiz Schwarcz. Ele acaba de lançá-lo pela Companhia das Letras, editora que fundou em 1986 e comanda desde então. A coletânea reúne 11 contos, a maioria breves. Dos 11, seis derivam de um romance com 120 páginas que Luiz escreveu e, depois, rejeitou. Seus próprios funcionários avaliaram que a narrativa não se sustentava.<br />
O editor de 54 anos experimentou algo parecido enquanto gestava o livro anterior. Publicado em 2005, <em>Discurso sobre o Capim</em> também agrega 11 contos e nasceu de um romance que não vingou. Luiz enfrentava uma depressão grave na época. Por isso, redigiu as 100 páginas da trama natimorta sob efeito de antidepressivos e outros remédios. Mostrou-as para a mulher, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, que delicadamente o fez abdicar do trabalho. Somente 22 linhas do texto original sobreviveram. Estão em <em>Livro de Memórias</em>, um dos contos de <em>Discurso sobre o Capim</em>. O resto amargou a lixeira do computador.<br />
Mesmo a primeira cria de Luiz – <em>Minha Vida de Goleiro</em>, relato autobiográfico de 1999, que tem como público-alvo as crianças e os adolescentes – aproveitou o mote de um romance frustrado. Apenas o segundo livro do autor, <em>Em Busca do Thesouro da Juventude</em>, nunca almejou status diferente do que possui. É uma novela infantojuvenil e ponto final. Numa manhã de dezembro, Luiz recebeu a revista para um bate-papo de 90 minutos em São Paulo.</p>
<p><strong>BRAVO!:  Por que o desejo de escrever romances?<br />
Luiz Schwarcz: </strong>Fetiche, talvez. Certamente não pertenço à turma dos que julgam o romance um gênero superior. Em contrapartida, não ouso negar que há uma fantasia em torno dele. Alguns jornalistas que elogiaram <em>Linguagem de Sinais</em> lançaram indagações do tipo: “E agora, quando vai sair o romance do Luiz?” Amigos escritores, como Milton Hatoum, reiteraram a pergunta. O fetiche, portanto, não é só meu. Existe uma cobrança de fora também. O romance vira quase uma obrigação para quem pretende abraçar a carreira literária.</p>
<p> <strong>E por que você ainda não publicou um?<br />
</strong>Tempos atrás, o Rodrigo Naves <em>(crítico de arte e contista)</em> me falou que “nós dois” – ele se incluiu gentilmente na afirmação – nos damos melhor com narrativas curtas. Deve ser verdade… No fundo, tenho muita insegurança. A ânsia de me tornar romancista ou mesmo de seguir produzindo contos briga ininterruptamente contra um superego bastante rigoroso, um editor severo demais que não se cansa de sussurrar: “Você já é um ótimo leitor. Para que teimar em escrever?” Não por acaso, sempre que me aventuro pelo romance, entro numa montanha-russa: ora me ponho lá em cima, pensando que criei algo de qualidade, ora vou lá para baixo e detesto cada uma das palavras que, antes, me soavam boas. Na Companhia das Letras, publico uma porção de romancistas brilhantes, um pessoal de primeiríssimo time. Impossível não me comparar e não reconhecer o quanto sou menor. Dos quatro títulos que assinei, me orgulho apenas do <em>Minha Vida de Goleiro</em>, um livrinho de memórias.Os outros três, ficcionais, me desagradam consideravelmente. Sinto que carecem de imaginação. No fim das contas, são também livros de memórias, embora disfarçados. Pecam por não fugirem de minha biografia – do meu temperamento retraído, das minhas recordações de criança, do meu universo familiar. Quando os menciono em e-mails para amigos, costumo chamá-los de <em>pobrecitos</em>. É como se os enxergasse à semelhança dos personagens que os habitam: pequeninos, meio alheios, meio quietos, incapazes de se comunicar plenamente.</p>
<p><strong>Escrever lhe traz mais sofrimento do que alegria?<br />
</strong>Depende. Sentia um imenso prazer à medida que elaborava os dois livros infantojuvenis. Já os de contos me atormentaram um bocado. Em geral, após finalizar as primeiras versões das histórias, as corrigia durante meses ou anos. Era um processo exaustivo e doloroso. Acho que, por apreciar o silêncio em meu dia a dia, acabo buscandoobsessivamente a concisão na literatura – as frases enxutas, limpas, que reforçam a expressividade do vazio. Daí reescrever tudo milhares de vezes e executar uma quantidade absurda de cortes.</p>
<p><strong><em>Linguagem de Sinais</em> seria originalmente um romance sobre o quê?<br />
</strong>A ideia surgiu dentro de um avião. O voo iria para Lisboa e atrasou por causa de um passageiro com Alzheimer que, antes da decolagem, reivindicava descer na cidade portuguesa de Faro sem fazer escala na capital do país. Mal percebeu que a aeronave não cumpriria aquele trajeto, o pobre homem armou um escarcéu. Ironicamente, enquanto a tripulação e o senhor negociavam, um dos pilotos sofreu um ataque cardíaco e só não morreu porque o avião continuava em terra. O caso me impressionou de tal maneira que decidi aproveitá-lo num romance. A trama misturaria personagens inventados com alguns reais, como o velhinho e o marinheiro escocês Alexander Selkirk, que inspirou o clássico <em>Robinson Crusoé</em>, de Daniel Defoe. Em três anos, redigi 120 páginas. Ao terminar o périplo, cogitei mandar o texto, sob pseudônimo, para a análise de editoras concorrentes. Imaginava que, assim, colheria avaliações isentas. No entanto, logo abandonei a estratégia e submeti a narrativa à opinião de seis profissionais da Companhia. Quatro a rejeitaram. Com razão: o romance, notei mais tarde, tinha como ponto fraco justamente aquilo que deveria distingui-lo, o diálogo entre ficção e não-ficção. Foi uma experiência difícil inverter os papéis e me flagrar na pele de um autor recusado. Restou-me, então, transformar parte do enredo em contos e arriscar uns novos. Dediquei dois anos à missão, até que <em>Linguagem de Sinais</em> finalmente veio a público.</p>
<p><strong>Você escreve desde garoto?<br />
</strong>Não, o ímpeto de escrever apareceu somente na maturidade, como uma reação extemporânea à trajetória penosa de minha família. Possuíamos uma gráfica em São Paulo, onde meu pai √– um judeu húngaro muito calado – trabalhava. Ele não gostava de relembrar o que lhe ocorreu na juventude, durante a Segunda Guerra. Relatou o episódio apenas uma vez. Eu, filho único, beirava os 17 anos quando ouvi a trágica revelação: meu pai escapara da morte graças à ousadia de seu próprio pai. Capturados pelos nazistas, os dois se viram num trem lotado que os levaria a um campo de concentração. Às tantas, a locomotiva parou por uns minutos. Meu avô descobriu uma fresta na porta do vagão e atirou meu pai para fora. Nunca mais o encontrou. Na década de 1990, tomei coragem para visitar o prédio de Budapeste em que ambos viveram. Assim que adentrei o pequeno quintal do edifício, chorei convulsivamente. E resolvi, ainda em lágrimas, escrever um romance sobre uma criança que desconhecia as origens paternas. Tive o lampejo ali, na Hungria, mas não esbocei nem sequer um parágrafo. Passaram-se alguns anos e meus pais, idosos, protagonizaram uma discussão seriíssima. Pediram-me para mediá-la – tarefa que, aliás, me cabia desde a infância. Provavelmente, escolhi minha profissão também por força das habilidades diplomáticas que desenvolvi em nossa tumultuada casa. Um editor, afinal, nada mais é do que um mediador, o intermediário entre dois momentos de solidão: o do escritor e o do leitor. Naquela manhã, porém, deixei o apartamento de meus pais arrasado, pois não conseguira apaziguá-los. À tarde, sem nenhum planejamento, iniciei a narrativa que vislumbrara em Budapeste. Só que, no lugar de uma ficção, saiu <em>Minha Vida de Goleiro</em>, que recupera tanto o percurso de meu pai quanto o de meus antepassados maternos, sempre sob o prisma ingênuo e otimista de um menino chamado Luiz.</p>
<p><strong>Qual o próximo romance que você tentará escrever?<br />
</strong>Sei lá. Tenho a impressão de que não tentarei mais, de que aceitei enfim os meus limites. Quero apenas prosseguir com os textos breves, especialmente com os <em>posts</em> autobiográficos que coloco no blog da Companhia e que, uma hora, reunirei em livro. Mas é claro que não descarto mudar de ideia se, de repente, avistar outro velhinho amalucado durante um voo intercontinental…</p>
<p><a class="a2a_dd a2a_target addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save#url=http%3A%2F%2Fwww.armandoantenore.com.br%2Findex.php%2Fentrevistas%2Fluiz-schwarcz-sou-um-editor-severo-demais-comigo%2F&amp;title=Luiz%20Schwarcz%3A%20%26quot%3BSou%20um%20editor%20severo%20demais%20comigo%26quot%3B" id="wpa2a_4">Compartilhar</a></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/luiz-schwarcz-sou-um-editor-severo-demais-comigo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Luiz Schwarcz: &#8220;Sou um editor severo demais comigo&#8221;</title>
		<link>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/luiz-schwarcz-sou-um-editor-severo-demais-comigo-2/</link>
		<comments>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/luiz-schwarcz-sou-um-editor-severo-demais-comigo-2/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 01 Jan 2011 21:17:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://armandoantenore.com.br/?p=3798</guid>
		<description><![CDATA[O fundador e dono da Companhia das Letras, uma das principais editoras brasileiras, tenta escrever romances desde a década de 1990 sem sucesso. O que o atrapalha? &#8220;Aconteceu de novo. Era para ser mais, era para ser outro, era para ser romance, não é.” As cinco frases abrem o posfácio de Linguagem de Sinais, quarto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O fundador e dono da Companhia das Letras, uma das principais editoras brasileiras, tenta escrever romances desde a década de 1990 sem sucesso. O que o atrapalha?</strong></p>
<p><span id="more-7018"></span></p>
<p>&#8220;Aconteceu de novo. Era para ser mais, era para ser outro, era para ser romance, não é.” As cinco frases abrem o posfácio de <em>Linguagem de Sinais</em>, quarto livro do paulistano Luiz Schwarcz. Ele acaba de lançá-lo pela Companhia das Letras, editora que fundou em 1986 e comanda desde então. A coletânea reúne 11 contos, a maioria breves. Dos 11, seis derivam de um romance com 120 páginas que Luiz escreveu e, depois, rejeitou. Seus próprios funcionários avaliaram que a narrativa não se sustentava.<br />
O editor de 54 anos experimentou algo parecido enquanto gestava o livro anterior. Publicado em 2005, <em>Discurso sobre o Capim</em> também agrega 11 contos e nasceu de um romance que não vingou. Luiz enfrentava uma depressão grave na época. Por isso, redigiu as 100 páginas da trama natimorta sob efeito de antidepressivos e outros remédios. Mostrou-as para a mulher, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, que delicadamente o fez abdicar do trabalho. Somente 22 linhas do texto original sobreviveram. Estão em <em>Livro de Memórias</em>, um dos contos de <em>Discurso sobre o Capim</em>. O resto amargou a lixeira do computador.<br />
Mesmo a primeira cria de Luiz – <em>Minha Vida de Goleiro</em>, relato autobiográfico de 1999, que tem como público-alvo as crianças e os adolescentes – aproveitou o mote de um romance frustrado. Apenas o segundo livro do autor, <em>Em Busca do Thesouro da Juventude</em>, nunca almejou status diferente do que possui. É uma novela infantojuvenil e ponto final. Numa manhã de dezembro, Luiz recebeu a revista para um bate-papo de 90 minutos em São Paulo.</p>
<p><strong>BRAVO!:  Por que o desejo de escrever romances?<br />
Luiz Schwarcz: </strong>Fetiche, talvez. Certamente não pertenço à turma dos que julgam o romance um gênero superior. Em contrapartida, não ouso negar que há uma fantasia em torno dele. Alguns jornalistas que elogiaram <em>Linguagem de Sinais</em> lançaram indagações do tipo: “E agora, quando vai sair o romance do Luiz?” Amigos escritores, como Milton Hatoum, reiteraram a pergunta. O fetiche, portanto, não é só meu. Existe uma cobrança de fora também. O romance vira quase uma obrigação para quem pretende abraçar a carreira literária.</p>
<p> <strong>E por que você ainda não publicou um?<br />
</strong>Tempos atrás, o Rodrigo Naves <em>(crítico de arte e contista)</em> me falou que “nós dois” – ele se incluiu gentilmente na afirmação – nos damos melhor com narrativas curtas. Deve ser verdade… No fundo, tenho muita insegurança. A ânsia de me tornar romancista ou mesmo de seguir produzindo contos briga ininterruptamente contra um superego bastante rigoroso, um editor severo demais que não se cansa de sussurrar: “Você já é um ótimo leitor. Para que teimar em escrever?” Não por acaso, sempre que me aventuro pelo romance, entro numa montanha-russa: ora me ponho lá em cima, pensando que criei algo de qualidade, ora vou lá para baixo e detesto cada uma das palavras que, antes, me soavam boas. Na Companhia das Letras, publico uma porção de romancistas brilhantes, um pessoal de primeiríssimo time. Impossível não me comparar e não reconhecer o quanto sou menor. Dos quatro títulos que assinei, me orgulho apenas do <em>Minha Vida de Goleiro</em>, um livrinho de memórias.Os outros três, ficcionais, me desagradam consideravelmente. Sinto que carecem de imaginação. No fim das contas, são também livros de memórias, embora disfarçados. Pecam por não fugirem de minha biografia – do meu temperamento retraído, das minhas recordações de criança, do meu universo familiar. Quando os menciono em e-mails para amigos, costumo chamá-los de <em>pobrecitos</em>. É como se os enxergasse à semelhança dos personagens que os habitam: pequeninos, meio alheios, meio quietos, incapazes de se comunicar plenamente.</p>
<p><strong>Escrever lhe traz mais sofrimento do que alegria?<br />
</strong>Depende. Sentia um imenso prazer à medida que elaborava os dois livros infantojuvenis. Já os de contos me atormentaram um bocado. Em geral, após finalizar as primeiras versões das histórias, as corrigia durante meses ou anos. Era um processo exaustivo e doloroso. Acho que, por apreciar o silêncio em meu dia a dia, acabo buscandoobsessivamente a concisão na literatura – as frases enxutas, limpas, que reforçam a expressividade do vazio. Daí reescrever tudo milhares de vezes e executar uma quantidade absurda de cortes.</p>
<p><strong><em>Linguagem de Sinais</em> seria originalmente um romance sobre o quê?<br />
</strong>A ideia surgiu dentro de um avião. O voo iria para Lisboa e atrasou por causa de um passageiro com Alzheimer que, antes da decolagem, reivindicava descer na cidade portuguesa de Faro sem fazer escala na capital do país. Mal percebeu que a aeronave não cumpriria aquele trajeto, o pobre homem armou um escarcéu. Ironicamente, enquanto a tripulação e o senhor negociavam, um dos pilotos sofreu um ataque cardíaco e só não morreu porque o avião continuava em terra. O caso me impressionou de tal maneira que decidi aproveitá-lo num romance. A trama misturaria personagens inventados com alguns reais, como o velhinho e o marinheiro escocês Alexander Selkirk, que inspirou o clássico <em>Robinson Crusoé</em>, de Daniel Defoe. Em três anos, redigi 120 páginas. Ao terminar o périplo, cogitei mandar o texto, sob pseudônimo, para a análise de editoras concorrentes. Imaginava que, assim, colheria avaliações isentas. No entanto, logo abandonei a estratégia e submeti a narrativa à opinião de seis profissionais da Companhia. Quatro a rejeitaram. Com razão: o romance, notei mais tarde, tinha como ponto fraco justamente aquilo que deveria distingui-lo, o diálogo entre ficção e não-ficção. Foi uma experiência difícil inverter os papéis e me flagrar na pele de um autor recusado. Restou-me, então, transformar parte do enredo em contos e arriscar uns novos. Dediquei dois anos à missão, até que <em>Linguagem de Sinais</em> finalmente veio a público.</p>
<p><strong>Você escreve desde garoto?<br />
</strong>Não, o ímpeto de escrever apareceu somente na maturidade, como uma reação extemporânea à trajetória penosa de minha família. Possuíamos uma gráfica em São Paulo, onde meu pai √– um judeu húngaro muito calado – trabalhava. Ele não gostava de relembrar o que lhe ocorreu na juventude, durante a Segunda Guerra. Relatou o episódio apenas uma vez. Eu, filho único, beirava os 17 anos quando ouvi a trágica revelação: meu pai escapara da morte graças à ousadia de seu próprio pai. Capturados pelos nazistas, os dois se viram num trem lotado que os levaria a um campo de concentração. Às tantas, a locomotiva parou por uns minutos. Meu avô descobriu uma fresta na porta do vagão e atirou meu pai para fora. Nunca mais o encontrou. Na década de 1990, tomei coragem para visitar o prédio de Budapeste em que ambos viveram. Assim que adentrei o pequeno quintal do edifício, chorei convulsivamente. E resolvi, ainda em lágrimas, escrever um romance sobre uma criança que desconhecia as origens paternas. Tive o lampejo ali, na Hungria, mas não esbocei nem sequer um parágrafo. Passaram-se alguns anos e meus pais, idosos, protagonizaram uma discussão seriíssima. Pediram-me para mediá-la – tarefa que, aliás, me cabia desde a infância. Provavelmente, escolhi minha profissão também por força das habilidades diplomáticas que desenvolvi em nossa tumultuada casa. Um editor, afinal, nada mais é do que um mediador, o intermediário entre dois momentos de solidão: o do escritor e o do leitor. Naquela manhã, porém, deixei o apartamento de meus pais arrasado, pois não conseguira apaziguá-los. À tarde, sem nenhum planejamento, iniciei a narrativa que vislumbrara em Budapeste. Só que, no lugar de uma ficção, saiu <em>Minha Vida de Goleiro</em>, que recupera tanto o percurso de meu pai quanto o de meus antepassados maternos, sempre sob o prisma ingênuo e otimista de um menino chamado Luiz.</p>
<p><strong>Qual o próximo romance que você tentará escrever?<br />
</strong>Sei lá. Tenho a impressão de que não tentarei mais, de que aceitei enfim os meus limites. Quero apenas prosseguir com os textos breves, especialmente com os <em>posts</em> autobiográficos que coloco no blog da Companhia e que, uma hora, reunirei em livro. Mas é claro que não descarto mudar de ideia se, de repente, avistar outro velhinho amalucado durante um voo intercontinental…</p>
<p><a class="a2a_dd a2a_target addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save#url=http%3A%2F%2Fwww.armandoantenore.com.br%2Findex.php%2Fentrevistas%2Fluiz-schwarcz-sou-um-editor-severo-demais-comigo-2%2F&amp;title=Luiz%20Schwarcz%3A%20%26%238220%3BSou%20um%20editor%20severo%20demais%20comigo%26%238221%3B" id="wpa2a_6">Compartilhar</a></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/luiz-schwarcz-sou-um-editor-severo-demais-comigo-2/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Laerte: &quot;Tenho vergonha de quase tudo que desenhei&quot;</title>
		<link>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/laerte-tenho-vergonha-de-quase-tudo-que-desenhei/</link>
		<comments>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/laerte-tenho-vergonha-de-quase-tudo-que-desenhei/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 01 Sep 2010 22:03:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://armandoantenore.com.br/?p=2932</guid>
		<description><![CDATA[O cartunista, com 40 anos de carreira e 59 de idade, lança Muchacha, coletânea de quadrinhos sobre os bastidores de uma série televisiva. No livro, um dos personagens, Djalma, se veste de mulher  — comportamento que o próprio ilustrador vem adotando  desde 2009 como reflexo de uma crise pessoal e  profissional Passava das 14h30 de uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O cartunista, com 40 anos de carreira e 59 de idade, lança <em>Muchacha</em>, coletânea de quadrinhos sobre os bastidores de uma série televisiva. No livro, um dos personagens, Djalma, se veste de mulher  — comportamento que o próprio ilustrador vem adotando  desde 2009 como reflexo de uma crise pessoal e  profissional</strong></p>
<p><span id="more-2932"></span><strong></strong></p>
<p>Passava das 14h30 de uma quarta-feira e Laerte Coutinho ainda não chegara à entrevista. Eu o aguardava numa padaria da Vila Madalena, bairro notívago de São Paulo. O cartunista de 59 anos, que está completando quatro décadas de uma carreira elogiadíssima, deveria aparecer 30 minutos antes. Como não dava as caras, resolvi lhe telefonar. “Putz, rapaz! Me esqueci de você!”, constatou, aflito. Saiu correndo do Butantã, onde mora num sobrado com dois gatos, e adentrou a padaria às 15h20. Exibia vistosos brincos de pérolas e um corte de cabelo chanel.<br />
Apenas no fim da conversa, que durou quase três horas, esclareceu o motivo do visual peculiar: desde 2009, como resultado de uma profunda crise, mantém o hábito de se vestir de mulher, total ou parcialmente. A prática também pontua o livro <em>Muchacha</em>, que o desenhista paulistano acaba de lançar. A coletânea reúne quadrinhos publicados no jornal <em>Folha de S.Paulo</em> e retrata os bastidores de uma série televisiva dos anos 50. Um dos personagens, o ator gay Djalma, protagoniza espetáculos musicais sob a pele de uma transexual cubana.</p>
<p><strong>BRAVO!: Você costuma esquecer compromissos?<br />
Laerte Coutinho:</strong> Não, não costumo. É verdade que, às vezes, me desligo um pouco da Terra e vou para o mundo da Lua. Mas, em geral, me julgo um camarada bem responsável.</p>
<p><strong>Então por que você se esqueceu do nosso encontro? Tem ideia?<br />
</strong>Sinceramente? Freud explica. Freud sempre explica. Na realidade, não queria dar entrevista. Estou me obrigando… Atravesso um período nebuloso, sabe? Uma crise gigantesca, tanto pessoal como profissionalmente. Não ando satisfeito com minhas criações e não imagino um modo de torná-las satisfatórias no curto ou no médio prazo. Talvez nem mesmo no longo. Uma sinuca de bico… Falar sobre minhas ilustrações, meus cartuns e minhas tiras neste momento me incomoda muito. É reivindicar importância para algo que já não avalio como tão relevante. Hoje não acredito que possa despertar o interesse de alguém. Sinto vergonha de quase tudo o que produzi em 40 anos de carreira. Gostaria de consertar a maioria das coisas.</p>
<p><strong>Vergonha? A palavra me soa forte demais, entre outras razões, porque você ganhou inúmeros prêmios e porque diversos cartunistas, incluindo os jovens, frequentemente o classificam de genial.<br />
</strong>O problema é que não me convenço. (<em>risos</em>) Genial? Considerava-me gênio quando adolescente. “Uma hora o mundo vai me descobrir”, pensava, enquanto rabiscava carros, barcos, guerreiros. Tremenda bobagem… Claro que enxergo qualidades no que fiz e no que faço. Longe de mim bancar o coitadinho ou apelar para a falsa modéstia. Só que tais qualidades não chegam nem perto das que me atribuem. Eu não me contrataria. <em>(risos)</em> Na década de 1980, por exemplo, participei do Festival Internacional de Quadrinhos em Angoulême <em>(sudoeste da França)</em>. Fui representar o Brasil com o Ziraldo e mais alguns colegas. Assim que desembarquei na cidade, bateu um desconforto horrível. Tive ímpetos de cavar um buraco e sumir. Os franceses, que publicam HQs sofisticadérrimas, maravilhosas, simplesmente nos desprezaram — ainda que de maneira diplomática. Eles examinavam as nossas produções, arrebitavam o nariz e comentavam: “Curioso, curioso…” Aquilo me pareceu uma baita injustiça contra o Ziraldo e o resto da turma, mas não em relação às charges que levei para lá. Confesso que adoraria adorar a minha profissão. Adoraria ser como o Angeli, que desenha com um amor imenso. Ou como o Robert Crumb, que desenha compulsivamente. Ou como o Paulo Caruso, que desenha com uma facilidade assombrosa.  </p>
<p><strong>Você não vê mais graça em desenhar?<br />
</strong>Praticamente não vejo. Desenhar se tornou penoso, difícil. Mal começo um trabalho, percebo que estou me dedicando àquela tarefa apenas porque necessito cumprir prazos ou pelo simples fato de que já a incorporei no meu cotidiano. Fugir da burocracia virou o xis da questão. Descobrir rumos novos, prazeres diferentes… Há tardes em que travo e fico horas sem arriscar um mísero esboço, inteiramente refém da autocrítica. Não me agradam os motes que escolho para as tirinhas, o desenvolvimento das tramas, a redação dos textos, o jeito como lido com as cores, a plasticidade do meu traço. Por outro lado, também não me agrada a perspectiva de largar tudo e me refugiar numa ilha deserta, folgadão. Não pretendo me aposentar. O que desejo é me reinventar.</p>
<p><strong>Quando a crise eclodiu?<br />
</strong>As primeiras insatisfações surgiram em 2001 ou 2002, no vácuo de uma tempestade maior que causara o fim do meu terceiro e último casamento. Pouco depois, em 2004, o incômodo cresceu e resolvi abdicar de vários elementos que marcavam minha trajetória. Abandonei personagens famosos, como o Overman, os Gatos e os Piratas do Tietê, certo tipo de humor, menos sutil, e a preocupação com a linearidade das histórias. Iniciei, ali, uma fase mais “filosófica”, que muitos intitulam de <em>nonsense</em> e que ainda me caracteriza. Uma parcela dos jornais que divulgavam os meus quadrinhos estranhou a reviravolta e acabou me dispensando — caso do gaúcho <em>Zero Hora</em> e do capixaba <em>A Tribuna</em>. Reclamavam de um hermetismo excessivo, de uma obscuridade que atrapalharia a fruição do público. Evidente que não concordo. Rejeito, inclusive, o adjetivo <em>nonsense</em> para definir o meu trabalho. <em>Nonsense </em>pressupõe o caos, a ausência total de significado. Ocorre que minhas tiras buscam, sim, um sentido — mesmo que seja o de aplicar um golpe na lógica, o de implodir o senso comum. Discussões semânticas à parte, noto que a trilha inaugurada em 2004 vai se fechando. Preciso, no fundo, me reconectar com o adolescente atrevido que, 45 anos atrás, ingressou num curso livre de desenho e pintura doido para se expressar. Preciso reencontrar a chave daquela inquietação, daquele frescor, daquela ousadia.</p>
<p><strong>Envelhecer o deprime?<br />
</strong>Não, mas me assusta. Nunca almejei a longevidade e sempre achei que morreria cedo. Por isso, não me angustio quando lembro que completarei 60 anos em 2011. Penso que dei sorte, que estou no lucro. <em>(risos)</em> O que me espanta é a rapidez do tempo — a ligeireza com que os dias voam depois que passamos dos 40. Uma rapidez estonteante, que se associa à falta de produtividade. Para um garoto, 12 meses fazem uma diferença brutal. Quantas coisas se modificam num intervalo tão pequeno! Já para um cinquentão, 12 meses normalmente não representam nada. Tudo permanece idêntico.</p>
<p><strong>Recém-lançada, a coletânea </strong><strong><em>Muchacha</em></strong><strong> leva o nome da cantora e dançarina que o ator gay Djalma interpreta na trama. Ele se traveste. Você, à semelhança de Djalma, está usando brincos e um corte de cabelo bem femininos. Também aprecia o guarda-roupa das mulheres?<br />
</strong>Também. É uma descoberta nova, uma predileção que se insinua há séculos, mas que se manifestou com todas as letras apenas em 2009. Cinco anos antes, um dos meus personagens, o Hugo <em>(veja acima)</em>, decidiu “se montar”. Não sei exatamente por quê. Só sei que, de uma hora para outra, arranjou vestido, batom, salto alto e se jogou no mundo. Desde que nasceu, o Hugo se porta como um alter ego do Laerte. Ele costuma assumir nos quadrinhos grilos e desejos que se confundem com os meus. O fato de imitar o visual das mulheres certamente denunciava algo sobre mim — sobre ambições que eu me negava a explorar às claras. Foi quando recebi o e-mail de uma arquiteta, fã do Hugo. Quer dizer: de um arquiteto que abraçou a identidade feminina. O sujeito me perguntava se ouvira falar dos <em>crossdressers</em>, pessoas que gostam de botar roupas ou adereços do sexo oposto. Na época, não dei muita bola. Mas em 2009, por causa do aguçamento de minhas neuras existenciais, procurei um clube de <em>crossdressers</em>, frequentei reuniões organizadas pelo grupo e li a respeito do assunto. Depois, lentamente, agreguei enfeites femininos à indumentária masculina — brincos, colares, unhas pintadas. Hoje, dependendo da ocasião, me visto como mulher dos pés à cabeça, mesmo em lugares públicos, onde acabo passando despercebido. Outras vezes, ponho somente uma bijuteria, um esmalte. De início, meus filhos, minha namorada e meus amigos chiaram. Agora, já se acostumaram. Ou quase. <em>(risos)</em></p>
<p><strong>O que você sente quando se traveste?<br />
</strong>Um prazer indescritível, que nunca cogitei sentir. Recorrendo à prática, não planejo mudar de gênero definitivamente nem colocar em xeque a minha bissexualidade. O <em>crossdressing</em>, no meu caso, se refere menos à atividade sexual e mais à transposição de limites. É uma necessidade imperiosa de perscrutar e vivenciar os códigos femininos. Há ocidentais que se deleitam em investigar o Oriente. Experimentam comidas exóticas, fazem ioga, visitam a China. Da mesma maneira, por que um homem não pode empreender uma viagem radical pelo planeta insondável das mulheres? <strong> </strong></p>
<p><strong>Em 2005, você perdeu um de seus três filhos num acidente de carro. A crise atual tem alguma relação com a morte dele?<br />
</strong>Creio que sim. O desaparecimento repentino do Diogo, aos 22 anos, me abalou terrivelmente. Fiquei um mês mergulhado na absoluta incapacidade de desenhar. Quando retomei o trabalho, as dúvidas que me conduziram à guinada conceitual de 2004 recrudesceram. O entendimento de que um ciclo terminara se mostrou claríssimo. Desde então, vivo sem bússola, um tanto desnorteado. Ou melhor: existe um norte, só que é um norte débil, inseguro, mutante. Uma vertigem contínua. A perda do Diogo retirou o véu de tudo. Relativizou ainda mais quaisquer certezas, desnudou as minhas fragilidades e, paradoxalmente, revelou as minhas forças — na medida em que toda fragilidade demanda uma força como resposta. Mas, na contramão do que parece, não extraí mensagens edificantes do episódio. A morte não nos traz lição nenhuma. É o desconhecimento pleno, um vazio que não se contenta com as justificativas da política, da sociologia, do direito, da psicanálise, da antropologia. Pegue o fim trágico do Glauco&#8230; <em>(Glauco Villas Boas, cartunista e amigo de Laerte, assassinado em março junto do filho, Raoni, por um adepto da Igreja Céu de Maria)</em>. O que explica uma barbárie daquela? “Ah, como lideravam um culto religioso que ministra o santo-daime, Glauco e Raoni atraíram um punhado de malucos&#8230;” Será mesmo? Para mim, não importa! Nada esclarecerá o mistério de por que alguns partem do modo cruel como os dois partiram. Havia realmente necessidade daquilo? Daquele Armagedon doméstico? Do horror imensurável? Um pai presenciar a execução do próprio filho e depois morrer?</p>
<p><a class="a2a_dd a2a_target addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save#url=http%3A%2F%2Fwww.armandoantenore.com.br%2Findex.php%2Fentrevistas%2Flaerte-tenho-vergonha-de-quase-tudo-que-desenhei%2F&amp;title=Laerte%3A%20%26quot%3BTenho%20vergonha%20de%20quase%20tudo%20que%20desenhei%26quot%3B" id="wpa2a_8">Compartilhar</a></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/laerte-tenho-vergonha-de-quase-tudo-que-desenhei/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Laerte: &#8220;Tenho vergonha de quase tudo que desenhei&#8221;</title>
		<link>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/laerte-tenho-vergonha-de-quase-tudo-que-desenhei-2/</link>
		<comments>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/laerte-tenho-vergonha-de-quase-tudo-que-desenhei-2/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 01 Sep 2010 22:03:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://armandoantenore.com.br/?p=2932</guid>
		<description><![CDATA[O cartunista, com 40 anos de carreira e 59 de idade, lança Muchacha, coletânea de quadrinhos sobre os bastidores de uma série televisiva. No livro, um dos personagens, Djalma, se veste de mulher  — comportamento que o próprio ilustrador vem adotando  desde 2009 como reflexo de uma crise pessoal e  profissional Passava das 14h30 de uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O cartunista, com 40 anos de carreira e 59 de idade, lança <em>Muchacha</em>, coletânea de quadrinhos sobre os bastidores de uma série televisiva. No livro, um dos personagens, Djalma, se veste de mulher  — comportamento que o próprio ilustrador vem adotando  desde 2009 como reflexo de uma crise pessoal e  profissional</strong></p>
<p><span id="more-7012"></span><strong></strong></p>
<p>Passava das 14h30 de uma quarta-feira e Laerte Coutinho ainda não chegara à entrevista. Eu o aguardava numa padaria da Vila Madalena, bairro notívago de São Paulo. O cartunista de 59 anos, que está completando quatro décadas de uma carreira elogiadíssima, deveria aparecer 30 minutos antes. Como não dava as caras, resolvi lhe telefonar. “Putz, rapaz! Me esqueci de você!”, constatou, aflito. Saiu correndo do Butantã, onde mora num sobrado com dois gatos, e adentrou a padaria às 15h20. Exibia vistosos brincos de pérolas e um corte de cabelo chanel.<br />
Apenas no fim da conversa, que durou quase três horas, esclareceu o motivo do visual peculiar: desde 2009, como resultado de uma profunda crise, mantém o hábito de se vestir de mulher, total ou parcialmente. A prática também pontua o livro <em>Muchacha</em>, que o desenhista paulistano acaba de lançar. A coletânea reúne quadrinhos publicados no jornal <em>Folha de S.Paulo</em> e retrata os bastidores de uma série televisiva dos anos 50. Um dos personagens, o ator gay Djalma, protagoniza espetáculos musicais sob a pele de uma transexual cubana.</p>
<p><strong>BRAVO!: Você costuma esquecer compromissos?<br />
Laerte Coutinho:</strong> Não, não costumo. É verdade que, às vezes, me desligo um pouco da Terra e vou para o mundo da Lua. Mas, em geral, me julgo um camarada bem responsável.</p>
<p><strong>Então por que você se esqueceu do nosso encontro? Tem ideia?<br />
</strong>Sinceramente? Freud explica. Freud sempre explica. Na realidade, não queria dar entrevista. Estou me obrigando… Atravesso um período nebuloso, sabe? Uma crise gigantesca, tanto pessoal como profissionalmente. Não ando satisfeito com minhas criações e não imagino um modo de torná-las satisfatórias no curto ou no médio prazo. Talvez nem mesmo no longo. Uma sinuca de bico… Falar sobre minhas ilustrações, meus cartuns e minhas tiras neste momento me incomoda muito. É reivindicar importância para algo que já não avalio como tão relevante. Hoje não acredito que possa despertar o interesse de alguém. Sinto vergonha de quase tudo o que produzi em 40 anos de carreira. Gostaria de consertar a maioria das coisas.</p>
<p><strong>Vergonha? A palavra me soa forte demais, entre outras razões, porque você ganhou inúmeros prêmios e porque diversos cartunistas, incluindo os jovens, frequentemente o classificam de genial.<br />
</strong>O problema é que não me convenço. (<em>risos</em>) Genial? Considerava-me gênio quando adolescente. “Uma hora o mundo vai me descobrir”, pensava, enquanto rabiscava carros, barcos, guerreiros. Tremenda bobagem… Claro que enxergo qualidades no que fiz e no que faço. Longe de mim bancar o coitadinho ou apelar para a falsa modéstia. Só que tais qualidades não chegam nem perto das que me atribuem. Eu não me contrataria. <em>(risos)</em> Na década de 1980, por exemplo, participei do Festival Internacional de Quadrinhos em Angoulême <em>(sudoeste da França)</em>. Fui representar o Brasil com o Ziraldo e mais alguns colegas. Assim que desembarquei na cidade, bateu um desconforto horrível. Tive ímpetos de cavar um buraco e sumir. Os franceses, que publicam HQs sofisticadérrimas, maravilhosas, simplesmente nos desprezaram — ainda que de maneira diplomática. Eles examinavam as nossas produções, arrebitavam o nariz e comentavam: “Curioso, curioso…” Aquilo me pareceu uma baita injustiça contra o Ziraldo e o resto da turma, mas não em relação às charges que levei para lá. Confesso que adoraria adorar a minha profissão. Adoraria ser como o Angeli, que desenha com um amor imenso. Ou como o Robert Crumb, que desenha compulsivamente. Ou como o Paulo Caruso, que desenha com uma facilidade assombrosa.  </p>
<p><strong>Você não vê mais graça em desenhar?<br />
</strong>Praticamente não vejo. Desenhar se tornou penoso, difícil. Mal começo um trabalho, percebo que estou me dedicando àquela tarefa apenas porque necessito cumprir prazos ou pelo simples fato de que já a incorporei no meu cotidiano. Fugir da burocracia virou o xis da questão. Descobrir rumos novos, prazeres diferentes… Há tardes em que travo e fico horas sem arriscar um mísero esboço, inteiramente refém da autocrítica. Não me agradam os motes que escolho para as tirinhas, o desenvolvimento das tramas, a redação dos textos, o jeito como lido com as cores, a plasticidade do meu traço. Por outro lado, também não me agrada a perspectiva de largar tudo e me refugiar numa ilha deserta, folgadão. Não pretendo me aposentar. O que desejo é me reinventar.</p>
<p><strong>Quando a crise eclodiu?<br />
</strong>As primeiras insatisfações surgiram em 2001 ou 2002, no vácuo de uma tempestade maior que causara o fim do meu terceiro e último casamento. Pouco depois, em 2004, o incômodo cresceu e resolvi abdicar de vários elementos que marcavam minha trajetória. Abandonei personagens famosos, como o Overman, os Gatos e os Piratas do Tietê, certo tipo de humor, menos sutil, e a preocupação com a linearidade das histórias. Iniciei, ali, uma fase mais “filosófica”, que muitos intitulam de <em>nonsense</em> e que ainda me caracteriza. Uma parcela dos jornais que divulgavam os meus quadrinhos estranhou a reviravolta e acabou me dispensando — caso do gaúcho <em>Zero Hora</em> e do capixaba <em>A Tribuna</em>. Reclamavam de um hermetismo excessivo, de uma obscuridade que atrapalharia a fruição do público. Evidente que não concordo. Rejeito, inclusive, o adjetivo <em>nonsense</em> para definir o meu trabalho. <em>Nonsense </em>pressupõe o caos, a ausência total de significado. Ocorre que minhas tiras buscam, sim, um sentido — mesmo que seja o de aplicar um golpe na lógica, o de implodir o senso comum. Discussões semânticas à parte, noto que a trilha inaugurada em 2004 vai se fechando. Preciso, no fundo, me reconectar com o adolescente atrevido que, 45 anos atrás, ingressou num curso livre de desenho e pintura doido para se expressar. Preciso reencontrar a chave daquela inquietação, daquele frescor, daquela ousadia.</p>
<p><strong>Envelhecer o deprime?<br />
</strong>Não, mas me assusta. Nunca almejei a longevidade e sempre achei que morreria cedo. Por isso, não me angustio quando lembro que completarei 60 anos em 2011. Penso que dei sorte, que estou no lucro. <em>(risos)</em> O que me espanta é a rapidez do tempo — a ligeireza com que os dias voam depois que passamos dos 40. Uma rapidez estonteante, que se associa à falta de produtividade. Para um garoto, 12 meses fazem uma diferença brutal. Quantas coisas se modificam num intervalo tão pequeno! Já para um cinquentão, 12 meses normalmente não representam nada. Tudo permanece idêntico.</p>
<p><strong>Recém-lançada, a coletânea </strong><strong><em>Muchacha</em></strong><strong> leva o nome da cantora e dançarina que o ator gay Djalma interpreta na trama. Ele se traveste. Você, à semelhança de Djalma, está usando brincos e um corte de cabelo bem femininos. Também aprecia o guarda-roupa das mulheres?<br />
</strong>Também. É uma descoberta nova, uma predileção que se insinua há séculos, mas que se manifestou com todas as letras apenas em 2009. Cinco anos antes, um dos meus personagens, o Hugo <em>(veja acima)</em>, decidiu “se montar”. Não sei exatamente por quê. Só sei que, de uma hora para outra, arranjou vestido, batom, salto alto e se jogou no mundo. Desde que nasceu, o Hugo se porta como um alter ego do Laerte. Ele costuma assumir nos quadrinhos grilos e desejos que se confundem com os meus. O fato de imitar o visual das mulheres certamente denunciava algo sobre mim — sobre ambições que eu me negava a explorar às claras. Foi quando recebi o e-mail de uma arquiteta, fã do Hugo. Quer dizer: de um arquiteto que abraçou a identidade feminina. O sujeito me perguntava se ouvira falar dos <em>crossdressers</em>, pessoas que gostam de botar roupas ou adereços do sexo oposto. Na época, não dei muita bola. Mas em 2009, por causa do aguçamento de minhas neuras existenciais, procurei um clube de <em>crossdressers</em>, frequentei reuniões organizadas pelo grupo e li a respeito do assunto. Depois, lentamente, agreguei enfeites femininos à indumentária masculina — brincos, colares, unhas pintadas. Hoje, dependendo da ocasião, me visto como mulher dos pés à cabeça, mesmo em lugares públicos, onde acabo passando despercebido. Outras vezes, ponho somente uma bijuteria, um esmalte. De início, meus filhos, minha namorada e meus amigos chiaram. Agora, já se acostumaram. Ou quase. <em>(risos)</em></p>
<p><strong>O que você sente quando se traveste?<br />
</strong>Um prazer indescritível, que nunca cogitei sentir. Recorrendo à prática, não planejo mudar de gênero definitivamente nem colocar em xeque a minha bissexualidade. O <em>crossdressing</em>, no meu caso, se refere menos à atividade sexual e mais à transposição de limites. É uma necessidade imperiosa de perscrutar e vivenciar os códigos femininos. Há ocidentais que se deleitam em investigar o Oriente. Experimentam comidas exóticas, fazem ioga, visitam a China. Da mesma maneira, por que um homem não pode empreender uma viagem radical pelo planeta insondável das mulheres? <strong> </strong></p>
<p><strong>Em 2005, você perdeu um de seus três filhos num acidente de carro. A crise atual tem alguma relação com a morte dele?<br />
</strong>Creio que sim. O desaparecimento repentino do Diogo, aos 22 anos, me abalou terrivelmente. Fiquei um mês mergulhado na absoluta incapacidade de desenhar. Quando retomei o trabalho, as dúvidas que me conduziram à guinada conceitual de 2004 recrudesceram. O entendimento de que um ciclo terminara se mostrou claríssimo. Desde então, vivo sem bússola, um tanto desnorteado. Ou melhor: existe um norte, só que é um norte débil, inseguro, mutante. Uma vertigem contínua. A perda do Diogo retirou o véu de tudo. Relativizou ainda mais quaisquer certezas, desnudou as minhas fragilidades e, paradoxalmente, revelou as minhas forças — na medida em que toda fragilidade demanda uma força como resposta. Mas, na contramão do que parece, não extraí mensagens edificantes do episódio. A morte não nos traz lição nenhuma. É o desconhecimento pleno, um vazio que não se contenta com as justificativas da política, da sociologia, do direito, da psicanálise, da antropologia. Pegue o fim trágico do Glauco&#8230; <em>(Glauco Villas Boas, cartunista e amigo de Laerte, assassinado em março junto do filho, Raoni, por um adepto da Igreja Céu de Maria)</em>. O que explica uma barbárie daquela? “Ah, como lideravam um culto religioso que ministra o santo-daime, Glauco e Raoni atraíram um punhado de malucos&#8230;” Será mesmo? Para mim, não importa! Nada esclarecerá o mistério de por que alguns partem do modo cruel como os dois partiram. Havia realmente necessidade daquilo? Daquele Armagedon doméstico? Do horror imensurável? Um pai presenciar a execução do próprio filho e depois morrer?</p>
<p><a class="a2a_dd a2a_target addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save#url=http%3A%2F%2Fwww.armandoantenore.com.br%2Findex.php%2Fentrevistas%2Flaerte-tenho-vergonha-de-quase-tudo-que-desenhei-2%2F&amp;title=Laerte%3A%20%26%238220%3BTenho%20vergonha%20de%20quase%20tudo%20que%20desenhei%26%238221%3B" id="wpa2a_10">Compartilhar</a></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/laerte-tenho-vergonha-de-quase-tudo-que-desenhei-2/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Maria Bethânia: &quot;A voz não é minha. É das sereias&quot;</title>
		<link>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/maria-bethania-a-voz-nao-e-minha-e-das-sereias/</link>
		<comments>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/maria-bethania-a-voz-nao-e-minha-e-das-sereias/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2009 23:40:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://andyarm.wordpress.com/2009/10/01/maria-bethania-a-voz-nao-e-minha-e-das-sereias</guid>
		<description><![CDATA[Maria Bethânia canta o amor e o misticismo em dois novos álbuns. Numa conversa de 90 minutos com BRAVO!, critica os que a atacam por usar a Lei Rouanet e elogia a senadora Marina Silva, possível candidata à Presidência da República Passa um pouco do meio-dia e, sob orientação do fotógrafo de BRAVO!, Maria Bethânia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Maria Bethânia canta o amor e o misticismo em dois novos álbuns. Numa conversa de 90 minutos com BRAVO!, critica os que a atacam por usar a Lei Rouanet e elogia a senadora Marina Silva, possível candidata à Presidência da República<br />
</strong></p>
<p><span id="more-698"></span>Passa um pouco do meio-dia e, sob orientação do fotógrafo de BRAVO!, Maria Bethânia caminha pelos jardins da Villa Riso, a parte remanescente de uma fazenda do século 18 que se transformou em espaço para festas. É lá, na estrada da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, que a cantora costuma receber jornalistas. O lugar fica próximo à casa onde mora desde 1972. &#8220;Por favor&#8221;, pede-lhe o fotógrafo, &#8220;sente-se debaixo daquele pinheiro.&#8221; Bethânia abana a cabeça negativamente: &#8220;Ali não&#8221;. Com gentileza, mas irredutível, esclarece que pinheiros a incomodam. &#8220;Em minha terra, são árvores de cemitério.&#8221;</p>
<p>Oriunda de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, a irmã de Caetano Veloso &#8211; adepto de &#8220;uma irreligiosidade feroz&#8221;, como já se definiu &#8211; nunca separou rigidamente o místico daquilo que os cartesianos chamam de real. Para a intérprete, o sagrado e o corriqueiro se entrelaçam. Um explica e alicerça o outro. Tal convicção, que a artista manifesta com uma naturalidade às vezes desconcertante, estimula um divertido folclore em torno dela, uma profusão de lendas que a tomam por feiticeira ou algo assim. &#8220;Quando Bethânia inicia uma turnê, chove. Evite usar negro ao lado de Bethânia. Sempre que Bethânia entra no estúdio, os monitores de ouvido acusam interferências.&#8221; Das inúmeras histórias, a cantora &#8211; famosa por resguardar avidamente a própria intimidade &#8211; só confirma que não veste roupas pretas. Dispensa a cor em respeito às recomendações do candomblé, crença que abraçou junto com a devoção pelo catolicismo. &#8220;Mas podem usar negro perto de mim&#8221;, avisa, às gargalhadas.</p>
<p>A faceta mística de Bethânia desponta claramente no CD <em>Encanteria</em>, um dos dois que acaba de lançar. O álbum do selo Quitanda agrega 11 composições inéditas &#8211; sambas e toadas sobre orixás, santos e as celebrações que os homenageiam. Caetano e Gilberto Gil cantam na faixa <em>Saudade Dela</em>. O outro disco, <em>Tua</em>, sai pela Biscoito Fino. Também reúne 11 músicas inéditas e conta com a participação do pernambucano Lenine. De sonoridade mais urbana, tem como mote o amor.</p>
<p>Em conjunto, os delicados trabalhos reafirmam que Bethânia já não cabe apenas nos rótulos de &#8220;romântica&#8221;, &#8220;brejeira&#8221; ou &#8220;artista de massa&#8221;. Ela é hoje, aos 63 anos e 46 de carreira, um clássico à altura de Edith Piaf, Nina Simone ou Ella Fitzgerald, ainda que de abrangência menor.</p>
<p>Durante a entrevista de quase duas horas, a cantora trajava uma pantalona azul e uma pashmina cor-de-rosa, espécie de xale que lhe recobria os ombros. Pelas mãos, braços e pescoço, espalhava algumas joias, a maioria dourada. Um dos anéis e o relógio de pulso despertavam especialmente a atenção.</p>
<p><strong>BRAVO!: Que anel curioso</strong>&#8230;<br />
<strong>Maria Bethânia:</strong> Você gostou? Traz a imagem do meu caboclo.</p>
<p><strong>Um índio?</strong><br />
Exato, o caboclo que me protege, graças a Deus. Veja só que história inusitada: uma vez, desembarcando em Miami, topei na imigração com um policial branco, alto e muito forte. &#8220;Virgem Santíssima!&#8221;, pensei. &#8220;Olhe o tamanho do sujeito!&#8221; No entanto, para minha surpresa, o homem sorriu. Quando pegou meu passaporte, notei que ostentava um anel de prata enorme. Uma peça luminosa, com o rosto de um índio. &#8220;Que anel incrível!&#8221;, comentei em português. O homem continuou rindo como se me compreendesse. De repente, tirou o anel e me deu. Um gesto absolutamente improvável: a polícia dos Estados Unidos distribuindo presentes no aeroporto?! Tão logo retornei para casa, providenciei uma cópia do anel, menorzinha, em ouro. É a que estou usando.</p>
<p><strong>Qual o nome do caboclo? Pode revelar?<br />
</strong>Quer saber demais sobre o meu caboclo! (<em>risos</em>) Há décadas, pertenço à Nação Ketu do candomblé. Mas, ainda garota, em Santo Amaro, costumava visitar um terreiro de outra nação, a Angola. Ali os fiéis não cultuavam somente os orixás. Também recebiam o espírito dos índios que habitaram o Brasil, os caboclos. É uma tradição maravilhosa, que me comove. Por isso, conservo o anel. Sem contar que tenho uma bisavó indígena, da etnia pataxó.</p>
<p><strong>E o relógio?</strong><br />
Comprei para marcar um acontecimento&#8230;</p>
<p><strong>Que acontecimento?<br />
</strong>Não vou entrar em detalhes. Foi algo bonito que me ocorreu e que se relacionava com o tempo. Precisava de uma coisa que simbolizasse aquilo.</p>
<p><strong>Como uma tatuagem?<br />
</strong>Tatuagem, não &#8211; o candomblé proíbe. Engraçado que, bem jovenzinha, sonhava em fazer uma. Cresci num lugarejo repleto de rios, mas passava as férias na praia. Sempre amei perdidamente o mar. Meu pai dizia que a terra e o oceano se espelham. &#8220;Tudo o que existe aqui em cima existe no fundo do mar.&#8221; Eu o escutava, e minha imaginação corria solta: &#8220;Tudo, pai? Coqueiro, abelhas, montanha?&#8221;. Ele jurava que sim. Não à toa, os marinheiros me encantavam. Admirava as tatuagens que carregavam nos braços. &#8220;Quando mandar em mim, arranjarei uma igual&#8221;, planejava. Àquela época, poucas mulheres ousavam exibir tatuagem. Eu, atrevida, desejava uma nas costas, do lado direito, perto da bunda. Cogitei, primeiro, desenhar uma sereia. Sou fascinada por sereias. Depois mudei de opinião: &#8220;Vou botar uma estrela, ou um sol, ou uma lua&#8221;. Acabei não desenhando nada.</p>
<p><strong>Sereias a fascinam?<br />
</strong>Imensamente. Criança, ganhava umas de minha mãe, pequeninas, de barro. Agora ganho dos amigos e dos fãs. Em casa, há um punhado: de metal, gesso, madeira. Sereias são as donas da voz&#8230; Senhoras da emissão, que cantam por minha boca. Só sei cantar graças às sereias. Elas me ensinaram. Minha voz apenas mora em mim. Não é minha. É das sereias. É de Deus.</p>
<p><strong>Uma metáfora, não? Ou você realmente acredita que sereias existam?<br />
</strong>Acredito. Certas pessoas conseguem ouvi-las, enxergá-las. Eu nunca as enxerguei. Mas as sinto, talvez porque queira senti-las. Creio que hoje esteja no mesmo lugar em que as sereias se encontram. Uma bênção!</p>
<p><strong>Julga-se predestinada?<br />
</strong>Sem dúvida. Nasci para o que faço. Já na infância, me comportava de maneira incomum. Andava maquiada por Santo Amaro como uma vedete, confeccionava minhas próprias roupas e imitava os personagens das peças que o grupo local de teatro montava. O povo da cidade morria de vergonha. Evitavam a minha companhia. Somente o Caetano me apoiava. Eu avisava: &#8220;Não adianta reclamar, pessoal! Sou do palco, vou viver do palco&#8221;. Não suspeitava ainda que iria cantar. Pretendia virar trapezista. Circo me atraía muitíssimo. Uma ocasião, caí de amores por um palhaço, o Poli, mal o avistei no picadeiro. Paixão doida, de cinema! Fiquei tão envolvida que arrumei um jeito de conhecê-lo sem máscara. Era um homenzinho calvo, quase sexagenário. &#8220;Vou fugir com o senhor!&#8221;, repetia. O coitado, lógico, apenas gargalhava. Quando o circo partiu de Santo Amaro, me desmanchei de tanto chorar.</p>
<p><strong>Em que momento você resolveu se tornar cantora?<br />
</strong>Com uns 15 anos. Ou melhor: Caetano resolveu por mim! (<em>risos</em>) Ele compunha a trilha de um curta [Moleques de Rua,<em> do diretor Álvaro Guimarães, o Alvinho</em>] e me pediu para gravá-la. Topei na hora. Quatro anos mais velho, Caetano me influenciava bastante. Nós o considerávamos o gênio da família. Desde cedo, o danado pintava como ninguém, tocava, escrevia canções. Lembro-me de vê-lo redigir uma peça inteira com 8 ou 9 anos. &#8220;Você vai fazer o papel da estrela&#8221;, me prometia. Eu, um toquinho de gente, concordava. (<em>risos</em>) O negócio é que acabei gravando a trilha em Salvador, no ateliê de Mário Cravo Jr. [<em>escultor</em>]. Que período bom, rapaz! Pouco<br />
depois, em 1963, Alvinho encenou Boca de Ouro, a tragédia do Nelson Rodrigues, e me chamou para cantar um samba de Ataulfo Alves no prólogo. Iria interpretá-lo da coxia, sem aparecer. Mesmo assim, não deixei de caprichar nos trajes. Pus luvas, brincos, colar&#8230;</p>
<p><strong>Foi em Salvador, na década de 1960, que você se aproximou de Gal Costa. Continuam amigas?</strong><br />
Continuamos, só que não como antigamente. Perdemos o convívio. Éramos grudadas, irmãs. Agora&#8230; Gal se distanciou muito de mim e de Caetano. Não brigamos nem nada. Ela apenas se isolou. Diminuiu o ritmo, se afastou da música, adotou um filho [<em>Gabriel, em 2007</em>]. Mora lá na Bahia e cuida do menino, linda. Um dia lhe perguntei: &#8220;Do que você mais gosta hoje, do canto ou da maternidade? Me responda, mulher!&#8221;. Não respondeu. (<em>risos</em>) Tenho a impressão de que Gal, uma cantora inigualável, não se entusiasma tanto pelos novos autores. Deve avaliar que suas composições não estão à altura da voz dela, daquele cristal perfeito. É compreensível. A emissão de Gal exige de fato canções tão sofisticadas quanto as de Caetano, Chico Buarque, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Ary Barroso. Eu, em contrapartida, não enfrento o mesmo problema. Sou uma intérprete antes de tudo. Uma intérprete de textos, de ideias, que também pode cantar. Não sou uma purista.</p>
<p><strong>Você nunca pensou em gerar ou adotar um filho?<br />
</strong>Pensei em dar à luz com meus 18, 19 anos. Desisti mais tarde e não me arrependo. Filho são meus discos, é minha carreira. Não disponho da sabedoria de meus pais para educar uma criança. E o mundo em que vivemos&#8230; A correria, a violência, a competição, o ar irrespirável&#8230; Colocar um bebê nesse inferno? Em um planeta sufocado? Fico apavorada quando constato algumas inversões de valores. O dinheiro, por exemplo. Virou o centro do universo. Uma loucura! Às vezes, acho que a atual crise financeira é um alerta do próprio dinheiro: &#8220;Prestem atenção! Entendam a minha natureza. Posso dormir um hoje e acordar outro amanhã&#8221;. Enfim&#8230; Sou cruel com os amigos e sobrinhos que têm filhos. Cobro que zelem pelas crias e não admito que se queixem. Decidiram ter? Então se redobrem para ampará-los.</p>
<p><strong>Os dilemas ecológicos parecem preocupá-la. Você apoiará a possível candidatura à presidência da senadora Marina Silva, que acabou de ingressar no Partido Verde?<br />
</strong>Marina me arrebata. É nobre, firme, sóbria. E domina a área dela, a do meio ambiente. Como Gilberto Gil [<em>ex-ministro da Cultura</em>], passou pelo governo federal sem se manchar, sem cometer erros crassos. Jurei que não votaria mais em candidato nenhum, nem do Executivo nem do Legislativo. Mas a Marina talvez me anime a voltar atrás. Fechei com Lula nas eleições de 2002 e, depois, parei de votar. Os políticos me irritam. Imaginam que somos idiotas.</p>
<p><strong>Recentemente, você sofreu críticas da imprensa por recorrer à Lei Rouanet para bancar alguns de seus espetáculos&#8230;<br />
</strong>(<em>Interrompendo</em>) Sofri&#8230; Uma palhaçada! Uma tristeza! &#8220;Governo de esquerda só pode ajudar quem não faz sucesso.&#8221; Que raciocínio torto! A lei deve acolher gregos e troianos: o ministério avaliza os projetos e cada artista sai à caça de patrocinador, como manda o figurino. Qual o drama? Por que tanta chateação?</p>
<p><strong>Porque se trata de verba pública.<br />
</strong>Verba pública? Nunca trabalhei com verba pública!</p>
<p><strong>A lei prevê que os patrocinadores descontem os gastos do Imposto de Renda &#8211; um dinheiro que, em tese, iria para o setor público.<br />
</strong>Renúncia fiscal, menino! É um mecanismo ótimo! O mínimo que a cultura merece.</p>
<p><strong>E quanto à alegação de que shows como os seus ou os de Caetano, Ivete Sangalo e outros cantores famosos se pagariam apenas com a bilheteria, sem a necessidade de patrocínio?<br />
</strong>O quê? Apenas com a bilheteria? Qualquer espetáculo de certo porte no Brasil consome uma fortuna. Nossos custos são de ópera! A plateia pede um cenário elegante, uma iluminação de primeira, um som magnífico. Não condeno, não. Estão corretíssimos! Mas qualidade tem preço. Para subir num palco, preciso ensaiar 40 dias ou mais. Você sabe o que significa arcar com 40 dias de estúdio, técnicos, equipamento, músicos? Um absurdo! &#8220;Ah, a cantora também leva uma bolada.&#8221; Leva? Quem menos ganha é a cantora. Com despesas tão elevadas, você julga<br />
viável depender só da bilheteria? Não há Canecão lotado que cubra um espetáculo. Não há teatro no país que cubra &#8211; e olhe que os ingressos não são baratos, infelizmente. Sem patrocínio, amargaríamos prejuízo caso quiséssemos manter o alto nível dos shows. E, sem a lei, não conseguiríamos patrocínio nenhum. Zero! Portanto&#8230;</p>
<p><a class="a2a_dd a2a_target addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save#url=http%3A%2F%2Fwww.armandoantenore.com.br%2Findex.php%2Fentrevistas%2Fmaria-bethania-a-voz-nao-e-minha-e-das-sereias%2F&amp;title=Maria%20Beth%C3%A2nia%3A%20%26quot%3BA%20voz%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20minha.%20%C3%89%20das%20sereias%26quot%3B" id="wpa2a_12">Compartilhar</a></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/maria-bethania-a-voz-nao-e-minha-e-das-sereias/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Selton Mello: &quot;Cuidei melhor dos personagens do que de mim&quot;</title>
		<link>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/selton-mello-cuidei-melhor-dos-personagens-do-que-de-mim/</link>
		<comments>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/selton-mello-cuidei-melhor-dos-personagens-do-que-de-mim/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 01 Jul 2009 22:03:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://andyarm.wordpress.com/2009/07/01/selton-mello-cuidei-melhor-dos-personagens-do-que-de-mim</guid>
		<description><![CDATA[Protagonista de três filmes lançados recentemente, Selton Mello se consolida como “o cara” do cinema brasileiro e admite que, nos últimos anos, deu mais atenção ao trabalho que à saúde Quando menino, Selton Mello não perdia os programas de auditório que abriam espaço para calouros mirins. Morria de inveja das crianças que se exibiam na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Protagonista de três filmes lançados recentemente, Selton Mello se consolida como “o cara” do cinema brasileiro e admite que, nos últimos anos, deu mais atenção ao trabalho que à saúde<br />
</strong></p>
<p><span id="more-676"></span>Quando menino, Selton Mello não perdia os programas de auditório que abriam espaço para calouros mirins. Morria de inveja das crianças que se exibiam na televisão. Uma tarde, pediu à mãe: “Quero aparecer ali”. Logo a reivindicação se concretizou. Com 8 anos, de terninho bege e gravata, o garoto surgiu diante das câmeras entoando <em>Lady Laura</em>, de Roberto e Erasmo Carlos. Atravessou o resto da infância nos estúdios de TV. Antes dos 10, já fazia novelas. Nos bastidores das emissoras, conheceu figuras mitológicas do imaginário popular: o palhaço Bozo (que o cumprimentou tagarelando algo como “teretetéu!”), o apresentador Bolinha e a cantora Perla.</p>
<p>Atualmente, Selton não deseja mais “aparecer ali”. Ou, pelo menos, não deseja aparecer tanto. Há uma década, o ator de 36 anos participa apenas de projetos esporádicos na televisão. Afastou-se das novelas e dos contratos fixos. Transformou-se num homem de cinema. Entre curtas e longas-metragens, atuou em 26 filmes. Estreou ainda adolescente, como o Renan de <em>Uma Escola Atrapalhada</em>, infantil de 1990 que reunia Supla, Angélica, Gugu Liberato e Os Trapalhões. Foi a partir de 2000, porém, que mergulhou de cabeça nos sets. Integrou o elenco de 20 produções, uma média respeitável. Dos personagens que encarnou, dois se tornaram célebres: o Chicó, de <em>O Auto da Compadecida</em>, e o João Estrella, de <em>Meu Nome Não É Johnny</em>. Em 2008, com <em>Feliz Natal</em>, o ator se aventurou na direção e como roteirista.</p>
<p>Três longas protagonizados por ele, que chegaram recentemente às salas de projeção, demonstram o ecletismo do intérprete. <em>A Mulher Invisível</em>, comédia rasgada de Claudio Torres, traz Luana Piovani no principal papel feminino e, até o fim de junho, atraiu mais de 1 milhão de espectadores. <em>Jean Charles</em>, drama de Henrique Goldman, reconstitui a trajetória do imigrante brasileiro que, confundido com um terrorista, acabou assassinado pela polícia britânica em 2005. <em>A Erva do Rato</em>, assinado por Julio Bressane, enquadra-se na categoria dos filmes herméticos, que fisgam exclusivamente a elite intelectual.</p>
<p>Mineiro de Passos, filho de um bancário e uma dona de casa, Selton é irmão do também ator Danton Mello. Ambos cresceram nos bairros paulistanos da Aclimação e do Brás. Depois, se mudaram para o Rio de Janeiro. Lá, num casarão do Alto da Gávea, Selton mora sozinho. Solteiro, diz que “há séculos” só cultiva “rolos, namoricos, casos, romances quase possíveis”. De passagem pela cidade de São Paulo, conversou com <strong>BRAVO!</strong>.</p>
<p><strong>BRAVO!: Por que você resolveu priorizar a carreira cinematográfica?</strong><br />
<strong>Selton Mello:</strong> Por uma série de razões. Primeiro, andava insatisfeito com meu desempenho na TV. Temia virar um burocrata, aquele camarada que bate o cartão, executa o mínimo, pega o salário e pronto – atitude que enxergo em alguns colegas. Na televisão frequentemente é assim: você vai tocando sem muito preparo, sem maiores cuidados. Fica no piloto automático. Voo de cruzeiro, entende? Talvez, no passado, as coisas funcionassem de modo um pouco diferente. Talvez houvesse um produto mais autoral. Olhe as novelas. Apenas um cara as escrevia. Hoje são sete. Apenas um cara as dirigia. Hoje são seis. O negócio se diluiu barbaramente. Uma hora notei que não me sentia bem em trabalhar desse jeito. E refleti, preocupado: “Se não me sinto bem, o público acabará percebendo”. Pintou, então, a oportunidade de participar do <em>Lavoura Arcaica</em>, o filme do Luiz Fernando Carvalho [<em>lançado em 2001</em>]. Foi uma experiência incrível, que me encheu de coragem. Por cinco meses, o elenco se enfurnou numa fazenda de Minas Gerais. A gente viveu em função do longa. Esculpimos cada detalhe dos personagens, nos aprofundamos na história. Vislumbrei ali outros caminhos para a minha profissão. Saquei que o cinema poderia me desafiar, me colocar numa lógica menos industrial. Respirei fundo e decidi arriscar. “Vamos ver se aguento”, pensei – porque não é nada mal ter o salário caindo na conta mensalmente. Com o tempo, e para a minha absoluta surpresa, a publicidade prestou atenção em mim. O pessoal das agências se ligou que “o Selton só faz projetos de qualidade”. E comecei a protagonizar uma porção de comerciais. Descobri a pólvora! Não procurava a pólvora e, de repente, a descobri. Claro que existe o risco de o cenário mudar completamente. Moramos no Brasil, afinal. Também posso me cansar dos sets, concluir que o cinema não me mobiliza mais e pedir para retornar às novelas. Não desconsidero nenhuma hipótese.</p>
<p><strong>Os ganhos com publicidade se aproximam do que você faturaria na televisão?<br />
</strong>Creio que sim. Não arrumo comercial todo mês. Ninguém arruma. Mas, quando arranjo um, embolso o suficiente para me sustentar por um bom período e para, inclusive, rodar uns filmes quase de graça. Recebi cachês simbólicos em <em>Árido Movie</em>, <em>Garotas do ABC</em>, <em>O Cheiro do Ralo</em>&#8230; Na verdade, nunca imaginei que o ofício de ator me tornaria milionário. Mantenho o foco. Não entro numas de querer casa de campo, carrão, cobertura em Nova York.</p>
<p><strong>Só com o cinema, sem a publicidade, você conseguiria sobreviver?</strong><br />
Dificilmente. Teria de recorrer mais à televisão, encarar umas peças de teatro. Necessitaria cavar outras fontes de renda.</p>
<p><strong>Por que você faz pouco teatro?<br />
</strong>Vou responder de maneira bem rasa: por preguiça! Fiz apenas oito ou nove peças. É realmente pouco. Teatro exige uma dedicação absurda! Ensaio, ensaio, ensaio. Curto preparar um personagem com calma, mas nem tanto. Ensaiar muito me desanima. Melhor o jogo que o treino. Lógico que admiro quem sua a camisa no palco. Respeito demais os atores que contam a mesma história de quinta a domingo. Um ótimo exemplo é o Wagner Moura. Ele está incorporando agora um Hamlet maravilhoso. Vi o homem em cena e pirei. Quando o encontrei, tirei o chapéu. O cara segura o tranco de um <em>Lavoura Arcaica</em> por noite!</p>
<p><strong>Não há nada que o desanime nas filmagens de um longa?</strong><br />
Há, sim. Odeio as sessões intermináveis na sala dos maquiadores. Em <em>O Coronel e o Lobisomem</em>, precisava usar bigode, costeleta, barba. Um horror! Gastava horas na maquiagem. O Diogo Vilela também. Um dia, o coitado virou para mim e anunciou, meio na piada, meio seriamente: “Terminou! Minha carreira terminou aqui! Não aguento mais. Foi um prazer dividir com você meus últimos instantes como ator”. (<em>risos</em>)</p>
<p><strong>A bagunça no set não o incomoda?<br />
</strong>Prefiro um set silencioso, com uma equipe concentrada, um set que não pareça uma churrascaria. Mas, se tiver de trabalhar na churrascaria, ok, sem crises. A gente se desdobra e manda bala. O que me incomoda realmente no cinema é o alcance. Os filmes brasileiros atingem sobretudo os grandes centros, os festivais, e mal passam na televisão. Não chegam às massas, não invadem os grotões. Novelas, minisséries ou seriados cruzam o país. Um caboclo lá no mato assiste àquilo e sonha por um momento. Queria que o cinema pudesse seduzi-lo igualmente, que emocionasse um número maior de pessoas.</p>
<p><strong>Você começou garoto na TV. Depois, durante a adolescência, perdeu espaço – as emissoras deixaram de chamá-lo. Foi um trauma imenso na época, não?<br />
</strong>Imenso, imenso. Apareci na televisão entre os 8 e os 13 anos. Cantava em programas de auditório, participava de novelas e fazia comerciais. De repente, o poço secou. Por uns quatro anos, ninguém da Globo ou de outro canal se lembrou de mim. Eles gostavam do menino, da criança. N<br />
ão gostavam do adolescente.</p>
<p><strong>Sua guinada para o cinema tem relação com aquele trauma? Seria uma tentativa de você se proteger, de não depender tanto do veículo que o descartou uma vez? </strong><br />
É possível&#8230; Nunca refleti sobre o assunto com profundidade. O Paulo Betti já me disse que entrei nessa roda viva de atuar, escrever roteiros e dirigir porque receio o desemprego: “Você vai ocupando todas as brechas. Joga nas 11 posições. Se fecharem uma porta ali, você abriu outras acolá”. Ele pode estar certo, né? Vários aspectos de minha trajetória devem dialogar com o moleque rejeitado de antigamente.</p>
<p><strong>E o fato de você não exibir o perfil típico do galã, influenciou na opção pelo cinema?<br />
</strong>Foi uma ideia que passou por minha cabeça, sim. Se você não possui os atributos clássicos do galã, avança menos na televisão. Orbita em torno de um universo mais restrito. Onde um sujeito com inquietude criativa e sem uma beleza padrão consegue transitar melhor? Onde descola papeis interessantes? No cinema.</p>
<p><strong>Seu irmão caçula, Danton Mello, trilha um caminho bem distinto do que você seguiu. Ele continua nas novelas&#8230;<br />
</strong>Pois é. Sabe quando você descobre que envelheceu? Quando seu irmão caçula se torna o astro de uma novela em que você trabalhou na infância. Há 23 anos, fiz <em>Sinhá Moça</em>. Era o menino da trama original. Em 2006, a Globo regravou a história. Quem interpretou o principal personagem masculino? O Danton!</p>
<p><strong>Ele, aliás, ascendeu justamente no período do seu ostracismo. Enquanto o primogênito voltava para casa, o caçula despontava em programas da Globo. Existe competição entre vocês?<br />
</strong>Não, sinceramente não. Torço pelo Danton, e o Danton torce por mim. Convivemos bastante, trocamos impressões sobre as coisas, falamos de tudo. Só que agimos de modo oposto. Tempos atrás, me recordei de um episódio engraçado. Ainda moleque, costumava almoçar e jantar num daqueles pratos coloridos de criança. Eu tinha um e o Danton, outro. No fundo do meu, havia uma história em quadrinhos. Era a fábula da cigarra e da formiga. Minha mãe abarrotava o prato de feijão com arroz e, à medida que eu o raspava, a história aparecia. A cigarra se divertindo, e a formiga ralando. O gozo e a obrigação. Eu sou a formiga. O Danton, a cigarra.</p>
<p><strong>Mas quando perguntei sobre teatro, você se classificou de preguiçoso&#8230;<br />
</strong>Velho, caí em contradição! Pretendo me contradizer mais umas 15 vezes ao longo da entrevista. Na realidade, meu sonho é conversar com você novamente daqui a cinco anos e desdizer cada frase que disse até agora. (<em>risos</em>)</p>
<p><strong>Retomemos a fábula.<br />
</strong>Então: sou mesmo a formiga. Trabalho como um doido, me angustio&#8230; Devia me chamar Selton Angústia Mello. Já o Danton aproveita a vida. É livre. Não aposta 100% das fichas na profissão. Ele tem mulher e duas filhas, gosta de comer bem, adora viajar. Morou na França e nos Estados Unidos. Estudou inglês. Eu, em compensação, só carreguei pedra. Aquela responsa, aquele ímpeto de engolir o mundo. Um exagero&#8230; Agora sinto necessidade de tirar um sabático e abraçar os clichês: pedalar pelo Rio de Janeiro, beber chope com os amigos, apanhar sol – prazeres de que desfrutei muito pouco.</p>
<p><strong>Em 2008, na estreia de <em>Meu Nome Não É Johnny</em>, entrevistei você e ouvi algo semelhante: “Vou descansar”. Parece que você ainda não descansou&#8230;<br />
</strong>Estou desacelerando. Devagarinho a gente chega lá. (<em>risos</em>) Pelo menos, já faço análise. Iniciei há seis meses. Uma ou duas sessões por semana.</p>
<p><strong>Você não consegue parar de trabalhar? É compulsivo?<br />
</strong>O que acha? Fumo demais, por exemplo. (<em>Observa o cinzeiro sujo, em que depositou quatro bitucas de cigarro nos últimos 50 minutos</em>). Às vezes, penso que encontrei um método infalível contra o tabagismo. Basta exigir que os fumantes comam a inhaca do cinzeiro – a imundície que eles próprios deixaram ali, as guimbas, as cinzas. Neguinho certamente abandonaria o vício.</p>
<p><strong>Você é compulsivo com comida?<br />
</strong>Sou, por causa da angústia. Devoro um monte de porcaria: junkie food, pizza, hambúrguer. E doce! Chocolate&#8230; Formiga, velho! Maldito pratinho colorido da infância! (<em>risos</em>) Mas vou virar a chave. Vou mudar.</p>
<p><strong>Quanto você pesa?<br />
</strong>Tenho 1m81 de altura. Meu peso ideal é 80 quilos. Hoje estou com 90. Em 2008, quando filmei <em>Jean Charles</em>, beirava os 110. Engordei bastante na época porque interrompi os remédios que consumia para emagrecer. Funcionava assim: se ia rodar um longa em março, passava os três meses anteriores tomando os comprimidos. Perdia peso e, tão logo terminava o filme, largava os remédios. Em consequência, engordava de novo. Fiquei nessa gangorra por dez anos. Certo dia, me toquei de que precisava parar – as drogas cobram um preço abusivo, modificam o humor, o metabolismo. Com esforço, parei. Veio, então, a rebordosa. Uma depressão terrível, uma insegurança, uma paranoia. Fiz o Jean Charles me julgando péssimo, deslocado, cheio de travas físicas e psíquicas. Questionei tudo durante as filmagens, inclusive meu talento. “Sou uma farsa! Desaprendi o ofício!” Nem sei de que maneira suportei a barra&#8230; Filmamos em Londres. Eu, no entanto, não me enxergava lá. Sentia-me em outro lugar, náufrago, confuso. A inconsciência assumiu as rédeas. Participei do filme como um zumbi. O louco é que resultou num negócio bonito, delicado. O sofrimento do Selton escorreu para o Jean.</p>
<p><strong>Você continua questionando seu talento?<br />
</strong>Não, não. Sou de fato um ator. Melhor: sou um autor. Gosto de criar – não importa se à frente ou por trás das câmeras. Acontece que a tempestade emocional de 2008 realmente me assustou. Nunca vou esquecê-la. Percebi, em Londres, um troço fundamental: nos últimos anos, cuidei mais dos meus personagens que de mim. Pretendo agora inverter a equação. Se cuidar mais de mim, aposto que meus personagens também sairão ganhando.</p>
<p><strong>Como você os constroi?<br />
</strong>Não desenvolvi um jeito específico. Em alguns casos, pesquiso muito. Em outros, me guio apenas pelo <em>feeling</em>. Depende do enredo, do diretor, do meu pique. Para viver o Leléu em <em>Lisbela e o Prisioneiro</em>, uma comédia de feições nordestinas, visitei os subúrbios do Recife e as feiras populares, escutei músicas bregas e bati um papo com o Lirinha, vocalista do grupo Cordel do Fogo Encantado. Queria apreender o sotaque pernambucano dele. Em contrapartida, quando protagonizei <em>Meu Nome Não É Jonhny</em>, confiei principalmente na intuição. Existe uma linha tênue entre o preparo adequado e o preparo excessivo. Um ator não deve se preparar demais para um papel. Convém que esteja levemente despreparado. Se o cara entra todo engessadinho no set, acaba não permitindo que a surpresa o contamine. A cena se converte em um monólogo. Abdica-se do diálogo com as circunstâncias.</p>
<p><strong>Parte dos críticos afirma que você tem tiques de interpretação. Concorda?<br />
</strong>Evidente que tenho. É complicado você se multiplicar – inventar máscaras diferentes para cada situação. É quase impossível. Não conseguiria lhe apontar um cacoete neste momento. Mas, revendo meus trabalhos, frequentemente me irrito: “Caramba! De novo aquele gesto, de novo aquela entonação!”.</p>
<p><strong>Que atores você admira?<br />
</strong>O maior ator do cinema brasileiro se chama José Dumont. Um monstro! Polivalente à beça. Na pele do sujeito, qualquer personagem cresce. O Wagner Moura é o melhor de minha geração.</p>
<p><strong>Melhor que você?<br />
</strong>Sim, claro. Outro veterano que admiro é o Paulo José. Uma vez ele me explicou de que modo resolveu uma cena dificílima. Seu personagem recebia uma caixa e, ao abri-la, deparava com a mão do próp<br />
rio filho, decepada por um sequestrador. Como se comportar diante de tamanha atrocidade? Eu, se encarnasse o personagem, abriria a caixa e me descabelaria, gritaria, sofreria um colapso. O Paulo José, malandro, abriu a caixa sem esboçar grandes reações. Simplesmente a olhou e deixou o público imaginar o que um pai sentiria em meio àquele pesadelo. Gênio!</p>
<p><strong>Entre os atores de fora, quais você destaca?<br />
</strong>O Benício del Toro e o Sean Penn. Nos meus tempos de dublador, dos 12 aos 20 anos, observei muito os estrangeiros. Foi uma tremenda escola vê-los atuar. Pequenas sacadas que pesquei nos filmes da época me influenciam ainda hoje. Em <em>Picardias Estudantis</em>, por exemplo, o Sean Penn interpreta um surfista lesadão. Sempre que o maluco desejava comprar algo, arrancava do bolso uma maçaroca de dinheiro, notinha fiscal, documento, tudo amassado. Em <em>Meu Nome Não É Jonhny</em>, roubei aquilo.</p>
<p><strong>Roubou?<br />
</strong>Na cara de pau! Para indicar o quanto o protagonista do longa estava atrapalhado, não hesitei: fazia-o puxar do bolso uma maçaroca como a de <em>Picardias Estudantis</em>. Ladrão! No fundo, não passo de um ladrão! (<em>risos</em>)</p>
<p><a class="a2a_dd a2a_target addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save#url=http%3A%2F%2Fwww.armandoantenore.com.br%2Findex.php%2Fentrevistas%2Fselton-mello-cuidei-melhor-dos-personagens-do-que-de-mim%2F&amp;title=Selton%20Mello%3A%20%26quot%3BCuidei%20melhor%20dos%20personagens%20do%20que%20de%20mim%26quot%3B" id="wpa2a_14">Compartilhar</a></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/selton-mello-cuidei-melhor-dos-personagens-do-que-de-mim/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Fernanda Montenegro: &quot;A vida é um demorado adeus&quot;</title>
		<link>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/fernanda-montenegro-a-vida-e-um-demorado-adeus/</link>
		<comments>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/fernanda-montenegro-a-vida-e-um-demorado-adeus/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 01 May 2009 22:42:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://andyarm.wordpress.com/2009/05/01/fernanda-montenegro-a-vida-e-um-demorado-adeus</guid>
		<description><![CDATA[Às vésperas de comemorar 80 anos, Fernanda Montenegro leva para os palcos o legado da escritora Simone de Beauvoir e reflete sobre a morte recente do marido, o ator Fernando Torres Passava um pouco das 21 horas quando, naquele sábado de Aleluia, Fernanda Montenegro disse as últimas frases do monólogo Viver sem Tempos Mortos. Por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Às vésperas de comemorar 80 anos, Fernanda Montenegro leva para os palcos o legado da escritora Simone de Beauvoir e reflete sobre a morte recente do marido, o ator Fernando Torres<br />
</strong><br />
<span id="more-674"></span>Passava um pouco das 21 horas quando, naquele sábado de Aleluia, Fernanda Montenegro disse as últimas frases do monólogo <em>Viver sem Tempos Mortos</em>. Por 60 minutos, a atriz carioca interpretara Simone de Beauvoir (1908-1986) para as 350 pessoas que lotavam o teatro do Sesc em São João de Meriti, humilde e populoso município da Baixada Fluminense. Entre os que aplaudiam, destacava-se Wilson Ademar, negro de 93 anos, sapateiro aposentado, que nunca presenciara uma peça antes. Tão logo tomou conhecimento do espectador inusitado, Fernanda se comoveu e indagou publicamente: &#8220;O que o senhor imaginava toda vez que pensava num palco?&#8221;. Wilson, tímido, respondeu: &#8220;Eu não imaginava&#8221;.</p>
<p>Pois é sobretudo com a imaginação da plateia que a atriz parece contar enquanto incorpora a filósofa e escritora parisiense, ícone do feminismo e parceira de outro célebre filósofo, o existencialista Jean-Paul Sartre. Na mais despojada produção que estrelou em seis décadas de carreira, Fernanda vira Simone sem lançar mão de elementos que remetam fisicamente à personagem. Não há sotaque, não há trejeitos característicos, não há nem mesmo um figurino afrancesado. Com uma camisa social branca e uma calça preta, a atriz senta-se numa cadeira igualmente preta, único objeto em cena, e permanece lá durante toda a montagem, sob um persistente foco de luz. Narra, então, os principais momentos da intensa trajetória de Simone. Fala sempre na primeira pessoa, usando depoimentos da própria romancista, extraídos de livros e cartas.</p>
<p>O monólogo dirigido por Felipe Hirsch, que já percorreu a Baixada e a região serrana do Rio de Janeiro, desembarca agora em São Paulo como parte de um evento maior, batizado de <em>Caminhos da Liberdade</em>. A iniciativa prevê que, antes do espetáculo, o público assista a <em>Uma Mulher Atual</em>, documentário de Dominique Gros sobre Simone, e, depois, participe de um debate conduzido pela socióloga Rosiska Darcy de Oliveira, especialista no legado da filósofa.</p>
<p>De início, Fernanda planejava tocar o projeto com o ator Sergio Britto, que assumiria o papel de Sartre. No entanto, o colega preferiu desistir da empreitada para se dedicar à peça <em>A Última Gravação de Krapp e Ato sem Palavras I</em>. A atriz, que completa 80 anos em outubro, acatou a decisão e prosseguiu sozinha. No percurso, perdeu o marido, o também ator Fernando Torres.</p>
<p>Quem vê Simone discorrer sobre Sartre ao longo do monólogo dificilmente deixa de cogitar que talvez exista um subtexto ali &#8211; que talvez Fernanda esteja refletindo sobre o próprio companheiro, um modo delicado de absorver e superar a morte dele. No domingo de Páscoa, a artista recebeu a equipe de BRAVO! para uma conversa de quatro horas.</p>
<p><strong>BRAVO!: Quando você entrou em contato com Simone de Beauvoir e os existencialistas?<br />
Fernanda Montenegro:</strong> Logo depois da Segunda Guerra, no fim dos anos 40 e início dos 50. Era um período em que Simone e Jean-Paul Sartre despontavam como celebridades, como popstars. Todo mundo do meio artístico e intelectual queria entender o que pensavam. Eu, à época, trabalhava para a Rádio Ministério da Educação, a lendária Rádio MEC, que já se localizava no centro do Rio de Janeiro. Ingressei ali em 1945, ainda adolescente, por causa de um projeto que recrutava novos locutores, redatores e atores. Fiz o teste, uma leitura de poema, sem botar fé que me chamariam. Mas me chamaram e acabei passando uma década na emissora. Jamais imaginei que encontraria por lá um universo tão rico culturalmente. Tínhamos aulas de português e de declamação, além de palestras sobre os assuntos que abordávamos no ar. Por longo tempo, desfrutei do privilégio de apresentar o programa dominical <em>Douce France</em> (Doce França). Em função disso, pude me aproximar ainda mais das teses de Sartre e Simone.</p>
<p><strong>Qual o primeiro livro dela que você leu?<br />
</strong>Foi <em>O Segundo Sexo</em>, que saiu em 1949 e se transformou num clássico da literatura feminista, sobretudo por apregoar que as mulheres não nascem mulheres, mas se tornam mulheres. Ou melhor: que as características associadas tradicionalmente à condição feminina derivam menos de imposições da natureza e mais de mitos disseminados pela cultura. O livro, portanto, colocava em xeque a maneira como os homens olhavam as mulheres e como as próprias mulheres se enxergavam. Tais ideias, avassaladoras, incendiaram os jovens de minha geração e nortearam as nossas discussões cotidianas. Falávamos daquilo em todo canto, nos identificávamos com aquelas análises. Simone, no fundo, organizou pensamentos e sensações que já circulavam entre nós. Contribuiu, assim, para mudar concretamente as nossas trajetórias.</p>
<p><strong>De que modo alterou a sua?<br />
</strong>Sou descendente de italianos e portugueses, um pessoal muito simples, muito batalhador, e me criei nos subúrbios cariocas. Desde cedo, conheci mulheres que trabalhavam. E reparei que, entre os operários, na briga pela sobrevivência, os melindres do feminino e as prepotências do masculino se diluíam. Era necessário tocar o barco, garantir o sustento da família sem dar bola para certos pudores burgueses. Nesse sentido, a pregação feminista de que as mulheres deviam ir à luta profissionalmente não me impressionou tanto. Um outro conceito me seduziu bem mais: o da liberdade. A noção de que tínhamos direito às nossas próprias vidas, de que poderíamos escolher o nosso rumo e de que a nossa sexualidade nos pertencia. Eis o ponto em que o livro de Simone me fisgou profundamente. Lembro-me de quando vi pela primeira vez a cena da bomba atômica explodindo. Ou de quando me mostraram as imagens dos campos de concentração nazistas. O impacto negativo que aquilo me causou foi parecido com o impacto positivo que <em>O Segundo Sexo</em> exerceu sobre mim. Garota, já suspeitava que não herdaria o legado de minha mãe e de minhas avós, que não caminharia à sombra masculina. O livro de Simone me trouxe os argumentos para levar a suspeita adiante.</p>
<p><strong>Sua mãe trabalhava fora?<br />
</strong>Não. Era uma ótima dona de casa, uma administradora emérita do lar. Cuidava com carinho e eficiência de meu pai, um modelador mecânico, e das três filhas. Quando ficou viúva, caiu em depressão. Tinha mais de 80 anos e procurou uma psicanalista. Expôs as angústias à terapeuta e depois a ouviu, ouviu, ouviu. De repente, interrompeu a conversa e revelou: &#8220;Doutora, sabe do que gostaria mesmo? De liberdade&#8221;. Veja bem: minha mãe precisou chegar à extrema velhice para conseguir expressar o que de fato almejava. Escutei testemunhos similares &#8211; e tardios &#8211; de outras mulheres idosas, como a minha sogra. Elas integravam uma geração que suportava a dor em silêncio, sem reclamações. &#8220;Caráter e espinha&#8221;, proclamava minha mãe quando lhe indagavam quais os principais atributos femininos. Espinha para se curvar, compreende?</p>
<p><strong>Os existencialistas teorizaram bastante sobre a liberdade humana. Diziam que &#8220;o homem será antes de mais nada o que desejar ser&#8221;. Você concorda?<br />
</strong>Concordo. Somos os senhores de nossos atos, de nossas opções. &#8220;Deus ajuda quem cedo madruga&#8221;, ensina o ditado popular. Se o homem não inventar o próprio destino, Deus não irá interferir.</p>
<p><strong>Você crê em Deus? Simone não acreditava. </strong><br />
Ora acredito, ora desacredito. Ninguém me demonstrou a presença de Deus. Tampouco demonstrou o contrário. Eu talvez cultive uma fé imensa em meio à dúvida. Por outro lado, creio plenamente no acaso.</p>
<p><strong>O homem nasce livre, mas o acaso tem a última palavra, dizia Simone.<br />
</strong>Exato. O acaso se põe acima de qualquer teoria. É o grande mistério e a principal razão para a miseric<br />
órdia. Os homens deveriam se irmanar justamente porque se sujeitam, todos, às leis insondáveis do acaso. O que me fez entrar na Rádio MEC com 15 anos? O que me fez superar a timidez juvenil e concorrer às vagas de locutora e atriz? Foi o acaso, em parte. Havia a minha vontade e havia o imponderável. Se tomasse outro rumo naquela ocasião, em quem iria me transformar? Não sei. Sei apenas que hoje me encontro onde sempre quis. Vivi sem tempos mortos.</p>
<p><strong>Um slogan de maio de 1968: &#8220;Viver sem tempos mortos, gozar a vida sem entraves&#8221;. Você pinçou um trecho dele para batizar sua peça, não?<br />
</strong>É que realmente vivi sem tempos mortos, algo de que me orgulho. Mergulhei com avidez na existência que ganhei de Deus, da natureza ou do acaso. Realizei uma profissão que considero importantíssima &#8211; subir no palco para converter meu corpo em instrumento de discussões. Nunca roubei, nunca matei. Se impedi alguém de alcançar a felicidade, não me dei conta e peço desculpas. Peço perdão até. Não me julgo perfeita. Longe de mim! Carrego minhas zonas escuras, mas também umas zonas legais. Então&#8230; Elas por elas.</p>
<p><strong>Que zonas escuras?<br />
</strong>Sou rancorosa. Lógico que rejeito o sentimento e me policio: &#8220;Vamos largar de besteira!&#8221;. No entanto&#8230; Ressinto-me igualmente de não ter mais disponibilidade para os amigos e a família. Às vezes, exagero na reclusão. Distancio-me de meus afetos. Quando penso nos colegas que se foram e na atenção insuficiente que lhes dediquei&#8230; Flávio Rangel, Renato Consorte, Paulo Gracindo, Lélia Abramo, Zilka Salaberry, Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Autran&#8230; Convivi tão pouco com o Autran&#8230; Sorte que, às vésperas de morrer, ele me mandou uma carta, comovido. Falava de coisas doces. Foi provavelmente a última carta que redigiu. A vida não passa disso, de um demorado adeus.</p>
<p><strong>Em setembro de 2008, você assistiu à morte de seu marido, o ator e produtor Fernando Torres, companheiro de quase seis décadas. Como lidou com o fato?</strong><br />
Não lidei. Continuo lidando&#8230; Jamais a sensação do absurdo se mostrou tão palpável, tão nítida. Você não aceita aquele virar de página. Você nega a partida. O engraçado é que só me toquei de minha finitude depois de perder o Fernando. Claro que, antes, me observava no espelho e acusava a passagem dos anos. Mas não percebia que meu tempo está se esgotando, uma constatação terrível. Experimentar o desmonte psíquico, o desmonte muscular, o desmonte existencial&#8230; Não me parece fácil. Por enquanto, tudo vai bem. Disponho de vitalidade e ânimo para prosseguir. Consigo trabalhar 14, 18 horas por dia. Noto, porém, que algumas pes­soas já me olham com assombro: &#8220;Ainda fala! Ainda se locomove!&#8221;. Tornei-me um estranho fenômeno de resistência, como outros de minha idade. Mesmo assim, acho que a pior tragédia é morrer jovem. Não há nada mais triste do que a vida interrompida precocemente.</p>
<p><strong>Fernando concordava com as ideias defendidas por Simone em <em>O Segundo Sexo</em>?<br />
</strong>Sim, totalmente. Era um homem de tutano, de fibra, um homem libertário que recusava o machismo. Enfrentou meu sucesso e minha personalidade forte à maneira de um gigante. Em nenhum momento me castrou. Pelo contrário: me incentivou muito e, na função de produtor, buscou criar as melhores condições para meu progresso como atriz. Certas vezes, me vendo no palco, chorava de emoção. Se minhas conquistas o incomodavam, não deixou transparecer &#8211; atitude que considero de uma grandeza absoluta. Infelizmente, sofreu por 20 anos em razão de uma isquemia cerebral que, primeiro, lhe trouxe depressões violentíssimas e, depois, lhe prejudicou os movimentos. Um quadro tão terrível quanto inesperado. Uma armadilha do acaso. Meses antes de morrer, fez questão de me aguardar no aeroporto quando retornei de uma viagem à Itália. Estava contente e me acenou da cadeira de rodas. Segurava um buquê de flores. Perguntei: &#8220;Por que as flores, Fernando?&#8221;. E ele: &#8220;Porque nosso terceiro neto acabou de chegar&#8221;. Recebi a notícia do nascimento de Antônio assim, com flores.</p>
<p><strong>Simone e Sartre protagonizaram uma relação aberta e se cercaram de vários parceiros sexuais. Você e Fernando viveram um casamento semelhante?<br />
</strong>Não. Firmamos um pacto de fidelidade, que deveria se manter até onde desse. E deu! No meu caso, deu. Todas as minhas fantasias extraconjugais resolvi em cena, sem amargar qualquer frustração. Se por ventura não deu para o Fernando, respeito. Fomos transgressores à nossa moda, percebe? Qual a maior subversão que um casal pode praticar nos dias de hoje? Permanecer junto! Nós permanecemos &#8211; com altos e baixos, mas permanecemos.</p>
<p><strong>Simone não teve filhos. Você gerou dois, a atriz Fernanda Torres e o cineasta Cláudio Torres. Maternidade e feminismo combinam?<br />
</strong>Certamente. Mesmo orbitando em torno do ideário feminista, sempre desejei uma família. Nunca desprezei &#8220;o orgulho da carne&#8221;. E não me arrependo: acima de tudo, sou a mãe de meus filhos. Mais que atriz, mais que a viúva do Fernando, sou a mãe de meus filhos.</p>
<p><strong>Por que você resistiu à plástica, seguindo na contramão de tantos artistas? O feminismo a influenciou nesse terreno?<br />
</strong>Não me oponho às cirurgias estéticas nem condeno quem as faça, mas receio perder minha cara. Óbvio que, à beira dos 80, gostaria de exibir um pescoço maravilhoso, eliminar as bolsas abaixo dos olhos, implodir a papada sob o queixo. O problema é que não me reconheceria sem tais &#8220;defeitos&#8221;. Fora que, aderindo à plástica, ganharia uns dez anos e, em vez de ostentar 80, recuaria para 70. Qual a vantagem?</p>
<p><strong>Você se julga bonita?<br />
</strong>Ultimamente, quando espio fotos em que apareço jovem, enxergo certa graça ali. Na época, porém, me achava um estrepezinho &#8211; magra, sem peito, sem bunda, sem coxas. Eu fugia muitíssimo do padrão. Não me equiparava às beldades daquele momento: Doris Day, Marilyn Monroe, Tônia Carrero, Maria Della Costa. O curioso é que nem por isso me sentia inferior. Numa ocasião, a companhia de Henriette Morineau me contratou para assumir o papel de uma feiosa em um espetáculo &#8211; não lembro o nome da peça. Minha personagem rivalizava com uma prima linda e fogosa, um anjo exterminador, um furacão que seduzia o tio, os namorados alheios, o diabo. Num dos ensaios, arrumei coragem e confessei que não queria interpretar a feiosa. Queria encarnar o anjo exterminador. O resto do elenco me chamou de louca. Pois acabei pegando o papel e afirmo, com enorme alegria, que ninguém protestou na plateia. Ninguém ousou dizer que aquele estrepezinho não seria capaz de enfeitiçar deus e o mundo.</p>
<p><strong>Já idosa, Simone declarou que não se deixaria escravizar pelo passado. Você também parece não se prender às glórias de outros tempos e abdica de títulos que a colocam em pedestais, como o de &#8220;primeira dama do teatro brasileiro&#8221;. Por quê?<br />
</strong>Entenda: prezo tudo que realizei, mas o passado é o passado. Terminou. Não pretendo me entregar às divagações do tipo &#8220;ah, meus verdes vales&#8230;&#8221;. Rechaço a melancolia nostálgica e, à semelhança de Simone, frequentemente me pergunto: &#8220;Que espaço o passado reserva para a minha liberdade hoje?&#8221;. Quanto à classificação de &#8220;primeira dama&#8221;, não me ofendo. Em absoluto! Só avalio que o rótulo não me cabe. Vi e vejo atrizes extraordinárias na estrada. Não é possível que apenas uma envergue a coroa. Precisamos dividir os louros. Sem contar que a mídia e os críticos mencionam sempre as damas e nunca os lordes. Cadê os lordes? Nossos palcos estão repletos deles. Na verdade, títulos do gênero são a herança de um teatro romântico, heroico &#8211; um tea­tro que jamais busquei. Uma vez, a Nandinha, minha filha, filmou no México com o Anthony Hopkins e me escreveu de lá: &#8220;Mamãe, ele é igualzinho a gente&#8221;. Correto! O ofício não nos tira do âmbito humano. Continuamos falíveis como qualquer indivíduo. Mesmo as<br />
divas tropeçam em cena, sofrem acessos horríveis de tosse, esquecem o texto, temem não dar conta do recado.</p>
<p><strong>Você teme?</strong><br />
Muito! Desde moça, temo que me falte o sopro, o mistério da criação. Há artistas que perdem a chama de repente, sem saber o porquê. Não tenho consciência se já a perdi. Sinceramente não tenho. E talvez nem deseje ter.</p>
<p><a class="a2a_dd a2a_target addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save#url=http%3A%2F%2Fwww.armandoantenore.com.br%2Findex.php%2Fentrevistas%2Ffernanda-montenegro-a-vida-e-um-demorado-adeus%2F&amp;title=Fernanda%20Montenegro%3A%20%26quot%3BA%20vida%20%C3%A9%20um%20demorado%20adeus%26quot%3B" id="wpa2a_16">Compartilhar</a></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/fernanda-montenegro-a-vida-e-um-demorado-adeus/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>João Moreira Salles: &quot;Fiz o filme para me curar&quot;</title>
		<link>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/joao-moreira-salles-fiz-o-filme-para-me-curar/</link>
		<comments>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/joao-moreira-salles-fiz-o-filme-para-me-curar/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 01 Aug 2008 22:56:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armando Antenore</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://andyarm.wordpress.com/2008/08/01/joao-moreira-salles-fiz-o-filme-para-me-curar</guid>
		<description><![CDATA[Em seu novo documentário, &#8220;Santiago&#8221;, que estréia neste mês, João Moreira Salles se expõe como nunca em sua obra. Ele conta que concluiu o longa em meio a uma crise pessoal e que pretende abandonar o cinema Se &#8220;Santiago&#8221; apenas retratasse um mordomo exótico, seria um filme curioso, como os inúmeros que abrem espaço para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Em seu novo documentário, &#8220;Santiago&#8221;, que estréia neste mês, João Moreira Salles se expõe como nunca em sua obra. Ele conta que concluiu o longa em meio a uma crise pessoal e que pretende abandonar o cinema</strong></p>
<p><span id="more-673"></span>Se &#8220;Santiago&#8221; apenas retratasse um mordomo exótico, seria um filme curioso, como os inúmeros que abrem espaço para personagens incomuns. Se desenhasse o mesmo retrato e ainda desnudasse os bastidores do fazer cinematográfico, seria um filme curioso dentro da extensa família de produções que pensam sobre si próprias. O novo trabalho de João Moreira Salles exibe as duas características, mas também uma terceira, o que o torna absolutamente original e, talvez, um marco entre os documentários brasileiros.</p>
<p>Por partes: o mordomo em questão se chamava Santiago Badariotti Merlo. Argentino de sangue italiano, trabalhou durante três décadas para o banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles, pai de João e de outro cineasta, Walter Salles. Certamente, pouquíssimas figuras conseguiriam se revelar tão peculiares quanto Santiago, um tipo que tocava castanholas e venerava música erudita. Pelas manhãs, separava pequenos pedaços de papéis, preenchia-os com aforismos (&#8220;abortos mentais&#8221;, explicava) e os disseminava por todo canto. Não bastasse, encontrava tempo para elaborar uma espécie de enciclopédia, em que registrava a biografia de reis, aristocratas, chefes indígenas, astros de Hollywood e da TV. Algo como a história universal das celebridades. Eram centenas e centenas de listas, que o acompanharam até a morte, em 1994.</p>
<p>João cresceu ao redor de Santiago num casarão da Gávea, hoje a sede carioca do Instituto Moreira Salles. Quando tinha 30 anos, em 1992, decidiu rodar um filme sobre o antigo mordomo, àquela altura já octogenário e morando sozinho num pequeno apartamento. Por alguns dias, entrevistou o ex-empregado e o registrou de incontáveis maneiras. No entanto, nunca concluiu a obra.</p>
<p>Em 2005, depois de se tornar um documentarista premiado (é autor de Notícias de uma Guerra Particular, Nelson Freire e Entreatos), retomou o longa-metragem sem saber exatamente que caminhos seguir. Acabou produzindo um segundo filme que reflete sobre o fracasso do anterior. Em &#8220;Santiago&#8221;, não há imagens novas. O cineasta — atualmente com 45 anos — aproveita o material que captou no passado e o remonta. Amarra as cenas por meio de uma narração em off. Eis o pulo do gato, a terceira característica que ilumina o documentário: a narração, na primeira pessoa, não só exprime os anseios, os dilemas, as falsificações e as mesquinharias da filmagem de 1992 como destrincha as memórias e as inquietações de João Moreira Salles. Falando do mordomo, do casarão e do longa que naufragou, o diretor fala de si com uma rara franqueza.</p>
<p>Leia, abaixo, a entrevista que ele concedeu a BRAVO! no Rio de Janeiro:</p>
<p><strong>BRAVO!: Você é um documentarista reconhecido que sempre zelou pela discrição. No entanto, em &#8220;Santiago&#8221;, resolveu se expor publicamente. Por quê? É uma auto-sabotagem?</strong><br />
<strong>João Moreira Salles:</strong> Não, talvez seja exatamente o contrário — uma tentativa de me salvar, de me curar. Fiz &#8220;Santiago&#8221; pensando sobretudo em sanar as aflições que me rondavam a alma e que, de certo modo, ainda me atormentam. Trata-se de um filme essencialmente terapêutico. Quando decidi rever o material que rodei em 1992, tinha 43 anos e atravessava uma intensa crise. Estava adquirindo a consciência muito profunda de que as coisas realmente passam e de que não conseguimos recuperá-las. Para mim, que não acredito em nada, que não alimento nenhuma fé metafísica, a morte e a passagem do tempo são problemas imensos, obsessões que sempre me acompanharam. A diferença é que, com 30 anos, possuía apenas uma compreensão abstrata, intelectual do assunto. Agora, a compreensão se tornou concreta. Compreendo com as tripas. Intuitivamente, julguei que retomar o documentário inacabado me ajudaria a organizar o caos em que imergira. Há quem, no meio de uma tempestade existencial, resolva usar drogas, viajar a Lourdes e clamar por um milagre, conhecer o Dalai Lama ou praticar esporte. Eu resolvi fazer um filme.</p>
<p><strong>Em que sentido fazer o filme poderia contribuir para tirá-lo da crise?<br />
</strong>Pelo fato de que Santiago também estava às voltas com a passagem do tempo, ainda que à maneira dele. As listas de celebridades que elaborava pretendiam imortalizar aquela gente toda. Santiago tinha uma concepção de vida e morte quase helênica e, por isso, bela. Para os gregos, um homem morre quando o esquecem e vive quando o lembram. Se Homero lembra, o guerreiro Aquiles existe. Se Homero não lembra, Aquiles deixa de existir. Assim, realizar um filme sobre Santiago significava realizar um filme sobre as questões que me assombram. Era um jeito inconsciente de me aproximar do problema com serenidade, sem tanto horror. Digo &#8220;inconsciente&#8221; porque, quando decidi resgatar as imagens, não fazia idéia do que iria encontrar ali. Não me recordava das cenas.</p>
<p><strong>E funcionou? Concluir o filme lhe trouxe paz?<br />
</strong>Não por completo. Mas tirou muito do veneno, da pimenta que o problema destilava em mim. Só os loucos se tranqüilizam inteiramente com a consciência da finitude&#8230; Ao montar o filme, percebi um aspecto na figura de Santiago que me comoveu e que contribuiu para me apaziguar um pouco. As listas que ele transcreveu durante décadas não têm função prática nenhuma. Revelam-se inúteis, se levarmos em conta a noção de utilidade que costumamos atribuir às coisas. Entretanto, Santiago agarrou-se àquela inutilidade na esperança de engrandecer a própria vida. Deu sentido à sua existência dedicando-se a algo que não é nada. Agiu como cada um de nós deveria agir. Até porque, no limite, tudo o que produzimos acaba se mostrando tão inútil quanto as listas de Santiago. O próprio cinema é inútil.</p>
<p><strong>O cinema?</strong><br />
Exato, ainda que boa parte dos cineastas não concorde. O universo funcionaria perfeitamente sem o cinema — e sem a literatura ou as artes em geral. Adoro aquele célebre verso de W. H. Auden: &#8220;A poesia não faz nada acontecer&#8221;. Os poemas, os filmes, as pinturas são inúteis. Eis o que os enche de beleza em um mundo absolutamente utilitarista. Na verdade, a crise que enfrento decorre também das dúvidas acerca de minha profissão. Nunca me considerei um cineasta. E nunca fiquei à vontade entre cineastas justamente por não partilhar do entusiasmo com que eles discutem o cinema. Alguns livros e alguns quadros me causaram impacto maior do que os melhores filmes a que assisti. É uma deficiência minha, não do cinema. Encaro o gesto de filmar apenas como um trabalho. Um acidente. Não se trata de uma vocação genuína. Não é dali que extraio prazer. Tenho, inclusive, lacunas enormes em minha formação e não me sinto obrigado a superá-las.</p>
<p><strong>Que lacunas?<br />
</strong>Conheço bem a tradição do documentário, mas não vi obras ficcionais importantes. Não vi nada de F. W. Murnau, por exemplo. Nem &#8220;Profissão: Repórter&#8221;, de Michelangelo Antonioni, ou &#8220;Ladrões de Bicicleta&#8221;, de Vittorio De Sica. Vi poucos westerns de John Ford, já que o gênero quase sempre me aborrece. Enfim&#8230; As lacunas são incontáveis.</p>
<p><strong>Falando em lacunas, por que você não conseguiu terminar &#8220;Santiago&#8221; da primeira vez?<br />
</strong>Porque, na época, achei que as imagens careciam de fluência narrativa. As cenas não se ligavam. Faltavam elos. Não notei que havia um terceiro protagonista no filme — eu próprio. Ou melhor, a minha relação com os outros dois personagens: o mordomo e a casa da Gávea. Daí a dificuldade de montar o longa. É como se quisesse encenar a tragédia de Otelo e Desdêmona sem incluir o Iago. Precisei de 13 anos para me dar conta dessa ausência. Assim que a identifiquei, não pude fugir do óbvio: ou me expunha ou o filme continuaria capenga. Claro que relu<br />
tei imensamente à hipótese de me mostrar por saber que um fio muitíssimo tênue separa a auto-exposição do narcisismo. Foi quando li uma declaração do cineasta francês Chris Marker: &#8220;O uso da primeira pessoa num filme equivale a um ato de humildade. Tudo o que tenho a oferecer sou eu mesmo&#8221;. Se necessitava de um álibi, acabara de o encontrar. Resolvi, então, mergulhar de cabeça na aventura. Vou me expor? Que seja como em uma sessão de psicanálise: nada de esconder as mesquinharias, os golpes baixos, as fraquezas.</p>
<p><strong>Por isso você não cortou as cenas em que trata Santiago de modo autoritário, quase agressivo?<br />
</strong>Sim. Em 1992, talvez devido à onipotência juvenil, cultivava idéias extraordinariamente pretensiosas sobre cinema. Desejava conceber um filme de uma beleza absoluta, de um rigor absoluto, glorificando o que existe de pior no formalismo estéril. E enxergava qualquer documentário como sinônimo de controle. O diretor elimina do mundo todos os imprevistos e manda os personagens repetirem 15 vezes a mesma seqüência até alcançarem uma espécie de perfeição. Muito do meu autoritarismo, da minha ansiedade no set derivava dessa postura rígida, dogmática. O curioso é que não a percebia. Agora, penso exatamente o oposto: não temos como controlar nada. O acaso, portanto, deve fazer parte do filme. O fortuito, a surpresa, o acidental. Há documentaristas que saem para a rua com um mapa, sabendo o que procuram. E há aqueles que saem sem mapa nenhum e sem saber direito o que querem. Estes me interessam mais hoje em dia. Eu, antigamente, carregava um mapa. E o mapa só indicava uma autoban, uma rodovia plana; não considerava atalhos ou estradas vicinais.</p>
<p><strong>Mas Santiago parecia gostar da encenação e do controle sobre a realidade. Ele, de certa maneira, passou a vida medindo os próprios gestos, incorporando um tipo exótico e caricato. Você traiu Santiago quando optou por questionar o controle e a encenação no filme?<br />
</strong>Todo documentarista acaba traindo seus personagens de uma ou outra forma. Sempre os respeita, exceto se assume o comportamento de um mau-caráter, e sempre os decepciona. Afinal, os personagens jamais se reconhecem integralmente na tela. Em parte, o Santiago do filme é ele mesmo. Em parte, é a ficção que faz de si próprio e o desmonte dessa ficção.</p>
<p><strong>Num único momento do documentário, Santiago dá sinais de que abdicará espontaneamente da encenação para contar algo muito íntimo. Tudo indica que pretendia se confessar gay. No entanto, você o impediu. Por quê?<br />
</strong>De novo, porque eu estava disposto a ouvir somente aquilo que desejava escutar e não o que ele queria dizer.</p>
<p><strong>Mas por que você não estava disposto a ouvir especificamente aquela revelação?<br />
</strong>Por julgar que Santiago iria se expor em excesso. Tentei protegê-lo e, lógico, evitar meu próprio constrangimento diante da situação inesperada.</p>
<p><strong>Hoje você permitiria que ele falasse?<br />
</strong>Sem dúvida nenhuma. Santiago queria falar.</p>
<p><strong>Outro ponto chama atenção no documentário. É quando você admite que, no set, não deixou de agir como patrão e Santiago não abandonou o papel de mordomo. Levantando uma lebre tão apetitosa, você não corre o risco de a leitura social se sobrepor às demais leituras possíveis do longa?<br />
</strong>Corro, embora a leitura social seja benéfica para o país. Raras vezes a classe dominante se mostra nos filmes brasileiros. Cinema, por aqui, corresponde quase sempre à equação &#8220;quem tem filma quem não tem&#8221;. Nossos cineastas em geral se preocupam com o diferente. Retratam mundos alheios, o sertão, a favela, a periferia. Olhar para si é mais complicado — não como desafio estético, mas como desafio existencial.</p>
<p><strong>Você já declarou que, depois de Santiago, deverá encerrar a carreira de documentarista. Deverá mesmo?<br />
</strong>Produzi o filme com uma sensação de ponto final. &#8220;Santiago&#8221; me possibilitou fechar uma porta, concluir um ciclo. O que penso sobre documentário está lá. Se abrirei novos ciclos, ainda não sei. Por ora, não tenho nenhuma vontade de abri-los. &#8220;Santiago&#8221; é o único filme que reconheço como meu. Outros diretores poderiam assinar os demais documentários que fiz. Já &#8220;Santiago&#8221; só poderia sair de mim.</p>
<p><strong>Há um certo narcisismo nessa afirmação, um tom triunfal de quem se julga melhor hoje do que ontem. Aliás, idéia semelhante se insinua no filme, não?<br />
</strong>É uma interpretação legítima. Mas, usando o mesmo raciocínio, poderia argumentar que, ao me julgar melhor hoje, denuncio minha imensa soberba e, portanto, sou pior. Impossível escapar das armadilhas&#8230; Se houve progresso, não se trata de progresso moral. Não me tornei mais virtuoso, e a próxima etapa não é a santidade.</p>
<p><strong>Para terminar, repito a pergunta que aparece em &#8220;Viagem a Tóquio&#8221;, filme de Yasujiro Ozu citado por você em &#8220;Santiago&#8221;: a vida é uma decepção?<br />
</strong>Como a personagem de Ozu, eu deveria responder &#8220;sim&#8221; e dar um grande sorriso depois. Porque a inteligência é encontrar o júbilo de um sorriso diante do que não se pode evitar.</p>
<p><strong>Você o encontrou? </strong><br />
Estou sorrindo agora, não estou?</p>
<p><a class="a2a_dd a2a_target addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save#url=http%3A%2F%2Fwww.armandoantenore.com.br%2Findex.php%2Fentrevistas%2Fjoao-moreira-salles-fiz-o-filme-para-me-curar%2F&amp;title=Jo%C3%A3o%20Moreira%20Salles%3A%20%26quot%3BFiz%20o%20filme%20para%20me%20curar%26quot%3B" id="wpa2a_18">Compartilhar</a></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.armandoantenore.com.br/index.php/entrevistas/joao-moreira-salles-fiz-o-filme-para-me-curar/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

