Luiz Schwarcz: “Sou um editor severo demais comigo”

O fundador e dono da Companhia das Letras, uma das principais editoras brasileiras, tenta escrever romances desde a década de 1990 sem sucesso. O que o atrapalha?

“Aconteceu de novo. Era para ser mais, era para ser outro, era para ser romance, não é.” As cinco frases abrem o posfácio de Linguagem de Sinais, quarto livro do paulistano Luiz Schwarcz. Ele acaba de lançá-lo pela Companhia das Letras, editora que fundou em 1986 e comanda desde então. A coletânea reúne 11 contos, a maioria breves. Dos 11, seis derivam de um romance com 120 páginas que Luiz escreveu e, depois, rejeitou. Seus próprios funcionários avaliaram que a narrativa não se sustentava.
O editor de 54 anos experimentou algo parecido enquanto gestava o livro anterior. Publicado em 2005, Discurso sobre o Capim também agrega 11 contos e nasceu de um romance que não vingou. Luiz enfrentava uma depressão grave na época. Por isso, redigiu as 100 páginas da trama natimorta sob efeito de antidepressivos e outros remédios. Mostrou-as para a mulher, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, que delicadamente o fez abdicar do trabalho. Somente 22 linhas do texto original sobreviveram. Estão em Livro de Memórias, um dos contos de Discurso sobre o Capim. O resto amargou a lixeira do computador.
Mesmo a primeira cria de Luiz – Minha Vida de Goleiro, relato autobiográfico de 1999, que tem como público-alvo as crianças e os adolescentes – aproveitou o mote de um romance frustrado. Apenas o segundo livro do autor, Em Busca do Thesouro da Juventude, nunca almejou status diferente do que possui. É uma novela infantojuvenil e ponto final. Numa manhã de dezembro, Luiz recebeu a revista para um bate-papo de 90 minutos em São Paulo.

BRAVO!:  Por que o desejo de escrever romances?
Luiz Schwarcz:
Fetiche, talvez. Certamente não pertenço à turma dos que julgam o romance um gênero superior. Em contrapartida, não ouso negar que há uma fantasia em torno dele. Alguns jornalistas que elogiaram Linguagem de Sinais lançaram indagações do tipo: “E agora, quando vai sair o romance do Luiz?” Amigos escritores, como Milton Hatoum, reiteraram a pergunta. O fetiche, portanto, não é só meu. Existe uma cobrança de fora também. O romance vira quase uma obrigação para quem pretende abraçar a carreira literária.

 E por que você ainda não publicou um?
Tempos atrás, o Rodrigo Naves (crítico de arte e contista) me falou que “nós dois” – ele se incluiu gentilmente na afirmação – nos damos melhor com narrativas curtas. Deve ser verdade… No fundo, tenho muita insegurança. A ânsia de me tornar romancista ou mesmo de seguir produzindo contos briga ininterruptamente contra um superego bastante rigoroso, um editor severo demais que não se cansa de sussurrar: “Você já é um ótimo leitor. Para que teimar em escrever?” Não por acaso, sempre que me aventuro pelo romance, entro numa montanha-russa: ora me ponho lá em cima, pensando que criei algo de qualidade, ora vou lá para baixo e detesto cada uma das palavras que, antes, me soavam boas. Na Companhia das Letras, publico uma porção de romancistas brilhantes, um pessoal de primeiríssimo time. Impossível não me comparar e não reconhecer o quanto sou menor. Dos quatro títulos que assinei, me orgulho apenas do Minha Vida de Goleiro, um livrinho de memórias.Os outros três, ficcionais, me desagradam consideravelmente. Sinto que carecem de imaginação. No fim das contas, são também livros de memórias, embora disfarçados. Pecam por não fugirem de minha biografia – do meu temperamento retraído, das minhas recordações de criança, do meu universo familiar. Quando os menciono em e-mails para amigos, costumo chamá-los de pobrecitos. É como se os enxergasse à semelhança dos personagens que os habitam: pequeninos, meio alheios, meio quietos, incapazes de se comunicar plenamente.

Escrever lhe traz mais sofrimento do que alegria?
Depende. Sentia um imenso prazer à medida que elaborava os dois livros infantojuvenis. Já os de contos me atormentaram um bocado. Em geral, após finalizar as primeiras versões das histórias, as corrigia durante meses ou anos. Era um processo exaustivo e doloroso. Acho que, por apreciar o silêncio em meu dia a dia, acabo buscandoobsessivamente a concisão na literatura – as frases enxutas, limpas, que reforçam a expressividade do vazio. Daí reescrever tudo milhares de vezes e executar uma quantidade absurda de cortes.

Linguagem de Sinais seria originalmente um romance sobre o quê?
A ideia surgiu dentro de um avião. O voo iria para Lisboa e atrasou por causa de um passageiro com Alzheimer que, antes da decolagem, reivindicava descer na cidade portuguesa de Faro sem fazer escala na capital do país. Mal percebeu que a aeronave não cumpriria aquele trajeto, o pobre homem armou um escarcéu. Ironicamente, enquanto a tripulação e o senhor negociavam, um dos pilotos sofreu um ataque cardíaco e só não morreu porque o avião continuava em terra. O caso me impressionou de tal maneira que decidi aproveitá-lo num romance. A trama misturaria personagens inventados com alguns reais, como o velhinho e o marinheiro escocês Alexander Selkirk, que inspirou o clássico Robinson Crusoé, de Daniel Defoe. Em três anos, redigi 120 páginas. Ao terminar o périplo, cogitei mandar o texto, sob pseudônimo, para a análise de editoras concorrentes. Imaginava que, assim, colheria avaliações isentas. No entanto, logo abandonei a estratégia e submeti a narrativa à opinião de seis profissionais da Companhia. Quatro a rejeitaram. Com razão: o romance, notei mais tarde, tinha como ponto fraco justamente aquilo que deveria distingui-lo, o diálogo entre ficção e não-ficção. Foi uma experiência difícil inverter os papéis e me flagrar na pele de um autor recusado. Restou-me, então, transformar parte do enredo em contos e arriscar uns novos. Dediquei dois anos à missão, até que Linguagem de Sinais finalmente veio a público.

Você escreve desde garoto?
Não, o ímpeto de escrever apareceu somente na maturidade, como uma reação extemporânea à trajetória penosa de minha família. Possuíamos uma gráfica em São Paulo, onde meu pai √– um judeu húngaro muito calado – trabalhava. Ele não gostava de relembrar o que lhe ocorreu na juventude, durante a Segunda Guerra. Relatou o episódio apenas uma vez. Eu, filho único, beirava os 17 anos quando ouvi a trágica revelação: meu pai escapara da morte graças à ousadia de seu próprio pai. Capturados pelos nazistas, os dois se viram num trem lotado que os levaria a um campo de concentração. Às tantas, a locomotiva parou por uns minutos. Meu avô descobriu uma fresta na porta do vagão e atirou meu pai para fora. Nunca mais o encontrou. Na década de 1990, tomei coragem para visitar o prédio de Budapeste em que ambos viveram. Assim que adentrei o pequeno quintal do edifício, chorei convulsivamente. E resolvi, ainda em lágrimas, escrever um romance sobre uma criança que desconhecia as origens paternas. Tive o lampejo ali, na Hungria, mas não esbocei nem sequer um parágrafo. Passaram-se alguns anos e meus pais, idosos, protagonizaram uma discussão seriíssima. Pediram-me para mediá-la – tarefa que, aliás, me cabia desde a infância. Provavelmente, escolhi minha profissão também por força das habilidades diplomáticas que desenvolvi em nossa tumultuada casa. Um editor, afinal, nada mais é do que um mediador, o intermediário entre dois momentos de solidão: o do escritor e o do leitor. Naquela manhã, porém, deixei o apartamento de meus pais arrasado, pois não conseguira apaziguá-los. À tarde, sem nenhum planejamento, iniciei a narrativa que vislumbrara em Budapeste. Só que, no lugar de uma ficção, saiu Minha Vida de Goleiro, que recupera tanto o percurso de meu pai quanto o de meus antepassados maternos, sempre sob o prisma ingênuo e otimista de um menino chamado Luiz.

Qual o próximo romance que você tentará escrever?
Sei lá. Tenho a impressão de que não tentarei mais, de que aceitei enfim os meus limites. Quero apenas prosseguir com os textos breves, especialmente com os posts autobiográficos que coloco no blog da Companhia e que, uma hora, reunirei em livro. Mas é claro que não descarto mudar de ideia se, de repente, avistar outro velhinho amalucado durante um voo intercontinental…

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