Laurentino Gomes

O autor dos best-sellers 1808 e 1822 prepara um novo livro, 1889, sobre a proclamação da República no Brasil

Caso trabalhasse num circo, Laurentino poderia ser o domador de leões. Ou o sujeito que se coloca diante do atirador de facas com uma vistosa maçã no cocuruto. Mas Laurentino não trabalha em circo nenhum. Ganha o pão no aconchego doméstico, tecendo livros-reportagem sobre a história do Brasil. Mesmo assim, se vê frequentemente à beira de um precipício. Sente-se tão em perigo quanto o domador e o sujeito das facas. É que cultiva o péssimo hábito de deixar tudo para a última hora. Tudo, não. Na realidade, só adere à procrastinação quando se trata de parir um texto. Faz o diabo para adiar o momento de se defrontar com a tela em branco do computador: rega o jardim, arruma o escritório, lava o carro, vai comprar uma inutilidade qualquer. Recorre à artimanha escapista desde que partiu do noroeste paranaense, onde nasceu, e iniciou a carreira de repórter em Curitiba, três décadas atrás. Invariavelmente, porém, acaba desistindo da fuga. O recuo acontece assim que prenuncia a tragédia: se não puser a mão na massa, destruirá sua reputação profissional. O livro não chegará à gráfica, os compromissos assumidos com os leitores e a editora irão por água abaixo, a desonra o assombrará. Transtornado como toda criatura que se descobre sob sérias ameaças, finalmente entrega os pontos e escreve, escreve, escreve.

Os pobres de espírito talvez atribuam à preguiça o relacionamento duradouro entre Laurentino e a protelação. Nada mais enganoso. Ele nunca bajulou a indolência. Se posterga a briga com as palavras, é porque tem medo – pior: tem horror – de não vencer a batalha. Há quem deposite a identidade e a autoestima em ótimos empregos, filhos vitoriosos ou golaços do Neymar. Laurentino aposta 100% das fichas na escrita. Trocaria as minas do rei Salomão pela capacidade perene de esculpir frases ritmadas, parágrafos elegantes e tramas hipnóticas. “Penso, logo existo”, proclamava René Descartes. Parafraseando o filósofo francês, o autor de 1808 e 1822 não se incomodaria em dizer: “Escrevo, logo existo”. Tente, agora, redigir umas linhas com tanto peso nas costas.

Seu pai, João Ignácio, não concluiu o ginásio. Era um lavrador que plantava café, milho e feijão em Paiçandu (PR). Congregado mariano, estabeleceu relações amistosas com o padre local, de quem emprestava livros. Tornou-se, portanto, um agricultor que lia intelectuais do porte de Thomas Morus e Bertrand Russell. Durante a infância, Laurentino costumava lhe entregar o almoço no campo. João agradecia, arrumava uma sombra e, traçando a marmita, dividia com o filho os relatos que extraía da biblioteca paroquial. Narrava “causos” do Império Romano, da Grécia antiga e da Igreja Católica. O garoto o escutava atentamente.

Para ajudar no sustento da família, Laurentino namorou uma infinidade de profissões antes de enveredar pelo jornalismo. Aventurou-se como torneiro mecânico, office boy, bancário, jardineiro, cartorário e sapateiro. Quando sobrava umas migalhas do dinheirinho que ganhava, investia em literatura. Comprava exemplares de uma coleção com romances brasileiros contemporâneos. Foram os primeiros livros que adquiriu na vida. Guarda-os ainda hoje: 30 volumes, em capa dura azulada.

As duas únicas obras que lançou já venderam, juntas, 1,1 milhão de exemplares. Preocupado em não se perder no meio de tamanho público, Laurentino resolveu definir um leitor-alvo tão logo 1808, o título de estreia, atingiu a lista dos best-sellers. Precisava dialogar imaginariamente com alguém enquanto preparava o trabalho seguinte (convenhamos: é bem mais fácil abordar um soldado do que um batalhão). Encontrou o que procurava em Belo Horizonte, onde ministrou uma aula. Sentada à frente da plateia, uma adolescente o acompanhava sem piscar. Mal Laurentino citava o nome de um personagem histórico, a menina, baixinho, completava o raciocínio. “Dona Maria”, anunciava o professor ilustre. E a moça: “A Rainha Louca”. Ela sabia de cor trechos inteiros de 1808. Só não sabe que virou “musa” do jornalista cinquentão.

Laurentino se angustia com a ideia de trair a jovem mineira ou qualquer outro leitor. Não à toa, sobe pelas paredes quando garimpa um erro nos próprios livros. Em algumas edições de 1808, por exemplo, Tiradentes aparece como José Joaquim da Silva Xavier. Toda vez que, numa sessão de autógrafos, o escritor avista a cria trôpega, ataca manualmente o deslize. Vai à página 135 e corrige: Joaquim José da Silva Xavier.

Às vésperas de colocar 1808 nas lojas, Laurentino visitou o romancista Paulo Coelho em Paris. Queria umas dicas sobre como tirar melhor proveito do mercado editorial. O mago o recebeu para jantar num apartamento próximo à Torre Eiffel. “Então, Paulo, gostaria de uns conselhos…”, iniciou o jornalista. “Desculpe, mas evito dar conselhos. Se não funcionarem, sofrerei as consequências”, explicou o anfitrião, supersticiosíssimo. Depois de Laurentino insistir muito,  Paulo decidiu atendê-lo. No entanto, antes de se pronunciar, rodou a mão diversas vezes em cima da cabeça e repetiu: “Que tais conselhos não se voltem contra mim, que tais conselhos não se voltem contra mim…”

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