Arquivo de abril de 2015

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Bem-aventurados os que almejam o impossível?

“Há três espécies de homens: os vivos, os mortos e os que andam sobre o mar.”

Do filósofo grego Platão
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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Quando o espelho torna-se abismo

“O escritor Jeffrey Archer escreveu há uns tempos que dez jovens são mortos todos os dias em Mumbai, na Índia, ao cruzarem a linha férrea. Mas não pelos motivos que o leitor imagina. Muitos deles são ceifados pelo trem por vaidade: com seus smartphones na mão, a maioria procura captar o momento em que a máquina está quase, quase, quase em cima do artista. Muitos deles, provavelmente usando um pau de selfie, não sobrevivem para contar. Haverá melhor exemplo sobre a era narcísica em que vivemos?Não creio. Até porque o patrono da seita –Narciso lui même– já tinha conhecido igual fim: deslumbrado pelo reflexo da sua imagem nas águas do rio, Narciso foi ficando, ficando, ficando. Até que a morte chegou para levar o seu corpo definhado.”

Trecho de Atropelados por um trem, artigo de João Pereira Coutinho

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O provocador

“‘Ontem, depois que terminou meu espetáculo, as pessoas tavam aplaudindo demais’, contou Antônio Abujamra. ‘Me deu uma vontade de falar assim: De joelhos! De pé eu não quero mais!, mas não tive coragem. Era muito bonito, nera?’

O POVO – Por que você queria que te aplaudissem de joelhos?
Antônio Abujamra – Humor! Humor! Você conhece essa palavra? Vem de humour. Queria fazer isso só por humor mesmo. Gritar: ‘De joelhos, de pé eu não quero mais!’. Olha aqui, se você fizer perguntas babacas, eu te arrebento e caio de pau em você. Você já fez uma. Essa pergunta ‘por que você queria que te aplaudissem de joelhos?’ é babaca. Você não entendeu a piada! Se a pessoa não entende a piada, eu posso cair em cima. Você pode ficar vermelho, constrangido. Pode se abanar. Mas você deve perguntar só coisas boas. A juventude tem que ter talento, tem que ter coragem e ser boa, mas podem perguntar o que vocês quiserem. (Se dirige para Natasha Farias, estudante que acompanha os repórteres, e aponta o dedo: ‘Você para de ser imprensa marrom e ficar escrevendo essas coisas aí. Isso aqui é uma conversa sexual entre homens’.)

OP – A gente veio no carro discutindo o medo que a gente sente em entrevistar o senhor…
Abujamra – Eu não acredito nisso! Não tenham medo! Não tenham medo de errar! Caminhem no incerto. Aí vocês me vêm com essa de ter medo de entrevistar um cara igual a vocês? Um velho acabado, sem ter onde cair morto. E vocês querem ficar impunes? Que não aconteça nada com vocês? Como vai ter medo de me entrevistar, meu amor? Explica para mim! Se você tiver medo, eles vão te estraçalhar. Estão todos procurando os medrosos para jogar em cima deles as suas frustrações irremediáveis. Não tenham medo de nada! Não tenham medo! Vão para puta que pariu! Vamos passar para um outro assunto.

OP – Você tem medo de alguma coisa?
Abujamra – Blá! Blá! Blá!

OP – O seu personagem provocador não tenta um pouco assustar as pessoas?
Abujamra – Fala mais alto! Eu sou surdo. Além de tudo isso, eu sou surdo.”

Trecho da entrevista que Antônio Abujamra concedeu em novembro de 2008 para Pedro Rocha e Tiago Coutinho, do jornal cearense O Povo. Fazendo jus à fama de bruxo desbocado e sarcástico, o ator e diretor adorava esculhambar jornalistas 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Selvageria legalizada

“Na pequena experiência que tive na reconstrução de Timor Leste sob os auspícios das Nações Unidas, pude me familiarizar um pouco com o direito indonésio. Participei da reedificação das instituições jurídicas e das primeiras investigações das atrocidades indonésias durante os 26 anos de ocupação de Timor Leste, em que um país de 200 milhões de habitantes (hoje 240 milhões) quase dizimou uma pequena nação de 1 milhão de habitantes. A Indonésia utilizou largamente a técnica de combate denominada escudo humano, crime de guerra segundo a IV Convenção de Genebra, que consiste em fazer marchar à frente das colunas de seu exército familiares do inimigo, mulheres, crianças e velhos, enquanto disparavam fogo pesado contra os timorenses que lutavam por sua independência.
Como é usual em transições políticas para evitar vácuos normativos, o nascente Estado (…) aplicava a legislação indonésia até que o país contasse com um legislativo eleito apto a elaborar novas leis. Ocorre que o Código de Processo Penal indonésio era tão selvagem, tão inquisitivo, tão incompatível com o devido processo legal, com os princípios das Nações Unidas, com um mínimo de dignidade para o indivíduo suspeito de uma infração penal, que foi preciso que as Nações Unidas improvisassem às pressas uma resolução que fizesse as vezes de processo penal para funcionar para o cotidiano dos crimes comuns e para as grandes atrocidades. Noutros termos, o direito indonésio não é selvagem apenas na prática, como frequentemente ocorre no Brasil, mas também o é em teoria. No país que possui a polícia secreta mais capilarizada do mundo, de fazer inveja às imaginações mais férteis de ficções sobre o macartismo e o stalinismo, não sobra muito nem sequer para um arremedo de estado de direito. (…).
Pois bem, esse é o país que se sente com superioridade moral (ou cinismo) para condenar indivíduos à morte por tráfico de drogas, inclusive um diagnosticado com esquizofrenia, depois de estarem no corredor da morte por tempo equivalente à pena máxima prevista para o tráfico de drogas no Brasil. Talvez sua inconsciência tenha amenizado seu sofrimento e sua dor, pois o outro, segundo relatos, soube de tudo até o último momento, teve crise de choro, de diarreia – logo assepsiado à distância com jatos d’água, porque precisava ser conduzido à morte limpo -, para depois seguir para o crematório. Até a última visita de parente ocorreu mediante propina.
Dirão alguns, se não muitos, ‘mas é um traficante, e os que morreram das drogas que ele traficou?’. A isso eu respondo: qual a utilidade dessa morte ritualizada em relação à outra? Têm a sociedade e o Estado o direito de matar por vingança apenas, sem utilidade?”

De Carlos Eduardo de Oliveira Vasconcelos, subprocurador-geral da República

terça-feira, 28 de abril de 2015

No fundo, os homens oprimem as mulheres por se sentirem minúsculos diante delas?

“Caetano Veloso diz que não inveja da mulher o sexto sentido, o parto ou a capacidade de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Ele inveja o orgasmo múltiplo. Eu acho que orgasmo está bom um e depois outro. Não é trágico. Já maternidade é demasiado milagre para que alguém fique de fora. O homem não tem nada de parecido, fica ridículo comparado com mulher. O homem constrói, a mulher gera. Caetano, que amo, tem de convir que maternidade é quase absurdo. Tudo quanto homem faz é da ordem da tarefa, mas mulher tem esse momento de deus. Ela é deusa e cria. Isso não se esgota no corpo. O principal segredo do gênero surge exatamente aí: a identidade da mulher, até por imposição biológica, é coletiva. A mulher entende isso com uma profundidade natural bem mais pacífica do que entende o homem. O amor faz de nós um coletivo. A biologia não retira dos pais a impressão profunda de que eles existem também nos filhos, mas a biologia intensifica na mãe essa ideia. A mãe acredita que o filho é uma magia do seu próprio corpo, como um lugar seu, para sempre seu. Através do filho, a mãe parte. Não sabe se volta, volta apenas um pouco, ela ama como quem vai embora (…).
Pai também, mas nosso sentido de identidade coletiva é bem menor. Isso é um desrespeito da natureza para com o gênero. Homem usa a cultura para suprimir o que não tem e a biologia deu apenas às mulheres. Ser homem é lindo e pobre. Somos pobres, participamos uma nesguinha na exuberante experiência humana, que claramente favorece as mulheres.
É claro que não será possível criar paz definitiva entre os gêneros. Não há equilíbrio de verdade. Não há justiça. O mundo, ironicamente, é um padrão feminino. O planeta é menstrual, com seus sismos e abalos, a sua fertilidade sempre ostensiva e regeneradora. O que faz o homem senão ficar convencido de que, pela força, domina? O homem urge na conquista, a mulher simplesmente é. Eu não tenho qualquer dúvida, os gêneros não detêm em partes iguais o mistério da humanidade. As mulheres são a parte larga, maior. O homem é uma redução humana. Uma simplificação. A humanidade é muito mais definida pelos atributos impressionantes da mulher do que pelos atributos humildes do homem. Pensem bem. Com profunda cobiça o digo, as mulheres são a humanidade, os homens são seus acessórios. Umas armaduras otimizadas para guardar sementes.

Trecho de Segredos de Gênero, artigo do romancista Valter Hugo Mãe

terça-feira, 28 de abril de 2015

Um dia me acostumarei à inaceitável constatação de que Abu morreu?

Imagem de Amostra do You Tube
O ator e diretor Antônio Abujamra interpretando Eu Sei, Mas Não Devia, texto de Marina Colasanti 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Por que certos amores nos deixam tão à deriva?

“Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus.”

Trecho do Poema dos Olhos da Amada, escrito por Vinicius de Moraes e musicado por Paulo Soledade
Interpretado por Vinicius e Toquinho
Imagem de Amostra do You Tube

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O sofrimento frequentemente é uma escolha?

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Melhor um poema ruim do que poema nenhum?

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O muito de poucos versus o pouco de muitos

“E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”

Trecho de Viagens na Minha Terra, livro do escritor e jornalista português Almeida Garrett
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