Laís Bodanzky

A cineasta paulistana lança em outubro o DVD de As Melhores Coisas do Mundo, seu terceiro longa-metragem

Ela é o sol, ainda que o outro, o Sol de verdade, com letra maiúscula, não ligue a mínima. Para o adversário, o sol de nome Laís não passa de uma entre as infinitas migalhazinhas da Via Láctea que se enxergam sóis — talvez porque, somente assim, aguentem a triste condição de poeira. No entanto, para as duas filhas da cineasta, o sol é mesmo o Sol, o centro de tudo, a fonte primária de luz, calor e inspiração. Mamãe, que sapatos maravilhosos você calçou! Mamãe, quantas coisas você conhece! Mamãe, que leite gostoso você preparou! Mamãe, mamãe, mamãe! Carolina e Mariá, de 8 e 6 anos, a solicitam e elogiam com tamanha devoção que, inúmeras vezes, Laís se acredita realmente o sol — ou, modéstia às favas, o próprio Sol. Uma insensatez, claro. O pó jamais conseguirá driblar a sina das poeiras. O inevitável, porém, não impede que a diretora, mulher do roteirista Luiz Bolognesi, se delicie com a ilusão. Adora que Carolina e Mariá a adorem como serafins que bajulam o absoluto. Um prazer vaidoso, gigante, que só não se permite maior por se admitir insustentável. Chegará o momento — quando? — em que as meninas crescerão, se libertarão do sol doméstico e sairão pelo mundo à procura de oceanos, nuvens e árvores. Uma parte de Laís deseja muitíssimo que, na hora adequada, a alforria se concretize. Outra parte lamenta, se inquieta e antevê a saudade daquele Universo tão querido que florescia sob as asas de mamãe, mamãe, mamãe.

Houve uma época em que a cineasta dispunha igualmente de um sol particular. Papai, que sapatos maravilhosos você calçou! Ele, o sol de nome Jorge Bodanzky, é um notável documentarista, paulistano de sangue austríaco e judeu. No verão de 1987, decidiu rodar um filme em plena Antártida e convidou a filha, então adolescente, para acompanhá-lo. Um veleiro os conduziria por mares nem sempre tranquilos. A garota, eufórica, aceitou de imediato a proposta. Enfrentou, no percurso, as ondas imensas e os ventos ferozes que justificam a péssima reputação da passagem de Drake. A bordo, permaneceu cinco dias de cama por força dos enjoos que o sacolejar ininterrupto do barco lhe provocava. Depois, já no continente de gelo, se aproximou mais do que o recomendável de uma foca-leopardo, carnívora e musculosa. Em todas as circunstâncias, se considerou segura. Jorge, afinal, encontrava-se por perto. Um homem intrépido e ensolarado, que tomara a resolução de carregar a filha numa aventura, certamente afugentaria qualquer perigo.

Vinte e seis anos. Era a idade de Jorge em 1969, quando Laís nasceu. A diretora nunca se esquece do número: 26. Gosta de pensar que um pai bem jovem a ninava no berço. Entretanto, se lhe perguntam quantos anos Jorge tem hoje, Laís se confunde. 65? 66? 67? Não sabe explicar o motivo do lapso.

O documentarista, curiosamente, também se atrapalha com o tempo. Numa ocasião, reuniu amigos e familiares para comemorar o 60º aniversário. Mal a festa começou, o irmão de Jorge, ausente, telefonou: “Parabéns, cara! Quantos aninhos mesmo?” “Sessenta”, respondeu o aniversariante. “Não, Jorge, pelos meus cálculos, você acaba de fazer 59!” Estava com a razão.

Há quem enalteça o arrojo dos moços. Besteira. Apenas os que tremem de medo podem se revelar destemidos. Moços tremem pouco. Por isso, não necessitam de coragem. Os velhos, em compensação, tremem muito. Já aprenderam que a vida é um cristal. Ainda assim, se levantam cotidianamente e arrastam a própria fragilidade pelas ruas. Difícil imaginar atitude mais corajosa. À medida que se avizinhava dos 40, Laís farejou temores em comportamentos que, antes, lhe soavam aprazíveis. Despencar de uma montanha-russa, por exemplo. Ou viajar de avião. Das montanhas-russas, desistiu sem grandes questionamentos. Dos aviões… Na impossibilidade de evitá-los, se reveste de uma bravura tão nova quanto insuspeitada.

Infelizmente, valentia nenhuma ousou derrotar um pavor que a cineasta amarga desde cedo: o de cachorro. Na infância, levou uma mordida de pastor alemão. O bicho deixou-lhe as marcas dos caninos e um susto inquebrantável. Volta e meia, a diretora espia a cicatriz na coxa direita. Em contrapartida, demorou séculos para ver e assumir o trauma. Preferia fingir que não se importava com totós, lulus e afins. Caso avistasse um animal, sentia o coração disparar e suava frio, mas não descia do salto. Eu, medrosa? Certa vez, durante uma confraternização na casa de amigos, um lobo mau da raça fila brasileiro, xodó dos anfitriões, cismou de sentar a uma distância minúscula de Laís. Ela se manteve impassível o quanto pôde. De repente, pulou do sofá e se trancou no banheiro. Chorou, chorou, chorou. Daquela noite em diante, proclama para si e para a torcida do Flamengo: “Cães me assustam sim!”

Não se julga cinéfila. Pelo contrário: diz que sempre possuiu uma cultura cinematográfica parecida com a do espectador médio. Não à toa, quando resolveu estudar cinema, se esquivou de disputar uma vaga na Universidade de São Paulo, onde Jorge lecionara. Receava envergonhar o pai. Se cursasse a escola, os professores, ex-colegas dele, logo descobririam que a jovem Bodanzky não sabia nada de nada.

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