Arquivo de julho de 2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Há metafísica numa lata de fermento em pó Royal?

“Eu me lembro de que, quando era pequeno, o fermento em pó Royal tinha como rótulo uma lata de fermento em pó Royal. E essa lata de fermento em pó Royal tinha como rótulo uma lata de fermento em pó Royal. E essa lata de fermento em pó Royal que era o rótulo do rótulo da lata de fermento em pó Royal tinha como rótulo uma lata de fermento em pó Royal e assim sucessivamente até o infinitamente pequeno. Se a gente tivesse um enorme microscópio capaz de ver a menor partícula da matéria, lá estaria ainda uma mínima, mas obstinada, lata de fermento em pó Royal. Como o infinitamente pequeno só pode seguir em direção ao infinitamente grande, eu, acordado à noite, imaginava que talvez nossa galáxia estivesse contida em uma enorme lata de fermento em pó Royal, que por sua vez estaria envolvida por uma imensa lata de fermento em pó Royal e esta, por uma monumental lata de fermento em pó Royal. Deus, então, seria uma descomunal lata de fermento em pó Royal.”

 Fala do ator Paulo José na peça Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar, escrita por Maria Helena Kühner
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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Se prender demais, a mulher avoa?

La Promenade, tela de Marc Chagall
A partir do Facebook do escritor Xico Sá

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Sem déjà vu

Logo depois de morrer, um homem vai até o Setor de Reencarnações no céu e indaga:
– Posso viver minha vida novamente?
– Desculpe-nos, senhor, só produzimos sequências, não remakes…

A partir de um quadrinho de Bob Thaves

quinta-feira, 29 de julho de 2010

De que adianta me esconder se o absoluto sempre me avistará?

“Olho grande deve ter Deus,
para enxergar de um só lance
de Grão-Mogol até Córrego Dantas,
passando por Diamantina, Curvelo
e outros vastos espaços de só pedras,
mato, rio sem nada na beira
e gentes, barranco, aranha saindo de buraco
onde ninguém pôs sentido
e mais meu tropel fugindo da vista d’Ele.”

Trecho de Como um Parente Meu, um Riobaldo, poema de Adélia Prado

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Soa muito bem em francês, n’est-ce pas?

Les Eaux de Mars, versão de Georges Moustaki para Águas de Março, o clássico de Tom Jobim
Interpretada por Stacey Kent

Dica de Barbara Heckler 

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Soa muito bem em francês, n'est-ce pas?

Les Eaux de Mars, versão de Georges Moustaki para Águas de Março, o clássico de Tom Jobim
Interpretada por Stacey Kent

Dica de Barbara Heckler 

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Meu maior pecado é retardar a urgência da poesia?

“Os poemas que não tenho escrito
                                                   porque
trabalhando num banco me interrompiam a toda hora
ou tinha que ir à venda e à horta
                      — quando o poema batia à porta,

os poemas que não tenho escrito
                                                 por temer
descer mais fundo no escuro de minhas grotas
e preferir os jogos florais
                 de uma verdade que brota inócua, 

os poemas que não tenho escrito
                                                porque
meu dia está repleto de alô como vai volte sempre obrigado
e eu tenho que explicar na escola o verso alheio
quando era a mim próprio
                                     que eu me devia explicado,

os poemas que não tenho escrito
                                                porque gritam
ou cochicham ao meu lado
                        ligam máquinas tocam discos e ambulâncias
passam carros de bombeiro e aniversários de criança
                                   e até mesmo a natureza solerte
se infiltra entre o papel e o lápis
                          inutilizando com sua presença viva
                         minha escrita natimorta,

 os poemas que não tenho escrito
                                                                    porque
na hora do sexo jogo tudo para o alto
e quando volto ao papel encontro telefonemas e prantos
a exigência de afetos, planos e reencontros
me deixando lasso o pênis e um remorso brando no lápis.”

Trecho de Os Poemas que Não Tenho Escrito, de Affonso Romano de Sant’Anna

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Na lojinha do coreano

“- Quanto custa este notebook?
– Tlinta real.
– Que outras cores você tem?
– Tlinta real.
– Sabe onde encontro uma farmácia aqui perto?
– Tlinta real.”

Trecho de um esquete do humorista Maurício Meirelles

quarta-feira, 28 de julho de 2010

On the wild side

“Se você tá procurando amor
Deixe a gratidão de lado:
O que é que o amor tem a ver
Com gratidão, menino,
Que bobagem é essa?

O amor é egoísta!
Sim – sim – sim
Tem que ser assim.

O amor, ele só cuida
Si – si – si
Só cuida de si.

Então quer dizer que o amor é mesmo sem caráter?
Sim – sim – sim – sim
Tem que ser assim.

E sem caráter, de quem é que ele cuida?
Si – si – si
Só cuida de si.

Sem alma, cruel, cretino,
Descarado, filho da mãe,
O amor é um rock.”

Trecho da canção O Amor É um Rock, de Tom Zé
Interpretada por Tom Zé e Suzana Salles
Imagem de Amostra do You Tube

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sobre tapas e beijos

“O estatuto que proíbe a punição corporal de crianças visa a que se deixe de considerar normal, necessário ou saudável ‘educar’ com violência. Como a sociedade que pune com prisão quem bate em velhinhos aceita que pais batam em suas crianças? O problema tem vários níveis, e só um deles (ainda que de grandes consequências para as gerações futuras) é o seguinte: violência, não importa em qual forma, gera violência, como a neurociência já constatou várias vezes. Funciona igualmente com camundongos e com humanos: o cérebro que recebe maus tratos na infância sofre várias mudanças, incluindo alterações em seu sistema de recompensa, que antecipa bons resultados; na amígdala, que sinaliza maus resultados; e no hipocampo, que forma memórias novas e cuida de nossa lista mental de ‘problemas a resolver’. O resultado? Crianças que recebem restrição corporal, palmadas, sacudidas ou abuso verbal (castigos que muitos consideram brandos) se tornam adultos com propensão a comportamento antissocial e agressivo, transtornos de ansiedade, depressão, alcoolismo e outras formas de dependência química.
‘Mas eu recebi palmadas na infância e me tornei um adulto saudável, portanto, palmadas não fazem mal’, dizem vários defensores das palmadas educativas. Pelo contrário: graças à resiliência do cérebro (sua capacidade de se recuperar de agressões variadas), ao que tudo indica essas pessoas que sofreram maus tratos na infância provavelmente se tornaram adultos saudáveis APESAR das palmadas. E, justamente por causa da capacidade do cérebro de se adaptar, essas crianças punidas com violência viraram adultos que hoje acham normal… punir com violência.
Felizmente existe antídoto, tão ao alcance quanto uma palmada. Também funciona com camundongos e crianças, também é comprovado pela neurociência, também muda o cérebro para o resto da vida e se autopropaga. Chama-se carinho.”

Trecho do artigo Não existe palmada bem dada, da neurocientista Suzana Herculano-Houzel
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