Arquivo de agosto de 2012

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O país da ostentação

– Numa edição recente da revista Forbes, o jornalista Kenneth Rapoza ironizou os preços exorbitantes que os brasileiros pagam pelos carros importados. Afinal, por que aceitamos pagar tão caro?
– (…) Entre outras razões, os brasileiros se submetem aos preços pois os carros são ‘bens posicionais’. A ideia é do economista inglês Fred Hirsch. O valor do bem posicional depende justamente da ‘exclusividade’, isto é, do fato de que os outros não têm acesso a esses bens. Quanto mais caro, mais exclusivo. Quanto mais exclusivo, mais status. E, portanto, mais poder para impressionar os outros. O filósofo francês Nicolas Malebranche dizia que o desejo mais ardente das pessoas é conquistar um lugar de honra na mente dos seus semelhantes. Essa é a ideia do bem posicional: o proprietário pensa que as pessoas passam a respeitá-lo e admirá-lo mais porque ele pode desfilar um carrão, uma grife, um luxo. Um copo de leite, por exemplo, é um bem normal. Se tenho prazer em beber um copo de leite todas as manhãs, isso independe do resto da sociedade. Se amanhã todo mundo beber um copo de leite igualzinho, o meu prazer não mudará uma gota. Mas suponha que eu sou um jovem ambicioso, trabalho 12 horas no mercado financeiro, ganho meu dinheiro honestamente e decido que a coroação da minha vitória será um automóvel caríssimo. Compro meu carro dos sonhos – um BMW, um Mercedes ou um dos carros mencionados pela Forbes – e, de repente, tenho um estalo: ‘Eu sou especial’. As meninas vão ver um brilho diferente no meu olhar, os amigos vão me invejar, os outros vão me respeitar quando passar na rua. Volto para casa feliz da vida. Mas, na manhã seguinte, acontece uma coisa estranha: todos os carros da cidade se transformaram em BMWs idênticos ao meu. E aí? Será que esse carro ainda tem a importância e o valor que tinha aos meus olhos e aos olhos dos demais? Ou será que o poder que ele me conferia simplesmente desapareceu? Pois é, desapareceu. Uma das melhores definições dessa ideia é do satírico romano Petrônio: ‘Só me interessam os bens que despertam no populacho a inveja de mim por possuí-los’. Isso foi dito na Roma antiga, há dois milênios. Uma passagem de Adam Smith, n’A Riqueza das Nações (1776), também ilustra isso: ‘Para a maior parte das pessoas ricas, a principal fruição da riqueza consiste em poder exibi-la, algo que aos seus olhos nunca se dá de modo tão completo como quando elas parecem possuir aqueles sinais definitivos de opulência que ninguém mais pode ter a não ser elas mesmas’. Essa é uma definição irretocável do bem posicional. Quer dizer, sim, compramos um sinal de opulência e de distinção, um prestígio, um brilho – embora muitas vezes sabendo que estamos sendo roubados. Mas, afinal, por quê? Beleza, poder e riqueza mexem com o psiquismo humano de uma maneira quase pré-racional. Não percebemos quão vulneráveis somos a esses apelos. Isso certamente não é de hoje. Ao longo da história, muitos pensadores se debruçaram sobre essa questão, a partir de uma perspectiva ética. Como entender o fascínio por beleza, poder e riqueza? Por que nos deixamos levar por essas promessas? Por que somos iludidos por esses bens posicionais?”

Do economista e filósofo Eduardo Giannetti, em entrevista à repórter Juliana Sayuri
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terça-feira, 28 de agosto de 2012

O “odoricoparaguaçuguês” está com os dias contados?

“Para quem cresceu na cultura televisiva dos anos 80, é visível que a internet melhorou a média dos textos. A simples prática de redigir com frequência tornou mais eficiente a comunicação. Compare as manifestações de sua timeline com uma dessas cartas de sindicato ou avisos de condomínio que chegam pelo correio, como um museu em papel de termos e formas que não existem mais: quase ninguém abaixo de certa idade, com o mínimo acesso à informação e que não trabalhe no STF escreve daquele jeito. Para a elite letrada, a afetação bacharelesca morreu com o modernismo do século 20. Entre um público mais amplo, vai morrendo com a interação virtual do 21.”

Trecho do artigo Palavras e Cacarejos, de Michel Laub

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Na penumbra

Ontem à noite, faltou energia elétrica dentro do meu sonho. Surpreso, alguém que fazia parte daquela inusitada situação comentou: “Será que o inconsciente consegue trabalhar à luz de velas?”

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Em você, me escondo de mim?

“Trair o próprio desejo da gente é confortável. E, para muitos, o casamento serve para isso: é um pretexto para descansar da tarefa de desejar e de inventar a vida. Assim: casei, nada depende mais do meu esforço, ele (ou ela) me prende nessa rotina e me impede de me tornar o que eu tanto queria ser – boa desculpa, hein?”

Trecho do artigo Procuras de desejos perdidos, do psicanalista Contardo Calligaris

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Já estamos no pós-morte e não percebemos?

“Aqui, sobre este inferno (aponta para o chão), de vez em quando temos momentos de céu.”

Reflexão do escritor português José Saramago

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Muito olerê, pouco olará

Quadrinho de André Dahmer

sábado, 25 de agosto de 2012

Quantos amores cabem num só coração?

“Tinha de ser em Tupã o cartório que lavrou a primeira escritura brasileira de um ‘casal de três’: um homem e duas mulheres. Tupã, bem antes de ser uma cidade do interior de São Paulo, era o deus do trovão dos guaranis. E nós, caras-pálidas, sabemos que os índios nunca se interessaram pela monogamia. Por que a maioria de nós sente uma necessidade visceral de regular o amor e de se apropriar do outro a qualquer custo? O trio familiar – ‘triângulo’ virou coisa antiga por sugerir traição – é do Rio de Janeiro e só foi para Tupã oficializar a união estável porque está ali uma tabeliã de cabeça aberta: a paulistana Cláudia do Nascimento Domingues. Ela faz doutorado na USP sobre ‘famílias poliafetivas’. Um nome pomposo que evita a armadilha da ‘poligamia’ e confirma uma tendência: adaptar o Direito a uma realidade bem mais plural que o casamento tradicional. A tabeliã Cláudia – que vive com um homem uma união estável e sem filhos – tem sido procurada nos últimos meses por vários tipos de famílias, ansiosas para registrar o ‘poliamor’ em cartório, assegurar direitos e comemorar visibilidade social. Família de três mulheres. Família de dois homens e uma mulher. Família de quatro pessoas: dois homens que moram no Brasil e suas duas parceiras que viajam muito. ‘Esta última é uma relação estável de cinco anos, e todos os amigos sabem que se relacionam entre si. É uma união ampla, conjunta, múltipla’, diz Cláudia. (…) São exceções, mas talvez morem no apartamento ao lado do seu. E, caso encarem com honestidade o ‘poliamor’, quem somos nós – alguns nos engalfinhando por casos extraconjugais passageiros ou longos – para julgar o que é certo e errado na expressão do afeto e do desejo?”

Trecho de Eu vos declaro marido e mulheres, artigo de Ruth de Aquino

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Apenas o fim é capaz de entender o começo?

“Vovô ganhou mais um dia. Sentado na copa, de pijama e chinelas, enrola o primeiro cigarro e espera o gostoso café com leite.
Lili, matinal como um passarinho, também espera o café com leite.
Tal e qual vovô.
Pois só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia a dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos…”

Viver, poema de Mario Quintana

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Vítima?

“Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí.”

Epigrama número 8, poema de Cecília Meireles

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Melhor queijo do que beijo?

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