Quão sujo você é?

Faça o “teste da pureza” e descubra

“Tirar xérox da própria bunda ou da pepeca?! Que bizarro! Quem ousaria uma asneira dessas?!”, indignou-se Marlene com um sotaque carioca tão inconfundível quanto persistente. A morena de 30 e poucos anos abandonara o Rio de Janeiro havia quase duas décadas, mas o “r” arrastado e o “s” à beira do “x” teimavam em persegui-la, como mortos-vivos foragidos do cinema. Soraia e eu gargalhamos sem rédeas frente àquela repentina exasperação – menos por imaginarmos moçoilas posando em cima de fotocopiadoras e mais pelo substantivo que Marlene escolheu para driblar a palavra “vagina”. Pepeca, ostrinha, ximbica, popoca, bacurinha, periquita, xandoca… Por que, quando se refere à genitália feminina, tanta gente privilegia os termos de sonoridade infantil?

Era feriado (aniversário de São Paulo, talvez) e tomávamos uns drinques coloridos no apartamento de Soraia. “Realmente, nunca soube de ninguém que cultive fetiche do gênero”, comentei, me esquecendo das performances de Hudinilson Júnior. Na festejada série Exercícios de Me Ver, o artista multimídia se retratou nu enquanto fingia transar com uma máquina de xérox. “Peraí, galera! Deixem de caretice!”, protestou Cecília, a caçula da turma. “Qual o problema de xerocar a perereca ou o pau? Cada um que mostre as armas como bem quiser!” Ela defendeu o selfie obsceno de maneira tão enfática que parecia ter algum conhecimento de causa.

O assunto entrou na roda logo depois que resolvemos desbravar o “teste da pureza”. Trata-se, pelo que pesquisei, de uma legítima antiguidade. Inúmeras variações do questionário já circulavam em papel antes de chegarem à rede mundial de computadores. Criada por Bryan-nunca-vi-mais-gordo-Panchuck, a versão que decidimos enfrentar bombou nos primórdios do século 21 e virou moda sobretudo entre colegiais. Hoje não passa de um cacareco. Ou melhor: de um fóssil, que adormece nos recônditos da internet. Eu e minhas amigas, porém, o ignorávamos. Foi outra amiga, de Pernambuco, quem nos mandou o link amarelado do quiz: http://www.lond.com.br/pureza/.

O exame reúne 175 perguntas, que só aceitam “sim” ou “não” como resposta. Parte delas soa muitíssimo pueril: você colou na escola, matou aula, contou piadas sujas, mentiu, beijou de língua, namorou sério? Há, em compensação, um punhado de questões bem espinhosas, que discorrem sobre consumo de álcool, uso de drogas ilícitas, sadomasoquismo, doenças sexualmente transmissíveis, bestialidade, adultério e prática de crimes barras-pesadas – estupro, roubo, assassinato… Para desanuviar o clima às vezes sombrio da prova, o tal Bryan Panchuck bolou umas indagações engraçadinhas, do tipo: viajou 160 quilômetros com o único intuito de transar, ficou sem roupa e acordado durante oito horas ou mais, fez sexo de ponta-cabeça, jogou strip pôquer,  dormiu no porta-malas de um carro e, óbvio, tirou xérox dos genitais?

Depois de processar todas as respostas, um software dá o veredicto. Informa, rapidamente e em porcentagem, a taxa de pureza daqueles que realizaram o teste. A minha se aproxima dos 51%. Segundo Mr. Panchuck, sou um cara mezzo puro, mezzo impuro – resultado que, confesso, não me agradou. Preferia ostentar índices ligeiramente maiores de sujeira (leia-se: “de diversão”). Imagino que ganhei vários pontos em inocência pelo fato de quase não beber. Soraia, tímida descendente de chineses, alcançou a improvável cifra de 76,8% e Marlene resvalou os 45%. Já Cecília… “12%, moçada! Não tem para ninguém! Podem me coroar a Rainha do Bafon!”

Observei o rosto de Cecília, uma eficiente produtora de apenas 23 anos, e não divisei naqueles traços angelicais nenhum indício das peripécias que as respostas dela anunciavam: ménage à trois, orgias, aventuras homossexuais, masturbação em grupo, exibicionismo, aborto, encontros às cegas, haxixe, cocaína, LSD, ecstasy, amnésias alcoólicas, furto de cosméticos etc. etc. (não, Cecília ainda não xerocou a pepeca). “12?! Você mentiu!”, provoquei. Marlene, que a conhece melhor, se apressou em retrucar. “Cecília é assim mesmo, rapaz: uma exagerada com jeitinho de santa.” Exagerada e incrivelmente precoce. “Se você experimentou tantas coisas antes dos 25, vai estar bege de tédio quando atingir a minha idade” (completo 48 em agosto). Ela coçou o nariz, pensou por uns segundos e replicou: “Vou nada! No meu currículo, falta o mais difícil e perigoso”. Indicou-me, então, a pergunta 121 do questionário: amou alguém e lhe disse? Não tive como discordar da menina.

(revista VIP) 

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