Marieta Severo – “Sou de um tempo em que nos guiávamos por uma palavrinha mágica: experimental”

Homenageada pelo 18º Prêmio CLAUDIA, a atriz Marieta Severo se declara de esquerda, explica o apoio que deu à Comissão da Verdade, relembra o exílio italiano e conta que sonhou morar numa comunidade alternativa com Leila Diniz

Certas verdades ninguém pode nos revelar. Precisamos descobri-las sozinhos. O mote, tão caro às tragédias gregas, norteia a peça Incêndios, do dramaturgo libanês Wajdi Mouawad, que Marieta Severo protagoniza no Rio de Janeiro desde setembro. Sob a direção de Aderbal Freire-Filho, com quem namora há oito anos, a atriz carioca interpreta Nawal Marwan, ex-militante política que guarda um segredo terrível. O espetáculo inspirou o filme canadense homônimo e tem como pano de fundo uma intrincada guerra civil, que arrasa um país oriental nunca identificado. Embora contemporânea, a trama ecoa pelo menos dois clássicos do teatro universal, ambos do século 5 a.C.: Medeia, de Eurípedes, e Édipo Rei, de Sófocles. Escorando-se numa atuação sóbria, mas potente, Marieta foge dos arroubos melodramáticos e atrai elogios da crítica, inclusive os da severíssima Bárbara Heliodora. Prova, assim, que segue capaz de transitar com desenvoltura por diversos gêneros, do drama rasgado à sátira de costumes (em 2014, continuará incorporando a espirituosa dona Nenê no seriado A Grande Família, da Globo).
Duas semanas depois de estrear Incêndios, a atriz – que vive sozinha na Gávea, bairro nobre do Rio – viajou para São Paulo, onde recebeu o 18º Prêmio CLAUDIA. Foi a principal homenageada da noite. Levou o troféu na categoria hors-concours, pelas contribuições que vem dando à arte.

Por que você decidiu montar uma peça com um viés tão político quanto Incêndios?
Quando escolho um trabalho, atendo principalmente o desejo de contar uma ótima história, seja engraçada, seja dolorosa – uma história que me toque de diferentes modos e que toque o público. Não entro em cena para passar mensagens. O que me interessa é o enredo. Agora, dependendo do caso, a história que resolvo contar espelha circunstâncias políticas e sociais muito familiares à platéia. Incêndios trata de uma guerra civil no Oriente Médio. Presa por participar do conflito, a personagem que interpreto, Nawal, sofre tortura. Lógico que uma trama assim nos faz refletir sobre o Brasil e a trajetória da minha geração. Eu, Marieta, 66 anos de idade e quase 50 de carreira, atravessei a juventude embaixo de ditadura e tive amigos barbaramente perseguidos. Hoje moro num país que, além de amargar uma guerra civil camuflada, segue convivendo com a tortura nas delegacias, nas cadeias, só que desta vez contra os pobres. Há poucos meses, surgiu o nome de uma das vítimas: Amarildo. Quantas mais existirão no Rio e em outras cidades? De certa maneira, questões dessa natureza permeiam toda a peça. (A atriz se refere a Amarildo de Souza, ajudante de pedreiro supostamente morto por policiais na favela carioca da Rocinha e cujo corpo desapareceu).

Soube que, enquanto preparava o espetáculo, você leu   Brasil: Nunca Mais. O livro, organizado pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, descreve a repressão da ditadura sobre os opositores entre 1964 e 1979.
Li, sim. Quer dizer: o reli. Também consultei depoimentos de mulheres torturadas naquela fase por combaterem o governo militar. Elas se pronunciaram recentemente à Comissão da Verdade. O testemunho de Lucia Murat, cineasta que me dirigiu em Quase Dois Irmãos, é de tirar o fôlego.

No primeiro semestre, você emprestou a voz para uma campanha publicitária em prol da Comissão, que apura violações contra os direitos humanos praticadas por agentes do Estado. Há quem questione a investigação, acusando-a de parcial por não averiguar os crimes dos que repudiavam a ditadura. Como você se posiciona frente à polêmica?
Sou a favor da verdade, não importa de qual lado esteja. Que apurem o máximo possível, independentemente de partidos ou facções! Temos de conhecer o passado para corrigir os rumos do presente e driblar erros já cometidos. As versões não podem se tornar mais importantes que os fatos. Do contrário, mergulharemos num vale-tudo horroroso. Creio que a verdade deve nos guiar sempre – e não apenas em termos coletivos. Como indivíduos, também é mais sábio enfrentar com verdade as nossas questões, sem deixar nada encoberto.

Pressionado pela ditadura, o compositor Chico Buarque, seu marido à época, se exilou na Itália em janeiro de 1969. Você o acompanhou e permaneceu por lá até março de 1970. Que recordações guarda daquele período?
Me recordo de ficar muito apavorada. Eu acabara de completar 22 anos, e o exílio me pegou de surpresa. Viajamos à Europa com a intenção de retornar logo, dentro de uns 20 dias. Chico participaria de uma feira musical em Cannes, na França, e depois seguiríamos para Roma. Foi quando nos chegaram recados do Gilberto Gil e do Caetano Veloso, que se encontravam presos no Brasil: “Não voltem!”. Outros amigos nos mandaram alertas parecidos. Falavam que, se voltássemos, o Chico iria diretamente do aeroporto para o xadrez. Só nos restou continuar na Itália. Tínhamos as roupas do corpo, umas tantas nas malas e nada mais. Consegui encarar a situação de cabeça erguida, mas com bastante medo. Mesmo grávida de minha primeira filha, a Silvinha, perdi oito quilos em dois meses! Virei um graveto. Ou melhor: um graveto que engoliu uma azeitona. (risos) Precisei arranjar ginecologista às pressas e fiz curso de gestante em italiano, língua que mal arranhava. Sabia cantar “Volare, ô, ô” e olhe lá. Minha mãe trouxe do Rio o enxoval da Silvia, que nasceu com um corte na testa. É que os médicos usaram fórceps durante o parto, e o fórceps machucou a cabecinha do bebê. Uma confusão! Perto da obstetrícia brasileira, a da Itália estava bem defasada.

 Quando vocês retornaram, o medo persistiu?
Persistiu, porque recebíamos ameaças constantemente. Todo fim de ano, nos enviavam cartões com advertências do gênero: “Chico será o próximo”. Organizações pró-ditadura assinavam as mensagens. Certa manhã, enquanto dormíamos em nosso apartamento, na Lagoa (bairro da zona sul carioca), a polícia o invadiu e agarrou o Chico. Decidi seguir os agentes para descobrir aonde o levariam. Acontece que sou cega como uma jamanta. Tenho 6,5 graus de miopia em cada vista. No desespero, peguei meu carro, mas esqueci as lentes de contato. Resultado: não andei nem 50 metros e me perdi dos policiais. Conhece uma canção que o Chico escreveu na década de 1970, Acorda, Amor? Odeio associar diretamente a arte à realidade – a criação, afinal, percorre caminhos tão inusitados… No entanto, me parece que Acorda, Amor faz, sim, alusão àquele episódio. Me lembro também de sentir o coração apertado toda vez que o Chico saía com nossas três filhas, ainda pequenas. Eu os observava da varanda e pensava: “Ai, meu Deus…” Temia que colocassem uma bomba no carro da família, sei lá. Mesmo assim, não os impedia de passear juntos. Procurava tocar a vida sem paranoias excessivas e sem transmitir minhas angústias para as meninas. Tentava agir como se nada daquilo existisse.

Você já militou politicamente?
Não, nunca ingressei em sindicatos, partidos ou algo que o valha. Mas sempre me posicionei. Meu pai, um advogado que se tornou desembargador, atuou como líder estudantil nos tempos de Getúlio Vargas. Por isso, costumávamos discutir políticaem casa. Emboranão seja nenhuma estudiosa da área, interesso-me pelo assunto desde cedo. Digamos que faço o mínimo: acompanho o noticiário e busco me manter informada sobre o que se passa no Brasil. Claro que, logo após o Golpe de 1964, participei mais ativamente de assembleias e passeatas. Muitos jovens da época participavam, ainda que não se engajassem nesta ou naquela sigla. A política se confundia com a rotina da gente.

Em 1964, você já trabalhava como atriz?
Estava terminando o curso de normalista e estudava teatro no Tablado (célebre escola do Rio). Estreei     profissionalmente um pouco depois, em 1965. Tinha 18 anos e imaginava que, sendo atriz, mudaria o mundo. (risos) Veja o quanto a política nos influenciava.

Mesmo fora de partidos, você sempre simpatizou com a esquerda, não? Por quê?
Sempre, sempre, sempre. Me considero de esquerda. Entre outras razões, por acreditar que precisamos brigar intensamente contra a desigualdade social no país. Receio que, sozinho, sem nenhuma pressão à esquerda, o tal do capitalismo selvagem não vá se incomodar em reduzir as diferenças. Gosto de saber que os empregados da minha casa estão muito melhor agora do que antes de o Lula assumir o poder. Apesar de todas as decepções que nos causaram, de todos os problemas varridos para baixo do tapete, os dez anos de governo petista fizeram os pobres avançarem. Houve ganho de dignidade, de cidadania, o que me deixa mais tranquila.

Você também se considera feminista?
Talvez me considere, mas uma feminista sem militância. Desde bem jovem, procurei lutar “pelo meu espaço”, como dizia, um espaço que não se limitasse à rotina familiar. Me esforcei desesperadamente para continuar trabalhando fora enquanto criava as meninas. Minha mãe, típica dona de casa, não me compreendia direito: “Marietinha, por que se desdobrar tanto?” Eu, na realidade, adorava aquela correria. Ficava animadíssima com a capacidade de me dividir. Sou multifacetada até hoje. Monto peças, cuido dos meus dois teatros (o Poeira e o Poeirinha, ambos em Botafogo, no Rio), gravo um programa semanal de televisão e ainda tento acompanhar a vidinha dos sete netos. Se pinta uma chance, vou buscá-los na creche, vou visitá-los. Faço parte de uma geração e de um “gueto” – a Ipanema dos anos 60 e 70 – que se guiavam por uma palavrinha mágica: “experimental”. Tínhamos de experimentar, de inovar, de mudar os costumes. Às vezes, nem sabíamos direito o que estávamos experimentando. (risos) Questionávamos tudo: a escola das crianças, o casamento, a obrigação de botar uns saiotes tenebrosos sobre o biquíni quando engravidávamos.

Saiotes?
Saiotes! As grávidas não podiam exibir a barriga na praia. Então punham uns saiotes em cima do biquíni para cobri-la. Eu me negava àquela humilhação! (risos) Leila Diniz, minha amiga querida, também (ícone da emancipação feminina, a atriz niteroiense conheceu Marieta em 1966 e morreu em 1972, com apenas 27 anos). Uma ocasião, a fotografaram no mar, grávida e de biquíni, mas sem saiote. Publicaram a imagem e… Foi um escândalo! Como sempre quisemos filhos, nos projetávamos morando juntas numa comunidade alternativa, repleta de crianças. Não importavam tanto os pais. Bastávamos nós e os bebês. (risos)

Vocês imaginavam ter filhos sem necessariamente se casarem?
Imaginávamos! Só que acabei me casando com o Chico e permaneci assim por três décadas. Uma relação que fluiu muito bem, aliás.

Era um casamento aberto – ou experimental, para usar o termo da sua geração? 
(Risos) Não, vivi meu casamento da maneira tradicional. 

Chico dividia as tarefas domésticas com você? Ele trocava a fralda das meninas, por exemplo?
Você quer saber se o Chico trocava fralda?! Que deselegante! (risos) Eram outros tempos, malandro! Os homens só se conscientizaram que tinham de assumir novos papéis na família depois de as mulheres encherem bastante o saco deles. Minhas filhas costumam me dizer: “A geração de vocês batalhou, e a nossa curte”. De fato, a gente se sobrecarregava à beça, porque nos sentíamos na obrigação de atender todas as demandas. Não desejávamos apenas o reconhecimento profissional. Também pretendíamos ser exímias donas de casa e mães disponíveis, como rezava a antiga cartilha. Enquanto pipocávamos feito malucas, de lá para cá, os homens se mantinham quase que exclusivamente presos às funções masculinas mais convencionais.

 Resumindo: Chico não trocava fralda.
Não trocava. Mas buscou muita criança em festinhas de aniversário. (risos)

(revista Claudia)

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