Pelo direito à impopularidade

“A ideia de que hoje há de tudo, que se tem acesso a tudo e que tudo está representado é genial. É o discurso da internet. Tudo o que antes não tinha lugar ao sol agora está ou pode estar visível. Mas as coisas começam a se complicar quando percebemos que nesse mundo do sol absoluto, onde tudo pode enfim existir em pé de igualdade, com sua pobreza, sua feiura e sua cafonice, no fundo falta lugar para a exceção. Quando por acaso ela aparece, a exceção é imediatamente associada a elitismo, ao oposto do Estado democrático de Direito. (…) Por que a exceção não cabe nesse mundo onde tanto se alardeia que tudo cabe e que tudo pode afinal existir e ser visto? Por que ela é imediatamente desautorizada, seja pela contradição de sua tendência natural à invisibilidade num mundo de visibilidade absoluta, seja por essa associação irrefletida a elitismo e a antidemocracia? Qual o problema de uma arte de exceção, se sua condição de possibilidade é justamente a democracia, regime da inclusão das diferenças e não apenas regime da maioria? Por que essa tendência a confundir maioria e consenso com democracia, ainda mais quando se trata de arte? Porque a exceção, que é fundamental nas artes e que por isso mesmo precisa ser defendida a despeito de gostos e tendências, é também o que está ligado ao risco, ao disfuncional, ao erro e ao fracasso. Nada disso combina com discursos politicamente edificantes.
Umas das principais perversões do mundo contemporâneo tem a ver com a confusão entre essas duas visibilidades: 1) a visibilidade (e o direito à existência) do que antes não podia ser visto e 2) a visibilidade autorreplicante do que quanto mais se vê mais é visto. São duas coisas completamente diferentes e, em certo aspecto, conflitantes. No primeiro caso, está a população que antes era segregada às rodoviárias e hoje tem direito de acesso aos aeroportos e ao transporte aéreo, como qualquer cidadão. No segundo, está o princípio de mercado elevado à enésima potência pelos algoritmos que estruturam a lógica da internet: quanto mais uma coisa é vista, mais ela será visível. Ou seja, você tende a ver somente o que todo mundo vê, embora a rigor tenha acesso a tudo. Pela lógica tautológica da internet, o que ninguém acessa torna-se cada vez mais inacessível, embora esteja, em princípio, disponível. É fácil entender como as exceções são banidas desse mundo da visibilidade total para um limbo de invisibilidade que equivale ao desaparecimento e à inexistência. E nesse sentido, associar a exceção na arte a elitismo e a antidemocracia não ajuda nem democratiza coisa nenhuma.”

Trecho de Visibilidade, artigo do escritor Bernardo Carvalho 
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