Morrer de velhice é mesmo mais natural do que morrer numa queda?

“Não posso aceitar o modo como estabelecemos a duração de nossa vida. Vejo que os sábios a encurtam muito em relação à opinião comum. ‘Como’, dizia o jovem Catão aos que queriam impedi-lo de se matar, ‘estarei ainda na idade em que possam me repreender por abandonar a vida cedo demais?’ No entanto, tinha apenas 48 anos. Estimava essa idade bem madura e bem avançada, considerando que poucos homens a atingem. E os que se iludem com não sei qual ‘curso’, a que chamam de ‘natural’, que prometem alguns anos mais, bem poderiam fazê-lo se tivessem o privilégio de ser isentados de um número tão grande de infortúnios de que cada um de nós é alvo por natural sujeição e que podem interromper esse curso que prometem a si mesmos. Que loucura é esperar morrer de um enfraquecimento de forças trazido pela velhice extrema e propor-se esse objetivo como termo de nossa vida, visto que é o tipo de morte mais rara de todas e a menos usual! Nós a chamamos de única natural, como se fosse antinatural ver um homem quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, deixar-se surpreender pela peste ou por uma pleurisia, como se nossa reles condição não apresentasse esses inconvenientes a todos. Não nos iludamos com essas belas palavras; devemos talvez chamar de natural o que é genérico, comum e universal. Morrer de velhice é uma morte rara, singular e extraordinária, e portanto menos natural que as outras; é a última e extrema maneira de morrer.”

Trecho de Sobre a Idade, ensaio de Montaigne (1533-1592)    
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