Em toda tristeza, há a memória de uma imensa alegria?

“Começou a me contar de quando ele e sua mulher eram jovens. Fazia questão de que eu entendesse que haviam sido felizes. Ninguém queria que se casassem, em suas famílias, mas eles queriam muito e mesmo quando, por um instante, tinham desistido, ele nunca deixara de saber que conseguiriam, e assim foi. Vínhamos, os dois, de famílias horríveis, disse, e o único tempo que não era repulsivo era aquele que passávamos juntos. Disse que havia um montão de moralismos, naquela época, mas sua vontade de fugir era tamanha que tinham começado a fazer amor sempre que podiam, às escondidas de todos. Fui salvo pela enorme beleza dela, uma beleza limpa (…). Depois deve ter percebido que aquele tipo de confissão me deixava sem graça _interrompeu. A vida sexual dos nossos pais é, de fato, uma das poucas coisas das quais não queremos saber nada. Gostamos de pensar que não existe e que nunca existiu. Não saberíamos sinceramente onde encaixá-la, na ideia que fizemos deles. Assim, passou a contar dos primeiros tempos de casados, e de quanto tinham rido, naqueles anos. Já não o escutava direito. Em geral, são histórias sempre iguais, todos os nossos pais foram felizes, quando jovens. Esperava antes ouvir quando tudo aquilo tinha emperrado, quando começara a miséria educada que, ao contrário, conhecíamos. Talvez quisesse saber por que a certa altura tinham adoecido. Mas não falou daquilo.”

Trecho de A Paixão de A., romance de Alessandro Baricco 
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