Espelho, espelho meu, serias maluco de dizer se existe alguém mais belo do que eu?

“Como vivemos sob a tirania da beleza, argumentava meu amigo, todos se veem obrigados a ter o corpo em ordem. As cirurgias estéticas consertam as evidências da pouca generosidade com que a natureza nos tratou, bem como eliminam as marcas do envelhecimento. A televisão e as revistas mostram figuras jovens e bonitas a venderem produtos, cuja compra supostamente nos deixaria tão jovens e bonitos quanto elas. Uma ficção na qual somos levados a acreditar e que se mantém até a ocasião em que vamos comprar uma roupa. Nesse momento, cada um é obrigado a confrontar a ilusão de um corpo ideal, alimentada pela propaganda, com a realidade concreta de seu próprio físico. Fica então patente o descompasso, que pode ser grande, entre a aparência que gostaríamos de ter e aquela que temos de fato, a distância entre o ideal e o real. (…). Assim, a pessoa vê determinada peça na vitrine da loja e se dispõe a comprá-la a partir da imagem corporal que tem de si mesma. Ao provar a roupa, se defronta com a concretude de sua compleição, que poderá ou não ser compatível com a vestimenta escolhida. 
A mulher de meu amigo, que até então ouvia calada a conversa, disse que nesse instante o papel do vendedor ou vendedora é fundamental. Ele pode reforçar a negação da realidade, dizendo ao comprador aquilo que ele quer ouvir, ou seja, que a roupa lhe cai muito bem, que ficou ótima em seu corpo. Ou pode dizer a verdade, ajudando-o a encontrar algo mais condizente com as características de seu físico. O problema é que os vendedores não são confiáveis, não estão prioritariamente preocupados com a adequação da roupa ao físico do comprador. Eles querem vender e ganhar a comissão. (…)
Disse-lhes que concordava inteiramente com suas opiniões. Desde que estávamos discorrendo sobre a conduta dos compradores de roupas, perguntei-lhes se não havíamos esquecido um tipo oposto aos que até então examinávamos. Referia-me às pessoas ‘sem noção’, as vítimas da moda, aquelas que indiscriminadamente acreditam nas criações mais bizarras dos figurinistas e saem pelas ruas sem atentarem para o ridículo com o qual se cobrem. Meu amigo respondeu que não era um caso muito diferente dos que havíamos discutido. Nele seria apenas mais grave o grau de negação do próprio corpo ou a fragilidade psicológica que levava tais pessoas a se curvarem sem crítica frente à imposição dos vendedores.”

Trecho de Comprando roupas, artigo do psicanalista Sérgio Telles
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