Simone é que era mulher de verdade?

“Em 1960, ficou famoso o jantar que Ruth Cardoso deu a Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em São Paulo. Afinal, Simone se tornara um ícone das feministas depois de seus livros Memórias de uma Moça Bem-Comportada e O Segundo Sexo, sucesso de vendas no Brasil e carregado debaixo do braço por toda a geração Maria Antonia e Cinemateca, ou por todas aquelas que se diziam jeune fille rangée, um pouco pernosticamente.
‘Nós, mulheres, estávamos excitadíssimas com a presença de Simone, (…) tínhamos certeza de que ela vinha pontificar sobre o feminismo. Assim, lá em casa, preparei a sopa de mandioquinha, um prato muito apreciado por estrangeiros. Toda orgulhosa, trouxe a sopa para a mesa, mas a Simone começou:
– O que é isso?
Fica difícil explicar a mandioquinha, porém tentei. E ela:
– Tem cebola?
– Tem.
– Ele não pode comer. Tem não sei o quê?
– Tem.
– Ele não pode comer.
Uma coisa de mãe e filho, irritante. Uma chata! Onde estava a mulher que defendia os direitos da mulher? Era uma submissa? Não estava entendendo. Sartre, relaxado, foi comendo sem se incomodar, apesar da vigilância. Bem, a sopa não fez sucesso. Veio a sobremesa, goiabada com queijo, e vieram as perguntas, a implicância. Ela comeu por delicadeza, via-se que não gostava. Mal acabou, o Fernando Henrique,  maldosamente, colocou nova porção, dizendo: Vi que a senhora gostou, aceite mais um pouco’.”

Trecho de Ruth Cardoso – Fragmentos de uma Vida, livro de Ignácio de Loyola Brandão   
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