Até que a demissão nos separe

“Para mim, um emprego é como um casamento. Por um lado, é melhor, uma vez que você é pago; por outro, é pior, uma vez que há mais reuniões. Fora isso, os dois envolvem um processo de seleção para o qual você se veste no capricho e tenta parecer mais inteligente ou mais bonito do que realmente é. Ambos são compromissos pesados, respondendo juntos pela maior parte de nosso tempo, prazeres e dores. As condições são as mesmas para que eles durem. Antes de mais nada, é preciso fazer uma escolha decente. Depois, partimos para coisas como respeito mútuo, esforço e um pouco de falta de imaginação. Há, é claro, algumas diferenças: você não desiste de um casamento aos 65 anos com um relógio de ouro e uma festa. Mas, cada vez mais, as pessoas também não estão se despedindo de seus empregos desse jeito, uma vez que a aposentadoria é um luxo para poucos. Você também pode dizer que apenas o casamento envolve amor e paixão. Mas este não é mais o caso. Uma pesquisa recente com cinco mil britânicos concluiu que a paixão entre um homem e uma mulher dura, em média, 938 dias. Já os empregos modernos exigem paixão para sempre. Simon Robey, um banqueiro de investimentos experiente, por exemplo, saiu há pouco tempo do Morgan Stanley alegando que continuará sendo um ‘defensor entusiasta’ dos valores da companhia mesmo depois de sua despedida.
Outra diferença está em nossa atitude em relação ao fim do acordo. Geralmente as pessoas não o congratulam quando você troca sua esposa por uma modelo bem mais nova. Mas quase todo mundo acha que trocar de emprego representa um tipo de progresso, pois mostra ambição, imaginação e coragem. Como estou na mesma empresa há 27 anos, não gosto desse ponto de vista. Um emprego duradouro deveria ser visto como um sinal de sucesso, assim como um casamento duradouro é. Dada a importância de se acertar logo no início, é surpreendente o pouco aconselhamento existente para a vida profissional. Enquanto amantes jovens são bombardeados com pontos de vista (indesejados) sobre se eles acharam ou não a pessoa certa, ninguém ajuda as pessoas a saberem se seus empregos atuais merecem ser mantidos ou não. (…)
[Por isso], criei meu próprio sistema para descobrir se vale a pena continuar num emprego: as pessoas são legais? O trabalho é sempre interessante? Ele está sempre na quantidade certa – bastante, mas não exagerado? Há a possibilidade de se fazer coisas diferentes? Às vezes as pessoas lhe dizem obrigado? É isso. O que me leva a outra similaridade fora de moda entre um emprego e um casamento: o segredo do sucesso está em expectativas razoáveis.”

De Lucy Kellaway, colunista do Financial Times
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