Fernando Meirelles

O cineasta está lançando o livro Cegueira, um Ensaio, em que esmiuça os bastidores do filme Ensaio sobre a Cegueira 

Ele costuma guardar árvores no bolso. Os cartesianos (por que existem tantos pelo mundo?) se apressarão em corrigir: “Não são árvores! São caroços”. De fato: são caroços. Mas caroços, uma hora, se tornam árvores. Então… 

O hábito incomum certamente decorre da ascendência rural de Fernando, um paulistano de sobrenome tão comprido quanto o dos barões que, um dia, floresceram sob as graças da cafeicultura: Ferreira Junqueira Vilela Meirelles. Todos os ramos da família, oriundos de Minas Gerais, se dedicavam – e ainda se dedicam – à agropecuária. O próprio cineasta possui uma fazenda. Comprou-a na década de 1990, em Rifaina (SP), quase como um autômato. Ouvia os apelos sorrateiros dos genes. “Quem nasce debaixo de nossa aba”, ordenavam em silêncio, “deve estudar, arrumar uma profissão, casar, adquirir uma fazenda…” No começo, destinou as terras à criação de gado. Há uns seis anos, porém, resolveu transformá-las em floresta. Abdicou dos pastos e iniciou o plantio de árvores nas margens dos rios que cortam a propriedade de 630 hectares. Até agora, semeou cerca de 25 mil pés – bananeiras, cajueiros, paineiras, ipês, guapuruvus, pequizeiros. Com o tempo, planeja atingir a cifra de 1 milhão. A ideia é permitir que o arvoredo e a mata ao redor ocupem a fazenda inteira. Para quê? Para nada. O diretor não almeja explorar comercialmente o oásis que está produzindo. Agrada-lhe apenas imaginar que onças, tucanos, macacos ou tamanduás irão usufruir tranquilos daquele recanto.

E os caroços, como entram na história? Sempre que saboreia uma fruta com potencial para virar árvore, Fernando trata de recolher as sementes. Deposita-as no bolso da calça e, mal arranja uma folga, planta-as em um viveiro doméstico. Quando as mudas alcançam um tamanho razoável, coloca-as numa caminhonete e pega a estrada rumo à fazenda. Lá, replanta cada espécime, dessa vez a céu aberto. Seus dois filhos, Kiko e Carolina, gostam de alimentar a mania e trazem para o pai os caroços que garimpam nos lugares por onde viajam. Sua mulher, Ciça, suspeita um pouco da excentricidade. Meio de brincadeira, meio seriamente, afirma que o marido sofre de TOC, o transtorno obsessivo-compulsivo.

Um antigo ditado ensina que, se não quiserem despencar no esquecimento após a morte, os homens precisam gerar filhos, escrever livros e plantar árvores. Fernando, que comemorou 55 anos em setembro, cumpriu as três metas e, mesmo assim, segue incrédulo. Nunca sucumbiu à ilusão de que se perpetuará longamente na memória alheia. Já compreendeu que, cedo ou tarde, filhos, livros, árvores e filmes desaparecerão por completo, sem deixar rastro nenhum.

Tem celular, mas jura que só atende às ligações de Ciça, Kiko e Carolina. Tem perfil no Facebook e no Twitter, mas dificilmente os visita. Tem inúmeros compromissos de trabalho, mas aprecia a quietude. Não à toa, cultiva práticas que reivindicam a solidão: lidar com as mudas do viveiro, guiar serenamente numa rodovia, nadar três vezes por semana. Encara tais atividades como ladainhas ou mantras que o conduzem para um exílio onde o pensamento, distraído, cai no vácuo. A faceta reclusa, entretanto, não lhe obscurece o caráter agitado. Muitos o consideram impaciente, ainda que gentilíssimo. Há quem o classifique de “trator” – um sujeito tão elétrico que, sem perceber, acaba desrespeitando o ritmo dos outros. Ele prefere se definir como “um camarada ativo”.

Na esperança de driblar o trânsito, vai de moto às reuniões profissionais dentro de São Paulo. Sabe que se arrisca. Certa ocasião, esbarrou na porta de uma kombi e levou um tombo. A motocicleta desabou sobre sua perna direita, quebrando-a. Ficou seis meses de molho. Embora tema novos infortúnios, não abre mão de percorrer a cidade em cima de uma 250 cilindradas. O desassossego supera o medo.

Odeia bate-bocas, conflitos, gritaria. Quando briga, passa dias lamentando o episódio. Por isso, foge de atores geniais, mas geniosos. No set, procura criar uma atmosfera pacífica e colaborativa. Nem sempre consegue. Às vezes, se desentende com César Charlone, fotógrafo que o acompanha na maioria dos projetos. Divergem sobre a iluminação das cenas, o uso das lentes, o posicionamento das câmeras. Na tentativa de minimizar o confronto, o cineasta adota uma estratégia que lhe parece lapidar: diante de um impasse, filma das duas maneiras – a dele e a de César. Normalmente os ânimos se acalmam. O problema é na hora de escolher a melhor sequência. “Aposto que vai descartar a minha”, reclama o fotógrafo. “Estou para conhecer um cara mais teimoso que você, Fernando!”

Depois de lançar O Jardineiro Fiel, o diretor mergulhou numa depressão imensa. Exaurido, já não via sentido em rodar um próximo longa. Cogitou desistir da carreira e se asilar na fazenda. Recorreu à terapia. Nas divagações com a psicóloga, enxergou em si algo que, até então, não notava. “Por que você deseja se superar continuamente? Por que rejeita os atritos? Por que insiste tanto em agradar?”, indagava a analista. “Será que você não tem um lado sombrio? E, se tem, por que hesita em mostrá-lo?” Fernando saía arrasado do consultório. Quer dizer que a prepotência pode se travestir de eficácia e simpatia? A resposta ainda hoje o surpreende.

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