Arquivo de agosto de 2015

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Democracia linha-dura

“O coronel Migdonio se dignou a sair à varanda.
‘Então vocês querem criar um sindicato?’
‘Se o patrão permitir’, respondeu Félix.
‘Quantos estão de acordo?’
‘Treze, senhor.’
‘Vá buscá-los. Quero falar com todos.’
Na vastidão da memória, ninguém se lembrava de que peão algum tivesse penetrado na casa grande. Cobertos por seus ponchos, os camponeses sentiam que se excediam, mas não tiveram remédio senão entrar.
‘Que desejam, meus filhos?’, perguntou Don Migdonio afavelmente.
Silêncio.
‘Não se constranjam. Não me oponho ao sindicato. Não, não me oponho. Pelo contrário, eu os felicito. Vivemos uma época de mudanças. Todos queremos o progresso. Brindemos ao sindicato!’
A um sinal do fazendeiro, um criado entrou na sala com uma garrafa e copos para todos.
‘Vou brindar com o copo vazio. É que ontem me excedi. Saúde, rapazes!’, bradou jovialmente Don Migdonio.
Jaramillo foi o primeiro a desabar. Tombaram outros três fulminados, e os demais revolveram-se na agonia de um retorcimento de tripas.
‘Filho da puta’, conseguiu dizer Félix, antes de borrar-se com as tripas queimadas pelo veneno. O juiz, doutor Francisco Montenegro, e o sargento Cabrera chegaram às seis horas da tarde escoltados por um piquete de guardas civis. Fecharam-se no escritório com Don Migdonio. O que o juiz, o fazendeiro e o sargento discutiram permanece até hoje em mistério. Para desmentir testemunhas que naquele distante ano de 1903 juraram ter visto os três saírem abraçados, rindo, os historiadores oficiais exibem uma prova irrefutável: um comunicado oficial das autoridades, informando que os catorze camponeses tinham sido fulminados por um ‘enfarte coletivo’.”

Trecho do romance Bom dia para os Defuntos, do peruano Manuel Scorza
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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Separação

“Um oceano abstrato vem bater em nosso quarto.
É preciso cuidado, não são poucas e são altas suas ondas;

escuto, mas quem compreenderia a valsa
dos afogados, feita de uma boca intraduzível?

O vento dispersa o que eu diria, não chego a você,
a seus ouvidos; assim também minha mão

que desmorona antes de alcançar seu rosto onde
do que entre nós alguma vez foi nítido embaraçam-se

os fios; o vento derrama seus olhos para longe,
dessalga e seca nos meus a hipótese da queixa;

vento da noite, que espalha suas pedras negras
no imenso metro entre nós.”

Trecho de Isto, poema de Eucanaã Ferraz

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Fitness

“Tenho amigos que sofrem com excesso de peso. E entram em dietas loucas para abaterem a carga. Disparate. Será que eles não sabem que a melhor forma de melhorar a figura é abraçar a paternidade? Fui pai há dois meses. Perdi cinco quilos. Inevitável: não é possível ser escravo de um pequeno e adorável tirano com 3,5 kg impunemente. O meu filho é o meu personal trainer, 24 horas por dia, sete dias por semana.
O treino começa logo de manhã. Manhã? Melhor escrever ‘madrugada’. Ele chora. Ele mama. Ele acalma. E, depois desse processo, qualquer pai moderno encontra a primeira prova olímpica da sua vida: o lançamento de arroto. Desconhecia a modalidade, mas explico aos iniciados: consiste em colocar o bebê em posição vertical e esperar, com uma atenção psicótica, que ele simplesmente arrote depois do repasto. Confesso dificuldades no processo: entre vários ruídos guturais, como distinguir o som claro, vibrante, inconfundível de um arroto? Há discussões conjugais a respeito. ‘Ele já arrotou?’, pergunta a mãe. ‘Não tenho a certeza’, responde o pai. E ficamos os dois à espera de Godot. Quando ele milagrosamente aparece, há uma alegria lavada em lágrimas. Quem diria que o ser humano, no fundo, precisa de tão pouco para ser feliz?”

Trecho de Pai aos 40, artigo de João Pereira Coutinho

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Dois reincidentes

Por que o nosso nunca mais sempre vira mais uma vez?

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Envelhecer é corromper-se?

“Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia?
Quantos você já não encontra mais?
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar?

Quantos amores jurados pra sempre?
Quantos você conseguiu preservar?
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava?
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos, ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava
Hoje assovia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

A Lista, canção de Oswaldo Montenegro
Interpretada pelo próprio Oswaldo
Imagem de Amostra do You Tube

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Abaixo a rotina

“‘Deseja iniciar o Windows normalmente?’ Não, hoje tô a fim de iniciá-lo com a abertura do Chaves.”

Tuíte de Jaíne (@wtfjaine)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Quantas vezes tive a sabedoria de partir na hora certa?

“Onde não puderes amar, não te demores.”

Da pintora Frida Kahlo

sábado, 1 de agosto de 2015

A cruel solidariedade das abelhas

No interior de São Paulo, às vésperas do réveillon, centenas de insetos atacam um casal de idosos 

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