Uma aparição

Como Paulo Coelho me ajudou a encontrar Jesus em Bogotá

“Precisamos fazer um pacto. Eu e você, numa igreja católica. De preferência, amanhã mesmo. Só assim levarei o projeto adiante.” O best-seller Paulo Coelho – em carne, osso e aura – estabeleceu a condição uns 15 minutos depois de nos conhecermos pessoalmente. Era abril de 2001 e estávamos num Boeing da Avianca. A aeronave, que partira do Rio, seguia para Bogotá, onde o autor lançaria O Demônio e a Senhorita Prym. Ele viajava na classe executiva (óbvio) e sabia que um jornalista da econômica iria procurá-lo durante o voo. Havia poucas semanas, uma editora me propusera escrever a biografia autorizada de Paulo. O romancista carioca simpatizara com a ideia, mas avisou que não a aprovaria sem antes me encontrar. Queria ver se nossos santos batiam. Sugeriu, então, que o acompanhasse à capital da Colômbia. Até aquela ocasião, nenhum de nós visitara a cidade.

Chegamos à noitinha e logo nos dirigimos para o luxuoso hotel Estelar La Fontana, que se parece com um castelo. Na manhã seguinte, pedimos à concierge que nos indicasse a igreja mais próxima (o Google Maps ainda não existia). Esqueci o nome do pequeno templo em que, diante de Cristo, firmamos o tal pacto: o compromisso de nos respeitar mutuamente enquanto trabalhássemos juntos. Mas lembro que se localizava na Praça de Usaquén, um lugar agradabilíssimo, rodeado de sobrados coloniais.

Quando deixamos a igreja, resolvemos caminhar pelos arredores. Paulo observava as casas sem demonstrar grande interesse. De repente, uma lhe despertou a atenção. “Gostei daqui”, comentou. A construção, aparentemente, não exibia nada de especial. Mesmo assim, o mago interrompeu o passeio para examiná-la melhor. Um rapaz, que saía do sobrado, o reconheceu de imediato. “Don Paulo! Que prazer tê-lo à minha porta!”, festejou. “Entre, por favor. Sempre sonhei em recebê-lo.” Bastou darmos uns passos para notar que o interior da casa evocava O Alquimista, talvez o livro mais famoso do escritor. Partes do romance, transcritas e ilustradas, se espalhavam pelas paredes e compunham um vasto painel. O moço explicou que ali funcionava um híbrido de café e escola para jovens pobres. “Tomei coragem de inaugurar o espaço depois de ler O Alquimista e aprender uma lição preciosa: devemos buscar aquilo que desejamos profundamente.” O romancista perguntou como o rapaz se chamava. “Jesus”, respondeu. Quase caí para trás. “Vá se acostumando”, me disse Paulo, risonho. “Eu atraio coincidências.” De fato, enquanto convivemos, pude testemunhar muitas outras situações intrigantes. Em 2002, porém, o romancista acabou desistindo do projeto e nunca mais nos falamos.

(revista Viagem e Turismo)

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