Por que tantas vezes nos negamos a fazer o que deve ser feito?

“Assisti (…) ao documentário Fogo no Mar, de Gianfranco Rosi, vencedor do Urso de Ouro no último Festival de Berlim. A certa altura do filme, um médico da ilha de Lampedusa, levado pelas circunstâncias a trabalhar no resgate de refugiados à deriva no Mediterrâneo, diz: ‘Faço o que um homem deve fazer, porque é o que um homem deve fazer’. Ele não só ajuda a salvar os sobreviventes, alguns entre a vida e a morte (o que lhe garante a satisfação desinteressada de fazer o bem ao próximo), mas tem de atuar também como médico-legista, um trabalho pavoroso que o obriga a lidar, entre outros, com cadáveres de mães e filhos natimortos, ainda ligados pelo cordão umbilical. Faz ‘porque é preciso fazer’.
O discurso do médico soa extraterrestre no Brasil, hoje, quando os que derrubam um governo eleito pelo voto popular, sob o pretexto de punir crimes da mesma ordem dos que eles próprios cometeram, ainda têm a cara de pau de calcular se vale a pena sujar as mãos com o novo governo que eles apoiaram, formado por gente fisiológica a ponto de cogitar um bispo da Igreja Universal no lugar de ministro da Ciência. É gente que grita pela salvação da pátria (e de sua dívida pública), mas não está disposta a desembolsar nem mais um centavo por isso, enquanto ministros do STF, aos quais os olhos da nação se voltam em busca de arbitragem, articulam na Câmara a aprovação célere do aumento dos salários do Judiciário.
O homem que o médico de Lampedusa representa se tornou inconcebível entre nós, não porque ele não exista aqui, mas porque não aparece, por mais que diga o óbvio e aja de acordo com a ética que sua condição humana e profissional exige. O médico de Lampedusa não age por dinheiro, por poder, por vaidade, por interesses próprios e escusos, em nome de Deus ou da família. Faz porque é isso o que um homem deve fazer. Sem ter de alardear porcaria nenhuma. Um homem (no caso, um europeu) salvando refugiados árabes e africanos, por razões que não precisam ser explicadas, com a dignidade discreta da sua competência.”

Trecho de O que faz um homem, artigo de Bernardo Carvalho
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