Bob Wolfenson

Foto Ana Ottoni

Bob Wolfenson no seu estúdio em SP

O fotógrafo, autor do livro Jardim da Luz, está completando 40 anos de carreira

Esqueça os índios e aquela conversa de que fotógrafos lhes roubam o espírito quando os retratam. Fotógrafos não surrupiam a alma, a essência de ninguém — nem dos camaiurás no Alto Xingu, nem das moças de tanga no Baixo Leblon. Não surrupiam, não flagram, não traduzem. Fotógrafos em nada se parecem com bruxos ou oráculos. Não se ocupam de luzes e refletores como quem joga búzios, consulta as estrelas ou investiga o tarô. Ciclopes por opção, abdicam dos dois olhos habituais e atendem satisfeitos o ímpeto de observar o mundo pelo viés único de uma lente. Se o par de esferas azuis, verdes, castanhas ou negras que trazem do berço jamais dá conta de enxergar além das aparências, o que de tão profundo um solitário instrumento óptico conseguiria avistar? À beira dos 56 anos, Bob já concluiu que fotografia é somente a arte de captar superfícies.

Assim que se defrontam com uma câmera, os modelos, quaisquer modelos, buscam principalmente iludir os fotógrafos. Concordam em se mostrar, ainda que não se mostrem de fato. Escondem-se fingindo não se esconder. E tudo porque desejam transmitir para a objetiva a imagem que gostariam de ter em vez da que pensam ter. Do mesmo jeito, assim que se colocam atrás de uma câmera, os fotógrafos, quaisquer fotógrafos, buscam principalmente iludir os modelos. Sedutores, tentam passar a ideia de que irão espelhá-los. Ou melhor: de que irão espelhar aquilo que os modelos sonham ver no espelho. Mas o que os fotógrafos pretendem de verdade é se apropriar das desavisadas criaturas para expressar um pouco de si próprios. Retratos derivam justamente daí — da batalha cordial e silenciosa entre incorrigíveis trapaceiros.

Realidade? Não, Bob não acha que deva procurá-la. Caso finalize uma sessão de fotos e constate que só registrou cenas muito próximas do real, decepciona-se imensamente. Está sempre à caça do extraordinário. Apenas a utopia lhe interessa.

Certa ocasião, o fotógrafo nova-iorquino Richard Avedon recebeu a tarefa de fazer um portrait do cineasta francês Jean Renoir. Eles mal se conheciam no instante em que trocaram cumprimentos. O trabalho, porém, correu às mil maravilhas, de tal modo que o diretor convidou Avedon para jantar ou algo do gênero. Ouviu uma negativa amável como resposta. Bob compreende perfeitamente a recusa e afirma que agiria de maneira idêntica. Em quatro décadas de profissão, nunca se sentiu íntimo dos desconhecidos que fotografou, mesmo dos mais célebres e lisonjeiros, gente que cansou de bisbilhotar pela mídia. Embora não padeça de timidez no trato social, às vezes se acanha diante de alguém que, sob flashes, lhe confia um sorriso, um cruzar de braços, um meneio de quadris. O desconforto lembra o de um rapazinho em início de namoro. Não por acaso, Bob prefere evitar que as relações com os modelos ultrapassem o cenário onde se estabeleceram. Acredita que, no frigir dos ovos, fotógrafo e fotografado se encontram apenas para comungar a sina de um diálogo fugaz — ora intenso, ora tedioso, mas invariavelmente efêmero, como uma faísca que desafia a noite. 

Nao sabe precisar quantos ensaios de mulheres nuas assinou. Dos vários que produziu, alguns resultaram em disputadas capas da revista Playboy. Missões dessa natureza não costumam inibi-lo. Entretanto, já lhe despertaram medo. Tremeu, por exemplo, quando o escolheram para clicar Vera Fischer e Maitê Proença. Mitos da beleza, as atrizes carregam a fama assustadora de temperamentais. Pelo bem do cavalheirismo, esquiva-se de confirmar se a reputação lhes é justa.

Nasceu em São Paulo numa família judaica de origem europeia. Embora dono de uma malharia, o pai, Jacob, solidarizava-se com as causas operárias. Militava no Partido Comunista Brasileiro e não admitia impropérios contra os russos (em especial, contra as russas). Também não permitia que Bob, criança, acompanhasse o seriado National Kid pela televisão. Considerava o programa japonês uma excrescência do capitalismo. De tanto escutar pregações sobre Karl Marx, o menino se tornou um jovem de esquerda mais radical que Jacob. Proclamava fé inquebrantável no ateísmo, estudava sociologia — curso que não terminou — e cultivava laços com organizações adeptas da luta armada. Hoje, por ironia, muitos o classificam como um típico fotógrafo burguês. Não rejeita de todo a pecha. E até se diverte ao imaginar que, um dia, Jacob levantará do túmulo para grunhir: “Que bonito! O moleque, agora, vive de merda…”. 

Uma vez lhe informaram que Wolfenson quer dizer “filho do lobo”. Desde então, propaga o significado, apesar de não reconhecer traços lupinos na própria personalidade (se é que personalidades possam exibir traços lupinos). Por julgar o sobrenome extremamente respeitável, um velho amigo de Bob, o escritor Reinaldo Moraes, inventou a figura do “grande cientista Robert Wolfenson”. Volta e meia, na época em que redigia artigos para diversas publicações, citava o pesquisador ilustre, atribuindo-lhe descobertas incríveis. Bob tem esperanças de que, brevemente, Robert Wolfenson ganhará o prêmio Nobel.

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