segunda-feira, 11 de maio de 2015

Cada um com seu cada qual

O goleiro Rogério Ceni, do São Paulo, encontra por acaso o guitarrista Luís Carlini, fundador da célebre banda Tutti Frutti, numa loja de instrumentos musicais.
– Grande Carlini! Como vai? Eu sou o Rogério, jogo bola…
– Claro, sei quem você é. Tudo bem?
– Tudo, tudo. Você ainda se apresenta naquele bar da Vila Madalena às quintas-feiras?
– Me apresento, sim.
– Eu toco guitarra, sabe? Por que você não me chama para dar uma canja lá?
– Uma canja? No domingo, o São Paulo joga contra o Santos, não?
– Joga. Você quer um ingresso?
– Não. Na verdade, estava pensando: por que você não me deixa dar uma canja no gol durante a partida? Bastam uns dez minutos…

Episódio narrado por Julio Bernardo, autor do blog gastronômico Boteco do JB 
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quinta-feira, 7 de maio de 2015

O artesanal é necessariamente incompatível com o industrial?

“Por que os livros demoram ‘tanto’ a sair, perguntam os autores. Não definirei ‘tanto’. Quem faz livro sabe que o tempo corre em velocidade diferente para cada autor, para cada obra. Mas hoje, conversando com um par de autores, me veio a explicação mais satisfatória a que cheguei: há, no fazer do livro, duas partes que se completam. A primeira é o fazer industrial. Livro é mercadoria, feita na fábrica: é preciso pensar na matéria-prima, definir o fornecedor, negociar preço, imprimir, colar, transportar, vender, consignar, fazer nota fiscal. E há um processo que é, parcialmente, artesanal: refletir, definir, fazer, esquecer, relembrar, refazer. São tempos complementares. Mas é possível estressar o tempo artesanal para acelerar o processo industrial? Claro que é, só que há perdas: o livro ficará menos pensado, a letra será um padrão, o desenho da página mais óbvio, mais clichê. O desenhista (designer, diagramador, como quiserem) vai realizar as correções sem ter apagado de sua memória alguns de seus movimentos mais recentes e, portanto, estará menos apto a ver o trabalho que fez com algum distanciamento crítico. Se outro designer (diagramador, desenhista) for fazer esse trabalho, não terá o tempo necessário para penetrar nas ideias do colega. A gráfica vai imprimir não na velocidade de cruzeiro. Fará o caminho mais curto, não o mais seguro.
Essa é uma defesa do artesanal contra a industrialização? Não, é a defesa do respeito a essas duas partes do processo. Do cuidado com o detalhe e das necessidades industriais.”

De Haroldo Ceravolo Sereza, um dos sócios da Alameda Editorial 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Que mal há em me enganar um pouquinho?

“Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.”

Poema de Ricardo Reis, musicado por Zé Miguel Wisnick
Interpretado por Ná Ozetti e Wisnik

Imagem de Amostra do You Tube

terça-feira, 5 de maio de 2015

Como alguem consegue acreditar que vamos nos transformar em Cuba?

“Digamos que [, diferentemente do que apregoam muitos antipetistas,] nosso problema está longe de sermos algo parecido com Cuba. É mais a dificuldade de domar um capitalismo extremamente selvagem. Pessoas muito cruéis com as outras, as indefesas. Nosso problema é dar um mínimo de condições de educação e saúde, de felicidade, enfim, à população pobre. Infelizmente, essas pessoas que protestam não reclamam, nem de longe, da incapacidade do governo de produzir essa felicidade de modo mais estável. Também não estão nem aí para a corrupção, porque todo mundo sabe que a roubalheira existe desde sempre por aqui (e no mundo inteiro, diga-se). O problema, me parece, e daí tanto empenho em liquidar o governo e o PT, em transformar até seu pálido reformismo em ‘comunismo’, é que sem ele voltaremos a esmagar os pobres como fazíamos antes, sem nenhuma dor de consciência, sem nem mesmo saber que eles existiam. Não é o que eles roubam o problema. É que os pobres ficam um pouquinho menos pobres, um pouquinho mais protegidos – e isso nós, paulistas, julgamos que é comunismo, que é uma afronta aos nossos direitos eternos. Sim, essa eleição de Cuba como parâmetro seria cômica se não fosse trágica.”

Trecho de Tem LSD na Nossa Água?, artigo de Inacio Araujo

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Sobre amores que estão sempre à beira do ódio

“‘Quem é ele, porra?’
Ifemelu contou para o namorado que Rob morava no andar acima do dela, que eles se cumprimentavam e que mais nada tinha acontecido até a noite em que ela o viu chegando com bebidas, ele perguntou se ela queria beber e ela fez algo impulsivo e idiota.
‘Você deu o que ele queria’, disse Curt. Suas feições estavam se endurecendo. Era uma coisa estranha para Curt dizer, o tipo de coisa que tia Uju, que pensava em sexo como algo que a mulher dava ao homem para prejuízo dela própria, diria.
Num súbito acesso estonteante de temeridade, ela corrigiu Curt. ‘Eu tomei o que queria. Se dei qualquer coisa a ele foi por acaso.’
‘Ouça o que você está dizendo! Ouça o que você está dizendo, porra!’, disse Curt, com a voz rouca. ‘Como pôde fazer isso comigo? Fui tão bom com você.’
Ele já estava olhando para o relacionamento deles pelas lentes do pretérito. Aquilo a intrigava, a capacidade do amor romântico se transformar, a rapidez com que uma pessoa amada podia se tornar uma estranha. Para onde o amor ia? Talvez o amor verdadeiro fosse o da família, ligado de alguma maneira ao sangue, já que o amor pelos filhos não morria como o amor romântico.
‘Você não vai me perdoar’, disse ela, numa meia pergunta.
‘Vaca’, disse Curt.
Ele brandiu a palavra como uma faca; ela saiu de sua boca afiada de ódio. Ouvir Curt dizer ‘vaca’ com tanta frieza parecia surreal e Ifemelu ficou com os olhos marejados de lágrimas por saber que ela o havia transformado num homem que podia dizer ‘vaca’ de maneira tão fria e por desejar que fosse um homem que não dissesse ‘vaca’, não importa a situação.”

Trecho de Americanah, romance de Chimamanda Ngozi Adichie

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Por que os livros têm o formato que têm?

Quadrinho de Liniers
(clique na imagem quando for ampliá-la)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Cobiça infinita

“Haverá paradeiro para o nosso desejo
Dentro ou fora de nós?
Haverá paraíso
Sem perder o juízo e sem morrer?”

Trechos de Paradeiro, canção de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown
Interpretada por Arnaldo e Marisa
Imagem de Amostra do You Tube

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Ainda quero o que sempre imaginei querer?

“Era uma vez uma geração que se achava muito livre.
Tinha pena dos avós, que casaram cedo e nunca viajaram para a Europa.
Tinha pena dos pais, que tiveram que camelar em empreguinhos ingratos e suar muitas camisas para pagar o aluguel, a escola e as viagens em família para pousadas no interior.
Tinha pena de todos os que não falavam inglês fluentemente.
Era uma vez uma geração que crescia quase bilíngue. Depois vinham noções de francês, italiano, espanhol, alemão, mandarim.
Frequentou as melhores escolas.
Entrou nas melhores faculdades.
Passou no processo seletivo dos melhores estágios.
Foram efetivados. Ficaram orgulhosos, com razão.
E veio pós, especialização, mestrado, MBA. Os diplomas foram subindo pelas paredes.
Era uma vez uma geração que aos 20 ganhava o que não precisava. Aos 25 ganhava o que os pais ganharam aos 45. Aos 30 ganhava o que os pais ganharam na vida toda. Aos 35 ganhava o que os pais nunca sonharam ganhar.
Ninguém podia os deter. A experiência crescia diariamente, a carreira era meteórica, a conta bancária estava cada dia mais bonita.
O problema era que o auge estava cada vez mais longe. A meta estava cada vez mais distante. Algo como o burro que persegue a cenoura ou o cão que corre atrás do próprio rabo.
O problema era uma nebulosa na qual já não se podia distinguir o que era meta, o que era sonho, o que era gana, o que era ambição, o que era ganância, o que era necessário e o que era vício.”

Trecho de A Triste Geração que Virou Escrava da Própria Carreira, artigo de Ruth Manus 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Bem-aventurados os que almejam o impossível?

“Há três espécies de homens: os vivos, os mortos e os que andam sobre o mar.”

Do filósofo grego Platão

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Quando o espelho torna-se abismo

“O escritor Jeffrey Archer escreveu há uns tempos que dez jovens são mortos todos os dias em Mumbai, na Índia, ao cruzarem a linha férrea. Mas não pelos motivos que o leitor imagina. Muitos deles são ceifados pelo trem por vaidade: com seus smartphones na mão, a maioria procura captar o momento em que a máquina está quase, quase, quase em cima do artista. Muitos deles, provavelmente usando um pau de selfie, não sobrevivem para contar. Haverá melhor exemplo sobre a era narcísica em que vivemos?Não creio. Até porque o patrono da seita –Narciso lui même– já tinha conhecido igual fim: deslumbrado pelo reflexo da sua imagem nas águas do rio, Narciso foi ficando, ficando, ficando. Até que a morte chegou para levar o seu corpo definhado.”

Trecho de Atropelados por um trem, artigo de João Pereira Coutinho
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