Tomie Ohtake

A artista expõe, a partir deste mês, a série Pinturas Cegas na Estação Pinacoteca, em São Paulo

Nome dela em japonês é mistura de dois palavras. Tomi, uma palavra. E, outra palavra. Tomi-E. Se japonês virasse português, Tomie viraria uma alito… Como dizer quando letras se repetem? Quando uma palavra imita som da palavra anterior? Rato roeu roupa rei, sabe? Alitoração? Aliteração? Sim, aliteração! Tomie, em português, é uma aliteração. Significa “rio rico”. Tomi, rico. E, rio. Rio Rico. Riorrico. Em português, nome Tomie se assemelha braveza de personagens quadrinhos: “Rrr!” Mas Tomie não brava. Tomie sempre tranquila. Em paz. No fundo, no fundo, Tomie se parece mesmo com rio. Rio não para nunca. Tomie também não para. Trabalha, trabalha, trabalha. Faz pintura, faz escultura, faz gravura. Segue adiante, como rio. Começou desenhar ainda pequena, em Quioto. Conhece Quioto? Cidade linda, repleta jardins, vários templos. Lá Tomie nasceu e se criou. Mocinha, frequentava um escola perto do castelo. Castelo do tennooheka. Imperador, né? Castelo do imperador. Porque Quioto, bem antigamente, bem antes de Tomie existir, mandava no Japão. Era capital do país. Imperador morava ali, no castelo. Um dia, Tomie saiu escola, observou castelo, voltou escola e desenhou castelo em pedaço de papel. Depois, pintou castelo numa tela imensa. Grande, grande. Pintou com aquarela. Ficou maravilhoso! Palácio todo colorido, no quadro gigante. Tomie gostou tanto que doou tela para escola. Naquela época, alimentava desejo de se tornar pintora profissional. Só que família inteirinho não concordava. Os cinco irmãos – homens, mais velhos – reclamavam: “Mulher, com profissão? Não pode! Precisa casar!” Tomie, então, refletiu: o que mais importante? Caminhar sozinha, sem apoio de parentes, ou caminhar junto de filhos e marido? Mais importante é atravessar existência cercada de pessoas queridas. Por isso, já em São Paulo, casou. Tinha 23 anos quando resolveu dividir caminho com Ushio Ohtake, engenheiro agrônomo, rapaz aplicado, carinhoso como um esquilo. O casal gerou dois meninos, Ruy e Ricardo. Enquanto educava garotos, Tomie deixou de pintar. Tintas? Bye-bye. Pincéis? Sayonara. Passou mais de uma década longe pintura. Mas não parou de verdade: pintava por dentro, com a imaginação. De repente, filhotes cresceram. Não dependiam tanto mamãe. Tomie, quase quarentona, percebeu que queria retomar sonho antigo. Consultou marido. Marido aprovou: “Vai, vai pintar, Tomie. Pela manhã, cuida da casa. À tarde, pinta”. Tomie morreu de alegria. Morreu, não. Tomie viveu de alegria.

Hoje tem 97 anos. Julga-se brasileira e não visita mais Japão. Mesmo assim, derrapa português. Bagunça tudo, em especial diante de estranhos. Se estranho é jornalista, pior. Tomie sente vergonha enorme, timidez do tamanho daquele quadro que pintou em Quioto. Jornalista perguntador, hein? Difícil responder perguntas com português tão fraquinho. Tomie igual menina de 5 anos quando abre o boca. Que tristeza! Uma batian – vovó, né? – se comportando igual criança… Tomie dançaria de felicidade caso conseguisse papear direito. Jornalista desculpar, por favor: Tomie fala como bebezinho, mas não pensa como bebezinho.

Das palavras que aprendeu em português, nenhuma melhor que “desafio”. Substantivo forte, indispensável. Vida sem desafio perde graça. Cada um de nós deveria prestar atenção para jamais esquecer desafios.

No tempo em que Tomie estava realmente com 5 anos, pai dela morreu. Era madeireiro, tirava madeira dos montanhas. Nas horas de folga, penteava cabelos Tomie. Todo dia, todo dia. Recorda-se bem: pai deslizava pente (de madeira?) pela cabecinha negra da filha. Atualmente, cabelos de Tomie brancos como neve. Ninguém enxerga porque Tomie disfarça. Tinge fios, sabe? Todo mês, todo mês. Fios muito resistentes, aliás. Jornalista pode puxar que não caem. Tomie come alga para garantir cabelos firmes. Sério! Alga perfeito se você luta contra queda de cabelos. Engraçado que Tomie, gulosa, come, come e continua magra. Não come só alga, não. Come soja também. E gohan, bastante gohan. Arroz, né? Coloca gohan no fogo. Em seguida, quebra ovo sobre gohan quente. Clara e gema, crus. Acrescenta bocadinho de shoyu, mexe e… Gostoso, viu?

Por gentileza, evite chamar Tomie de senhora. Senhora, não! Tomie prefere tratamento simples, informal. Tratamento levinho. Repare trajes de Tomie. Não são trajes de senhora, são? Há 20, 30 anos, usa mesmo figurino: camiseta e calça pretas. Sempre que necessita sair, põe uns colares e pronto. Não fica elegante? Odeia se preocupar com moda. Mundo oferece aventuras mais saborosas que escolher roupas.

Tomie viajou Brasil para visitar irmão, que se instalara aqui. Viajou pouco antes do balbúrdia, do confusão. Segunda Guerra, né? Batalha estourou e pegou Tomie de surpresa. “Xiii, mares perigosos”, lamentou irmão. “Nada de retornar. Tomie terá que esperar fim do conflito.” Em 1945, guerra acabou. Mas Tomie já estava apegadinha Brasil. Não voltou.

Quando desceu primeira vez no porto de Santos, levou susto. Estranhou sol. Brasil muito, muito, muito claro. Japão mais nublado. Brasil amarelo! Na porta do embarcação, respirou com vontade e deixou amarelo entrar. Que delícia, viu? Tomie recomenda.

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4 Comentários para “Tomie Ohtake”

  1. Érica Elke disse:

    Que delícia de confessionário!Érica também recomenda!!!

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